quinta-feira, 17 de julho de 2008

HISTÓRIA DA MINHA ALDEIA (17): OS MEUS SAPATOS DE LUVA

(COMO CERTAMENTE JÁ VIRAM ESTE HOMEM NÃO É O SENHOR "XICO", MAS APENAS UMA IMAGEM DE UMA ARTE QUE SE ESFUMA NO MAR DA MODERNIDADE)

Ainda não contei, mas os meus primeiros sapatos, as primeiras calças de vinco “terylene”, a primeira camisa de colarinhos “tv”, assim chamada na época de 1960, e um pequeno pulôver, tive-os apenas, pela primeira vez, quando, com 10 anos, fui fazer o exame da quarta classe. Esta mesma roupa serviu depois para a comunhão, celebrada logo a seguir, assim como para entrar, um mês depois, então ainda com 10 anos, no mercado de trabalho.
Lembro-me de, uma semana antes do exame, a minha mãe ter ido ao Luso, à loja do senhor Adelino Carvalho, comprar estes “luxos”. Acreditem, não exagero ao classificá-los assim. Para quem nunca tivera uma “farda” daquele gabarito, quem sempre usara calças remendadas e umas “chancas” no inverno e umas sandálias de plástico no verão, aquilo era mesmo um luxo indescritível. Nos dias antecedentes do exame, mal os meus pais viravam costas, aí ia eu a correr vestir aquelas roupas à pressa, a deleitar-me e, certamente, naqueles momentos fugazes de felicidade extrema, a imaginar-me, por entre todos os mais pobres da aldeia, o menino mais rico e mais sortudo. A sorte que eu tinha! Parecia mesmo um senhor, todo aperaltado, daqueles do pequeno ecrã, que, até aí, só vira na televisão, na “venda” do senhor António Simões.
Veio o dia do exame, que fiz durante a manhã. Mal cheguei a Barrô, almocei à pressa e fui colocar-me, sentado, de perna traçada, no patim do Largo da Capela, para que toda a gente da aldeia visse como eu estava vestido. Estive lá sentado até ao anoitecer.
Uma semana depois, creio, celebrei a comunhão e logo a seguir, em 1966, vim trabalhar para Coimbra. Enquanto esta roupa durou chamei-lhe um figo. Depois, como não havia dinheiro, passei a usar roupa usada. Roupa nova, de marca, contentava-me em vê-la nos outros. Os sapatos que calçava até ficarem rotos eram dos mais baratos que havia, custavam cerca de 80$00.
Lembro-me que o meu maior sonho, na altura, era ter umas calças de ganga LOIS, uma camiseta LACOSTE, e uns sapatos de luva. Porém, havia um senão. Cada uma destas peças custava à volta de 250$00. Como eu ganhava exactamente essa quantia, que ia inteirinha para o meu pai, facilmente se notará que eu estava tão longe de ter um destes ícones da moda, como quase ir à lua. Então, um dia, eu mandara pôr meias solas nuns dos tais sapatos baratuchos no senhor “Xico”, sapateiro, à entrada da Rua Tenente Valadim. Acontece que, sem eu compreender o porquê, o senhor Francisco nunca mais mos entregava. Passados cerca de dois meses, fui então à sua oficina perguntar pelos sapatos. O sapateiro, meio atarantado, não se lembrava do meu calçado, então vira-se para mim e diz:” engraçado, não me lembro nada de mos teres entregado. Vê aqui se os reconheces”. Em frente a mim estava uma longa prateleira com todos, todos, os sapatos já prontos. Conseguem adivinhar quais os sapatos que escolhi? Pois claro…uns de luva, é óbvio! Mas havia um pequeno senão, ao calçá-los, estavam apertadíssimos, mas não foi por isso que não andei orgulhosamente com eles.
Durante meses, enquanto duraram, mesmo magoando-me os pés, eles foram o encanto dos meus dias e o meu sonho tornado realidade.
Quanto às tão ambicionadas calças de ganga Lois e camiseta Lacoste, só viria a tê-las pela primeira vez, creio, já com 16 anos, quando fui trabalhar para uma casa comercial de pronto-a-vestir.
Ainda hoje, curiosamente, as calças de ganga são as minhas eleitas e uso sempre sapatos de luva. Comprar uma Lacoste, para mim, é algo de místico, qualquer coisa que me transcende, é como fazer uma viagem a um recanto paradisíaco que é só meu. Estou preso ao passado? Dirá você, leitor. Se calhar, é o mais provável. Afinal, não será verdade que somos um resultado, nunca acabado, de um continuum que começou no berço?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A FÉ SALVADORA



No dia 14 do corrente o Jornal Público, publicava a primeira grande entrevista de Ingrid Betancourt, a colombiana, agora libertada e que foi presa na selva pelas FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, durante quase sete anos.
Retirei algumas passagens, dessa entrevista, que considero bastante interessantes, sobretudo sobre o ponto de vista antropológico.
“(…) Passei por coisas terríveis. Acho que o pior foi ter percebido que os seres humanos podem ser tão horríveis com outros seres humanos. Num ambiente de solidão espiritual, quando à minha volta não havia mais do que inimigos agressivos, aprendi a não reagir como reagia antes. Tive de aprender o silêncio e a baixar a cabeça. Só podia falar com a virgem. Bravo Maria. Descobri que podemos ser levados a odiar uma pessoa, a odiar com todas as forças do nosso ser e, ao mesmo tempo, a encontrar o alívio através do amor. Dizia: Por ti, Senhor, não vou dizer que o odeio. Por vezes um guerrilheiro vinha sentar-se junto de mim, cruel, abominável, e eu era capaz de lhe sorrir. (…) Nunca, nunca, nunca perdi a fé. Deus esteve comigo do primeiro ao último dia da minha horrível experiência. E continua comigo. Eu rezo todos os dias. Desde o momento em que fui libertada peço-lhe que nos conceda o milagre de libertar os outros reféns como fez connosco. Porque para mim foi um milagre”, extracto da entrevista de Ingrid Betancourt.
Depois de lermos estas palavras, sendo crentes ou não, temos de admitir que a fé, para além do ponto de vista de análise antropológica, tem realmente muita força anímica e espiritual. Francamente, depois destas palavras sinceras, deste abrir de coração, desta confissão extraordinária, poderá alguém argumentar contra a fé? Pouco importa se é um dogma –proposição apresentada como irrefutável- e os dogmas, na sua carapaça, petrificantes e herméticos, são limitadores da gnose, do conhecimento, e do livre questionar.
Mesmo havendo agnósticos –aqueles que professam o agnosticismo, sistema filosófico segundo a qual o espírito humano ainda se encontra impossibilitado de alcançar a origem da vida-, ou ateus –aqueles que, no seu cepticismo ou incredulidade, negam a existência de qualquer divindade, como por exemplo Deus-, qualquer um seguidor destes sistemas, de denegar a fé, perante uma confissão destas, fica desarmado.
Uma coisa teremos de admitir, as religiões e a fé a elas coadjuvadas, no âmbito da antropologia têm uma força inegável. Uma força imanente ao ser humano que, nas ocasiões de maior desespero, como é o caso, constitui a esperança de salvação.
Por mais que se discuta a religião, entre prós e contras, fechando-se num cepticismo, não se pode negar os seus efeitos como sendo um “milagre”, absolutamente necessária à humanidade e, pela sua força redentora, impossível de a dissociar da condição do homem.

