Depois de alguns passos à frente e atrás, foi decretado o Encerramento Compulsivo da Universidade Moderna!!!
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Agora é que foi
Depois de alguns passos à frente e atrás, foi decretado o Encerramento Compulsivo da Universidade Moderna!!!
sábado, 2 de agosto de 2008
E DEPOIS DAS PRATAS O QUE RESTA?

Há um velho aforismo, no país, de que, em caso de necessidade urgente de realizar dinheiro, dentro de uma casa solarenga, vende-se primeiro as faianças antigas, a seguir as mobílias consideradas excedentárias e só em último lugar, e na total impossibilidade de as salvar, as pratas. Curiosamente, creio, que embora de menor valor este metal, seguindo os usos e os costumes mantêm-se na casa, e o ouro segue o caminho do penhor.
Lembrei-me deste rifão como introdução para mostrar, num misto de curiosidade, de indignação e de impotência, como os sucessivos governos de Portugal, em relação às pequenas empresas tradicionais, nada fazem para as manter. Estas pequeníssimas explorações industriais ou comerciais, com 3, 4 ou 8 funcionários, sob o ponto de vista económico e social têm uma importância vital. Para além de, através da actividade privada, dar trabalho a estas pessoas, evitando que seja o Estado a assistenciá-las, desenvolvem pequenas actividades, quase sempre em vias de extinção, que, no dia-a-dia, constatamos a sua total imprescindibilidade, e mais, tomamos consciência dessa necessidade, sobretudo quando batemos os olhos no placard da porta de entrada: ENCERRADO.
E foi o caso comigo esta semana. Em Coimbra, à entrada do Monte Formoso, existe (existia) uma carpintaria e serração, há cerca de setenta anos, a Batista e Pratas, Lª –daí fazer o preâmbulo, em analogia, com as pratas. De tempos a tempos, quando tinha necessidade, ia lá encomendar umas madeiras. Podia ser uma Janela, uma tábua de meio-solho, ou até um perfil de desenho esquisito para substituição. Como esta casa tornava realidade qualquer ideia pré-concebida por muito diferente que fosse, através dos imensos ferros polidos pelo manuseamento de décadas da tupia, qualquer residente na cidade, ou outro, estava sempre desenrascado.
Através do gerente, o senhor Óscar (de cinquenta e poucos anos de idade), com quatro décadas de casa e muito saber acumulado, com as suas ajudas interventivas, tudo era possível de pôr em prática. Sem o dizer –não precisava- parecia transmitir-nos de que se havia boa-vontade –e havia mesmo- naquela casa tudo era possível. Não precisava de explicar muito acerca do que pretendia. Aquele homem, certamente fruto de muitos anos de experiência, numa intuição rápida, rematava: “deixe ficar!”. Por entre um sorriso, como a querer dizer, eu sei o que você quer, não perca tempo a explicar, concluía: “venha buscar tal dia!”. E no dia combinado lá ia ao Batista Pratas, ao meu amigo Óscar, e o meu pedido estava realizado.
Naquela velha serração trabalhavam com ele mais quatro pessoas. No escritório, a Dona Isabel (cerca de 40 anos de idade). O João (cerca de quarenta e poucos anos de idade), com 36 anos de casa, o António (com cerca de 60 anos de idade) e o Paulo (com trinta e poucos anos de idade) na carpintaria. Esta semana encerraram para férias…sem prazo. Não voltarão abrir portas. Segundo uma destas pessoas aqui citadas, quando o interroguei, porque fechou de vez esta firma, respondeu-me, com os olhos humedecidos e a voz entrecortada pela emoção: “sabe?, havia pouco trabalho, é certo, mas ia andando, o problema são os impostos, não dava lucro para tudo. Então, a solução foi esta! Encerraram!”.
Ao que podemos constatar, num autismo atroz, ninguém se importa que estas casas, companheiras da nossa vivência urbana, museus interactivos das nossas memórias, pedaços da história industrial do país. Se falarmos nisto a um político, regional ou nacional, tenho a certeza, num disco riscado, por tanta vez ser usado, vai dizer: “que quer que se faça? É o mercado a funcionar, as empresas são como as pessoas, nascem e morrem!”. Pois! Mas, se são como as pessoas, e estas têm um Serviço Nacional de Saúde, seria normal fazer-se tudo para as salvar. Nesse caso, ilusoriamente, deveria ser criado um serviço nacional de solvência da pequeníssima empresa familiar. E se pensa que estou a descobrir a pólvora, desengane-se, é apenas uma questão de bom senso. E na vizinha Espanha tomaram medidas drásticas que evitassem o total desaparecimento destas pequenas unidades. E como, perguntará? Muito fácil. Isentaram estas pequenas firmas de impostos até ao limite de 150.000 Euros de receita bruta.
Se o governo português o fizesse, todos ganharíamos, não só no aspecto social, como sobretudo no aspecto económico. Pensemos um pouco: o que vai acontecer, como vão viver, as cinco pessoas que nomeei em cima? Evidentemente que vão receber o subsídio de desemprego! E quem o paga? Os poucos activos que ainda vão trabalhando, descontando e pagando impostos.
Acontece que esta “grande vaca”, que é o Estado Social, tem as tetas a secar, porque, por um lado, há demasiados “marmanjos" a mamar à custa do sistema, por outro, este mesmo sistema, num ensimesmamento patológico, alheado do real, em vez de apoiar, salvando o que resta com políticas proactivas, empurra toda a gente para viver à sua custa, como se as suas costas fossem até ao infinito. E o mais grave: é que, ao dar de mão-beijada sem contrapartidas, sobretudo a algumas minorias, está a concorrer directamente para a sua extinção e, sem critério social, desenvolve a desmotivação dos poucos que trabalham.
Como diria o meu pai, Estamos bem f*****s!
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
CAVACO FALOU...E NINGUÉM PERCEBEU NADA

Ó Doutor Aníbal, desculpe lá, mas não entendi nada do que disse. Então salta o amigo da paz paradisíaca do rectângulo da sua toalha de praia, interrompendo as suas merecidíssimas e legitimíssimas férias, para falar do Estatuto dos Açores, do Tribunal Constitucional, e que lhe estão a roubar o seu pouquíssimo poder de intervenção?! Ó homem, queixe-se à ASAE. Se eles estão a exacerbar os seus poderes, pode ser considerado especulação. Queixe-se, homem de Deus! Sabe como deve fazer, sabe? Se precisar de uma ajudinha, é só telefonar. Pode contar comigo.
Do seu incondicional.
