terça-feira, 15 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (15): CHEGADA A COIMBRA


(Um aspecto de Coimbra por volta dos anos de 1960)


Corria o ano da graça de 1966 e tinha acabado de concluir o exame da quarta classe. Estava então com dez anos, prestes a comemorar os onze. Como tinha um tio que era cozinheiro num restaurante em Coimbra, escrevera-lhe a solicitar um emprego. Como os meus pais eram agricultores muito pobres, inevitavelmente, eu precisava de trabalhar, mas também porque tinha absoluta necessidade de me ver livre das lides do campo, que detestava. Já me bastava não ter nem domingos nem feriados de folga, assim como, diariamente, depois de vir da escola, ter de ir cortar dois molhos de erva para os gados, ovelhas, cabras e um boi de terça – já o contei aqui, em anterior apontamento, a terça era um contrato bilateral -nesta época normalmente implementado na agricultura- estabelecido verbalmente entre duas ou mais pessoas, em que o investidor colocava um animal de grande porte (boi ou Vaca) no segundo contraente. Este, usando o animal para trabalhos campestres, comprometia-se a engordar o animal e, mais tarde, aquando da venda, a diferença remanescente ( valor acrescentado), entre o valor inicial e o valor final, seria dividido em três partes iguais. Sendo duas partes para o investidor, dono do animal e uma para o segundo contraente que houvera contribuído, através da engorda, para esse lucro.
Como o meu tio respondera positivamente ao meu pedido, passado uma semana entrava, pela primeira vez, na grande cidade mítica, a Coimbra do imaginário indígena, a Coimbra dos doutores, cantada em fado, aquém e além-mar. Mas também, diga-se, à custa da sua Académica, com os seus grandes jogadores, como Rui Rodrigues, Curado, Rocha, Belo, Néné (que viria a morrer num acidente de automóvel) e tantos outros que, pelo seu elevado talento de equipa, treinados por Mário Wilson, faziam frente ao grande Benfica, do pantera negra, ainda mais notabilizado pelo campeonato europeu. Eram célebres os derbies entre estes dois grandes clubes nacionais.
De saco de pano na mão, lembro-me de ter chegado, na companhia do meu tio, à Praça 8 de Maio e ter ficado extasiado com todo aquele movimento de pessoas junto á Igreja de Santa Cruz, mesmo apesar de ser Agosto, mês de canícula e deslocação a banhos, dos mais endinheirados para Figueira. Os velhos eléctricos amarelos, atravessando o canal (Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz), com o seu característico barulho ronceiro, provocado pelo atrito do ferro a arrastar no ferro, andavam permanentemente cheios. Na parte de trás, no gancho de engate, era comum ver vários putos pendurados, tentando não pagar bilhete, para desespero do “pica” (cobrador de bilhetes). Esta praça, mais parecendo um delta confluente de vários rios, como um entreposto comercial do oriente, o barulho era ensurdecedor. Era o cauteleiro, no seu pregão, tentando desencadear a ambição: “Sábado anda a roda…é a última…quem quer estes quinhentos contos?”. Mesmo ao lado, dois ardinas com as suas sacas de ganga azul cheia de jornais, um matulão gritava: “é o Primeiro de Janeiro…traz as últimas”. Junto a este um garoto, sensivelmente da minha idade, descalço e com as calças remendadas pelo meio das pernas, mostrava a resistência daquele vestuário ao seu crescimento. Era notório que enquanto ele foi crescendo, as calças foram minguando e, assim, foram transitando de um ano para os outros. O puto gritava a plenos pulmões, com a sua voz de cana rachada: “é o Calinas…compre o Calinas…é o Jornal dos doutores”. Ali à volta, ouvia-se uma mistura indescritível de vozes desafinadas e pregões bem estudados, era a peixeira, era a vendedeira de hortaliças, com a sua canastra à cabeça. Em frente da Igreja, uma fila de táxis esperavam pelos clientes e um taxista mais afoito, encostado ao seu carro verde e preto, escutava com atenção o “vendedor de banha da cobra” e ia vendo, com admiração, as dezenas de pessoas que se iam juntando em torno do vendedor de pomadas e elixires:”comprem a pomada milagrosa para o pai e o catraio, cura reumatismo, artroses e bicos de papagaio”.
No canto esquerdo, junto à farmácia Universal, uma cigana, na sua lengalenga, pegava na mão de uma mulher de meia-idade e dizia-lhe, com a voz em corrupio, uma mistura de português “arromenado”, de que a senhora sofria de amores aziagos, maus-olhados e mal de inveja. No lado contrário os irmãos Secos não tinham mãos a medir a venderem tabacos e café moído. No Café Santa Cruz, nessa altura, restaurante, um empregado, bem aprumado “à paquete”, de casaco branco vestido, ia espalhando as toalhas e os guardanapos de tecido branco imaculado, para servir os almoços que a hora do repasto aproximava-se a passos largos.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

UMA SOCIEDADE JUDICIALISTA



Um recente estudo entre géneros em idade escolar, veio mostrar que, quer o homem, quer a mulher adolescente, encaram a violência contra a integridade física como normal. Vão até ao paradoxo de aceitar também a violência física sexual como algo necessário, despenalizante, e dentro do contexto de envolvimento e excitação.
Ora, ainda que seja com base em amostras, tal estudo dever-nos-ia preocupar profundamente.
O Estado, desde há 30 anos a esta parte, deixou de apostar na educação, para centralizar todo o espectro comportamental do indivíduo no direito. O direito passou a ser uma espécie de analgésico que, sem curar, indo ao âmago das coisas, temporariamente retira as dores.
Os sucessivos governos após-25 de Abril em vez de canalizarem a sua acção na educação a montante, a partir do nascimento –formando pais e professores, dando-lhes poder de decisão-, insistindo nas obrigações do indivíduo perante a sociedade, faz ao contrário, para além do contínuo esvaziamento de autoridade dos tutores, começa logo por lhe dar direitos exacerbados até à maioridade, e só a partir dos 16 anos o considera imputável e responsável pelos seus actos. Então, porque já é tarde, legisla em barda a jusante, tentando apanhar os cacos desta displicência tardia. E as consequências estão à vista de todos, com o aumento da violência dentro da família, escolar e urbana. Salvo melhor opinião, a violência escolar será resultado da apreensão consciente de uma certa impunidade social, de que os alunos só têm direitos e nenhumas obrigações.
Neste sistema actual, em que não se investe nos pilares fundamentais da educação, o Estado, ao invés de, através do seu longo braço da lei, intervir o menos possível na esfera do indivíduo, desonerando-se e apelando a sãs relações de convivência ou contratuais, invade e trata o cidadão como pessoa irresponsável. É um Estado paternalista, tentacular, que, obsessivamente preocupado com os princípios da protecção e da segurança jurídica, contrariamente ao pretendido, manieta e impede que a liberdade individual flua de uma forma natural e baseada no respeito intrínseco da pessoa. Tem como consequência o petrificar das posições e das relações bilaterais. Nada se contratualiza sem a intervenção do direito específico substantivo, quando pela lei geral adjectiva seria perfeitamente possível alcançar os mesmos fins. É uma sociedade monitorizada pelo direito, em que o cidadão se comporta como autómato sem reciprocidade natural.
É uma sociedade agrilhoada, em que aparentemente é livre, mas, na prática, vive numa teia que lhe cerceia os movimentos e faz dela uma marioneta comandada por fios invisíveis do “big brother” legislador.
Assim, ao ritmo desta produção legislativa, no futuro próximo, não haverá tribunais que cheguem para dirimir tanto conflito. O direito, na sociedade, deveria ser a linha condutora acessória, no conflituar, e jamais o essencial da convivência humana.
Para além disso, como nada se faz sem ser escrito, acaba por minar a confiança interpessoal na palavra e desenvolve o temor de se ser enganado. Faz pensar que o direito tudo resolve e, ansiosamente, deposita na justiça, como deusa omnipotente e justa, uma esperança de compensação de equilíbrio que se vem a concluir frustrante e que, no limite, é geradora de mais conflitos sociais até ao infinito.
Fará sentido o “Livro de Reclamações”? Faz! Quando temos uma comunidade desprovida de ética, sem respeito pelo outro, e sem responsabilidade.
Uma sociedade que legisla a relação entre pais e filhos, dando a possibilidade a estes de se queixarem dos seus progenitores; Uma lei que consigna como crime público a violência doméstica, nas relações familiares; Uma presumível lei de proibição de piercings; Uma lei do tabaco que, fazendo do cidadão um imberbe, lhe vem impor categoricamente regras de conduta no que lhe faz bem ou mal; Diversas posturas municipais a penalizar comportamentos que deveriam ser imanentes e reflexivos, como por exemplo, abandonar os dejectos de animais na via pública, urinar, mandar lixo para o chão; Uma sociedade que precisa de ver legislado a destruição de bens culturais, a separação de lixos, a poluição de rios e ribeiras, o fogo-posto, a proibição de fazer queimadas no inverno; Uma lei gastronómica que invade os sabores de antanho, impondo regras unilaterais tecnocratas, alterando os costumes e o saber secular, é muito mais do que uma ditadura legislativa, é um fumo ardiloso que invade tudo o que é de mais íntimo.
Uma sociedade com tanta imposição penalizante será uma sociedade livre? Responda quem souber.
Até quando? Perguntará você leitor. Provavelmente até ao dia em que, individualmente, cada um de nós se preocupemos menos com os nossos direitos e cumpramos responsavelmente as nossas obrigações.

Teimoso!!!!



"Um homem, de 60 anos, natural de Ansião, foi detido anteontem por duas vezes, em menos de quatro horas, por militares da GNR, na Mealhada, quando conduzia um automóvel sob o efeito do álcool.

Da primeira vez, por volta das 19 horas, apresentava uma taxa de alcoolemia de 2,04 g/l . À segunda, pelas 23,30 horas, acusou 1,65 g/l. Mas, como se isso não bastasse, o indivíduo, motorista de profissão, tinha a carta de condução apreendida por força de outra infracção grave, estando, por isso, inibido de conduzir, avançou fonte da GNR. Por isso, além dos crimes de condução sob o efeito do álcool, terá também de responder em tribunal por vários crimes de desobediência."

In Jornal de Notícias

Nem de porrada são fartos!!!