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (16): O MANDARIM

(A Praça da República, em Coimbra, por volta de 1960)


Embora tenha consciência que estou a fugir um pouco ao tema, que me motivou e dá ênfase a esta série de crónicas, falar da minha aldeia de Barrô, ali próximo de Luso, a verdade é que, ao entrar nesta senda das recordações, sinto como se entrasse num labirinto desconhecido, onde, sem que nada o faça prever, a qualquer momento, surgem novos dados, como, pequenos fantasmas, saltassem de repente e gritassem: “aqui estou”!
Então, seguindo essa apologia, vou contar, depois de ter concluído o exame da 4ª classe, em Julho de 1966, e ter escrito uma carta a um meu tio, que era cozinheiro num emblemático café-restaurante, em Coimbra, a pedir-lhe emprego, eis-me então chegado à cidade do Mondego.
Depois de ter sido surpreendido pelo bulício da Praça 8 de Maio, tomámos o eléctrico, pagámos cinco tostões pela viagem, e desembocámos na Praça da República. Ali estava, à nossa frente, imponente como Taja Mahal, o grande restaurante que para além de ter marcado uma época, marcou a fogo a memória de milhares de estudantes que, em trânsito, enquanto estudaram, passaram por Coimbra: O Café Mandarim.
Este café-restaurante, apesar de estar aberto ainda há poucos anos –creio que abriu portas em 1960-, depressa se transformou numa espécie de catedral da tolerância, imposta tacitamente, em que conviviam tanto o Trostskista-anarca-convicto, como o comunista que lia o Jornal República, do Raul Rego, como o fascista, orgulhoso defensor do regime vigente, como o estudante revolucionário, que “à surrelfa” espalhava comunicados anónimos a anunciar uma reunião política, como a vigiar todos estes, vários agentes da Pide, cuja sede se situava então, um pouco mais acima, na Rua Antero de Quental.
Não se sabia exactamente quem vigiava quem. O que se sabia, isso sim, é que todos conviviam serenamente, embora vigilantes, como se estivessem num bar, em Istambul, no tempo da Guerra Fria, em que, presumivelmente, estariam agentes da MOSSAD, do MI-5, do KGB e ainda agentes secretos da STASSI.
O ambiente deste café era indescritível. Era um borbulhar constante de efervescência de pessoas a entrarem e a saírem. Era famoso o seu bitoque e o bife à Mandarim. Por lá passaram muitos dos actuais políticos e talvez a fina-flor da sociedade portuguesa da época, que vinham estudar para a Universidade.
Curioso, também, o orgulho garboso assumido pelos empregados em trabalharem numa casa de tão alto gabarito e tão identitária da classe estudantil. Notava-se na sua forma de estar, na pose e no porte. Quem passou por lá lembra-se, certamente, no balcão de bar, o Hugo (já falecido), o Fernando, o Joaquim Pardal, com ar de “gentleman”, cabelo preto penteado para trás; dos empregados de mesa, o Abreu, o Manaia e o saudoso Talina (já falecido), que carinhosamente me tratava por batatinha; no balcão da pastelaria, mesmo à entrada, O Mendes, o Fernando, e o Tarrafa que eu fora substituir.
Depois de um ano a trabalhar na cozinha, fui então para o balcão da pastelaria, para andar aos recados e levar os lanches –o galão e a torrada- onde fosse solicitado, aos consultórios médicos, a casas particulares e até ao edifício da PIDE cheguei a ir várias vezes.
A mensalidade que fui auferir foram 250$00 de ordenado fixo, que ia inteirinho para o meu pai. Como estava em casa de uma tia não pagava alojamento. Lembro-me, nesta altura, de um acontecimento marcante. A primeira vez que fui a uma casa de banho, a minha tia, junto a mim, recomendou-me para eu fazer "xixi", como eu nunca tinha visto nem um bidé nem uma sanita, olhei para os dois e, mentalmente, comecei a balançar entre se seria num ou noutro, até que fiz no bidé. Para além disso tinha as gorjetas, auferidas no transporte dos lanches e nos trocos remanescentes do tabaco –um Português Suave sem filtro custava 4$20, normalmente o freguês dava 4$50- que iam direitinhos para a compra de roupa usada, que era lavada de noite para tornar a vestir no dia seguinte. Os sapatos, do mais barato que havia (custavam cerca de 80$00), do “Campeão Português”, em que aparecia o Óscar Acúrcio, na televisão, a dar dois saltinhos, andavam nos pés até ficarem completamente com as solas rotas.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Às vezes temos de ser duros!!




"Os alunos finalistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) exigiram a abolição do exame final do 6º Ano da licenciatura, avaliação que consideram «redundante, excessiva e desnecessária».
Numa concentração, em silêncio, na entrada principal dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), a maioria dos 230 estudantes naquela situação voltaram a criticar a prova final do curso de Medicina da FMUC.
Segue-se, durante a tarde, o anunciado boicote ao quinto exame teórico parcelar, agendado para esta terça-feira, após os alunos terem recusado realizar as anteriores quatro provas parcelares, «sempre com adesões de 100 por cento», disse à agência Lusa Fernando Correia, representante dos alunos.
Fernando Correia estimou que os 230 finalistas voltem, «na totalidade», a não realizar as provas teóricas.
Os finalistas prevêem ainda um boicote ao exame teórico final, marcado para 22 de Julho, dia em que vão efectuar uma segunda concentração silenciosa. "

In IOL Diário

Força colegas!!

São, infelizmente, poucos os que tomam posição desta forma! Um exemplo de união e participação activa na sociedade e na Academia!

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (15): CHEGADA A COIMBRA


(Um aspecto de Coimbra por volta dos anos de 1960)


Corria o ano da graça de 1966 e tinha acabado de concluir o exame da quarta classe. Estava então com dez anos, prestes a comemorar os onze. Como tinha um tio que era cozinheiro num restaurante em Coimbra, escrevera-lhe a solicitar um emprego. Como os meus pais eram agricultores muito pobres, inevitavelmente, eu precisava de trabalhar, mas também porque tinha absoluta necessidade de me ver livre das lides do campo, que detestava. Já me bastava não ter nem domingos nem feriados de folga, assim como, diariamente, depois de vir da escola, ter de ir cortar dois molhos de erva para os gados, ovelhas, cabras e um boi de terça – já o contei aqui, em anterior apontamento, a terça era um contrato bilateral -nesta época normalmente implementado na agricultura- estabelecido verbalmente entre duas ou mais pessoas, em que o investidor colocava um animal de grande porte (boi ou Vaca) no segundo contraente. Este, usando o animal para trabalhos campestres, comprometia-se a engordar o animal e, mais tarde, aquando da venda, a diferença remanescente ( valor acrescentado), entre o valor inicial e o valor final, seria dividido em três partes iguais. Sendo duas partes para o investidor, dono do animal e uma para o segundo contraente que houvera contribuído, através da engorda, para esse lucro.
Como o meu tio respondera positivamente ao meu pedido, passado uma semana entrava, pela primeira vez, na grande cidade mítica, a Coimbra do imaginário indígena, a Coimbra dos doutores, cantada em fado, aquém e além-mar. Mas também, diga-se, à custa da sua Académica, com os seus grandes jogadores, como Rui Rodrigues, Curado, Rocha, Belo, Néné (que viria a morrer num acidente de automóvel) e tantos outros que, pelo seu elevado talento de equipa, treinados por Mário Wilson, faziam frente ao grande Benfica, do pantera negra, ainda mais notabilizado pelo campeonato europeu. Eram célebres os derbies entre estes dois grandes clubes nacionais.
De saco de pano na mão, lembro-me de ter chegado, na companhia do meu tio, à Praça 8 de Maio e ter ficado extasiado com todo aquele movimento de pessoas junto á Igreja de Santa Cruz, mesmo apesar de ser Agosto, mês de canícula e deslocação a banhos, dos mais endinheirados para Figueira. Os velhos eléctricos amarelos, atravessando o canal (Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz), com o seu característico barulho ronceiro, provocado pelo atrito do ferro a arrastar no ferro, andavam permanentemente cheios. Na parte de trás, no gancho de engate, era comum ver vários putos pendurados, tentando não pagar bilhete, para desespero do “pica” (cobrador de bilhetes). Esta praça, mais parecendo um delta confluente de vários rios, como um entreposto comercial do oriente, o barulho era ensurdecedor. Era o cauteleiro, no seu pregão, tentando desencadear a ambição: “Sábado anda a roda…é a última…quem quer estes quinhentos contos?”. Mesmo ao lado, dois ardinas com as suas sacas de ganga azul cheia de jornais, um matulão gritava: “é o Primeiro de Janeiro…traz as últimas”. Junto a este um garoto, sensivelmente da minha idade, descalço e com as calças remendadas pelo meio das pernas, mostrava a resistência daquele vestuário ao seu crescimento. Era notório que enquanto ele foi crescendo, as calças foram minguando e, assim, foram transitando de um ano para os outros. O puto gritava a plenos pulmões, com a sua voz de cana rachada: “é o Calinas…compre o Calinas…é o Jornal dos doutores”. Ali à volta, ouvia-se uma mistura indescritível de vozes desafinadas e pregões bem estudados, era a peixeira, era a vendedeira de hortaliças, com a sua canastra à cabeça. Em frente da Igreja, uma fila de táxis esperavam pelos clientes e um taxista mais afoito, encostado ao seu carro verde e preto, escutava com atenção o “vendedor de banha da cobra” e ia vendo, com admiração, as dezenas de pessoas que se iam juntando em torno do vendedor de pomadas e elixires:”comprem a pomada milagrosa para o pai e o catraio, cura reumatismo, artroses e bicos de papagaio”.
No canto esquerdo, junto à farmácia Universal, uma cigana, na sua lengalenga, pegava na mão de uma mulher de meia-idade e dizia-lhe, com a voz em corrupio, uma mistura de português “arromenado”, de que a senhora sofria de amores aziagos, maus-olhados e mal de inveja. No lado contrário os irmãos Secos não tinham mãos a medir a venderem tabacos e café moído. No Café Santa Cruz, nessa altura, restaurante, um empregado, bem aprumado “à paquete”, de casaco branco vestido, ia espalhando as toalhas e os guardanapos de tecido branco imaculado, para servir os almoços que a hora do repasto aproximava-se a passos largos.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