Luís Fernandes
quinta-feira, 31 de julho de 2008
CAVACO, HOJE, EXCEPCIONALMENTE, FALA

Como foi exaustivamente anunciado o Presidente da República, Cavaco Silva, em férias, vai falar ao país. Ao que dizem os comentadores, Presidente em férias, estando em retiro, não fala, pelo menos, aos portugueses. Pode falar com os netos, com os filhos, com a sua Maria, mas jamais aos nacionais. A menos, dizem, que seja uma comunicação importante. Se vem falar do Tribunal Constitucional e dos Açores, hum!, para esse peditório já dei! Se vem dizer que lamenta que a maioria dos portugueses não possam ter direito a férias, hum!, isso também já toda a gente sabe; Se vem dizer que vai chamar o primeiro-ministro a Belém para o convidar a atribuir o Rendimento Social de Inserção a todos os portugueses, uma vez que, discriminatoriamente, dois terços recebe e um terço trabalha arduamente para sustentar os eleitos; Se vem dizer que vai devolver a Lei do Divórcio à Assembleia da República para ser reapreciada, oh!, isso não é novidade; Se vai dizer que no próximo 10 de Junho vai condecorar o Presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João, por “ter tomates” e fazer o que o Governo de Portugal deveria fazer, nomeadamente em relação à lei do tabaco e a abolição da liberalização dos combustíveis, nhem!, para isso não precisava de interromper as férias.
HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (29): A ÚLTIMA VIAGEM DE SALAZAR
(SERÁ ESTA PONTE, EM FUNDO,OBRA DO GENIAL EIFFEL?)Em anterior apontamento, sobre Várzeas, a encantadora aldeia em que nasci, e lá permaneci até aos três anos, encostada como irmã siamesa ao Luso, falei do seu ex libris: a sua ponte em ferro, que se ergue das alturas, construída, segundo se diz, pelo genial Gustave Eiffel –engenheiro francês (1832-1923), responsável pela construção da Torre Eiffel, em Paris e várias pontes no nosso país.
Porém, ao falar com a minha tia Anunciação, que vive há cerca de seis décadas em Várzeas, uma dúvida se me levanta. Segundo a minha familiar, esta ponte em ferro começou a ser construída, para substituição de uma anterior também em ferro, por volta de 1955. Veio a ser colocada no lugar da anterior, já montada, em 1958. Ora, atentemos nas datas, Eiffel morreu em 1923. Sendo assim como será possível esta ponte ser da sua responsabilidade? Será que esta ponte seria da responsabilidade da empresa Eiffel, que o genial homem do ferro criou em França? Ou não seria?
Posteriormente, através do meu amigo Alcides Rego, do Buçaco, vim a saber que a renovação desta (nova) ponte e outras da linha da Beira-Alta foram adjudicadas à firma alemã Fried Krupp Stahlban Rheinhausen por 45 mil contos. Estes trabalhos foram concluídos em 27 de Maio de 1958.
Depois há outros “senões”. Segundo a minha tia, “durante mais de três anos, largas dezenas, ou centenas, de operários alemães assentaram arraiais em Várzeas, com as suas potentes máquinas de “bate estacas”. Viviam em barracas de madeira junto à ponte em construção. Como não havia água canalizada, foi construído um grande poço, junto ao moinho de água, para abastecer os operários do ferro.
No anterior texto que escrevi sobre esta aldeia, salientava o facto assaz curioso de o lugarejo com pouco mais de seis dezenas de pessoas possuir, em fins de 1950, duas mercearias com taberna. Uma a do senhor Vieira e outra a do “ti” “Manel” sapateiro. Sei agora, depois de falar com a minha tia, que esta expansão comercial, tudo indica, se deveu à construção da ponte sobre a aldeia e aos inúmeros trabalhadores que, durante anos, ali se mantiveram, constituindo, por isso, uma mais-valia importantíssima na economia do lugar.
Continuando a citar a minha familiar, conta-me ela que, em finais de Julho de 1970, aquando da transladação do corpo de Lisboa para Santa Comba Dão, feita por caminho-de-ferro, Salazar, já defunto, passou por cima de Várzeas, na ponte de ferro. Se este facto pode não constituir surpresa, já o que vou contar a seguir pode ser entendido como um facto curioso. Aquando da sua passagem, em direcção à sua terá natal, Vimieiro, nesse dia, Várzeas encheu-se de milhares de forasteiros para ver passar o féretro. Por outro lado, e também curioso, foram as dezenas de agentes da Guarda Nacional Republicana (GNR), destacados para a aldeia para fazer guarda aos “mirones”. Provavelmente, também, misturados na imensa prole de civis, dezenas de agentes da PIDE, à civil, a controlar e a prever alguma manifestação mais ousada e de índole comunista. “Se calhar estavam com medo que o atacassem e matassem outra vez”, remata a minha familiar num largo sorriso.
A verdade é que o comboio da morte anunciada de um sistema político já apopléctico, com uma carruagem inteira cheia de flores, sem paragem, passou “que nem um foguete” por cima da ponte e, para além de imensos lenços no ar a acenar ao ditador, com prantos e desmaios à mistura, não houve problema nenhum, e Várzeas, na sua pacatez, esteve à altura de tamanha solenidade.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (28): O MOINHO DE VENTO
(Era um moinho, senão igual, muito parecido com este)O homem, no aproveitamento de energias alternativas, sempre se soube adaptar à natureza e canalizar, em seu benefício, domesticando a força bruta, através do engenho, de modo a retirar dela o maior proveito possível.
Por volta de meados do século XX, em que a máquina propulsionada a derivados do petróleo ainda não se tinha democratizado, o recurso à água e ao vento era comum. Depois de décadas de esquecimento, como se a natureza não fosse uma constante lição, e, tudo o que tem para nos oferecer, pudesse ser despiciendo, encarado como obsoleto e cair em desuso, presentemente, assistimos novamente a uma viragem. Em face do encarecimento dos combustíveis fósseis, oligopólio de pouco mais de uma dúzia de países, inevitavelmente, cada vez mais o homem se vê na contingência e obrigado a retornar a um passado, que pensava caquéctico e arrumado nas catacumbas da lembrança. Ainda que modernizando os meios, salta à vista que é bom conservar a experiência anterior.
É assim que na freguesia de Luso, em plena serra do Buçaco, ainda hoje, podemos ver alguns moinhos de vento. No sopé, entre o Luso e a Mealhada, embora decrépitos, como almas condenadas à erosão do tempo, ainda persistem em existir alguns moinhos de água. Outrora garbosos, imprescindíveis na utilidade, na prestabilidade da alimentação, proliferaram nesta região, certamente pela grande abundância de líquido incolor e transparente que, neste lugar paradisíaco, brota do interior da terra como graça divina inesgotável.