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (14): A CHOCA-CHOCA



Até há muito pouco, pelo menos até começar a escrever estas pequenas histórias, estava convencido que a minha aldeia, onde passei grande parte da minha infância, é um lugarejo que sempre foi tristonho, onde, hoje, no rosto dos seus habitantes, mesmo os mais idosos, perpassa uma sombria solidão. Parece que, nos ombros, carregam uma pesada herança feita de escolhos e engulhos. É raro –embora exista- olhar um rosto e sentir naqueles olhos uma espiritualidade e uma alegria de criança traquina.
Antes de começar a perscrutar esta vivência de outros tempos imaginava que, pelo que conhecia, os habitantes de Barrô viviam apenas do trabalho e para o trabalho. Que não existia uma cultura, undergrond, subterrânea que emergisse daquele povo solitário e aparentemente pouco solidário. Aos poucos, a conversar com as pessoas mais idosas e plenos de uma sã e viva recordação, venho a descobrir uma série de verdades que, aprioristicamente, tinha erradamente teorizado, assim como uma imanente cultura própria de há cinquenta anos atrás. É curioso o gosto e a desenvoltura com que as pessoas falam de um passado que, sendo deles, foi partilhado com tantos outros que a morte levou e cujos nomes, só eles, retém na memória. Quando penso que estou a maça-los com perguntas inconvenientes, reparo no ar afogueado das maçãs dos seus rostos, no brilho da menina dos seus olhos, como se nesta conversa, iniciassem uma viagem ao passado e este desabafar lhes fizesse bem. Como se sentissem que querem partilhar comigo algo íntimo e pessoal. Sinceramente, leitor, gostava de conseguir levar até si, através destas simples palavras, a mesma emoção que sinto quando converso com pessoas da minha aldeia e muito mais velhas do que eu.
Infelizmente, o tempo, na sua voragem dinâmica, em que, através da sobreposição cultural, dos usos e costumes, vai apagando a lembrança, e sepulta essa memória de antanho sem direito a epitáfio. Gostaria que soubessem que, embora tente ser o mais fiel possível daquilo que me é contado, não sou suficientemente investigador, indo ao mais fundo possível da verdade, como se escrevesse uma monografia. Não é isso que pretendo. São histórias simples de um povo humilde e trabalhador, retratados num lugar contextualizado do Portugal profundo, marcando uma época pobre e triste.
Com estas considerações abstractas, quase que perdi o assunto que me levou a escrever este texto. Mas calma, eu não me esqueço da sua curiosidade, leitor.
Há dias, em conversa com o meu amigo Agostinho Fernandes, a minha enciclopédia cultural, se posso falar assim, conversando acerca das minhas histórias, atira-me ele: “você não sabe, mas em Barrô, por volta dos anos de 1950, havia a moda do “choca-choca!”. Como, “choca-choca”, que é isso?! Interroguei, meio apalermado.
Explica o Agostinho: A “choca-choca” era uma dança popular, que não sabendo a origem, era, aos domingos à tarde, o entretenimento dos mais velhos. Juntavam-se vários homens e mulheres, no alpendre de um, e aleatoriamente ia passando no fim-de-semana seguinte para outro. Começavam com conversa fiada, bem regada com um tinto de estalar língua, transportado num pipo ou um garrafão, acompanhado com tremoços ou amendoins. Seguidamente, contavam-se umas anedotas e quando os efeitos etílicos do filho de Baco começavam a sentir-se, dançavam uns com os outros. E nem era necessário serem casados. Não havia nenhum instrumento musical. O compasso da música era marcado pelo som “choca-choca” saído da boca de um dos pares dançantes. Eram vários os dançarinos, Agostinho Fernandes relembra, entre eles, o pai, o saudoso “ti” João da Eira, o meu tio Ernesto e a minha tia Aida, o meu pai e a minha mãe, o Manuel Melo e a “ti” Saudade, -que foram os primeiros, na aldeia, a terem um estabelecimento de mercearia e taberna com petiscos- o Manuel Bento e Florinda Pires.
Para os mais novos, e também aos domingos, junto à casa do senhor Lino, actuava o acordeonista David de Horta, que vinha de bicicleta, da sua terra, de Horta até Barrô. Normalmente, sempre convidado pelo folguedo dinamizador do Manuel “fanangueiro”. No largo sobranceiro à casa daquele grande lavrador era colocada uma cadeira e aí estava o arraial pronto a começar. Quando chovia transferia-se para a eira do senhor Francisco Quintal. Contrariamente ao que eu pensava, a festa andava no ar e o bailarico estava sempre presente nos pés de cada um.

domingo, 13 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (13): O BARBEIRO

(CLARO QUE JÁ VIRAM QUE ESTE NÃO É O BARBEIRO DE QUEM FALO COM ÊNFASE)

Vou falar de uma profissão que, nos anos de 1950, era na minha aldeia de Barrô, ali, entre a Mealhada e o Luso, muito mais do que simplesmente um “metier”. Aquele cubículo do meu amigo “Zé barbeiro”, ainda hoje existente, como museu vivo, lutando contra o tempo, em forma de “consultório” podia, sem favor, ser tudo. Tão depressa era um santuário, onde se expressavam preces, se faziam confissões e se planeavam casamentos, como, por milagre, virava uma “casa do soalheiro”, onde se dizia mal de tudo o que mexia e de todos. Era ali que se sabiam as novidades. O “Zé” Maria, o “técnico-barbeiro”, era (e é) um bom homem. Mesmo sem conhecer uma única letra, a vida dura ensinou-o a ser assertivo e diplomata. Como Deus, leal e omnipresente, que apenas tem ouvidos, habituou-se a escutar, e, sem se comprometer, ao longo de décadas de profissão –que nestas coisas de feitios de homens, mudam-se os tempos, mas as vontades continuam firmes no “cortar a casaca” de alguém-, sempre foi acompanhando as conversas de modo a que o cliente sentisse que participava na história. Ele sempre soube colocar-se no seu lugar de ocasião, que um bom barbeiro para além de ser exímio na sua arte, deve ser conselheiro, padre, psicólogo, pai, de qualquer filho de mãe, e tantas vezes filho, se o freguês, sendo pai, mesmo que seja incógnito, é muito mais velho do que ele.
Começou por aprender a arte de escanhoar com o José Rodrigues. Não se lembram dele, pois não? É natural, já passou muito tempo! Este grande mestre, vinha de Várzeas, uma aldeia amorosa, mesmo encostada ao Luso, que dista cerca de oito quilómetros de Barrô, se fosse a direito, em direcção ao sítio da Lapa do Sino, por entre veredas e carreiros minúsculos de cabras, emoldurados por silvas e tojos, que só os sendeiros conheciam. O mestre vinha a pé, com a sua pequena maleta de cartão prensado e lá dentro com todos os apetrechos necessários a uma boa tosquiadela aos pelos de qualquer um. Ia a casa das pessoas desempenhar o seu ofício. Bastava uma cadeira e tanto podia ser na sala, na cozinha, como na adega. Normalmente, aos mais ricos, era aqui, rodeado de pipas, com cheiro a vinho-mosto, molhado de uma boa pinga e acompanhado de umas fatias de presunto, que se tentava o impossível, ou seja, alindar um feio rosto de nascença.
O Zé Maria, tinha então vinte anos, por volta de 1950, quando fundou a sua barbearia. Uma novidade na época. Onde não faltava o espelho e a cadeira de trono, esse luxo, para o freguês, que quando não palrava, passava pelas brasas: o assento de ferro fundido, estufada a napa, de António Pessoa. Um orgulho que na época lhe custou os olhos da cara.
Ainda hoje, passados mais de cinquenta anos, consegue sentir o prazer de amarrar, no pescoço do freguês, aquele grande avental branco, que cheirava a lavadinho, torcido e espremido nas águas correntes do rio, e corada na encosta granítica sobranceira ao moinho de água, que lá nessas coisas a Augusta, a sua mais-que-tudo, o amor da sua vida, nunca permitiu uma toalha suja no pescoço de ninguém. Nesse tempo, pagavam muito mal –os que pagavam, porque, mesmo assim, alguns ferravam-lhe o calote-, vejam bem que a anualidade era um alqueire de milho –não se lembra que medida era esta? O Zé Maria explica que era uma unidade de medida de capacidade para secos e líquidos que variava entre 13 e 22 litros. Com este pagamento o freguês tinha direito a cortar o cabelo quando necessitasse e a escanhoar a barba uma vez por semana.
Como a coisa começou a não render, não dava a gota para a perdigota, por volta dos anos 70, o meu amigo barbeiro alterou o contrato bilateral verbal que tinha com os seus fregueses. Em vez de receber em géneros, passou a ser pago a dinheiro. Então, segundo a tabela afixada, uma barba custava dez tostões e, em conjunto, de cabelo e barba, passou a custar vinte e cinco tostões. Então aconteceu uma coisa engraçada, sem graça para o meu amigo Zé, quando era pago com milho os fregueses andavam sempre lá a aparar a lã, como começou a ser pago com dinheiro só lá iam já com o cabelo enorme. Quando ele lhes perguntava a razão de tamanha ausência a resposta era igual: “sabes que agora usa-se o cabelo grande, como os Beatles, é moda, e nestas coisas, temos de seguir as tendências vindas do estrangeiro, percebes?!” Claro que o Zé Maria percebia, e de que maneira.

sábado, 12 de julho de 2008

RIR POR RIR, FAZENDO QUE RI, SEM SORRIR



Estes dois personagens sobejamente conhecidos da nossa praça, José Simão, proprietário e director do Jornal “A Folha de Santa Clara” e presidente da junta de freguesia da outra banda de lá do rio Mondego–a propósito será eticamente correcto que um director de um jornal seja autarca? A mim parece-me incorrecto. Um poder, o chamado quarto, por si só, já é imenso, quanto mais juntá-lo a outro de gerir uma freguesia ou um concelho. Que deve dar jeito, não tenho dúvidas. É assim uma espécie de junção de médico e doente ao mesmo tempo- e Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, foram apanhados neste “boneco” pelo fotografo do Jornal As Beiras, aquando da inauguração da Feira Popular.
Quais serão os motivos para estarem tão sorridentes? Seria apenas um sorriso de circunstância para o “boneco"?
Quanto ao segundo, Carlos Encarnação, até poderemos adivinhar a razão daquele sorriso, entre a matreirice e o contentamento. Afinal foi recebido nas “palminhas” e sendo o convidado de honra do presidente da freguesia de Santa Clara, que ainda há pouco tempo dizia cobras e lagartos desta coligação. Além disso, depois de apresentada a sua recandidatura, tudo corre sobre rodas. Na câmara, a oposição, preocupada em curar as suas chagas, nem se nota que existe. Bem brada João Silva aos cinco Continentes, ex-edil do PS, disparando contra tudo o que mexe, em todos os jornais da cidade contra os seus próprios correligionários, mas, está bem abelha!, ninguém lhe liga.
Ao que tudo parece indicar o seu opositor, na disputa da cadeira autárquica, vai ser mesmo Henrique Fernandes, actual Governador Civil e vice-presidente da autarquia no tempo de Manuel Machado (anteriormente a 2002). Por parte da CDU, certamente será o seu amigo Gouveia Monteiro. Só falta saber quem vai ser o preferido dos bloquistas.
Quanto ao sorriso de José Simão, aí é que está!, de que rirá ele? Não deveria ter feito uma “cara de pau”? Quanto a mim, teria motivos mais que suficientes. Quem é que entende que a Feira Popular se realize após o término da CIC, feira Comercial e Industrial de Coimbra? Fará algum sentido? Para além de engrandecer o certame comercial e industrial, que por motivos vários é sempre uma amostra do que é Coimbra, melhor dizendo, é sempre muito fraco, juntava os dois públicos. E não vale a pena apontar unicamente setas à ACIC, Associação Comercial de Coimbra, que a responsabilidade do fracasso daquele certame deverá ser repartido por vários: conimbricenses em geral, comerciantes e industriais e à própria autarquia que nunca olhou para este certame como espectáculo da cidade. E continua. Como prémio da sã convivência bipartida e partidária, a câmara Coimbrã, ao ceder um terreno junto à rotunda das Lages, para que a ACIC construa um pequeno pavilhão, que para além de não servir para albergar toda a feira, muito menos servirá para realizar grandes espectáculos e todos os eventos temáticos que são feitas na cidade e debaixo de uma grande tenda alugada que, segundo informações correntes, custam aos cofres da autarquia mais de 15.000 Euros por cada evento. Mais uma vez, sem planeamento financeiro futuro, neste pequeno desenrasca, vai ser mandado dinheiro às urtigas.
Enfim! Eles, José Simão e Carlos Encarnação, lá saberão as linhas com que se cozem. Em política partidária a submissão, envolvida num largo sorriso de bonomia, sem reivindicação efectiva, numa espécie de sanduíche, traz sempre resultados futuros para os sorridentes.
Já agora, a talhe de foice, porque será que o povo ri tão pouco? Será porque é demasiado sério? Ou será porque o sorriso, seguindo as linhas económicas, se tornou num bem escasso e só se dá a quem o merece? Ou então o povo, na sua extensa sabedoria, certamente intuiu que, na obsessiva fúria taxativa do governo, o melhor é rir pouco, caso contrário, também apanha pela medida grande e já pouco falta para pagar imposto?
Se por acaso um dia destes uns fulanos bem engravatados lhe perguntarem sobre a sua vida sexual, referindo que é para estudos de mercado, não acredite. Responda que, apesar de, mentalmente, lhe fazer uma falta danada, fisicamente, há mais de um ano que não tem nada com a sua Maria. Homem prevenido, pretensamente assexuado, vale por muitos portugueses.