UMA SOCIEDADE JUDICIALISTA



Um recente estudo entre géneros em idade escolar, veio mostrar que, quer o homem, quer a mulher adolescente, encaram a violência contra a integridade física como normal. Vão até ao paradoxo de aceitar também a violência física sexual como algo necessário, despenalizante, e dentro do contexto de envolvimento e excitação.
Ora, ainda que seja com base em amostras, tal estudo dever-nos-ia preocupar profundamente.
O Estado, desde há 30 anos a esta parte, deixou de apostar na educação, para centralizar todo o espectro comportamental do indivíduo no direito. O direito passou a ser uma espécie de analgésico que, sem curar, indo ao âmago das coisas, temporariamente retira as dores.
Os sucessivos governos após-25 de Abril em vez de canalizarem a sua acção na educação a montante, a partir do nascimento –formando pais e professores, dando-lhes poder de decisão-, insistindo nas obrigações do indivíduo perante a sociedade, faz ao contrário, para além do contínuo esvaziamento de autoridade dos tutores, começa logo por lhe dar direitos exacerbados até à maioridade, e só a partir dos 16 anos o considera imputável e responsável pelos seus actos. Então, porque já é tarde, legisla em barda a jusante, tentando apanhar os cacos desta displicência tardia. E as consequências estão à vista de todos, com o aumento da violência dentro da família, escolar e urbana. Salvo melhor opinião, a violência escolar será resultado da apreensão consciente de uma certa impunidade social, de que os alunos só têm direitos e nenhumas obrigações.
Neste sistema actual, em que não se investe nos pilares fundamentais da educação, o Estado, ao invés de, através do seu longo braço da lei, intervir o menos possível na esfera do indivíduo, desonerando-se e apelando a sãs relações de convivência ou contratuais, invade e trata o cidadão como pessoa irresponsável. É um Estado paternalista, tentacular, que, obsessivamente preocupado com os princípios da protecção e da segurança jurídica, contrariamente ao pretendido, manieta e impede que a liberdade individual flua de uma forma natural e baseada no respeito intrínseco da pessoa. Tem como consequência o petrificar das posições e das relações bilaterais. Nada se contratualiza sem a intervenção do direito específico substantivo, quando pela lei geral adjectiva seria perfeitamente possível alcançar os mesmos fins. É uma sociedade monitorizada pelo direito, em que o cidadão se comporta como autómato sem reciprocidade natural.
É uma sociedade agrilhoada, em que aparentemente é livre, mas, na prática, vive numa teia que lhe cerceia os movimentos e faz dela uma marioneta comandada por fios invisíveis do “big brother” legislador.
Assim, ao ritmo desta produção legislativa, no futuro próximo, não haverá tribunais que cheguem para dirimir tanto conflito. O direito, na sociedade, deveria ser a linha condutora acessória, no conflituar, e jamais o essencial da convivência humana.
Para além disso, como nada se faz sem ser escrito, acaba por minar a confiança interpessoal na palavra e desenvolve o temor de se ser enganado. Faz pensar que o direito tudo resolve e, ansiosamente, deposita na justiça, como deusa omnipotente e justa, uma esperança de compensação de equilíbrio que se vem a concluir frustrante e que, no limite, é geradora de mais conflitos sociais até ao infinito.
Fará sentido o “Livro de Reclamações”? Faz! Quando temos uma comunidade desprovida de ética, sem respeito pelo outro, e sem responsabilidade.
Uma sociedade que legisla a relação entre pais e filhos, dando a possibilidade a estes de se queixarem dos seus progenitores; Uma lei que consigna como crime público a violência doméstica, nas relações familiares; Uma presumível lei de proibição de piercings; Uma lei do tabaco que, fazendo do cidadão um imberbe, lhe vem impor categoricamente regras de conduta no que lhe faz bem ou mal; Diversas posturas municipais a penalizar comportamentos que deveriam ser imanentes e reflexivos, como por exemplo, abandonar os dejectos de animais na via pública, urinar, mandar lixo para o chão; Uma sociedade que precisa de ver legislado a destruição de bens culturais, a separação de lixos, a poluição de rios e ribeiras, o fogo-posto, a proibição de fazer queimadas no inverno; Uma lei gastronómica que invade os sabores de antanho, impondo regras unilaterais tecnocratas, alterando os costumes e o saber secular, é muito mais do que uma ditadura legislativa, é um fumo ardiloso que invade tudo o que é de mais íntimo.
Uma sociedade com tanta imposição penalizante será uma sociedade livre? Responda quem souber.
Até quando? Perguntará você leitor. Provavelmente até ao dia em que, individualmente, cada um de nós se preocupemos menos com os nossos direitos e cumpramos responsavelmente as nossas obrigações.

Teimoso!!!!



"Um homem, de 60 anos, natural de Ansião, foi detido anteontem por duas vezes, em menos de quatro horas, por militares da GNR, na Mealhada, quando conduzia um automóvel sob o efeito do álcool.

Da primeira vez, por volta das 19 horas, apresentava uma taxa de alcoolemia de 2,04 g/l . À segunda, pelas 23,30 horas, acusou 1,65 g/l. Mas, como se isso não bastasse, o indivíduo, motorista de profissão, tinha a carta de condução apreendida por força de outra infracção grave, estando, por isso, inibido de conduzir, avançou fonte da GNR. Por isso, além dos crimes de condução sob o efeito do álcool, terá também de responder em tribunal por vários crimes de desobediência."

In Jornal de Notícias

Nem de porrada são fartos!!!