Que eu saiba, exceptuando os moinhos de Sula, no Buçaco, por esta altura, o único moinho de vento existente nesta zona situava-se na colina sobranceira à minha aldeia de Barrô, com a sua cúpula erguida ao céu, como sentinela estática a vigiar o lugarejo, a pouco mais de cem metros da estrada principal que liga este povoado ao Luso e próximo do muro do Troncho. Lembro-me de, em criança, por volta de 1960, ter entrado uma vez no seu interior e ter ficado fascinado com as suas rodas dentadas, em madeira, entrosando umas nas outras, cujo eixo central movia uma grande mó de pedra, assente em cima de outra estática. Este movimento desmultiplicado, em cadeia, provinha da força das velas impulsionadas pelo vento, a energia eólica.
Ao que sei este moinho, hoje já demolido, era propriedade de vários lavradores da Lameira de São Pedro, onde o único nome que consegui descortinar era o senhor Joaquim Pedro, de alcunha “o Sardinheiro”.
Por volta desta data, na Lameira, haveria mais de meia dúzia de moleiros, sem serem proprietários de qualquer moinho. Era apenas a sua profissão, o seu ofício, hoje praticamente em desaparecimento. Relembro aqui, como ícone, um moleiro, nascido em 1910 e falecido em 2000, o senhor Manuel Gomes Pedro. Este homem do povo, esforçado trabalhador, com uma carroça, puxada por uma mula, corria toda a freguesia de Luso e concelho da Mealhada, desde Mala até ao Carqueijo. Ia a casa dos agricultores, recolhia os sacos de milho, trigo ou centeio, ia moê-los e, passados dias, na volta, regressava com os mesmos sacos, mas agora de farinha moída.
Há uma aldeia, nos arrabaldes de Luso, que se chama exactamente Moinhos, pela extensa abundância daquelas pequenas casas trituradoras de cereais. Assim como, muito próximo desta, há um outro lugar chamado Carpinteiros, onde haveria nessa época meia dúzia de moinhos tocados a água. Segundo informações fidedignas, nesta aldeia, onde a água é rainha, os velhos moinhos jazem abandonados, metem dó e fazem doer o coração, no abandono a que foram votados. Como cemitério de um passado que parece envergonhar a nossa memória, mostram a total desconsideração em honrar a história. Perante tamanha insensibilidade e desrespeito, se os nossos desaparecidos antepassados, hipoteticamente, pudessem ver o estado lastimoso a que chegou este património, que tanto os ligou à terra, estou certo, preferiam morrer outra vez.
Sendo o Luso uma Vila essencialmente turística, e inserida na Região de Turismo do Centro, não fará sentido recuperar estes museus vivos? Para quando uma rota turística de visita aos velhos moinhos de água e de vento?
Às vezes somos ricos sem o saber, porque não estimamos o que temos, nem potenciamos economicamente as suas virtudes, neste caso o nosso património histórico, e, em ladainha, de fado desgraçadinho, continuamos a apregoar a nossa pobreza.
"Mais rápido, mais alto, mais forte"

terça-feira, 29 de julho de 2008
PORQUE É QUE "ESTÁS TÃO EM BAIXO" Ó LUSO?
No domingo, como habitualmente, passei, pelo menos duas horas, a ler a jornal, em frente à “recauchutada” Fonte de São João. Já o aqui escrevi: que pena! Que “plástica”, como quem diz, que “pedrada” este projecto! O que torna esta obra unanimemente má é a convergência de opiniões. Tanto faz ser no quiosque de jornais, como na “Flor de Luso”, a opinião é comum: “depois de dois anos em trabalhos de parto, infelizmente para todos, vai sair um aborto!”
Fugindo ao habitual, no domingo dei uma grande volta, a pé, pelo Luso. O estado de alma das ruas é simplesmente decadente. Para um fim de Julho, pouquíssimos banhistas. Que saudades de outros tempos! Bem sei que, com tristeza, não é um problema único do Luso, esta falta de gente é transversal a todas as urbes e vilas. Mas que dói, dói! Se não há dinheiro para comer, como é que se pode ir para as termas passear?
Aquela artéria principal, outrora cheia de vida, com um animado comércio de rua, hoje, constata-se, há imensas lojas encerradas. Até o emblemático Café Casino está fechado. Fui andando a pé e entrei dentro do Parque de Campismo, da Orbitur, uma desolação. O abandono é notório com muito poucos campistas. Jardins mal cuidados, com erva demasiado grande. É notório o ar deprimente daquele parque. Em vez do Campo de Ténis porque não constroem uma piscina? Aquele espaço precisa urgentemente de uma mexida. Dei uma palavra à minha amiga Ana, que explora o bar-restaurante do Parque. Sem entrar em grandes detalhes, lá me foi dizendo que, “este ano, o negócio está muito fraco”.
Fui andando a pé, visitei quase todos os moinhos de água. Uma lástima, uma dor de alma! Abusivamente, penetrando pelo orifício da janela (sem janela de madeira), entrei dentro do moinho do “Ti” Benjamim “Moleiro”. Tudo abandonado, a apodrecer. Lá está a carroça, o curral da mula, a bigorna, os restos de carvão, e as três mós em posição para, se alguém quiser tomar o lugar do velho moleiro, começar a moer milho e centeio. Bolas! Aquilo é um museu. Aposto que naqueles imensos litros de água, que a vala transporta, vão muitas lágrimas do espírito do “Ti” Benjamim. Podem crer! Um homem morre fisicamente, mas a sua alma, o seu espírito, paira no local, onde viveu intensamente. Onde fez amor, onde fez pela vida, onde desfez tantos sonhos impossíveis de realizar. E aquele moinho é o berço e a história daquele homem desaparecido. Bolas! Não deixem morrer um património destes. Bem sei que não é fácil. Certamente o moinho estará inserido no mesmo artigo da casa (que está à venda), mas, a Junta de Freguesia deve sensibilizar a Câmara da Mealhada para que esta, na impossibilidade de adquirir a propriedade, pelo menos, desenvolva esforços para que o novo adquirente mantenha o moinho em funcionamento. Ao lado deste, outros dois jazem como monumento à incúria e ao desleixo de quem manda.
Continuo a andar e sigo em direcção a Carpinteiros, a Espanha, como era conhecido no meu tempo de miúdo. A mesma lástima! Pelo menos seis moinhos encontram-se em decomposição. Tudo a cair, com os telhados semi-destruidos, as rodas dentadas, na base de água, que faziam andar as mós, tudo em estado decrépito. Merda para isto! Não posso evitar esta imprecação. Falei com alguns habitantes dos Carpinteiros e é notório, sente-se o seu envolvimento e, ao mesmo tempo, o desânimo. O que eles não dariam para ver aqueles monumentos da história da freguesia a trabalhar.