PROVEDOR DE JUSTIÇA PEDE...JUSTIÇA



"A verdade é que, tendo-me deparado com quatro Governos - Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates - este último ganha aos pontos na "lenga-lenga". É preciso paciência...". É assim que Nascimento Rodrigues faz o balanço dos seus oito anos de mandato como Provedor de Justiça, que terminou na passada terça-feira.
O Provedor - que já por diversas vezes fez saber que está interessado em sair - ainda não tem substituto à vista. O Parlamento fecha na próxima sexta-feira para férias e não é certo que os deputados venham a discutir o assunto antes de deixarem São Bento.
Segundo o Expresso apurou, PS e PSD não chegaram a acordo sobre qual dos partidos tem primazia para indicar o nome do próximo Provedor. Assim, é bem provável que Nascimento Rodrigues venha a prolongar o seu mandato, pelo menos até meados de Setembro."
(in Semanário Expresso, de 12 de Julho de 2008)

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (12): O SENHOR CABRAL

(A CASA DO SENHOR CABRAL, HOJE DEMOLIDA, ERA AO LADO DESTA, ONDE SE VÊ O PORTÃO DE CHAPA ZINCADA)

Quando eu era miúdo, no início dos anos de 1960, na minha aldeia, havia um senhor abastado que sempre me provocou uma profunda curiosidade. Parece que estou a vê-lo, era um homem pequenino, de uma quase ínfima estatura. De cabelo penteado para trás, sempre muito bem vestido. Quando caminhava, com os seus passos elegantes, parecia deslizar em campo magnético e precisão metódica como escala musical. Comparando a imagem deste habitante, desaparecido há várias décadas, de Barrô, com alguém que possamos reter na memória, como retrato de simplicidade, vem-me à ideia, quase como colagem, tanto física, como anímica, Gandhi, líder pacifista indiano (1869-1940), que, pela resistência passiva, levou aquela ex-colónia britânica, à independência.
O que sempre me admirou era a extrema deferência, quase adoração mística, que o povo da aldeia reservava ao senhor Cabral. Quando qualquer pessoa o encontrava na rua, tinha para com ele o mesmo tratamento que se tinha para com o senhor vigário. Constantes vénias e os olhos presos ao chão, como se, pela sua santidade de imponência, qualquer simples mortal não tivesse o direito de olhar, olhos-nos-olhos, aquele ser sem mácula e sem pecado. Este homem, conjuntamente com a esposa, a dona Estefânia, mais conhecida como “Faninha”, era idolatrado como ser extraterreno. Em boa verdade, se esse facto constituía, para mim, algo pouco comum, por outro lado atribuía este comportamento reverencial como próprio de uma sociedade atrasada e quase feudal.
Quando comecei a escrever estes pequenos textos, pensei, logo no inicio, que um dos temas que trataria seria inevitavelmente a vida deste homem pequeno na estatura, mas, sei agora, tal como o Mahatma Gandhi, uma grande alma. E o mais curioso também é que ao tomar conhecimento do comportamento sui generis desta família abastada, veio mandar por terra uma já teoria pré-formada, consolidada na minha cabeça, e usual nesse tempo, de que todos os homens ricos da aldeia eram somíticos, safardanas, uns trastes que, pela ignorância e pobreza, sempre que podiam, se aproveitavam dos mais carenciados, através de subterfúgios, envolvendo pequenos empréstimos a juros, para os deixar de tanga e ficar com mais algumas propriedades e, deste modo, acrescentarem mais umas leiras ao seu império a perder de vista no horizonte.
Então, o que tinha este homem de especial? Interroga-se você, leitor. Vamos com calma que já lá chego. Começo por lhe dizer que o senhor Cabral foi guarda-livros, muitos anos, nos refrigerantes Buçaco -já encerrados há cerca 30 anos-, ao lado da estação ferroviária do Luso. Segundo informações que consegui, dava injecções a quem necessitasse e sem nada levar em troca. Para além disso, foi também presidente da Junta de Freguesia de Luso. Parece que, também, num período de transição, foi presidente da Câmara da Mealhada. Foi também neste período que mandou alcatroar a estrada principal da aldeia, desde o Muro de Troncho, junto à estrada Mealhada-Luso, até ao centro do lugar. Olhando este currículo, aparentemente, está explicada a reverência do povo por este homem. Pois, parece, mas só ilusoriamente. O respeito que as pessoas pobres da povoação lhe guardavam provinha, sem dúvida nenhuma, do grau de protecção e segurança que o seu status projectava nelas, em virtude do seu estatuto político, mas, e é aqui, creio, que reside toda a idolatria quase mística por este personagem: o senhor Cabral, para além de deter poder de influência e ser um abastado proprietário, era uma pessoa bondosa e de elevada humanidade.
Durante o ano matava três porcos. Um deles era para distribuir pelos mais pobres do lugarejo. Como era costume nessa época, sempre que morria alguém na povoação, o senhor Cabral, na noite de vigília ao defunto, mandava entregar comer já confeccionado para que a família enlutada, nessa noite, não tivesse de fazer refeições e, em paz, pudessem sofrer a sua dor. Normalmente a ementa era composta por caldo de arroz e batatas cozidas com bacalhau. Como era co-proprietário dum grande lagar de azeite, que existia junto ao rio, a oeste da população, a caminho do sítio do Barrocão, mandava distribuir o precioso néctar da oliveira pelos mais carenciados.
O povo agradecido, dentro das suas parcas possibilidades, ressarcia-o com pequenos encómios. Por exemplo, sempre que uma família pobre matava o seu porquito, era costume, nesse dia, colocar dentro de um prato, coberto com um guardanapo de pano, um bocado de carne e iam entregar ao senhor Cabral e à senhora Faninha. Outro grau de deferência também engraçado: sempre que um membro de uma família mais carenciada se casava, as primeiras pessoas a serem convidadas eram a família Cabral.
Como morreu sem filhos, veio a fazer metade da sua extensa fortuna à sua criada, a Arminda que veio a contrair matrimónio com o capataz, o Álvaro e no qual tiveram dois filhos. A outra metade foi testada ao primogénito destes seus outrora criados, o António, pessoa que o senhor Cabral e a senhora Faninha amavam como um filho seu.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (11): O ESTRUME DA CIDADE

(FOTO DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)

Em meados do século passado, nas aldeias, os animais, para além de constituírem a força motriz dos campos e a reserva alimentar de carne dos seus donos, enquanto permaneciam nos currais, eram “fabricantes” de estrume. Esta mistura fermentada, com os seus próprios dejectos, e também o mato roçado nos pinhais que lhes serviam de cama, constituíam um poderoso adubo orgânico nas sementeiras.
Porém, para os grandes lavradores mais abastados esse estrume, produzido pelos seus próprios animais, era insuficiente, então muitos deles recorriam à “importação” de esterco da cidade. Não sei exactamente de onde, mas provavelmente de grandes quintas, imagino, como, por exemplo, a então Escola de Regentes Agrícolas, hoje chamada apenas de Escola Agrícola de Coimbra.
Um desses lavradores, na minha aldeia, em Barrô, era o senhor Matos, que recebia o estrume directamente nas suas muitas vinhas, na zona de Cadouços, ali mesmo encostado a Grada, junto à Mealhada. Como os meus pais trabalhavam à jorna, ao dia, para eles, quem habitualmente ia espalhar o esterco, porque era um serviço mais leve e menos especializado, era a minha mãe. Então, entre a primavera e o verão, eu com cinco ou seis anos, acompanhava-a para os campos afastados da aldeia e perdidos no horizonte longínquo. Recordo com nostalgia os ruídos reconfortantes, tão próprios da quietude dos campos. O chilrear dos muitos passarinhos, o particular cantar do cuco, o bater de asas de um milhafre que se assustara, ou decidiu partir para longe. O vento a soprar por entre pinheiros esguios a desafiar o céu, criando uma melodia de mil acordes desafinados, de vez em quando um pequeno baque!, uma pinha desprendera-se da alta árvore e estatelara-se no chão suave, atapetado com milhentas “agulhas”, a caruma dos membros das Pináceas. O silvar de uma pequena serpente, saracoteando-se pela terra brava. A água correndo por pequenas valas, por entre vinhas, que servia para dissolver o sulfato para pulverizar as videiras contra os míldios e outras moléstias. O ar árido dos caminhos de terra batida, com o sol a esquentar e a morder as pedras, como só é possível sentir num dia de canícula. O descansar, sentado com as pernas ao comprido, encostado a uma oliveira e usufruindo da sua sombra paradisíaca.
Envolvido por todas estas sensações, vendo a minha mãe espalhar com esforço, amodorrando ao sol, como se as batidas do seu coração fossem audíveis naquele silêncio de mil ruídos, como se sentisse o seu sangue nas têmporas ansioso por chegar ao coração, com o suor a querer alagá-la, era então inundado pelo cheiro a estrume, um odor que, para a maioria seria fétido, desprezível, para mim era um prazer divinal para o meu olfacto.
Depois vinha o melhor, o magusto para as minhas brincadeiras. Mal a minha mãe começava a espalhar o esterco, eu, ao seu lado, como arqueólogo atento, não perdia um centímetro do novo manto da terra negra. É que, misturados nos dejectos, vinham pequenos tesouros, despiciendos para os meninos abastados da cidade, mas uma pequena lotaria para mim, o menino da aldeia. E, perguntará o leitor, que riquezas seriam essas? Eram como despojos de guerra, pequenos brinquedos estropiados, carros sem rodas, bocados de lápis, isqueiros avariados –estes constituíam um forte fascínio, porque só os adultos os podiam usar e apenas com licença.
Se Tivesse conhecimento antecipado, na noite anterior, da ida para os campos para espalhar o esterco nas vinhas, de ansiedade, mal conseguia dormir. Imaginava, antecipadamente, no meio do estrume, um lindo brinquedo incólume, completo, porém, creio, que tal nunca aconteceu. Estes “restos” de brinquedos, conjuntamente com os que eu produzia da carrasca do pinheiro, foram a ponte para o meu imaginário.
Hoje, dá vontade rir, a mim e a si leitor, porque contar isto é tão “comezinho”, “coisinhas” tão sem jeito, mas, em boa verdade, estou a ter muito prazer em dividir isto consigo. É triste? É deprimente? Não sei! Se calhar é mesmo. Para mim é apenas a verdade de um tempo que passou. E porque o narro? Perguntará. Talvez por três motivos: o primeiro, provavelmente é que, com esta descrição estou a acertar contas, numa catarse, com o passado. O segundo, talvez, para que os mais novos tomem dele conhecimento. E o terceiro, sem querer ser alarmista, com algum receio que estes tempos infelizes possam voltar. Oxalá que não!