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (14): A CHOCA-CHOCA



Até há muito pouco, pelo menos até começar a escrever estas pequenas histórias, estava convencido que a minha aldeia, onde passei grande parte da minha infância, é um lugarejo que sempre foi tristonho, onde, hoje, no rosto dos seus habitantes, mesmo os mais idosos, perpassa uma sombria solidão. Parece que, nos ombros, carregam uma pesada herança feita de escolhos e engulhos. É raro –embora exista- olhar um rosto e sentir naqueles olhos uma espiritualidade e uma alegria de criança traquina.
Antes de começar a perscrutar esta vivência de outros tempos imaginava que, pelo que conhecia, os habitantes de Barrô viviam apenas do trabalho e para o trabalho. Que não existia uma cultura, undergrond, subterrânea que emergisse daquele povo solitário e aparentemente pouco solidário. Aos poucos, a conversar com as pessoas mais idosas e plenos de uma sã e viva recordação, venho a descobrir uma série de verdades que, aprioristicamente, tinha erradamente teorizado, assim como uma imanente cultura própria de há cinquenta anos atrás. É curioso o gosto e a desenvoltura com que as pessoas falam de um passado que, sendo deles, foi partilhado com tantos outros que a morte levou e cujos nomes, só eles, retém na memória. Quando penso que estou a maça-los com perguntas inconvenientes, reparo no ar afogueado das maçãs dos seus rostos, no brilho da menina dos seus olhos, como se nesta conversa, iniciassem uma viagem ao passado e este desabafar lhes fizesse bem. Como se sentissem que querem partilhar comigo algo íntimo e pessoal. Sinceramente, leitor, gostava de conseguir levar até si, através destas simples palavras, a mesma emoção que sinto quando converso com pessoas da minha aldeia e muito mais velhas do que eu.
Infelizmente, o tempo, na sua voragem dinâmica, em que, através da sobreposição cultural, dos usos e costumes, vai apagando a lembrança, e sepulta essa memória de antanho sem direito a epitáfio. Gostaria que soubessem que, embora tente ser o mais fiel possível daquilo que me é contado, não sou suficientemente investigador, indo ao mais fundo possível da verdade, como se escrevesse uma monografia. Não é isso que pretendo. São histórias simples de um povo humilde e trabalhador, retratados num lugar contextualizado do Portugal profundo, marcando uma época pobre e triste.
Com estas considerações abstractas, quase que perdi o assunto que me levou a escrever este texto. Mas calma, eu não me esqueço da sua curiosidade, leitor.
Há dias, em conversa com o meu amigo Agostinho Fernandes, a minha enciclopédia cultural, se posso falar assim, conversando acerca das minhas histórias, atira-me ele: “você não sabe, mas em Barrô, por volta dos anos de 1950, havia a moda do “choca-choca!”. Como, “choca-choca”, que é isso?! Interroguei, meio apalermado.
Explica o Agostinho: A “choca-choca” era uma dança popular, que não sabendo a origem, era, aos domingos à tarde, o entretenimento dos mais velhos. Juntavam-se vários homens e mulheres, no alpendre de um, e aleatoriamente ia passando no fim-de-semana seguinte para outro. Começavam com conversa fiada, bem regada com um tinto de estalar língua, transportado num pipo ou um garrafão, acompanhado com tremoços ou amendoins. Seguidamente, contavam-se umas anedotas e quando os efeitos etílicos do filho de Baco começavam a sentir-se, dançavam uns com os outros. E nem era necessário serem casados. Não havia nenhum instrumento musical. O compasso da música era marcado pelo som “choca-choca” saído da boca de um dos pares dançantes. Eram vários os dançarinos, Agostinho Fernandes relembra, entre eles, o pai, o saudoso “ti” João da Eira, o meu tio Ernesto e a minha tia Aida, o meu pai e a minha mãe, o Manuel Melo e a “ti” Saudade, -que foram os primeiros, na aldeia, a terem um estabelecimento de mercearia e taberna com petiscos- o Manuel Bento e Florinda Pires.
Para os mais novos, e também aos domingos, junto à casa do senhor Lino, actuava o acordeonista David de Horta, que vinha de bicicleta, da sua terra, de Horta até Barrô. Normalmente, sempre convidado pelo folguedo dinamizador do Manuel “fanangueiro”. No largo sobranceiro à casa daquele grande lavrador era colocada uma cadeira e aí estava o arraial pronto a começar. Quando chovia transferia-se para a eira do senhor Francisco Quintal. Contrariamente ao que eu pensava, a festa andava no ar e o bailarico estava sempre presente nos pés de cada um.

domingo, 13 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (13): O BARBEIRO

(CLARO QUE JÁ VIRAM QUE ESTE NÃO É O BARBEIRO DE QUEM FALO COM ÊNFASE)

Vou falar de uma profissão que, nos anos de 1950, era na minha aldeia de Barrô, ali, entre a Mealhada e o Luso, muito mais do que simplesmente um “metier”. Aquele cubículo do meu amigo “Zé barbeiro”, ainda hoje existente, como museu vivo, lutando contra o tempo, em forma de “consultório” podia, sem favor, ser tudo. Tão depressa era um santuário, onde se expressavam preces, se faziam confissões e se planeavam casamentos, como, por milagre, virava uma “casa do soalheiro”, onde se dizia mal de tudo o que mexia e de todos. Era ali que se sabiam as novidades. O “Zé” Maria, o “técnico-barbeiro”, era (e é) um bom homem. Mesmo sem conhecer uma única letra, a vida dura ensinou-o a ser assertivo e diplomata. Como Deus, leal e omnipresente, que apenas tem ouvidos, habituou-se a escutar, e, sem se comprometer, ao longo de décadas de profissão –que nestas coisas de feitios de homens, mudam-se os tempos, mas as vontades continuam firmes no “cortar a casaca” de alguém-, sempre foi acompanhando as conversas de modo a que o cliente sentisse que participava na história. Ele sempre soube colocar-se no seu lugar de ocasião, que um bom barbeiro para além de ser exímio na sua arte, deve ser conselheiro, padre, psicólogo, pai, de qualquer filho de mãe, e tantas vezes filho, se o freguês, sendo pai, mesmo que seja incógnito, é muito mais velho do que ele.
Começou por aprender a arte de escanhoar com o José Rodrigues. Não se lembram dele, pois não? É natural, já passou muito tempo! Este grande mestre, vinha de Várzeas, uma aldeia amorosa, mesmo encostada ao Luso, que dista cerca de oito quilómetros de Barrô, se fosse a direito, em direcção ao sítio da Lapa do Sino, por entre veredas e carreiros minúsculos de cabras, emoldurados por silvas e tojos, que só os sendeiros conheciam. O mestre vinha a pé, com a sua pequena maleta de cartão prensado e lá dentro com todos os apetrechos necessários a uma boa tosquiadela aos pelos de qualquer um. Ia a casa das pessoas desempenhar o seu ofício. Bastava uma cadeira e tanto podia ser na sala, na cozinha, como na adega. Normalmente, aos mais ricos, era aqui, rodeado de pipas, com cheiro a vinho-mosto, molhado de uma boa pinga e acompanhado de umas fatias de presunto, que se tentava o impossível, ou seja, alindar um feio rosto de nascença.
O Zé Maria, tinha então vinte anos, por volta de 1950, quando fundou a sua barbearia. Uma novidade na época. Onde não faltava o espelho e a cadeira de trono, esse luxo, para o freguês, que quando não palrava, passava pelas brasas: o assento de ferro fundido, estufada a napa, de António Pessoa. Um orgulho que na época lhe custou os olhos da cara.
Ainda hoje, passados mais de cinquenta anos, consegue sentir o prazer de amarrar, no pescoço do freguês, aquele grande avental branco, que cheirava a lavadinho, torcido e espremido nas águas correntes do rio, e corada na encosta granítica sobranceira ao moinho de água, que lá nessas coisas a Augusta, a sua mais-que-tudo, o amor da sua vida, nunca permitiu uma toalha suja no pescoço de ninguém. Nesse tempo, pagavam muito mal –os que pagavam, porque, mesmo assim, alguns ferravam-lhe o calote-, vejam bem que a anualidade era um alqueire de milho –não se lembra que medida era esta? O Zé Maria explica que era uma unidade de medida de capacidade para secos e líquidos que variava entre 13 e 22 litros. Com este pagamento o freguês tinha direito a cortar o cabelo quando necessitasse e a escanhoar a barba uma vez por semana.
Como a coisa começou a não render, não dava a gota para a perdigota, por volta dos anos 70, o meu amigo barbeiro alterou o contrato bilateral verbal que tinha com os seus fregueses. Em vez de receber em géneros, passou a ser pago a dinheiro. Então, segundo a tabela afixada, uma barba custava dez tostões e, em conjunto, de cabelo e barba, passou a custar vinte e cinco tostões. Então aconteceu uma coisa engraçada, sem graça para o meu amigo Zé, quando era pago com milho os fregueses andavam sempre lá a aparar a lã, como começou a ser pago com dinheiro só lá iam já com o cabelo enorme. Quando ele lhes perguntava a razão de tamanha ausência a resposta era igual: “sabes que agora usa-se o cabelo grande, como os Beatles, é moda, e nestas coisas, temos de seguir as tendências vindas do estrangeiro, percebes?!” Claro que o Zé Maria percebia, e de que maneira.