Além de mais, atentemos naquele constante caudal de água. É uma pena não ser aproveitada para fins turísticos e nada melhor que pôr os moinhos em funcionamento. Depois é criar uma rota pedestre de moinhos. As nossas crianças, que pouco sabem acerca de pão, agradecem.
Bem sei, devo dizer, que o problema dos moinhos não é muito fácil de resolver, e porquê? Porque qualquer um daqueles moinhos, facilmente pode ter dezenas de herdeiros. Depois uns querem vender, outros nem por isso, preferem deixar cair tudo, outros, sabendo do interesse da Câmara em revitalizá-los, quererão uma fortuna –isto é típico. De qualquer modo, a autarquia da Mealhada tem obrigação de resolver tudo isto e, no limite, pode fazer uso de um instrumento jurídico, a expropriação, por interesse cultural.
É urgente que se faça alguma coisa, enquanto há pessoas vivas que sabem reconstruir e trabalhar com estes velhos moinhos. Se nada se fizer, qualquer dia, para além de já nada restar do edificado, nem sequer haverá memórias de um tempo que esteve na base da nossa contemporaneidade.
Alguém disse um dia que um povo sem memória é um povo sem futuro. Eu acrescento que quem trata assim os seus antepassados não pode esperar ser bem tratado pelos vindouros.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (27): O MEU AVÔ FRANCISCO
(UMA CASA BEM RECONSTRUIDA DE BARRÔ)O meu pai, enquanto viveu, raramente falava do seu progenitor e, no limite, quando o fazia era sempre para se lhe referir como um mau exemplo. Quando eu lhe chamava a atenção para o facto de trabalhar muito, e de que deveria descansar mais, era costume, responder por entre dentes, meio zangado, a resmungar, de que tinha de labutar, os tempos futuros que aí vinham poderiam ser muito maus. Então, em conclusão, interrogava: “Queres que eu seja como o teu avô, queres? Foi um dos homens mais rico da aldeia e desbaratou tudo. Sabes que até esta pobre casa, em que vivemos, tive de a comprar ao tribunal, em praça?”.
Como o meu avô Francisco morreu dois anos antes de eu nascer, em 1954, em boa verdade, nunca tive muita curiosidade em esmiuçar as memórias relativas à sua passagem por esta vida. Já da minha avó Angélica, apesar de ter falecido, com cerca de oitenta anos, mais ou menos, quando eu teria uns sete anos, lembro-me perfeitamente dela. No fim da sua vida, psiquicamente não estaria bem. Apesar de se locomover perfeitamente não tomava banho e falava sozinha. Gesticulava como se, através de retórica, se dirigisse a uma plateia. Para além disso, levava para casa, e guardava no seu quarto, todo o tipo de lixo que encontrasse na rua. Hoje, sei que sofria da síndrome de Diógenes, que consiste na exagerada acumulação de objectos sem valor.
Quando comecei a escrever estas pequenas “estórias” disse para mim mesmo que iria saber mais coisas acerca do meu avô Francisco. Qual era a sua posição social na aldeia? Seria verdade, como dizia o meu pai, que fora muito rico e acabara na miséria? Para saber informações nada melhor do que contactar a pessoa mais idosa do lugar e foi o que fiz. Falando com a senhora Lucília Dias, que, no próximo dia 19 de Setembro, fará um século de vida, fiquei a saber que, tal como referia o meu pai, os meus avós paternos foram realmente muito ricos. Pertenciam, por laços de família, aos agricultores mais abastados de Barrô. Mas como a riqueza é de quem a poupa e gere e não de quem a herda, infelizmente para eles e todos os seus descendentes, acabaram perdendo tudo. Até o respeito dos outros e a dignidade como é hábito. A comunidade não enaltece os perdedores. Prefere um rico através de ínvios meios duvidosos, à custa de sangue alheio, a um falhado negociante, mesmo que o fracasso se deva à sua honestidade. Evidentemente que não fora este o caso.
Dona Lucília, em conversa comigo, relembra os muitos e muitos anos que trabalhou naquela outrora grande casa agrícola. Ora trabalhava nos campos, ora cuidava dos filhos e nas limpezas da casa. Para além dela haviam vários serviçais.
Segundo as suas palavras, “os teus avós fugiam do trabalho como o diabo da cruz. Nunca se agarravam ao verbo. Só mandavam fazer e mal. E, é claro, tal como hoje, o exemplo deve vir de cima, e criado mal mandado é trabalho desperdiçado”. Depois, como havia pouco dinheiro, para além de pedirem empréstimos a particulares, começaram a não pagar as contribuições, veio o Estado e, por arresto, vendeu todas as propriedades em hasta pública. Nem São Sebastião (o Santo padroeiro da aldeia) lhes valeu!”
Continua a minha conterrânea, “como ficaram sem nada, sem terras, e não tinham crédito, passavam fome como ratos. Muitas vezes, mesmo apesar de eu ser pobre, lhes matei a fome. Tristes tempos que até me dá mágoa em recordar. Coitado do teu avô, teve um triste fim. Um dia, estando a trabalhar à jorna em Vila Nova de Monsarros, ia atravessar um pequeno riacho, que não teria mais de 10 centímetros de altura de água, escorregou, bateu com a cabeça numa pedra, perdeu os sentidos, e ficou com a boca dentro daquele pequeno fio de água. Morreu afogado e, no cemitério local, lá foi sepultado em campa rasa. Triste sina aquela do teu avô Francisco. Até parece que as pessoas nascem com o destino marcado para o sofrimento. Nem na hora da morte têm sorte!”, termina esta narração com uma imprecação que faria corar uma qualquer menina puritana.
E não vai melhorar sozinho...
"Temos de ser mais rápidos. Temos condições para pôr este plano no terreno e executá-lo rapidamente”
"Esta entidade gestora vai possibilitar encontrar em todo o território, que inclui a Mata do Buçaco, a mata da Lousã e a Serra da Boa Viagem, um pólo de desenvolvimento"
Ascenso Simões, Secretário de Estado do Desenvolvimento Rural e das Florestas, In Jornal da Mealhada
A minha leitura destas palavra (e de outras) e do que tenho visto no Buçaco é a seguinte:
- Era suposto ter-se feito alguma coisa e não se fez nada ou quase nada e a riqueza natural e arquitectónica do Buçaco continua a perder-se pela incúria dos Homens(nos quais me incluo!);
- Há projectos para pôr em prática, realizados por instituições credíveis(nomeadamente a Universidade de Aveiro) e estamos a perder tempo com "lérias" e "tangas" porque ninguém assume a responsabilidade (e talvez os custos...);
- Todos querem participar, nenhum quer pagar e ninguém sabe muito bem quem é que manda(até porque quem for o "dono" é que vai pagar a conta!).