Lisboa recebe menos 60 mil carros por dia



"Segundo dados da Estradas de Portugal, nas diversas entradas e saídas de Lisboa no mês passado registou-se um decréscimo de cerca de 60 mil carros por dia face ao mês de Junho de 2007. Apesar desta queda significativa, não está a haver uma transferência correspondente do transporte individual para o transporte colectivo. A maior parte das empresas de transportes públicos que operam na área metropolitana de Lisboa, contactadas pelo Diário Económico, não registaram acréscimos sustentados ou homogéneos no número de passageiros transportados nos primeiros meses deste ano, face ao período homólogo de 2007.Como primeira conclusão, pode constatar-se que as pessoas estão a andar menos de carro por constrangimentos económicos, mas não estão a substituir o transporte individual por um uso acrescido do autocarro, do comboio ou do metropolitano. A segunda conclusão não pode ser quantificada, mas pressupõe-se que as pessoas estejam a adoptar de forma crescente a partilha do carro entre a casa e o trabalho, socorrendo-se das boleias para equilibrarem o orçamento."

In Diário Económico

Nem tudo é mau no aumento dos preços dos combustiveis!

Talvez assim os portugueses criem hábitos mais "amigos do ambiente" e que são, ao mesmo tempo, mais económicos!

Maia: câmara quer substituir peso das mochilas dos alunos por pen drives


"As mochilas podem ter os dias contados. O mote do projecto “Caderno Digital” não é “Aprender sem livros”, mas a sugestão assenta-lhe como uma luva. No início do próximo ano lectivo, os alunos do ensino básico da Maia vão poder aceder a todos os conteúdos leccionados e trabalhos realizados nas aulas através de uma simples pen drive. Todo o peso dos livros e cadernos pode agora ser substituído por uma pequena caneta USB facilmente transportável no estojo, pendurada ao pescoço ou até no bolso. "




Elogio a audácia e a vontade de acompanhar a evolução da tecnologia, no entanto, os suportes digitais dificilmente substituirão totalmente o papel e caneta, da mesma forma que a existência de máquinas de calcular não eliminou a necessidade do domínio da matemática (embora a prejudique) ou as edições online de jornais ou livros não se sobrepuseram ao papel!


Fica no entanto a nota de como uma medida simples, e barata, vem ajudar os alunos e, especialmente, vem obrigar os professores a reverem e actualizarem os seus métodos!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

LUSO: O SEGUNDO ASSALTO AOS CORREIOS

(Foto do Blogue "Adelos.Blogspot.com")

Segundo o Jornal da Mealhada (JM), de ontem, 9 de Julho, pela segunda vez a estação dos CTT do Luso voltou a ser assaltada.
“Cerca das 12 horas, um indivíduo, de óculos escuros e de chapéu, que lhe tapava metade do rosto, segundo disse a funcionária, e munido de uma arma de fogo, entrou no posto de correios e ameaçou a funcionária que lhe deu todo o dinheiro que tinha em caixa, não se sabendo ao certo quanto dinheiro era”, refere o JM.
Aquela serenidade e bucolismo, tão encantadores, que o luso nos habituou está a desaparecer. E, sendo assim, não fará sentido aumentar a vigilância por parte da GNR? São os tempos que correm. A propriedade só presta para pagar impostos ao Estado. Este, que deveria defendê-la, não o faz, e mais: ai de quem passar à acção directa. Todos, placidamente, numa de calma, devemos deixar roubar ou furtar E até é tão fácil o gamanço. Não paga impostos. Não há problemas de números clausus. Não precisa de se ser sindicalizado ou estar inscrito na Ordem. É uma actividade segura, lucrativa e que dá para todos. A censura social já foi. Hoje o que importa é o ter. O ser, no sentido de onde advém esse ter, é despiciendo. A punição coerciva também não amedronta, desde que não se seja apanhado em “flagras” não há mesmo problema nenhum.
E você, que pode ser um “artista” do gamanço em potencial, nunca pensou em entrar nesta actividade? Vá lá, confesse! Não seja tímido! Claro que já! Está a pensar se, na minha cabeça, já andaram esses pensamentos? Claro! Só que ainda não descobri o golpe perfeito. Esse é o meu problema. Magico, magico e…nada!
Só perde quem tem.

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (10): O ONZEIRO

(RUA PRINCIPAL DE BARRÔ)

Como já escrevi em anteriores apontamentos sobre a minha aldeia, haviam cerca de quatro abastados lavradores e, para além deles, mais uns tantos que embora não o fossem a tempo inteiro, possuíam bastantes terras, em que davam trabalho aos rurais mais pobres, os alugados, que viviam em pequenas casinhotas, quase tugúrios. Para além do amanho das suas terras, aqueles “senhores”, importantes na povoação, tinham profissões nobres, como por exemplo na hotelaria. Hoje pouca gente se lembra, mas desde há cinquenta anos atrás que a freguesia de Luso e concelho da Mealhada era o berçário de Portugal que, através de mão-de-obra, abastecia a hotelaria de meio país. Era comum encontrar-se, desde o Minho ao Algarve, num qualquer restaurante, passando das mesas à cozinha, um empregado que era desta zona. Daqui saíram grandes chefes de cozinha, de mesa e grandes barmens. Hoje, os que restam, estão espalhados pelo continente e ilhas como empresários hoteleiros.
Ora, inevitavelmente, Barrô, a minha aldeia, também tinha nessa altura os seus grandes chefes de hotelaria. Um deles, de que vou falar, era o “Senhor” Manuel Ventosa –nome deturpado. Homem de avantajada barriga, e senhor de um ego enorme que mal cabia na rua principal da aldeia, quando falava escolhia as palavras mais esmeradas. Era chefe de mesas no Palace hotel da Curia. Tinha uma voz forte, que facilmente se impunha a uns tantos pobres camponeses alquebrados pelo peso da miséria. Para além de dar algum trabalho aos mais carenciados, como certamente ganhava bem -nesse tempo, para além do ordenado era costume receber-se boas gorjetas na hotelaria- ainda era um bocado forreta, e, como tal, tinha uns dinheiros aferrolhados, como quem diz, uns “contitos” que emprestava a juros aos mais necessitados. Como era costume desse tempo, estas pessoas, que emprestavam dinheiro a 11%, uma espécie de agiotas, eram conhecidas como onzeiros.
Se o financiado não merecia crédito era imediatamente despachado com a frase-mestra: “ó dianho, vieste mesmo numa altura desgraçada, se tivesses vindo ontem! Estou mesmo desprevenido, estou mesmo a tinir. Que pena!”
Se o “pedincha” merecia algum crédito, então a coisa já “chiava” mais fino. Então, nesse caso, toca de fazer o empréstimo difícil: “homem, como é que me vais pagar? Tu não tens nada, para além do ar que respiras e de uma ambição desmedida! Ah, queres dinheiro?! O dinheiro é a coisa mais séria deste mundo. Por ele se ama, por ele se mata, por ele perdem batalhas, por ele se fazem guerras. O dinheiro é sangue! Percebes, homem de Deus? É sangue que corre nos interstícios das gentes, que irmana e aparta”. Este discurso durava no mínimo duas horas. Quando o carenciado de dinheiro saía com os contos emprestados, normalmente sempre aquém do solicitado, levava consigo um estigma de pobre, um travo de amargura que lhe “amandava” a alma para o charco.
O senhor Ventosa tinha uma única filha, e para ela mil esperanças de um futuro radioso. Não seria um qualquer “pé-rapado” que levaria a sua “Margarida”. Quem levasse a sua Guida, obviamente só com a sua necessária autorização, tinha de ter dote. Jamais seria um malandro de um morcão qualquer. “Isso é que era bom”, pensava ele, amiúde vezes, para com os seus botões. Por isso trazia sempre a filha “à rédea curta”.
Então, um dia, negro e triste para sempre, o Ventosa descobriu que o seu “tesouro” andava a ser cortejado por um rapazola lá da aldeia. Que por sinal nem era filho de más famílias, até era bem “apessoado” e trabalhava num hotel em Coimbra, o problema era ser pobre. E isso não admitia. Só por cima do seu cadáver. Além disso, no seu íntimo, algo lhe dizia que o rapazola era demasiado aperaltado para a sua “mais-que-tudo” filha do seu coração. Tinha ar de “estoira-vergas”, um bocado para o petulante. Não batia a gota com a perdigota. Daí a proibir a rapariga de se encontrar com o marmanjo foi um passo. Mas, a rapariga não descolava do raio do valdevinos. “Isto é que é uma sina”, pensava. Ainda deu uns “enxertos” de pancada na rapariga, mas nem assim. O raio da cachopa tinha os olhos inclinados à remela e só tinha olhos para o don Juan.
Um dia deu-se o inevitável: a menina, feita mulher, farta da coacção física e psicológica do Ventosa, achou que valia mais um sonho na mão que mil futuros paternais a voar, combinando previamente com o amor da sua vida, durante a noite, saltando de uma janela de cerca de três metros de altura, fugiu com o seu amado para longe. Casou com ele, tiveram dois filhos, e durante alguns anos foram felizes. Mas, e aqui reside o busílis da questão, o Ventosa, que não era presciente, não adivinhava, ali acertou em cheio. O tempo veio dar-lhe razão, o don Juan depressa se cansou da Margarida e tomado de amores por outra, veio a separar-se desta, juntando trapinhos com o seu novo amor.
Durante meses, na aldeia não se falou de outra coisa. Com o estigma da vergonha, o Ventosa nunca mais foi o mesmo, e veio a morrer com esse peso no coração. Não tenho a certeza, mas suponho que em vida nunca veio a reconhecer e a afeiçoar-se aos seus netos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Kilauea entra em erupção!



"Está generando chorros de lava de hasta doce metros de altura.
Miles de personas visitan Hawai cada año sólo para ver este volcán.
Situado en la parte sur de la isla de Hawaii, su caldera tiene una profundidad de 165 metros, con un diámetro de entre 3 y 5 km."

In 20minutos

Fantástica esta bela manifestação da natureza que, infelizmente, tantas vezes acaba em tragédia!