sábado, 12 de julho de 2008

RIR POR RIR, FAZENDO QUE RI, SEM SORRIR



Estes dois personagens sobejamente conhecidos da nossa praça, José Simão, proprietário e director do Jornal “A Folha de Santa Clara” e presidente da junta de freguesia da outra banda de lá do rio Mondego–a propósito será eticamente correcto que um director de um jornal seja autarca? A mim parece-me incorrecto. Um poder, o chamado quarto, por si só, já é imenso, quanto mais juntá-lo a outro de gerir uma freguesia ou um concelho. Que deve dar jeito, não tenho dúvidas. É assim uma espécie de junção de médico e doente ao mesmo tempo- e Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, foram apanhados neste “boneco” pelo fotografo do Jornal As Beiras, aquando da inauguração da Feira Popular.
Quais serão os motivos para estarem tão sorridentes? Seria apenas um sorriso de circunstância para o “boneco"?
Quanto ao segundo, Carlos Encarnação, até poderemos adivinhar a razão daquele sorriso, entre a matreirice e o contentamento. Afinal foi recebido nas “palminhas” e sendo o convidado de honra do presidente da freguesia de Santa Clara, que ainda há pouco tempo dizia cobras e lagartos desta coligação. Além disso, depois de apresentada a sua recandidatura, tudo corre sobre rodas. Na câmara, a oposição, preocupada em curar as suas chagas, nem se nota que existe. Bem brada João Silva aos cinco Continentes, ex-edil do PS, disparando contra tudo o que mexe, em todos os jornais da cidade contra os seus próprios correligionários, mas, está bem abelha!, ninguém lhe liga.
Ao que tudo parece indicar o seu opositor, na disputa da cadeira autárquica, vai ser mesmo Henrique Fernandes, actual Governador Civil e vice-presidente da autarquia no tempo de Manuel Machado (anteriormente a 2002). Por parte da CDU, certamente será o seu amigo Gouveia Monteiro. Só falta saber quem vai ser o preferido dos bloquistas.
Quanto ao sorriso de José Simão, aí é que está!, de que rirá ele? Não deveria ter feito uma “cara de pau”? Quanto a mim, teria motivos mais que suficientes. Quem é que entende que a Feira Popular se realize após o término da CIC, feira Comercial e Industrial de Coimbra? Fará algum sentido? Para além de engrandecer o certame comercial e industrial, que por motivos vários é sempre uma amostra do que é Coimbra, melhor dizendo, é sempre muito fraco, juntava os dois públicos. E não vale a pena apontar unicamente setas à ACIC, Associação Comercial de Coimbra, que a responsabilidade do fracasso daquele certame deverá ser repartido por vários: conimbricenses em geral, comerciantes e industriais e à própria autarquia que nunca olhou para este certame como espectáculo da cidade. E continua. Como prémio da sã convivência bipartida e partidária, a câmara Coimbrã, ao ceder um terreno junto à rotunda das Lages, para que a ACIC construa um pequeno pavilhão, que para além de não servir para albergar toda a feira, muito menos servirá para realizar grandes espectáculos e todos os eventos temáticos que são feitas na cidade e debaixo de uma grande tenda alugada que, segundo informações correntes, custam aos cofres da autarquia mais de 15.000 Euros por cada evento. Mais uma vez, sem planeamento financeiro futuro, neste pequeno desenrasca, vai ser mandado dinheiro às urtigas.
Enfim! Eles, José Simão e Carlos Encarnação, lá saberão as linhas com que se cozem. Em política partidária a submissão, envolvida num largo sorriso de bonomia, sem reivindicação efectiva, numa espécie de sanduíche, traz sempre resultados futuros para os sorridentes.
Já agora, a talhe de foice, porque será que o povo ri tão pouco? Será porque é demasiado sério? Ou será porque o sorriso, seguindo as linhas económicas, se tornou num bem escasso e só se dá a quem o merece? Ou então o povo, na sua extensa sabedoria, certamente intuiu que, na obsessiva fúria taxativa do governo, o melhor é rir pouco, caso contrário, também apanha pela medida grande e já pouco falta para pagar imposto?
Se por acaso um dia destes uns fulanos bem engravatados lhe perguntarem sobre a sua vida sexual, referindo que é para estudos de mercado, não acredite. Responda que, apesar de, mentalmente, lhe fazer uma falta danada, fisicamente, há mais de um ano que não tem nada com a sua Maria. Homem prevenido, pretensamente assexuado, vale por muitos portugueses.

PROVEDOR DE JUSTIÇA PEDE...JUSTIÇA



"A verdade é que, tendo-me deparado com quatro Governos - Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates - este último ganha aos pontos na "lenga-lenga". É preciso paciência...". É assim que Nascimento Rodrigues faz o balanço dos seus oito anos de mandato como Provedor de Justiça, que terminou na passada terça-feira.
O Provedor - que já por diversas vezes fez saber que está interessado em sair - ainda não tem substituto à vista. O Parlamento fecha na próxima sexta-feira para férias e não é certo que os deputados venham a discutir o assunto antes de deixarem São Bento.
Segundo o Expresso apurou, PS e PSD não chegaram a acordo sobre qual dos partidos tem primazia para indicar o nome do próximo Provedor. Assim, é bem provável que Nascimento Rodrigues venha a prolongar o seu mandato, pelo menos até meados de Setembro."
(in Semanário Expresso, de 12 de Julho de 2008)

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (12): O SENHOR CABRAL

(A CASA DO SENHOR CABRAL, HOJE DEMOLIDA, ERA AO LADO DESTA, ONDE SE VÊ O PORTÃO DE CHAPA ZINCADA)