PS: A foto é um bocado fraca porque o autor(eu!) não percebe nada do assunto!
domingo, 27 de julho de 2008
NOITES DE VERÃO
Quem passou, ontem à noite, pelo recinto da Alameda do Casino em Luso, teve a oportunidade de se deliciar com a magnífica actuação da OLPA BIG BAND.
Uma actuação incluída no PAT (Programa de Animação Termal) 2008, da responsabilidade da Soc. da Água de Luso e da extinta Junta de Turismo Luso-Buçaco, a quem apresento os meus parabéns.
Com uma assistência "itenerante" a rondar a presença média de 90 espectadores, na sua maioria termalistas e passantes de ocasião, o espectáculo mereceu fortes aplausos por parte do público presente.
Ponto negativo para a adesão dos lusenses a este tipo de iniciativas.
Por desconhecimento do programa, ou por puro desinteresse, vão-se abstendo de marcar presença nestas manifestações culturais que as entidades vão proporcionando, de uma forma gratuita, para quem assiste e com alguns encargos financeiros para quem as organiza.
Porque não utilizar os locais de estilo e os estabelecimentos comerciais para a divulgação destes eventos? Fica a sugestão.
sábado, 26 de julho de 2008
HISTÓRIAS DA M INHA ALDEIA (26): O BROTAR DA SEXUALIDADE

Em 1966, com quase 11 anos, fui trabalhar para o Café Mandarim, em Coimbra. Na puberdade, com as múltiplas modificações morfológicas e psicológicas a acontecerem, lembro-me das primeiras manifestações físicas da sexualidade. Se hoje, mesmo até para um pubescente, falar de sexo e das suas múltiplas consequências na procriação, é tão normal como falar do clima, naquele tempo poucos pais falavam com os filhos sobre este tema, psicossomático, importantíssimo no crescimento do homem e da mulher. Normalmente, mais no caso dos homens, a criança, sem qualquer preparação prévia, era surpreendida pelas transformações emergentes. No caso das mulheres, apesar do mesmo manto diáfano do tabu, creio que eram mais acompanhadas pelas mães, até porque, naturalmente, na mulher, o surgimento da menstruação, na sua complexidade, envolve maiores cuidados.
No caso dos rapazes, salvo raras excepções, as informações, normalmente deturpadas, eram retiradas dos amigos, habitualmente tão mal esclarecidos como qualquer um, apesar de, tal como hoje, individualmente, cada um, achar que sabia tudo sobre sexo. Em face desta pouca informação, a mulher acabava por ser encarada unicamente como um objecto de prazer e que apenas servia para procriar. E não se pense, mesmo hoje, que este sentimento está ultrapassado, sobretudo no que toca às gerações de 50 e 60 do século passado. Creio haver dados estatísticos sobre violência doméstica, tendo em conta a idade geracional, e, se a memória não me falha, esta crueldade normalmente sobre a mulher, em forma de força bruta, incide notoriamente nas gerações antecedentes às nascidas depois de 25 de Abril de 1974.
Voltando ao meu caso, porque estava longe dos meus pais, a trabalhar, a minha informação sexual era igual a zero. Como qualquer miúdo pré-adolescente, tendo em conta as necessidades do corpo, apenas sentia que precisava de uma mulher para satisfazer o meu desejo físico e me libertar do incomodativo anátema de ser virgem. E para um miúdo de 14 anos que, tendo poucas amizades femininas e, diariamente, a trabalhar, de manhã à noite, não era fácil. Nesta altura, por volta de 1970, havia uma Rua em Coimbra que, dizia-se, servia para iniciar os mais novos e alimentar o ego dos mais velhos. Era a Rua Direita, nesse tempo cheia de imensos cafés, quase todos imundos, onde imperava um ambiente fétido e um submundo de mulheres fáceis exploradas por proxenetas, o vulgo “chulo”. Apesar de a prostituição, por Decreto, ter sido proibida por Salazar em 1963, a verdade é que, em Coimbra, estas “casas de passe” funcionavam naturalmente a menos de 100 metros de uma esquadra de Polícia. Porém, mesmo com esta possibilidade formal, havia um óbice intransponível: era preciso dinheiro e não havia.
Nesta época, a hotelaria era uma profissão essencialmente masculina. Os cozinheiros, os copeiros, os lava-pratos (praticamente não havia máquinas de lavar louça, ou pelo menos eram raras por serem muito caras), os empregados de balcão e de mesa eram sempre homens. Qualquer mulher que trabalhasse na indústria hoteleira imediatamente era conotada com a prostituição, ou, pelo menos, subentendia-se que se “portava mal”. Por incrível que pareça, este opróbrio discriminatório só veio a ser erradicado plenamente já na década de 90.
Então, por volta de 1970, tinha então 14 anos e uma vontade louca de estar, pela primeira vez, com um a mulher e, entre amigos, perder o pesado estigma da virgindade, trabalhavam na copa do Mandarim duas mulheres de porte “assim, assim”, com cerca de quarenta anos de idade. Pelo menos, entre os empregados mais velhos, acerca delas, contavam-se grandes desempenhos sexuais. Então, como a necessidade obrigava, individualmente, tentei que qualquer uma delas me tirasse “os três vinténs”. Uma, a mais esbelta, alta, de cabelos compridos, apanhados, com uns seios encantadores, foi peremptória: “nem pensar! Não desmamo crianças”. A outra, já de segunda escolha, mais baixa, mais usada e com muito menos encanto, já foi mais flexível: “por 20$00 “tiro-te os três” duma forma que nunca mais esqueces na vida”. Aos meus pungidos apelos, de que não tinha esse dinheiro e precisava de estar com uma mulher, foi insensível. “Nem pensar! Colegas, colegas, amor à parte! Sem dinheiro, nada feito”. Dali não consegui nada.
Quase a fazer os 15 anos entrou para a copa (secção contígua à cozinha de um estabelecimento hoteleiro, onde se lavava a louça e se faziam sandes, torradas, cachorros, etc.) uma mulher de trinta e poucos anos, com uma pequena deficiência numa perna. Logo no primeiro dia atirei-me a ela como cão ao bofe. Se numa primeira fase, creio, ela devia ter achado graça e não ligou, numa segunda fase começou a sentir alguma piada em desmamar um miúdo. Passados poucos dias estávamos a dormir (como quem diz) juntos todos os dias. Foi um festim iniciático, pelo menos até o meu tio descobrir. Depois acabou-se, mas pouco importava. Eu tinha sido armado cavaleiro e, de olhos abertos, já com um pequeno currículo, estava preparado e parti para outras conquistas.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
HISTÓRIAS SA MINHA ALDEIA (25): UM SÉCULO DE VIDA

Corria o mês de Setembro do ano de 1908, quando a aldeia de Barrô, entre a Mealhada e o Luso, foi acordada por um grito estridente de um recém-nascido. A parteira, com as mãos ensanguentadas, grita para o pai, ansioso e alagado em suores, do novo ser nascente: “é menina, é menina!”