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (9): O CARRO DA MINHA FANTASIA

(UM MODELO IGUAL E DO MESMO ANO)

Por volta do inicio dos anos de 1960, na minha aldeia, em Barrô, uma bonita terra que divide a meio a Mealhada e o Luso, num universo de, provavelmente, seis dezenas de habitantes, havia já, pelo menos, quatro automóveis, o que, a meu ver, constitui uma inovação para a época, numa terra onde apenas havia uma televisão e nem sequer existia um único tractor. A única máquina mecânica que se via por aquelas bandas, uma vez por ano, era uma enorme debulhadeira, por alturas da apanha do trigo e do centeio. Era um espectáculo ver aquela grande máquina trabalhar, movida a gasóleo. Todo o labor da agricultura era feita pela força braçal e com a ajuda de animais, normalmente o boi, que, para além do carro de duas rodas, puxava também a charrua e o arado. O burro era sobretudo empregue para pequenas cargas transportadas em carroça.
Se a memória não me falha, o primeiro automóvel pertenceu ao “Senhor José Maria”, um dos homens mais importantes da terra. Não porque tivesse muitas propriedades, mas porque estava estabelecido em Coimbra, com o Café Arcádia. Este café, hoje infelizmente desaparecido, foi talvez o estabelecimento mais emblemático da cidade dos estudantes, onde foi local de tertúlia de vários prosadores e poetas como Adolfo Rocha, mais conhecido como Miguel Torga.
O “Senhor José Maria”, como era conhecido na altura –e ainda hoje, porque goza de boa saúde e, curiosamente, apesar da desvalorização do status, do estatuto que os mais ricos tiveram perante o povo, este homem nunca perdeu o tratamento de “Senhor”. Embora septuagenário, parece ter menos vinte anos. É um gentleman, um homem que ao falar parece abraçar-nos, como se a sua voz viesse de cima, plena de encómios e embrulhada em perfumadas rosas silvestres. Não é um falar meloso e sussurrado como diplomata, mas uma voz bem timbrada e sonora. Um dia destes voltarei a falar da importância deste homem, e o quanto significou para mim, há 25 anos atrás. Embora ele nem sonhe, só o simples facto de ter pronunciado o nome dele, abriu-se-me uma janela que ditou o meu futuro.
O segundo automóvel pertenceu ao “Senhor” Lino, o mais abastado lavrador da aldeia. O terceiro seria propriedade do Agostinho Fernandes também a trabalhar em Coimbra. E o quarto automóvel foi então o carro da minha fantasia. Pertencia ao “Senhor” Matos, abastado lavrador, mas que, conjuntamente com essa complementaridade, da labuta da terra, exercia a profissão principal de “choufeur” das “camionetes” dos Oliveiras de Águeda. Ou seja, como se diz hoje, condutor dos autocarros da empresa génese da Rodoviária Nacional. Lembro-me do senhor Matos vestido com a farda obrigatória da empresa: sapato preto, calça e blusão, de um cinzento mescla, camisa branca e gravata, encimados por um boné de pala, com uma pequena placa gravada.
O senhor Matos era então proprietário de um Austin de 1932, de cor verde, de jantes raiadas, com dois grandes faróis em destacado e com as portas a abrir ao contrário, de detrás para a frente. Aquele maravilhoso objecto de locomoção estava numa garagem improvisada, junto à sua casa, num barracão, ao lado da capela. Como ao regressar da escola tinha de impreterivelmente passar ao seu lado, aos poucos fui ganhando um amor por aquele automóvel. E, quando após mal ter poisado a pasta da escola, pegava em duas cordas e num foicinho –pequena foice curva que servia para cortar fenos- para ir apanhar dois molhos de erva para os animais, por uns minutos, olhava embevecido para aquele carro da minha paixão. Às vezes era apanhado, em flagrante, pelo senhor Matos que estranhava aquele meu olhar para um objecto, que, para ele era “lana caprina”, coisa vulgar. Então perguntava-me, meio confundido, porque não ia eu brincar com os outros miúdos. Eu respondia que tinha de ir apanhar erva, senão apanhava pancada. E lá ia, em direcção ao “Barreiro”, um extenso vale, composto por hortas, leiras ou belgas. Era ali que a maioria dos desamparados da fortuna tinham o seu celeiro. Passava ao lado da fonte do Barreiro, pequena nascente de chafurdo, que, antes de haver água canalizada, durante décadas, abasteceu toda a aldeia.
Quando eu tinha 15 anos, e ganhava mil escudos por mês que iam inteirinhos para o meu pai, o senhor Matos colocou o automóvel à venda. Num último arremesso, ainda ousei perguntar-lhe por quanto tencionava vendê-lo. “Quero quinze contos”, respondeu-me por entre um sorriso escarninho. Certamente dividido entre a admiração e o sarcástico.
Sei que o carro da minha fantasia foi então vendido para a Mealhada. Perdi o automóvel mas não perdi a memória e o sonho de um dia ter um igual.

terça-feira, 8 de julho de 2008

ELEGIA À VILA DE LUSO

(estas obras deixam-me apreensivo -Imagens retiradas do blogue "Adelo.blogspot.com)



Ó Luso gosto de ti,
desde os tempos de menino,
dava voltas no teu ventre,
ainda era pequenino;
Mal comecei a amar,
meu amor, foste a razão,
mal podia te chamar,
entrei no teu coração;
À sombra do castanheiro,
repousava do calor,
cantava o melro matreiro,
as minhas trovas de amor;
Na fonte enchia a alma,
nas bicas água beijei,
no teu sorriso a calma,
de um amor que conquistei;
Na fonte de São João,
não respeitam a idade,
tocam na recordação,
pedra da minha saudade;
Quero o meu amor passado,
Luso da minha paixão,
um bulício tão marcado,
a fogo no coração.

MEMÓRIAS DA MINHA ALDEIA: A CRIADA (8)

(UMA CRIADA DE SERVIR. EVIDENTEMENTE QUE NÃO É DESTA QUE FALO)

Era normal, por volta das décadas de 1950 até 1974, os lavradores mais abastados terem os seus criados. Hoje a palavra “criado”, é unanimemente reconhecida como resultado de um tempo pouco respeitoso para quem trabalhava por conta de outrem, tem um espírito imanente de blasfémia, indecoroso, uma exploração do homem lobo do homem. Tem acoplado a si um estigma de servir forçado, um espírito esclavagista. Nos nossos dias ninguém se refere a um seu colaborador como criado, mas sim como funcionário ou empregado. Até a palavra “serviçal”, que nada tem a ver com “criado” se tornou abominável e caiu também em desuso. Como todos sabemos esta dignidade reconhecida ao trabalhador só foi implementada com o 25 de Abril de 74, constituindo matéria fundamental da Constituição Portuguesa de 1976.
Em meados do século passado, era vulgar homem ou mulher irem trabalhar ainda crianças para casa dos “senhores”, onde lá casavam, ficando, após o enlace, os dois consortes a viverem num anexo à casa do “senhor” lavrador abastado. Estes criados eram “pau para toda a colher”, tanto cuidavam das terras, como dos imensos animais, quer utilizados na agricultura, quer na alimentação, como, por exemplo, bois e vacas, dezenas e dezenas de galinhas, cabras, ovelhas e imensos porcos para matança. Para além disso, ainda cuidavam da limpeza da casa e de todas as necessidades dos seus patrões. Embora pouco usual, mas há casos em que alguns grandes proprietários que, não tendo filhos, em reconhecimento de uma vida servil e leal, vieram a testar os seus criados em toda a sua imensa fortuna.
Depois desta resenha histórica, vou falar de uma criada muito especial que trabalhava na minha aldeia, em Barrô, em casa de uma família abastada, por volta do início dos anos 60, o senhor Matos. Curiosamente, ainda também familiar afastado, por laços consanguíneos, do meu pai.
Esta criada, a Cremilde, que salvo erro era de Grada, uma povoação próxima, era uma mulher extraordinária, embora nova, talvez à época com vinte anos, tinha uma vivacidade contagiante. Muito esperta, muito simpática e, ao mesmo tempo, muito liberal, fora daqueles convencionalismos bacocos próprios daquele tempo. Era como se aquela rapariga, em pleno atraso de meados do século, pertencesse ao século XXI. Como se todos estes atributos não chegassem era lindíssima. Era pequenina, tipo “mignon”, um torrãozinho de açúcar de cabelo curto. Os olhos da Cremilde eram profundos. E nem só os olhos, a pele de um moreno cálido, que apetecia afagar, umas ancas roliças, não exageradas, e uns pequenos seios firmes. Mas o que mais impressionava era a sua vivacidade, o seu espírito inquieto, que apetecia tomá-la nos braços e saborear aquela vida resplandecente que, como aura, saía dela como torrentes de água pura. A Cremilde era a esperança e, ao mesmo tempo, a frustração. Tão depressa parecia oferecer o céu, como, de repente, sem se saber porquê, certamente se detectasse umas intenções para além das suas limitações, tornava-se turbulenta, cheia de nuvens negras, deixando qualquer homem desnorteado. Era essa ambiguidade que desconcertava. Lembro-me de o “Pinhão” –um bardino, um estroina malandrote, que viria a suicidar-se, e que em próximo apontamento falarei dele- andar à volta dela, como abelha a zumbir em volta da flor, procurando o seu pólen.
Um dia, no início dos anos 60, em Janeiro, por altura da festa anual da terra, em honra do mártir S. Sebastião, no bailarico, que nessa altura foi feito em frente à casa do senhor Lino, ao fundo do lugar, por ter maior espaço que o terreiro da Capela, um cigano, de um grupo de dois ou três, apercebendo-se da rara beleza da Cremilde, foi-lhe pedir para dançar. Esta, que não era de modas, certamente não gostou da cara dele, e evidentemente que negou. Aquele, habituado ao seu estatuto de temor, insistiu, chegando à má-criação. A Cremilde não foi de modas e paf!, um valente sopapo no cigano. Calculemos a cara do homem. Certamente não se enterrou pelo chão abaixo porque não dava. Vai daí, como cigano não leva desaforo para casa, toca de puxar a rapariga pela força. O povo ao ver a violência em perspectiva sobre a mulher, juntam-se e toca de chegar a “roupa ao pelo” aos descendentes de leste. Ao verem-se acossados, mais não fizeram do que dar ao slide. No espaço de fuga de 100 metros, entre o fundo do lugar e o largo da Capela, anavalharam umas quatro pessoas que nada tinham a ver com o assunto, iam tranquilamente a passar. Um deles, o senhor Francisco Rocha, já falecido, ficou com marcas para o resto da vida, nunca mais deixou de coxear. Quando lhe falavam em ciganos o homem ficava branco como a cal da parede.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (7): A ESTRELA DE 5 PONTAS


(A ESCOLA DA LAMEIRA DE SÃO PEDRO)