Quando eu era miúdo, no início dos anos de 1960, na minha aldeia, havia um senhor abastado que sempre me provocou uma profunda curiosidade. Parece que estou a vê-lo, era um homem pequenino, de uma quase ínfima estatura. De cabelo penteado para trás, sempre muito bem vestido. Quando caminhava, com os seus passos elegantes, parecia deslizar em campo magnético e precisão metódica como escala musical. Comparando a imagem deste habitante, desaparecido há várias décadas, de Barrô, com alguém que possamos reter na memória, como retrato de simplicidade, vem-me à ideia, quase como colagem, tanto física, como anímica, Gandhi, líder pacifista indiano (1869-1940), que, pela resistência passiva, levou aquela ex-colónia britânica, à independência.
O que sempre me admirou era a extrema deferência, quase adoração mística, que o povo da aldeia reservava ao senhor Cabral. Quando qualquer pessoa o encontrava na rua, tinha para com ele o mesmo tratamento que se tinha para com o senhor vigário. Constantes vénias e os olhos presos ao chão, como se, pela sua santidade de imponência, qualquer simples mortal não tivesse o direito de olhar, olhos-nos-olhos, aquele ser sem mácula e sem pecado. Este homem, conjuntamente com a esposa, a dona Estefânia, mais conhecida como “Faninha”, era idolatrado como ser extraterreno. Em boa verdade, se esse facto constituía, para mim, algo pouco comum, por outro lado atribuía este comportamento reverencial como próprio de uma sociedade atrasada e quase feudal.
Quando comecei a escrever estes pequenos textos, pensei, logo no inicio, que um dos temas que trataria seria inevitavelmente a vida deste homem pequeno na estatura, mas, sei agora, tal como o Mahatma Gandhi, uma grande alma. E o mais curioso também é que ao tomar conhecimento do comportamento sui generis desta família abastada, veio mandar por terra uma já teoria pré-formada, consolidada na minha cabeça, e usual nesse tempo, de que todos os homens ricos da aldeia eram somíticos, safardanas, uns trastes que, pela ignorância e pobreza, sempre que podiam, se aproveitavam dos mais carenciados, através de subterfúgios, envolvendo pequenos empréstimos a juros, para os deixar de tanga e ficar com mais algumas propriedades e, deste modo, acrescentarem mais umas leiras ao seu império a perder de vista no horizonte.
Então, o que tinha este homem de especial? Interroga-se você, leitor. Vamos com calma que já lá chego. Começo por lhe dizer que o senhor Cabral foi guarda-livros, muitos anos, nos refrigerantes Buçaco -já encerrados há cerca 30 anos-, ao lado da estação ferroviária do Luso. Segundo informações que consegui, dava injecções a quem necessitasse e sem nada levar em troca. Para além disso, foi também presidente da Junta de Freguesia de Luso. Parece que, também, num período de transição, foi presidente da Câmara da Mealhada. Foi também neste período que mandou alcatroar a estrada principal da aldeia, desde o Muro de Troncho, junto à estrada Mealhada-Luso, até ao centro do lugar. Olhando este currículo, aparentemente, está explicada a reverência do povo por este homem. Pois, parece, mas só ilusoriamente. O respeito que as pessoas pobres da povoação lhe guardavam provinha, sem dúvida nenhuma, do grau de protecção e segurança que o seu status projectava nelas, em virtude do seu estatuto político, mas, e é aqui, creio, que reside toda a idolatria quase mística por este personagem: o senhor Cabral, para além de deter poder de influência e ser um abastado proprietário, era uma pessoa bondosa e de elevada humanidade.
Durante o ano matava três porcos. Um deles era para distribuir pelos mais pobres do lugarejo. Como era costume nessa época, sempre que morria alguém na povoação, o senhor Cabral, na noite de vigília ao defunto, mandava entregar comer já confeccionado para que a família enlutada, nessa noite, não tivesse de fazer refeições e, em paz, pudessem sofrer a sua dor. Normalmente a ementa era composta por caldo de arroz e batatas cozidas com bacalhau. Como era co-proprietário dum grande lagar de azeite, que existia junto ao rio, a oeste da população, a caminho do sítio do Barrocão, mandava distribuir o precioso néctar da oliveira pelos mais carenciados.
O povo agradecido, dentro das suas parcas possibilidades, ressarcia-o com pequenos encómios. Por exemplo, sempre que uma família pobre matava o seu porquito, era costume, nesse dia, colocar dentro de um prato, coberto com um guardanapo de pano, um bocado de carne e iam entregar ao senhor Cabral e à senhora Faninha. Outro grau de deferência também engraçado: sempre que um membro de uma família mais carenciada se casava, as primeiras pessoas a serem convidadas eram a família Cabral.
Como morreu sem filhos, veio a fazer metade da sua extensa fortuna à sua criada, a Arminda que veio a contrair matrimónio com o capataz, o Álvaro e no qual tiveram dois filhos. A outra metade foi testada ao primogénito destes seus outrora criados, o António, pessoa que o senhor Cabral e a senhora Faninha amavam como um filho seu.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (11): O ESTRUME DA CIDADE

(FOTO DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)

Em meados do século passado, nas aldeias, os animais, para além de constituírem a força motriz dos campos e a reserva alimentar de carne dos seus donos, enquanto permaneciam nos currais, eram “fabricantes” de estrume. Esta mistura fermentada, com os seus próprios dejectos, e também o mato roçado nos pinhais que lhes serviam de cama, constituíam um poderoso adubo orgânico nas sementeiras.
Porém, para os grandes lavradores mais abastados esse estrume, produzido pelos seus próprios animais, era insuficiente, então muitos deles recorriam à “importação” de esterco da cidade. Não sei exactamente de onde, mas provavelmente de grandes quintas, imagino, como, por exemplo, a então Escola de Regentes Agrícolas, hoje chamada apenas de Escola Agrícola de Coimbra.
Um desses lavradores, na minha aldeia, em Barrô, era o senhor Matos, que recebia o estrume directamente nas suas muitas vinhas, na zona de Cadouços, ali mesmo encostado a Grada, junto à Mealhada. Como os meus pais trabalhavam à jorna, ao dia, para eles, quem habitualmente ia espalhar o esterco, porque era um serviço mais leve e menos especializado, era a minha mãe. Então, entre a primavera e o verão, eu com cinco ou seis anos, acompanhava-a para os campos afastados da aldeia e perdidos no horizonte longínquo. Recordo com nostalgia os ruídos reconfortantes, tão próprios da quietude dos campos. O chilrear dos muitos passarinhos, o particular cantar do cuco, o bater de asas de um milhafre que se assustara, ou decidiu partir para longe. O vento a soprar por entre pinheiros esguios a desafiar o céu, criando uma melodia de mil acordes desafinados, de vez em quando um pequeno baque!, uma pinha desprendera-se da alta árvore e estatelara-se no chão suave, atapetado com milhentas “agulhas”, a caruma dos membros das Pináceas. O silvar de uma pequena serpente, saracoteando-se pela terra brava. A água correndo por pequenas valas, por entre vinhas, que servia para dissolver o sulfato para pulverizar as videiras contra os míldios e outras moléstias. O ar árido dos caminhos de terra batida, com o sol a esquentar e a morder as pedras, como só é possível sentir num dia de canícula. O descansar, sentado com as pernas ao comprido, encostado a uma oliveira e usufruindo da sua sombra paradisíaca.
Envolvido por todas estas sensações, vendo a minha mãe espalhar com esforço, amodorrando ao sol, como se as batidas do seu coração fossem audíveis naquele silêncio de mil ruídos, como se sentisse o seu sangue nas têmporas ansioso por chegar ao coração, com o suor a querer alagá-la, era então inundado pelo cheiro a estrume, um odor que, para a maioria seria fétido, desprezível, para mim era um prazer divinal para o meu olfacto.
Depois vinha o melhor, o magusto para as minhas brincadeiras. Mal a minha mãe começava a espalhar o esterco, eu, ao seu lado, como arqueólogo atento, não perdia um centímetro do novo manto da terra negra. É que, misturados nos dejectos, vinham pequenos tesouros, despiciendos para os meninos abastados da cidade, mas uma pequena lotaria para mim, o menino da aldeia. E, perguntará o leitor, que riquezas seriam essas? Eram como despojos de guerra, pequenos brinquedos estropiados, carros sem rodas, bocados de lápis, isqueiros avariados –estes constituíam um forte fascínio, porque só os adultos os podiam usar e apenas com licença.
Se Tivesse conhecimento antecipado, na noite anterior, da ida para os campos para espalhar o esterco nas vinhas, de ansiedade, mal conseguia dormir. Imaginava, antecipadamente, no meio do estrume, um lindo brinquedo incólume, completo, porém, creio, que tal nunca aconteceu. Estes “restos” de brinquedos, conjuntamente com os que eu produzia da carrasca do pinheiro, foram a ponte para o meu imaginário.
Hoje, dá vontade rir, a mim e a si leitor, porque contar isto é tão “comezinho”, “coisinhas” tão sem jeito, mas, em boa verdade, estou a ter muito prazer em dividir isto consigo. É triste? É deprimente? Não sei! Se calhar é mesmo. Para mim é apenas a verdade de um tempo que passou. E porque o narro? Perguntará. Talvez por três motivos: o primeiro, provavelmente é que, com esta descrição estou a acertar contas, numa catarse, com o passado. O segundo, talvez, para que os mais novos tomem dele conhecimento. E o terceiro, sem querer ser alarmista, com algum receio que estes tempos infelizes possam voltar. Oxalá que não!