Acabava de vir ao mundo uma mulher que nascera no mesmo ano, em que se dera o Regicídio, em Fevereiro, com a morte do Rei D. Carlos e o Príncipe Luís Filipe, constituindo este atentado o estertor de um sistema fragilizado e caduco pela ostentação de uma classe burguesa insensível, em desfavorecimento maioritário de um povo triste e sofredor. Cairia decrépito em 5 de Outubro de 1910 com a implantação da República.
Esta mulher, concebida nos planos do Regicídio, seria baptizada com o nome de Lucília Dias. Atravessou a 1ª Grande Guerra, de 1914 a 1918, e sofreu na pele, através da fome e da carência de bens alimentares, as primeiras turbulências do novo regime político republicano.
No ano de 1929, com o mundo financeiro a abanar, através do crash das bolsas mundiais e que daria origem à grande depressão, na igreja de Luso, com convicção firme, dava o “sim” a José Morais, “o homem mais pobre que havia na Vacariça” (uma aldeia próxima), segundo as suas palavras. Em 1939, quando estala a 2ª Guerra Mundial, Lucília já tinha três filhos, duas raparigas e um rapaz. Uma delas morreu precocemente de uma doença rara que não lembra.
Lucília sempre foi uma mulher de armas feitas pela sua vontade férrea e indomável. Punha as mãos ao trabalho como qualquer um ao lazer. Tanto trabalhava no campo, como em limpezas, em várias casas. Mas havia um talento que viria a marcar muita gente da freguesia de Luso: Lucília era uma boa cozinheira. Lembra-se que cozinhou em muitas casas, fez muitas festas, muitos casamentos, e até chegou a ir, durante muitos anos, no verão, em colónias de férias, do dr. Artur Navega, da Mealhada, que, através de uma mulher de Barrô, a senhora Preciosa, levava as crianças mais pobres do concelho para a praia da Figueira da Foz.
Quando estalou a Revolução de Abril em Portugal, em 1974, Lucília estava, juntamente com a sua filha Natália, a empalhar garrafas e garrafões para várias grandes Caves Vinícolas da região bairradina, como por exemplo as Caves Messias. Trabalhavam na sua oficina cerca de 24 pessoas. Hoje só a sua Natália continua, como ícone, a mostrar uma arte em total desaparecimento.
Se por um lado guarda saudades desse tempo, por outro prefere os nossos dias. “isto hoje é uma maravilha, nem vocês sabem quanto!”, atira-me à queima-roupa, no meio de um sorriso escancarado de matreirice, com um brilhozinho nos olhos, intervalado com uma palavra obscena, tão apropriadas e ditas com a mesma naturalidade com que se diz “bom-dia!”.
Mas lembrando os tempos passados, endurecendo as linhas do rosto, referindo-se ao povo da aldeia, exclama: “é uma gente de merda, mesquinha, não valem nada!”
“Vê lá bem, continua a minha querida conterrânea Lucília, com a voz embargada pela dor, que há mais de 30 anos, quando eu mudei da religião Católica para os Evangélicos, praticamente toda aldeia deixou de me falar. Desprezaram-me completamente. Passavam por mim na rua e era como se eu fosse um cão. Um dia, já o meu querido “Zé Morais tinha morrido -o meu homem-, para matar a fome aos meus filhos, fui a casa de um grande lavrador para me vender meio alqueire de milho, e sabes o que me respondeu a mulher do ricaço? Que fosse comprá-lo aos da minha religião. Somíticos de uma figa!” Exclama no meio de uma imprecação.
Continua a senhora Lucília, “mas olha, Deus não dorme –apontando com o dedo em riste para cima-, o tempo tudo cura. Acabaram todos por me virem pedir ajuda. Fui eu, sem vinganças ressabiadas, que lhes matei a fome. Acredita, dou-te a minha palavra”, profere esta frase, já no meio de um sorriso, novamente.
Pois é! Como já viram estas palavras são de uma anciã muito querida que fará no próximo dia 19 de Setembro 100 anos. Sim, um século.
Mas se vissem a sua pele do rosto, parece que tem sete décadas. A sua lucidez é impressionante. É impossível não gostar desta mulher.
Vergonhoso!!!!

O Jumento foi atacado por alguém com muito pouco sentido de liberdade e democracia que se deu ao trabalho de "denunciar" à Google o dito blog acusando-o de ter conteúdos impróprios.
O Jumento é o melhor Blog nacional, um forte "opinion maker" e estas situações só vêm demonstrar a sua força!
Transcrevo um pequeno poema de António Aleixo que O Jumento nos deixa como recado "a esses miseráveis, herdeiros bastardos de Estaline e Goebels" que o querem calar:
Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado;
O ribeirinho não morre,
Vai correr por outro lado.
Um centro cultural? Sedes para as associações? Um Escola Profissional ou um Pólo de Ensino Superior?
quinta-feira, 24 de julho de 2008
"AS TERMAS DE LUSO" *
(IMAGEM RETIRADA, COM A DEVIDA VÉNIA, DO BLOGUE "ADELO.BLOGSPOT.COM")“Um “Aquilégio Medicinal” do Dr. Francisco da Fonseca Henriques, datado de 1726, assinala “entre o logar do Luzo da Igreja e Luzo de além, termo do Couto da Vacariça, Comarca de Coimbra, abaixo da copiosíssima fonte de água fria, um olho de água quente, que chamam de “banho” assim como de “caldas”, mas que não se usa hoje para remédio, nem serve mais, que de regar algumas terras”.
O Dr. Costa Simões procurou investigar, conhecedor do culto e ritual do banho romano –em vão, nenhum vestígio de termas romanas. Identicamente em livros dos séc. XVII e XVIII de médicos que se debruçaram sobre o tema.
Portanto, o “fio” começa em 1726, no reinado de D. João V.
O Dr. José António Morais, da Lameira de S. Pedro, cura aqui D. Maria I (1777 sobe ao trono, morrendo a 1816 no Brasil) de grave moléstia. Recebe como recompensa uma cátedra em Coimbra e dois vistosos títulos: “Médico da Casa Real” e “Comendador do Hábito de Cristo”.
Em 1838 a Câmara da Mealhada procedeu a melhoramentos na estância termal. Mais tarde, contraiu um empréstimo de um conto de reis para novas beneficiações.
Em 1852, D. Maria II ofereceu cem mil reis e uma subscrição pública rendeu oitenta e sete mil reis.
A 14 de Janeiro de 1854 a Câmara assina uma primeira concessão. A 17 de Maio de 1895 e por alvará, entregam-se os destinos das águas à Sociedade da Água de Luso (SA), ainda hoje florescente.