Já falei aqui, em anteriores apontamentos, daquela que foi a minha escola primária, na Lameira de São Pedro, que dista cerca de cinco quilómetros da minha aldeia Barrô, assim chamada pelas grandes jazidas de barro de grande qualidade que deram origem a duas grandes fábricas de telha e tijolo –hoje extintas-, a norte da povoação, muito próximo de Vila Nova de Monsarros.
Frequentei aquela escola de 1962 a 1965. Nesse tempo, já o escrevi anteriormente, as classes masculina e feminina estavam divididas em duas salas distintas. Até há dias pensei que esta escola tinha sido mandada edificar por Salazar, e dentro do âmbito da política do ministério da instrução do Estado Novo (1933-1974). Mas não! Não foi Salazar que, preocupado com o grau de iliteracia do concelho da Mealhada, criou aquele estabelecimento de ensino. E quem foi? Pergunta você leitor. Tenha paciência, primeiro vou contar a história que considero uma curiosidade. Posso adiantar-lhe que a “assinatura” do benemérito está na estrela de cinco pontas que se encontra no frontispício, por cima das quatro colunas neoclássicas, e atrás da bandeira nacional.
O que considero uma lacuna grave é a escola não possuir nenhuma placa identificadora do seu fundador. Se possui, estará fora de vistas. Pelo menos eu, quer enquanto frequentei o ensino, quer depois, nunca ouvi falar no grande benemérito da instrução cujo selo de identidade era…a estrela de cinco pontas deixada no frontão do edifício. Embora desconheça quantas, mas sei que há várias escolas distribuídas pelo país com esta sigla.
Lembro-me que, no início dos anos 60, como a pobreza na freguesia de Luso era uma maleita imensa, nomeadamente a alimentação, foi construída uma grande e moderna cantina para os alunos poderem alimentarem-se com pelo menos uma boa refeição, neste caso, o almoço. O grande benemérito desta cantina foi Alexandre de Almeida, há época o proprietário dos hotéis, Palace do Bussaco e do Palace da Cúria. Retenho na memória de, pelo menos de uma vez, a escola ter sido visitada por este grande empresário hoteleiro e de todos os alunos estarem perfilados na cantina enquanto decorreu a visita do homem que estava a financiar aquele refeitório, Alexandre de Almeida.
Agora, acerca do benemérito da escola pública da Lameira, eu nunca ouvi nada, pelo menos até há dias. Em conversa com o meu amigo Filipe Rebelo, Juiz jubilado, homem de extensa cultura, perscrutador de silêncios de bibliotecas e estudioso do saber de alfarrábios de antanho, acerca do castelo de Barrô, atira-me, então, de supetão: “olhe que a escola da Lameira de São Pedro é da responsabilidade da mesma pessoa, ou seja, Francisco Grandella”. Mais tarde, a consubstanciar a informação, mostrou-me a primeira edição da “Cidade e os Campos”, ano um, em que realmente aquela publicação, da responsabilidade do dono dos Grandes Armazéns do Chiado, referia, através de foto, que todas as escolas criadas através da benemerência daquele grande comerciante detêm a estrela de cinco pontas no frontão do edifício.
Mais tarde, em conversa com a pessoa mais idosa de Barrô, e talvez da freguesia de Luso, a senhora Lucília Dias –fará um século de vida no dia 19 de Setembro de 2008-, segundo esta adorável centenária senhora, esta escola foi mandada construir pelo grande comerciante Lisboeta para, mais uma vez, agradar ao seu grande amor clandestino, a sua criada Aurora. Ao que parece, a eleita do coração de Grandella, que era de Barrô, tinha uma sobrinha que andava a estudar. Os planos do abastado comerciante e da “sua” Aurora para esta familiar era que ela, um dia, seria professora. Juntando o útil ao agradável, como quem diz, desenvolver o ensino na freguesia e ao mesmo tempo, mais tarde, aquele lugar seria ocupado pela sobrinha da sua amante. A escola construiu-se, mas a “tal” sobrinha de Aurora nunca chegou a concluir o magistério.
Ainda segundo informações avisadas de um conterrâneo, Alcides Vital, residente no Buçaco, refere-me o livro “O Concelho da Mealhada”, de Adelino de Melo, editado em 1919, sobre a Instrução Pública, e cita uma passagem: “Além das estatísticas, faz parte do número das 16 escolas, uma mista, aberta na Lameira de São Pedro, freguesia de Luzo, em 1918, cujo edifício foi oferecido à Câmara Municipal deste concelho pelo industrial lisbonense sr. Francisco Grandella, que tem à vista da escola, na povoação de Barrô, um elegante chalet. Insima-o a seguinte legenda: VII Escola –Fundada pelos Armazéns Grandella- sempre por bom caminho a seguir. Emídio Navarro MCMXV”.
Complementa, ainda, gentilmente, Alcides Vital Rego, que Francisco Grandella era maçon, e daí a razão da estrela de 5 pontas no edifício. Foi um dos fundadores da Sociedade dos Makavenkos, que integrava outras personalidades maçónicas como Rafael Bordalo Pinheiro.
Parece que nos começos do século XX era costume Grandella vir a “banhos” para as termas de Luso, águas abençoadas para várias terapias físicas e descanso mental. Então, para além do seu amor subversivo e ilegítimo ser natural de Barrô, como também gostava muito desta zona, mandou construir o castelo e a escola.
Foi assim, segundo Lucília Dias, que, em honra de uma paixão, nasce a escola da Lameira de São Pedro e o Castelo de Barrô sob os auspícios do grande homem, negociante e também preocupado com o grau de ensino do povo. Tudo indica que uma bela dama esteve por detrás destes gestos altruístas. O que um coração apaixonado não faz?

Não aprendemos nada




Estranho como a história tende a repetir-se!

Talvez agora as instituições competentes façam alguma coisa para reabilitar e reocupar os centros históricos da nossas cidades!

domingo, 6 de julho de 2008

LISBOA É UMA LIÇÃO

(IMAGEM DO BLOGUE "PIOLHO DA SOLUM")

Quem esteve ontem presente no espectáculo da Lisboeta Mariza, no páteo das Escolas, na Universidade de Coimbra, presenciou um grande momento musical.
Na plateia, de um conjunto de milhares de pessoas, naturalmente, toda a fina-flor da cidade. Desde o Governador Civil, presidente da Câmara, até ao chefe de gabinete, todos, entusiasticamente, batiam palmas.
No meio de tanto fado de Lisboa, cantados no coração da Alma Mater, ninguém se apercebeu que a velha torre chorava. O primeiro lamento foi às 22 horas, logo seguido dos acordes de Mariza. Por entre trinados sofridos, envergonhada, a velha “cabra” pensava que estranha ousadia: “vir cantar o fado de Lisboa a Coimbra, mesmo no centro do meu coração. Arre! E todos os detentores de poder da cidade, na primeira fila, entretidos a bater palmas, nem por um momento lembraram a vergonha da Lusa Atenas ter um fado caduco, velho, mal explorado comercialmente, dentro de uma redoma de vidro, que a Academia, num bacoquismo pacóvio não deixa crescer”. Continuava a velha torre a pensar, “alguém se lembra, nos últimos 20 anos, de algum cantor de fado de Coimbra que transpusesse as fronteiras da cidade? Pois não! Se fizerem um esforço, virão os últimos moicanos: o “Zeca Afonso, O Adriano Correia de Oliveira, o Betencourt, o Machado Soares, o Rui Pato, etc. Uns, dos poucos, que apenas resta a memória, outros que embora vivos, já meios caquéticos, são apenas uns ícones de um tempo que passou. Que tristeza! E aquela gente toda entretida a baterem palmas! Todos têm responsabilidades, mas parece que tudo está muito bem. O paradigma do situacionismo foi o momento em que os antigos orfeonistas, juntamente com Mariza, cantaram “Coimbra é uma lição”. Essa é boa! Deveriam, antes, ter cantado Lisboa é uma lição”, continuava a pensar a velha torre, intervalada por uma lágrima furtiva. “E mais, continuava ela, após as 23 badaladas, se por acaso estivesse a chover e fosse preciso transferir o espectáculo para outro lado, para onde iria? Coimbra não tem uma sala de espectáculos em condições. Mas todos batiam palmas alegremente, tudo numa nice!” Continuava a pensar a torre cimeira da Alta de Coimbra, “ora bolas, é um desrespeito pela minha idade, afinal tenho muitos séculos. São lanças a mais, é Lisboa a espetar-me uma bem no centro do meu coração. Até aquele rapaz, do boné, o Tito Pariz, que por acaso até gostei de o ouvir, vem de Cabo Verde e espeta-me também uma lança de África, aqui no corpo do velho colonizador. Porra, para isto! Eu sei que estou melancólica, que querem?, se calhar é da idade!”
À meia-noite, mesmo contrariada, a velha torre, numa badalada sofrida e desenfreada, saudou a Mariza na despedida. Tinha sido um grande espectáculo. É uma pena Coimbra não aprender com Lisboa, “é uma pena não é?”, parecia interrogar-me. Então e eu sei lá? Eu nem sou de cá!

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (6): O CASTELO DOS MEUS SONHOS


(O CASTELO DE BARRÔ)


Embora o IGESPAR refira haver 22 castelos e fortalezas em Portugal, pelo menos com a história deste, que vou contar, pouquíssimas aldeias de Portugal podem gabar-se de deter um monumento como este e como ex libris. Barrô, a minha aldeia, entre a Mealhada e o Luso, orgulhosamente tem o seu castelo de lendas de encantar. Estou certo que muitas pessoas não sabem da existência deste ícone de construção aparentemente medieval, mas construído por altura da 1ª grande Guerra. Por outro lado, os habitantes de Barrô nunca lhe deram a importância que lhe é devida. Tenho a certeza que se contarão pelos dedos das mãos as pessoas que sabem a história deste presumível refúgio contra invasores de um amor possível. Pouquíssimas pessoas saberão que esta interessante jóia arquitectónica resultou do reconhecimento de uma história de amor. E quem foi o apaixonado, perguntará o leitor? Calma! Posso dizer-lhe apenas que foi o maior comerciante do país do século XIX e até quase meados de XX. Foi, sem dúvida nenhuma o grande precursor dos modernos centros comerciais. “Nasceu em 1853, em Aveiras de Cima, no Concelho da Azambuja. Filho de médico, foi para Lisboa trabalhar no comércio ainda muito jovem. De marçano, na Rua dos Fanqueiros, estabelece-se por conta própria aos 27 anos na Rua da Prata. A loja chamava-se Fazendas Baratas, onde aplicou o preço fixo e fazia propaganda comercial” –informação retirada do blogue “Indústrias Culturais”. Então quem era este grande industrial, quem era? Calma! Primeiro vou referir a fonte que me permitiu saber a origem do “castelo dos meus sonhos”: Agostinho Fernandes, morador em Coimbra, natural de Barrô, com uma sensibilidade acima do comum, é um interessado pela história da região, nomeadamente tudo o que diga respeito à nossa aldeia e ao Luso, apaixonado pela arte, pela cultura em geral, erudita ou popular, e tudo o que lembre as nossas origens e reminiscências. Sem a informação importantíssima do Agostinho eu jamais teria sabido que aquele extraordinário edificado fora fruto de uma paixão, provavelmente um acto de amor de um lisboeta por uma bela mulher da nossa aldeia.
Este castelo, em forma de fortificação, a lembrar os “castros” da Idade Média, foi construído sobre uma base de pedra ou pedreira, na saída leste ou levante, em direcção ao Luso, numa elevação, em posição dominante sobre a paisagem em redor e junto a uma via de comunicação. Exactamente, obedecendo aos mesmos critérios arquitectónicos de construção medieva, do mesmo tipo do castelo de Almourol, com a sua torre cimeira a dominar, com frestas em forma de seteiras, um edifício central, mesmo no cimo do monte pedrado. Ao lado, lembro-me de uma bomba com um grande aro em ferro para extrair a água do poço. Por baixo, um pouco ao lado, uma longa galeria, ou cisterna, talvez a lembrar as prisões de antanho. Toda a área envolvente é murada com ameias, onde não falta a atalaia, ou espaço de aviso. A escada de acesso à torre cimeira, começava com um imenso portão em ferro forjado. Desde a abertura desta porta até ao edifício central era, nos anos 60, no meu tempo de criança, constituída por cerca de sete dezenas de degraus talhados na própria pedra rochosa, acompanhados ao longo da subida por grandes estatuetas em cimento. O terreno, dentro do muro ameado, era constituído por imensas árvores de fruto, entre figueiras, cerejeiras e nespereiras.
Passando ao lado do portão de ferro, ao longo do caminho de terra batida, havia um grande tanque cheio de água para todos os animais que passassem no caminho poderem saciarem a sede, e que provinha de um tubo a meio sempre com um fio de água a correr. Do lado direito, um grande portão verde de madeira, constituído por várias folhas, a terminar em bico, a imitar as construções moçárabes, resguardava, na garagem, um ou vários automóveis de luxo para a época. Relembro uma “arrastadeira”, um Citroen preto de jantes pintadas a branco.
Guardo na memória de, em criança, apenas ter entrado uma vez neste castelo que fazia parte da minha imaginação e fantasia. Subi aquela longa escadaria e parei, sem entrar, junto à torre cimeira, à entrada do salão principal. Fiquei extasiado, fascinado com uma enorme panóplia cheia de espadas cruzadas. Engraçado como retenho essa imagem ainda hoje. Desci e entrei apenas na galeria ou cisterna, quase por debaixo do chão, e, dentro dela, imaginei histórias das arábias, das mil e uma noites.
Vou então desvendar o mistério, a identidade de talvez o maior comerciante do século XIX e princípios de XX, tendo em conta o atraso que o nosso país registava em relação ao restante continente europeu. Trata-se de Francisco Grandella. Esse, Esse mesmo que o leitor está a pensar: Grandella, o grande homem, o dono dos Grandes Armazéns Grandella em Lisboa, que construiu e abriu ao público em 1894, para fazer frente aos grandes armazéns Printemps de Paris. Grandella introduziu o anúncio comercial, a possibilidade de trocar ou reembolsar o dinheiro caso o cliente não gostasse do produto, a entrega ao domicílio e a publicação de catálogos com as colecções. Em Benfica, Grandella edificou uma vila composta por muitas casas destinadas aos operários.
Hoje, o castelo que povoou os meus sonhos de menino, e que um dia tentei negociar, é, segundo Agostinho Fernandes, propriedade de uma família do Porto, a Melo Adrião, há várias décadas. Durante muitos anos esteve ao abandono e sujeito à decrepitude do tempo. Registe-se, com agrado, a sua recuperação nos últimos tempos por esta família.
Quanto à identidade da minha conterrânea e sublime paixão do grande comerciante, pouco se sabe. Segundo me afiança a senhora Lucília Dias, a mulher mais idosa da aldeia –fará um século de vida no dia 19 de Setembro de 2008-, chamava-se Aurora, era natural de Barrô, e filha do “Manel”, de apelido o “Riquenho”. Segundo as palavras lúcidas da encantadora centenária Lucília, a Aurora foi muito nova, para Lisboa, trabalhar, como criada doméstica para casa de Francisco Grandella. Ao que lhe parece, como ela era um “bom bocado e tenrinho” e ele muito mais velho, depressa ela subiu na hierarquia, ainda que na clandestinidade, e passou a ser criada para todo o serviço.
A senhora Lucília lembra-se muito bem da senhora Aurora. Trabalhou muitos anos no castelo como cozinheira. “Parece que a estou a ver, refere, usava sempre um grosso cordão de ouro ao pescoço e com um enorme medalhão”. Acrescenta ainda que era criança quando o castelo foi construído, talvez por volta de 1915, mais ou menos. “O meu pai acarretou muita pedra, coitadinho”, refere por entre um suspiro de saudade.
Apesar de ser uma relação moralmente condenável, na aldeia, Aurora foi muito bem acarinhada e, em paz, acabou os seus dias.
Por óbito desta senhora, o castelo foi testado aos sobrinhos Melo Adrião. Se você, leitor, sabe algo que possa acrescentar, comunique-me, é que esta história de amor, deixou-me a arder de curiosidade.