Lisboa recebe menos 60 mil carros por dia



"Segundo dados da Estradas de Portugal, nas diversas entradas e saídas de Lisboa no mês passado registou-se um decréscimo de cerca de 60 mil carros por dia face ao mês de Junho de 2007. Apesar desta queda significativa, não está a haver uma transferência correspondente do transporte individual para o transporte colectivo. A maior parte das empresas de transportes públicos que operam na área metropolitana de Lisboa, contactadas pelo Diário Económico, não registaram acréscimos sustentados ou homogéneos no número de passageiros transportados nos primeiros meses deste ano, face ao período homólogo de 2007.Como primeira conclusão, pode constatar-se que as pessoas estão a andar menos de carro por constrangimentos económicos, mas não estão a substituir o transporte individual por um uso acrescido do autocarro, do comboio ou do metropolitano. A segunda conclusão não pode ser quantificada, mas pressupõe-se que as pessoas estejam a adoptar de forma crescente a partilha do carro entre a casa e o trabalho, socorrendo-se das boleias para equilibrarem o orçamento."

In Diário Económico

Nem tudo é mau no aumento dos preços dos combustiveis!

Talvez assim os portugueses criem hábitos mais "amigos do ambiente" e que são, ao mesmo tempo, mais económicos!

Maia: câmara quer substituir peso das mochilas dos alunos por pen drives


"As mochilas podem ter os dias contados. O mote do projecto “Caderno Digital” não é “Aprender sem livros”, mas a sugestão assenta-lhe como uma luva. No início do próximo ano lectivo, os alunos do ensino básico da Maia vão poder aceder a todos os conteúdos leccionados e trabalhos realizados nas aulas através de uma simples pen drive. Todo o peso dos livros e cadernos pode agora ser substituído por uma pequena caneta USB facilmente transportável no estojo, pendurada ao pescoço ou até no bolso. "




Elogio a audácia e a vontade de acompanhar a evolução da tecnologia, no entanto, os suportes digitais dificilmente substituirão totalmente o papel e caneta, da mesma forma que a existência de máquinas de calcular não eliminou a necessidade do domínio da matemática (embora a prejudique) ou as edições online de jornais ou livros não se sobrepuseram ao papel!


Fica no entanto a nota de como uma medida simples, e barata, vem ajudar os alunos e, especialmente, vem obrigar os professores a reverem e actualizarem os seus métodos!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

LUSO: O SEGUNDO ASSALTO AOS CORREIOS

(Foto do Blogue "Adelos.Blogspot.com")

Segundo o Jornal da Mealhada (JM), de ontem, 9 de Julho, pela segunda vez a estação dos CTT do Luso voltou a ser assaltada.
“Cerca das 12 horas, um indivíduo, de óculos escuros e de chapéu, que lhe tapava metade do rosto, segundo disse a funcionária, e munido de uma arma de fogo, entrou no posto de correios e ameaçou a funcionária que lhe deu todo o dinheiro que tinha em caixa, não se sabendo ao certo quanto dinheiro era”, refere o JM.
Aquela serenidade e bucolismo, tão encantadores, que o luso nos habituou está a desaparecer. E, sendo assim, não fará sentido aumentar a vigilância por parte da GNR? São os tempos que correm. A propriedade só presta para pagar impostos ao Estado. Este, que deveria defendê-la, não o faz, e mais: ai de quem passar à acção directa. Todos, placidamente, numa de calma, devemos deixar roubar ou furtar E até é tão fácil o gamanço. Não paga impostos. Não há problemas de números clausus. Não precisa de se ser sindicalizado ou estar inscrito na Ordem. É uma actividade segura, lucrativa e que dá para todos. A censura social já foi. Hoje o que importa é o ter. O ser, no sentido de onde advém esse ter, é despiciendo. A punição coerciva também não amedronta, desde que não se seja apanhado em “flagras” não há mesmo problema nenhum.
E você, que pode ser um “artista” do gamanço em potencial, nunca pensou em entrar nesta actividade? Vá lá, confesse! Não seja tímido! Claro que já! Está a pensar se, na minha cabeça, já andaram esses pensamentos? Claro! Só que ainda não descobri o golpe perfeito. Esse é o meu problema. Magico, magico e…nada!
Só perde quem tem.

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (10): O ONZEIRO

(RUA PRINCIPAL DE BARRÔ)

Como já escrevi em anteriores apontamentos sobre a minha aldeia, haviam cerca de quatro abastados lavradores e, para além deles, mais uns tantos que embora não o fossem a tempo inteiro, possuíam bastantes terras, em que davam trabalho aos rurais mais pobres, os alugados, que viviam em pequenas casinhotas, quase tugúrios. Para além do amanho das suas terras, aqueles “senhores”, importantes na povoação, tinham profissões nobres, como por exemplo na hotelaria. Hoje pouca gente se lembra, mas desde há cinquenta anos atrás que a freguesia de Luso e concelho da Mealhada era o berçário de Portugal que, através de mão-de-obra, abastecia a hotelaria de meio país. Era comum encontrar-se, desde o Minho ao Algarve, num qualquer restaurante, passando das mesas à cozinha, um empregado que era desta zona. Daqui saíram grandes chefes de cozinha, de mesa e grandes barmens. Hoje, os que restam, estão espalhados pelo continente e ilhas como empresários hoteleiros.
Ora, inevitavelmente, Barrô, a minha aldeia, também tinha nessa altura os seus grandes chefes de hotelaria. Um deles, de que vou falar, era o “Senhor” Manuel Ventosa –nome deturpado. Homem de avantajada barriga, e senhor de um ego enorme que mal cabia na rua principal da aldeia, quando falava escolhia as palavras mais esmeradas. Era chefe de mesas no Palace hotel da Curia. Tinha uma voz forte, que facilmente se impunha a uns tantos pobres camponeses alquebrados pelo peso da miséria. Para além de dar algum trabalho aos mais carenciados, como certamente ganhava bem -nesse tempo, para além do ordenado era costume receber-se boas gorjetas na hotelaria- ainda era um bocado forreta, e, como tal, tinha uns dinheiros aferrolhados, como quem diz, uns “contitos” que emprestava a juros aos mais necessitados. Como era costume desse tempo, estas pessoas, que emprestavam dinheiro a 11%, uma espécie de agiotas, eram conhecidas como onzeiros.
Se o financiado não merecia crédito era imediatamente despachado com a frase-mestra: “ó dianho, vieste mesmo numa altura desgraçada, se tivesses vindo ontem! Estou mesmo desprevenido, estou mesmo a tinir. Que pena!”
Se o “pedincha” merecia algum crédito, então a coisa já “chiava” mais fino. Então, nesse caso, toca de fazer o empréstimo difícil: “homem, como é que me vais pagar? Tu não tens nada, para além do ar que respiras e de uma ambição desmedida! Ah, queres dinheiro?! O dinheiro é a coisa mais séria deste mundo. Por ele se ama, por ele se mata, por ele perdem batalhas, por ele se fazem guerras. O dinheiro é sangue! Percebes, homem de Deus? É sangue que corre nos interstícios das gentes, que irmana e aparta”. Este discurso durava no mínimo duas horas. Quando o carenciado de dinheiro saía com os contos emprestados, normalmente sempre aquém do solicitado, levava consigo um estigma de pobre, um travo de amargura que lhe “amandava” a alma para o charco.
O senhor Ventosa tinha uma única filha, e para ela mil esperanças de um futuro radioso. Não seria um qualquer “pé-rapado” que levaria a sua “Margarida”. Quem levasse a sua Guida, obviamente só com a sua necessária autorização, tinha de ter dote. Jamais seria um malandro de um morcão qualquer. “Isso é que era bom”, pensava ele, amiúde vezes, para com os seus botões. Por isso trazia sempre a filha “à rédea curta”.
Então, um dia, negro e triste para sempre, o Ventosa descobriu que o seu “tesouro” andava a ser cortejado por um rapazola lá da aldeia. Que por sinal nem era filho de más famílias, até era bem “apessoado” e trabalhava num hotel em Coimbra, o problema era ser pobre. E isso não admitia. Só por cima do seu cadáver. Além disso, no seu íntimo, algo lhe dizia que o rapazola era demasiado aperaltado para a sua “mais-que-tudo” filha do seu coração. Tinha ar de “estoira-vergas”, um bocado para o petulante. Não batia a gota com a perdigota. Daí a proibir a rapariga de se encontrar com o marmanjo foi um passo. Mas, a rapariga não descolava do raio do valdevinos. “Isto é que é uma sina”, pensava. Ainda deu uns “enxertos” de pancada na rapariga, mas nem assim. O raio da cachopa tinha os olhos inclinados à remela e só tinha olhos para o don Juan.
Um dia deu-se o inevitável: a menina, feita mulher, farta da coacção física e psicológica do Ventosa, achou que valia mais um sonho na mão que mil futuros paternais a voar, combinando previamente com o amor da sua vida, durante a noite, saltando de uma janela de cerca de três metros de altura, fugiu com o seu amado para longe. Casou com ele, tiveram dois filhos, e durante alguns anos foram felizes. Mas, e aqui reside o busílis da questão, o Ventosa, que não era presciente, não adivinhava, ali acertou em cheio. O tempo veio dar-lhe razão, o don Juan depressa se cansou da Margarida e tomado de amores por outra, veio a separar-se desta, juntando trapinhos com o seu novo amor.
Durante meses, na aldeia não se falou de outra coisa. Com o estigma da vergonha, o Ventosa nunca mais foi o mesmo, e veio a morrer com esse peso no coração. Não tenho a certeza, mas suponho que em vida nunca veio a reconhecer e a afeiçoar-se aos seus netos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Kilauea entra em erupção!