O “olho de água quente” arrefeceu ou sumiu-se, pois não resta qualquer pista.
A água mineral –hipotermal, hiposalina, bicarbonetada/cloretada/sódica, gaso-carbónica- essa mantém o seu prestígio, mormente nas megapólis!
Luso com as suas excelentes instalações termais e uma captação de águas modelar é uma das mais importantes Termas Portuguesas. Recheada de unidades hoteleiras acolhedoras e de um clima temperado e calmante, proporciona aos termalistas e aos turistas as condições necessárias para que possam recuperar o equilíbrio físico e psíquico comprometido pelas agressões quotidianas da vida moderna.
A partir do ano de 1854 e por iniciativa do Professor Costa Simões, sem dúvida a personalidade que mais contribuiu para o aproveitamento termal de Luso e para o seu conhecimento, iniciou-se a construção das primeiras instalações hidroterápicas. Foi o arranque para um trabalho de desenvolvimento que não parou mais.
A água termal de Luso brota na parte central do seu balneário principal, situado no meio da vila e de um furo artesiano com um caudal normal superior a 40.000 litros/hora.
A água é límpida, cristalina, agradável ao paladar, rica em gases dissolvidos e em suspensão, que se vêem elevar numa poeira gasosa de finas bolhas. A ÁGUA TERMAL DE LUSO, deve as suas propriedades terapêuticas a dois factores principais: a sua hipotonicidade e elevada radioactividade. A temperatura da água, à boca das nascentes, é de 27 graus centígrados.
A água termal de Luso tem uma notável acção terapêutica nas afecções crónicas do aparelho Reno-urinário (litíase renal e insuficiência renal), hipertensão arterial, reumatismos, perturbações do aparelho locomotor e afecções respiratórias crónicas (bronquites, asma e enfisema).
A acção fisiológica da água termal de Luso consiste, especialmente, na estimulação da função urinária pela cura de diurese que devido às suas propriedades físico-químicas e diuréticas, exerce uma acção geral eliminadora e desintoxicante, da qual pode beneficiar todo o organismo.
Ingestão de água. Banhos de imersão simples, de emanação radioactiva e com jacto sub-aquático. Duches. Aerossóis. Fisioterapia com mobilização em piscina de recuperação funcional com água a 34º C. e em ginásios, sob a orientação de fisioterapeutas. Parafangos, tracção esquelética. Electroterapia.”
(* in Luso no tempo e na história, 1937-1987, cinquentenário de elevação a vila. Editado em em 6 de Novembro de 1987 por JUNTA DE FREGUESIA DE LUSO/JUNTA DE TURISMO DE LUSO-BUSSACO)
HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (24): O BÍGAMO
(UMA CASA DE BARRÔ MUITO BEM RECUPERADA)Naturalmente, por volta dos fins da década de 1940, em consequência da 2ª Guerra, com o racionamento de víveres, Portugal vivia tempos de uma infinita miséria. Salazar, quer por força do seu princípio moral de que mais valia só que mal acompanhado, o “honrosamente só”, quer porque não entrara directamente no grande conflito bélico mundial, mantendo-se numa neutralidade duvidosa –se tivermos em conta a exportação de Volfrâmio para a Alemanha- não aceitara a ajuda no âmbito do Plano Marshal –este programa de recuperação Europeia, instituído pelos Estados Unidos da América (EUA) em 1947, consistia em ajudar a recuperar os países Europeus aliados, afectados pela grande guerra. Também conhecido pela doutrina Truman, presidente dos EUA, viria no entanto a tomar o nome do Secretário de Estado, George Marshal.
Então, se em todo o país a pobreza alastrava, é evidente que na minha aldeia, em Barrô, entre a Mealhada e o Luso, a situação não seria melhor. Embora houvesse uma meia dúzia de lavradores abastados, a maioria, trabalhando por conta de outrem, vivia no limiar da indigência. Era natural que muitos tivessem desejos de emigrar mas poucos teriam possibilidades financeiras e a coragem para partir rumo ao desconhecido, em busca de uma vida melhor.
Mas houve um homem que arriscou em deixar aquela terra de carências de tudo. Embora não estivesse no escalão dos mais pobretãos, estava apenas um pouco acima, tinha uma casa razoável, mas não deixava de fazer parte do mesmo clube de esfarrapados. Certamente, ou porque estava farto de tanta miséria, ou porque terá pensado que os seus descendentes mereceriam um amanhã mais sorridente e mais igual aos mais ricos da terra, decidiu partir. Não se sabe se o fez por aventureirismo, se por necessidade de um futuro a que julgava ter direito. jamais saberemos o que iria naquela cabeça com chapéu.
Chamava-se Manuel Rodrigues Vieira. A 19 de Março de 1950, depois de hipotecar a casa e ter contraído um empréstimo a um onzeiro (espécie de agiota que emprestava dinheiro a juros de 11%) de Vila Nova de Monsarros, juntou uns trapos numa pequena mala de cartão e planeou ir para África. Naquele dia solarengo, 19 de Março, hoje dia do pai, naquela casa junto à capela da aldeia, os gritos eram cortantes. Quem passava não ficava imune aos choros lancinantes da Arminda, mulher do Vieira, de quase trinta anos, entrecortados pela fome, misturada com lágrimas, dos seus cinco filhos, a maioria todos crianças. O mais novo tinha 3 anos: “paizinho, não nos deixes! Não nos abandones pai!”
Mas, se cada um de nós tem um destino marcado, acredite-se ou não, o Manuel Vieira achava que tinha de cumprir o seu e partiu para terras africanas de Angola.
A Arminda, com toda esta prole, ficou numa situação desesperada. Do seu marido nunca mais ouvira falar. Quase todos dias, olhando para o carteiro da aldeia, o Daniel, Arminda pensava para com os seus botões: “é hoje que vou receber uma carta!”. Mas essa missiva nunca chegou. Entretanto a sua filha mais velha, a Augusta, começou a namorar e casou com um rapaz que se viria a revelar o salvador daquela casa que era o refúgio de tanta gente. Um grande trabalhador e pessoa muito respeitada, ainda hoje, o José Maria, o Barbeiro, que em apontamento anterior já falei dele. Como o onzeiro, o agiota, ameaçava arrestar a casa por falta de pagamento, o meu amigo “Zé”, como é conhecido pelos amigos, pediu um empréstimo em seu nome, foi a Vila Nova de Monsarros e liquidou a hipoteca e juros num total de 526 contos. Com muita luta braçal, na labuta da agricultura, e nos tempos mortos a escanhoar barbas e a cortar cabelos, a vida foi-se encarregando de recompensar o “Zé” Maria Barbeiro e, aos poucos, a paz de espírito e o desafogo financeiro regressaram aquela casa da Arminda.