sábado, 5 de julho de 2008

A JUSTIÇA E O DIREITO



A propósito de uma notícia publicada no Jornal público de ontem, dia 04 de Julho, e também em editorial de José Manuel Fernandes, acerca da pobreza ser declarada, pela Assembleia da República, como uma violação dos direitos humanos e sancionar quem propiciar a sua existência ou criação, o deputado socialista Rogério Rodrigues, membro da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, afirmou o seguinte: “No campo teórico, todo o direito violado é passível de sanção”.
Como escrevia o director do jornal, “As boas intenções são muito perigosas em política, e mais perigosa ainda é a ideia de que tudo é responsabilidade de quem é governo. Mas, apesar de a experiência nos ter mostrado que o Estado deve limitar a sua intervenção à criação de condições para que todos tenham uma oportunidade e um mínimo de segurança, devendo abster-se de maiores interferências no destino dos indivíduos, a verdade é que ainda continua a ser popular a ideia de um Estado –e um Governo- omnipotente e omnisciente (...)”.
Como se sabe, ao longo da época moderna, e após a separação de poderes instituída pelo espírito da Revolução Francesa (1789) e implementada plenamente em 1814, foi sempre uma tentação dos executivos, mesmo em regimes ditos democráticos, nos nossos dias, controlarem os outros dois poderes. Lembro que a “separação de poderes” consiste numa doutrina formulada pela primeira vez por Locke e desenvolvida por Montesquieu, no seu tratado o “Espírito das Leis” que defende uma separação funcional, como fórmula de racionalização e delimitação de cada um da trilogia em causa, em que no Estado existem três poderes, embora inter-dependentes no espectro estadual, mas independentes entre si: o Legislativo, o Executivo e o Judicial.
A tentação de usar o direito em proveito próprio, para fins políticos pouco claros tem sido uma constante. E não se pense que este aproveitamento é só noutros países. Nada disso. Depois do 25 de Abril, aqui, em Portugal, também, às claras, e feito de forma legal. Embora a lei deva ser abstracta e geral, quando o legislador é o próprio governo (através de Decreto-Lei ou Portaria) ou mesmo a Assembleia da República, quando se tratam de leis votadas por maioria simples, havendo maioria absoluta do governo, é evidente que a lei passa a ser um instrumento do poder executivo. Só não é quando se tratam de leis reforçadas, em que na sua votação, é obrigatória uma maioria de dois terços dos deputados.
Então, obrigatoriamente, somos levados a pensar que se o Direito é um instrumento do poder executivo, afinal o que seremos nós, cidadãos, no meio disto tudo, sobretudo quando se fala numa crise de justiça? Provavelmente o seu objecto, quanto ao seu fim direccionado e pretendido, mas também um objecto, enquanto marionete, programada para dançar ao som de quem põe a música.
Porque, naturalmente se o direito, sendo a possibilidade de execução, a Constituição, de uma justiça, que, socialmente, é entendida como a virtude das virtudes, cujo fundamento é não prejudicar ninguém –nem beneficiar, só se a lei o conceber através de discriminação positiva-, ora, sendo a lei manipulada para interesses inconfessáveis, é lógico que a justiça, irmã siamesa da verdade, sai denegrida e fere de morte os seu princípios de proporcionalidade e de igualdade. É certo que pode haver justiça sem direito (caso da acção directa ou nas sociedades tribais) e haver direito e não haver justiça (caso dos tribunais Plenários no Estado Novo), mas o direito, apesar disso, continua a ser para a justiça o seu húmus agregador.
Voltando à frase do Deputado Rogério Rodrigues, em que afirma que “no campo teórico, todo o direito violado é passível de sanção”, teoricamente sim, como diz. Quando o Estado quer intervir, duma forma discricionária, na esfera pessoal dos cidadãos –como escrevia José Manuel Fernandes-, criando obsessivamente leis e mais leis, aumentando até ao infinito uma panóplia de direitos, leva a que, na prática, poucos sejam respeitados. E, para o ser, só se for através do recurso aos tribunais, vindo a aumentar, para além da conflitualidade, a congestão daqueles órgãos judiciais. Como não há respostas em tempo útil, naturalmente que a justiça sai empobrecida e cai em descrédito. De que vale um direito se não for reconhecido? Nada, evidentemente!
Por outro lado, pelo recurso às multas pecuniárias, em detrimento de sanções acessórias em forma de coerção, poderemos ser tentados a pensar que a justiça, hoje, é um negócio chorudo, de muitos milhões, para o Estado. Se repararmos as penas cumpridas em liberdade serão muito mais do que as cumpridas em reclusão. Então, no limite, poderemos intuir que a justiça está imbuída de um esvaziamento coercivo total que, inevitavelmente leva ao seu desrespeito completo. Já pouco importa -neste caso, o crime compensa- o ralhete do homem de beca preta, representante do povo, da moral e dos bons costumes.
Não se deveria apostar fortemente na educação a partir do berço?
Ainda, continuando a especular, penso que fará algum sentido atentarmos nas penas de prisão efectivas, se por um lado, ficam sempre aquém da proporcionalidade do dano causado? Por outro, não deveríamos reflectir se a privação de liberdade dos nossos dias terá alguma coisa a ver com o passado? Por força dos direitos humanos, as celas são arejadas e limpas, existe televisão colectiva e direito a encontros passionais. Ressalvo que não defendo o contrário, apenas o constato.
E porque o refiro, perguntará? É que tenho um amigo, subchefe de esquadra, em Coimbra, que já por duas vezes foi confrontado com a solicitação de prisão. Na última vez, há pouco tempo, na impossibilidade de cumprir o desejo do indivíduo, este agarrou num paralelepípedo e estilhaçou o vidro de um carro da PSP, ou seja, danificou um bem do Estado, e, nesse caso, perante o facto atentatório, foi mesmo preso.

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (5): UMA TRISTEZA DE FADO

(A CAPELA DE BARRÔ, EM HONRA DO MÁRTIR SÃO SEBASTIÃO)


Quando comecei a escrever o primeiro texto, a que apelidei de “histórias da minha aldeia”, estava longe de pensar que ao desbravar o meu lado cerebral escondido, dos meus tempos de menino, iria começar a descobrir recordações em catadupa. Por outro lado, à medida que vou percorrendo o passado, como se entrasse num labirinto difuso, quase como se fizesse psicanálise das pessoas da minha aldeia, numa espécie de exame psico-sociológico, de repente dou por mim a chegar a uma conclusão fatídica. Comecei a contar as pessoas que se suicidaram nos últimos 50 anos, pelo menos que tenho conhecimento, e o número é extraordinariamente grande para um lugarejo que nunca teve mais de seis dezenas de pessoas. Ou seja, nas últimas cinco décadas suicidaram-se cerca de 15 pessoas. Um número percentual exacerbadamente grande para tão poucos habitantes.
Então, numa espécie de catarse social, olhando para trás, começo a ver a tristeza que enferma aquela minha terra. Mentalmente percorro todas as pessoas já falecidas, outras em fim de vida, e mesmo, ainda que não conheça em profundidade, esta última geração, a soma de todas as premissas é realmente de uma grande tristeza, como um fado que cada um carrega nos seus ombros. E quando falo deles, obviamente que olho para mim também. Conhecendo-me como conheço, oscilando entre a nostalgia e uma angústia permanente, ainda que dissimulada –é no escrever que ela se revela-, mais facilmente chego à análise social que pretendo.
A minha aldeia foi sempre um lugar tristonho. Na década de 1950 até 1970, exceptuando meia dúzia de habitantes que já citei em apontamentos anteriores, em que os denominava de campeões da malha e da sueca, e que habitualmente se divertiam todos os domingos à tarde, frente à “venda” do senhor António, a maioria, pobres, como disse também, trabalhavam de sol a sol, todos os dias da semana, incluindo o domingo. E aqui não posso deixar de me lembrar de um acontecimento que me marcou profundamente. Quando fiz exame da 4ª classe –nesse tempo era assim-, em 1965, na Mealhada, fui sozinho, isto é, acompanhado dos restantes colegas, mas sem os meus pais que tinham ido trabalhar para o campo. Já os meus companheiros, por ser uma data importante, foram com os progenitores. Tal facto não me causou estranheza. Porém, no mesmo mês de Julho, em Luso, fui fazer a comunhão solene…também sozinho. Os meus pais, mais uma vez tinham ido trabalhar para a agricultura. Eu parecia ignorar tal facto, mesmo vendo os outros acompanhados de todos os parentes. Mas, eis que de repente se dá um clique. Uma senhora da aldeia, a Dona Isabel, cujo filho também celebrava aquela festa religiosa, olhando para mim com comiseração, interroga-me: “onde estão os teus pais?”. Eu respondi: foram trabalhar . “FORAM TRABALHAR, HOJE?”. Curioso, passados mais de quarenta anos consigo ouvir ainda aquele grito como o silvar de um chicote, de admiração mas também de revolta. Aquele grito foi importante para mim, ao longo da minha vida, os meus filhos nunca estiveram sós numa data importante para eles que eu não estivesse lá, mesmo que chegasse atrasado.
Olhando para as famílias mais abastadas, relembro que todas tinham um ar sofrido, ainda que algumas mostrassem serenidade. Era como se tivessem passado um período traumatizante, que de certo modo passaram mesmo, se tivermos em conta a 2ª Guerra Mundial, com todas as suas consequências, nomeadamente o racionamento de víveres. Não sei se esse grande conflito bélico pode ou não explicar a grande tristeza das pessoas da época e que, através dos genes, naturalmente passaram para os vindouros. Mas, não era só isso, quase todas tinham um ar somítico. Lembro-me de uma família abastada, sem filhos, em que a mulher, já então viúva e septuagenária, bebia o leite azedo e comia todos os restos que tivessem sobrado de outras refeições. Tudo estaria bem se ela não quisesse obrigar os empregados a seguirem-lhe o (mau) exemplo. Quando morreu, há menos de vinte anos, deixou aos sobrinhos quase vinte mil contos (100mil euros) e várias dezenas de propriedades. E agora um facto relevante. Depois da sua morte foram encontradas notas do Banco de Portugal escondidas que já tinham passado de validade. Foram cerca de quinze mil euros. Explicaria a guerra este comportamento? Penso que não. Era a estupidez simples no seu maior grau de pureza.
Lembro-me também que as pessoas da minha aldeia nunca foram muito solidárias. Talvez a rigidez do rosto, pelas dificuldades da vida, expliquem ou não a falta de comparticipação e ajuda social entre os seus membros.
Já o disse antes, o povo de Barrô nunca foi muito religioso, embora esta carência de “religare” não implique necessariamente a falta de sensibilidade social. Uma pessoa pode ser boa sem frequentar a religião. A bondade como sentimento puro, é uma emoção imanente que vem de dentro para fora. Já a bondade “imposta” pela religião, pelo temor a Deus, é de fora para dentro, é aquela “caridadezinha” calculista que torna o homem num fraco, como falava Nietzsche.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Nem sei o que dizer