"Está generando chorros de lava de hasta doce metros de altura.
Miles de personas visitan Hawai cada año sólo para ver este volcán.
Situado en la parte sur de la isla de Hawaii, su caldera tiene una profundidad de 165 metros, con un diámetro de entre 3 y 5 km."

In 20minutos

Fantástica esta bela manifestação da natureza que, infelizmente, tantas vezes acaba em tragédia!

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (9): O CARRO DA MINHA FANTASIA

(UM MODELO IGUAL E DO MESMO ANO)

Por volta do inicio dos anos de 1960, na minha aldeia, em Barrô, uma bonita terra que divide a meio a Mealhada e o Luso, num universo de, provavelmente, seis dezenas de habitantes, havia já, pelo menos, quatro automóveis, o que, a meu ver, constitui uma inovação para a época, numa terra onde apenas havia uma televisão e nem sequer existia um único tractor. A única máquina mecânica que se via por aquelas bandas, uma vez por ano, era uma enorme debulhadeira, por alturas da apanha do trigo e do centeio. Era um espectáculo ver aquela grande máquina trabalhar, movida a gasóleo. Todo o labor da agricultura era feita pela força braçal e com a ajuda de animais, normalmente o boi, que, para além do carro de duas rodas, puxava também a charrua e o arado. O burro era sobretudo empregue para pequenas cargas transportadas em carroça.
Se a memória não me falha, o primeiro automóvel pertenceu ao “Senhor José Maria”, um dos homens mais importantes da terra. Não porque tivesse muitas propriedades, mas porque estava estabelecido em Coimbra, com o Café Arcádia. Este café, hoje infelizmente desaparecido, foi talvez o estabelecimento mais emblemático da cidade dos estudantes, onde foi local de tertúlia de vários prosadores e poetas como Adolfo Rocha, mais conhecido como Miguel Torga.
O “Senhor José Maria”, como era conhecido na altura –e ainda hoje, porque goza de boa saúde e, curiosamente, apesar da desvalorização do status, do estatuto que os mais ricos tiveram perante o povo, este homem nunca perdeu o tratamento de “Senhor”. Embora septuagenário, parece ter menos vinte anos. É um gentleman, um homem que ao falar parece abraçar-nos, como se a sua voz viesse de cima, plena de encómios e embrulhada em perfumadas rosas silvestres. Não é um falar meloso e sussurrado como diplomata, mas uma voz bem timbrada e sonora. Um dia destes voltarei a falar da importância deste homem, e o quanto significou para mim, há 25 anos atrás. Embora ele nem sonhe, só o simples facto de ter pronunciado o nome dele, abriu-se-me uma janela que ditou o meu futuro.
O segundo automóvel pertenceu ao “Senhor” Lino, o mais abastado lavrador da aldeia. O terceiro seria propriedade do Agostinho Fernandes também a trabalhar em Coimbra. E o quarto automóvel foi então o carro da minha fantasia. Pertencia ao “Senhor” Matos, abastado lavrador, mas que, conjuntamente com essa complementaridade, da labuta da terra, exercia a profissão principal de “choufeur” das “camionetes” dos Oliveiras de Águeda. Ou seja, como se diz hoje, condutor dos autocarros da empresa génese da Rodoviária Nacional. Lembro-me do senhor Matos vestido com a farda obrigatória da empresa: sapato preto, calça e blusão, de um cinzento mescla, camisa branca e gravata, encimados por um boné de pala, com uma pequena placa gravada.
O senhor Matos era então proprietário de um Austin de 1932, de cor verde, de jantes raiadas, com dois grandes faróis em destacado e com as portas a abrir ao contrário, de detrás para a frente. Aquele maravilhoso objecto de locomoção estava numa garagem improvisada, junto à sua casa, num barracão, ao lado da capela. Como ao regressar da escola tinha de impreterivelmente passar ao seu lado, aos poucos fui ganhando um amor por aquele automóvel. E, quando após mal ter poisado a pasta da escola, pegava em duas cordas e num foicinho –pequena foice curva que servia para cortar fenos- para ir apanhar dois molhos de erva para os animais, por uns minutos, olhava embevecido para aquele carro da minha paixão. Às vezes era apanhado, em flagrante, pelo senhor Matos que estranhava aquele meu olhar para um objecto, que, para ele era “lana caprina”, coisa vulgar. Então perguntava-me, meio confundido, porque não ia eu brincar com os outros miúdos. Eu respondia que tinha de ir apanhar erva, senão apanhava pancada. E lá ia, em direcção ao “Barreiro”, um extenso vale, composto por hortas, leiras ou belgas. Era ali que a maioria dos desamparados da fortuna tinham o seu celeiro. Passava ao lado da fonte do Barreiro, pequena nascente de chafurdo, que, antes de haver água canalizada, durante décadas, abasteceu toda a aldeia.
Quando eu tinha 15 anos, e ganhava mil escudos por mês que iam inteirinhos para o meu pai, o senhor Matos colocou o automóvel à venda. Num último arremesso, ainda ousei perguntar-lhe por quanto tencionava vendê-lo. “Quero quinze contos”, respondeu-me por entre um sorriso escarninho. Certamente dividido entre a admiração e o sarcástico.
Sei que o carro da minha fantasia foi então vendido para a Mealhada. Perdi o automóvel mas não perdi a memória e o sonho de um dia ter um igual.

terça-feira, 8 de julho de 2008

ELEGIA À VILA DE LUSO

(estas obras deixam-me apreensivo -Imagens retiradas do blogue "Adelo.blogspot.com)



Ó Luso gosto de ti,
desde os tempos de menino,
dava voltas no teu ventre,
ainda era pequenino;
Mal comecei a amar,
meu amor, foste a razão,
mal podia te chamar,
entrei no teu coração;
À sombra do castanheiro,
repousava do calor,
cantava o melro matreiro,
as minhas trovas de amor;
Na fonte enchia a alma,
nas bicas água beijei,
no teu sorriso a calma,
de um amor que conquistei;
Na fonte de São João,
não respeitam a idade,
tocam na recordação,
pedra da minha saudade;
Quero o meu amor passado,
Luso da minha paixão,
um bulício tão marcado,
a fogo no coração.