Num dia de Março, de 1976, a notícia correu célere em Barrô: “O Vieira, o Angolano, regressara a casa”. Mas, se este facto já por si só era notícia, calcule-se o que não diriam as “cuscas” do lugarejo ao saberem que ele trouxera uma mulher “cabrita” e apresentara-se à Arminda para que ela desse guarida aos dois. “Um escândalo, vejam bem ao que chegámos!”, vociferavam indignadas as mulheres do soalheiro, assim conhecidas na aldeia, por cortarem na casaca de qualquer um.
Como se deve calcular o Vieira viera com o mesmo com que partira, se exceptuarmos a mulher que vinha com ele, ou seja, uma maleta com meia dúzia de trapos. Como não estava divorciado da Arminda, ainda que moralmente ali não tivesse nada, nem sequer uma boa lembrança, legalmente a casa também lhe pertencia. E aí é que estava o problema. Como fazer a coabitação no meio deste ódio, adultério e bigamia? Mas lá se resolveu. O Vieira e a sua "segunda" ficou a morar noutra casa, a dois passos daquela. Não se sabe muito bem como foram suportáveis os dois anos em que todos viveram na casa, inclusive a Isaura, a “cabrita” extra-matrimónio, mas a verdade é que até ao divórcio ser deliberado pelo tribunal foi assim.
Mesmo perante o meritíssimo, como o Vieira não tinha onde cair morto, o “Zé” Maria prometeu alimentá-lo até à morte. Este meu amigo barbeiro, com tristeza, ainda recorda o sogro, mesmo depois de tanto ser ajudado, a dizer ao juiz: “o meu maior prazer era não deixar cinco tostões a ninguém!”
Como quem não dá não recebe, o Vieira, depois do divórcio, partiu com a sua amante Isaura para Viseu e lá veio a morrer na mais completa indigência.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (23): AS FÁBULAS DO MEU TIO MANEL
(A SECULAR CAPELA E O LARGO EM VÁRZEAS -foto retirada, com a devida vénia, do blogue "Adelo.Blogspot.com)Todos nós, dos tempos da nossa infância, recordamos sempre alguém, que pode ser chegado, familiarmente ou não. É naqueles momentos de nostalgia, como se viajássemos no tempo, que de repente lá vem a imagem desse ente tão especial, que, durante o tempo da nossa meninice, povoou e encantou a nossa recente vida.
Na parte que me toca, lembro-me de vários tios que foram a alavanca de partida para um futuro de trabalho que se avizinhava. Por agora, vou apenas falar de dois, muito especiais para mim.
Viviam em Várzeas, uma pequena aldeia mesmo juntinho ao Luso, pegadinha como paredes-meias. Embora irmãos, eram antagónicos na forma de viver a vida. E, do seu feitio tão contrário de ser, só posso entender como sendo atribuído aos genes cromossomáticos. Um, hereditariamente, saiu ao pai –o meu avô Crispim-, outro, geneticamente, veio a ser bafejado com o lado bondoso e puro da mãe –a minha avó Madalena.
Este, o que veio a adquirir por parentesco o lado maternal, puro e bom, era o meu tio Albertino. Com o seu ar simples, transpirando sobriedade, seriedade e serenidade. Ao longo da vida, estou em crer que nunca teria enganado ninguém. Mesmo se alguma vez o quisesse, os seus traços de genuíno homem recto tê-lo-iam traído e não teria conseguido passar a perna a ninguém. O normal era ele, dentro da sua encantadora ingenuidade, ser facilmente passado na cantilena de um qualquer burlão barato. Nasceu pobre e, na sua aceitação de vida, pobre morreu.
Lembro-me muito bem deste meu tio. Ele, por volta dos anos de 1960, era fogueiro (colocava as aparas de madeira para queimar numa grande caldeira de combustão) numa serração que existia, por esta altura, junto aos Refrigerantes Buçaco e à estação ferroviária de Luso. Muitas vezes fui vê-lo trabalhar naquele ambiente de calor infra-humano. Como era juntinho à estação, e sempre que passava um comboio, volta e meia, ouvíamos um estridente grito, que quase estoirava os tímpanos de quem por ali andasse. Era a senhora Rosalina, que vivia nos Moinhos, um lugar ali próximo, e vendia umas encantadoras bilhas de água, chamadas “pichorras”, por vinte e cinco tostões: “Águuaa dee Luusssooo!
O outro familiar, que certamente herdou o carácter do pai, era o meu tio “Manel”. Este homem, um efabulador de histórias mirabolantes, foi de todos, para mim, o “must”, o meu modelo recalcado de uma memória que nunca esquecerei, o paradigma da saudade. É difícil de descrever este sentimento, mas, para mim, recordar este tempo, é como quando necessitamos de acalmia espiritual e imaginamos um vale coberto de erva verde e um riacho de águas límpidas a correr. Assim recordo este meu tio, sentado no adro da capela, com o seu sorriso fácil, entre a matreirice e a conveniência. O seu sorriso era como a sua alma materializada no seu rosto. Era tão normal tê-lo impregnado na sua cara que, para mim, era impossível dissociá-los, como se, ao nascer, em vez de chorar, trouxesse estampado no rosto aquele riso fantástico. Mentia, ou teatralizava, com uma facilidade de fazer inveja ao melhor actor do nosso Teatro Nacional D. Maria II. Quem não o conhecesse, jamais diria que ele fantasiava. Não sei se era a fantasia que, duma forma natural, se lhe colava, se era ele, duma forma fascinante, como num sonho de menino, vivia autênticas megalomanias.
Sendo ele muito pobre, era como se, desta maneira, tentasse trocar as voltas ao destino. Mentia tão naturalmente que, em qualquer situação, era como se estivesse lá e fosse mesmo o personagem principal, apesar de saber que tudo aquilo que descrevia com mestria e uma convicção inexcedível e ao pormenor era falso.
Quando eu chegava ao pé dele fazia sempre a pergunta sacramental: então ó tio como é que estamos de vacas? “Ó rapaz, são muitas, cada vez tenho mais. Ainda agora comprei três mil. Se calhar tenho de adquirir outra quinta. Não sabes quem queira vender uma?”. Interrogava-me ele, de ar sério, perante o meu semblante compenetrado.
Então e pessoal para trabalhar, você arranja? Já deve ter um exército, imagino, interrogava-o e tentando a minha melhor performance.
´´Oh, oh. São milhares! São tantos que, calcula que quando estão todos sentados para comer, numa extensíssima mesa de quilómetros, se for batatas com bacalhau, anda um funcionário de patins, em cima dela, com um grande regador (de 10 litros) a temperar a comida”.