Lê-se assim no Público:

"O PCP ficou hoje isolado durante um debate parlamentar sobre a
libertação da ex-candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt,
que estava refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
(FARC), escusando-se a condenar essa organização e contestando que
seja terrorista. Os comunistas foram, assim, os únicos a votar contra
o documento proposto pelo PS, PSD e CDS-PP e aprovado pelos restantes
partidos.
(...)
A bancada comunista foi a única que votou contra o documento do PS,
PSD e CDS-PP, aprovado com os votos favoráveis de todas as outras
bancadas, incluindo a dos Verdes - que expressa satisfação pela
libertação de Betancourt e de outros catorze reféns, classifica as
FARC de grupo terrorista e repudia a sua actividade.
(...)
Na sua intervenção, o líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares,
defendeu que "o que se passa na Colômbia não pode ser reconfigurado às
catalogações de organizações como terroristas feitas pela
administração norte-americana". Bernardino Soares condenou os
"assassinatos de sindicalistas" pelo governo da Colômbia – que o voto
do PS, PSD e CDS-PP não menciona – e acusou os três partidos de
"glorificarem" o regime de Álvaro Uribe.
(...)
No final do debate, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto
Santos Silva, considerou "inadmissível que se procure saudar essa
libertação sem condenar o sequestro", assinalando que o voto do PCP
"em nenhum momento condena o acto das FARC". Augustos Santos Silva
acusou os comunistas de tentarem "desculpar" as FARC e os seus métodos
denunciando "uma visão distorcida da democracia"."

Fico parvo sempre que vejo as tomadas de partido do PCP quando estamos
perante um regime totalitarista comunista ou mesmo de um bando de
terroristas que têm tendências comunistas! Já o tínhamos visto em
relação à Coreia do Norte e quando este mesmo deputado (Bernardiro
Soares) disse que duvidava que esse país não fosse uma ditadura!

Será que alguém lhes diz que a Guerra Fria já acabou?

É muito triste ver esta falta de sentido democrático, mas vindo de
onde vem não é nada de estranhar!

Se ele diz isto...



"28% dos portugueses acham que Portugal e Espanha deveriam ser um só país. E, destes, uma boa parte não se importava que a capital fosse Madrid e o chefe do Estado Juan Carlos"

In Sol

Os Bascos não querem ser espanhóis, os Catalães também não, mas os 28 % dos Portugueses querem! No mínimo estranho!
Gostava só de lembrar que a imagem do "paraíso espanhol vs inferno português" que alguns media querem passar para a sociedade não corresponde à realidade! Toda a Europa está em crise(ou até mesmo o Mundo) e nós não somos dos piores (há até quem diga que a espanha vai dar um grande tombo)!!


PS: Eu também gostava de ter sido campeão da Europa, mas não ia tão longe!!

Barata e não poluente!!



"Uma equipa de estudantes do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, desenvolveu aquele que poderá ser, segundo os seus autores, o sistema de energia solar mais eficiente do mundo, tendo em conta o seu custo.

Trata-se de um disco côncavo de concentração solar com 3,7 metros de largura, construído com uma leve armação de finos tubos de alumínio e coberto com espelhos. É capaz de concentrar a luz do sol 1000 vezes num único feixe, criando calor suficiente para fundir uma barra de ferro.

O mesmo sistema terá sido utilizado há mais de 2000 anos pelo famoso matemático e inventor grego Arquimedes para incendiar uma frota de navios romanos."

In Expresso

Tão simples!
É mais uma entre muitas formas de utilização de energias renováveis em estudo em muitos estabelecimentos de ensino por todo o mundo (em Portugal também)! Encantam pela sua simplicidade, baixo custo e eficiência.

Deixo no ar uma questão:
Se as grande multinacionais energéticas estivessem mesmo preocupadas com o ambiente e a escalada de preço dos combustíveis fósseis o que conseguiriam desenvolver com os seus milhões de €€?

quinta-feira, 3 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (4): A MINHA MUSA ENCANTADA


(A CASA DO SENHOR LINO, EM BARRÔ)


No início dos anos de 1960, dum grupo de quatro, o maior lavrador da minha aldeia, Barrô, era sem dúvida nenhuma o senhor Lino. Para além das suas imensas terras agrícolas, que se perdiam no horizonte, e em que dava trabalho a muitos habitantes do lugar, incluindo o meu pai, ele era também negociante de bois. Comprava, vendia e dava de “terça” –negócio jurídico, hoje caído em desuso, que consistia na compra de um animal por um primeiro contraente que o colocava num segundo para engorda e que, posteriormente, seria vendido. O lucro –a diferença entre o custo inicial e a venda final- seriam dois terços para o investidor, o primeiro contraente, e um terço para o segundo, aquele que efectuou a engorda. Aparentemente, parece que o segundo faria um mau negócio. Mas só aparentemente. Isto porque o segundo, sem investimento, para além do lucro de um terço, adquiria acessoriamente força de trabalho através do animal, que seria empregue na lavoura.
Para além da agricultura, da compra e venda de gado e da “terça”, o senhor Lino tinha ainda várias vacas que produziam leite. Era a sua casa que fornecia e aleitava toda a aldeia. Era vendido ao litro para os pobres da povoação. Habitualmente, este líquido branco, segregado pelas glândulas mamárias das fêmeas dos bois, era pago com trabalho, como acontecia com o meu pai. Passados quarenta e cinco anos, consigo reter o sabor aveludado, daquele meio litro de leite quente que eu todos os dias ia buscar, e transportava, num pequeno fervedor de alumínio. Consigo ainda sentir a espuma quente a brincar com a ponta do meu nariz e colar-se no meu buço. Apesar da esposa do senhor Lino, a Dona Justina, ser muito generosa –uma senhora calma, de longas saias negras, obesa, de faces rosadas e com uns olhos lindos que transmitiam paz e serenidade- e encher acima da medida, quando chegava a casa dos meus pais estava muito abaixo porque bebia várias goladas.
Adorava ir, à noite, buscar o leite àquela grande casa agrícola. Tinha dois motivos muito fortes. Um, era o entrar naquela grande cozinha, ver as chamas a crepitar através da porta onde se inseria a lenha no grande fogão de ferro, sempre aceso, fosse verão ou inverno, onde cozinhavam para a família e para os animais, sobretudo os muitos porcos. Aquele laboratório pantagruélico, pelo odor a hortaliças fermentadas, pelo imenso e abastado fumeiro na chaminé, simbolizava a fartura de alimentos que eu não possuía na minha casa paterna.
A segunda razão que me empurrava para a casa daquele abastado lavrador era o “sol da minha vida”, a sua filha mais nova, a Cidália. Esta rapariga, um pouco mais velha do que eu, era, na altura, uma criança linda, de longas tranças, uma tranquilidade no rosto, complementada com uns olhos lindos, com toda a certeza herdados de sua mãe. Nós ainda éramos de laços consanguíneos próximos. Só que, apesar disso, embora familiarmente perto, na classe social estávamos distantes a anos-luz. Ela era a filha do homem mais rico da aldeia e eu primogénito de uma das mais pobres famílias do lugar. Ao pé dela eu sentia-me intimidado. Lembro-me claramente de um dia, junto à sua casa, jogar ao lencinho com um grupo de miúdos onde ela estava inserida e eu, pela sua presença, saí do grupo. Ela veio em meu socorro, interrogando-me acerca da causa de eu ter saído. Claro que não lhe respondi. Como podia eu explicar-lhe da frustração que eu sentia ao estar junto à minha rainha, descalço e de calças rotas. Como podia contar-lhe o quanto gostava dela, que eu tinha verdadeira adoração pelas suas tranças pretas e os seus profundos olhos negros, e que, mesmo não sendo adivinho, sabia que jamais a Cidália seria minha. A pobreza era a causa da minha exclusão.
Era por ela que eu tentava ser o melhor aluno da minha classe. Era por ela que eu sonhava ser cantor e, em qualquer lado, mesmo a estudar, trauteava uma canção, a pontos de o meu tio Ernesto –pessoa que muito me marcou, e que um dia destes falarei dele- me interrogar, admirado, como era possível estar a estudar e a cantar. Era por ela que eu, diariamente, depois das aulas acabarem, enquanto apanhava dois “feixes” (molhos) de erva para o gado, pensava: esta não é a vida que eu quero. Quando acabar a escola vou arranjar um emprego em Coimbra e um dia hei-de estar à tua altura, Cidália!
Por ironia do destino, a vida de negociante do senhor Lino, pai da Cidália, começou a correr mal, entrando em parcial insolvência, morreu precocemente. Entretanto, mal acabei a então quarta classe, logo no mesmo mês, vim mesmo trabalhar para Coimbra como tinha imaginado. Da Cidália nunca mais soube nada. Há décadas que desconheço a sua vida. Se, hipoteticamente, ela ler este texto, certamente vai rir-se. Tenho a certeza de que jamais imaginou que na minha infância foi a minha musa encantada.

UMA NOVELA EM FORMA DE ZIG-ZAG



FIQUE A SABER OS PRIMEIROS CAPÍTULOS DA NOVELA PORTUGUESA -UM ENREDO ASSIM, TÃO ESCABROSO, SÓ AQUI EM PORTUGAL É POSSÍVEL-, "UMA NOVELA EM FORMA DE ZIG-ZAG".
NÃO PERCA!
http://questoesnacionais.blogspot.com/

Só agora???

A AM da Mealhada está a fazer escola!
Só tenho uma pergunta:
Mas qual é a novidade?