terça-feira, 30 de setembro de 2008

AS URBANAS ILHAS DA FELICIDADE



Eram 21 horas de um destes sábados de Setembro. Eu e você, leitor, passeávamos pela Baixa da cidade. Enquanto percorríamos as ruas estreitas, reparávamos que estas estavam completamente desertas, era desconfortante andar ali. O sentimento de insegurança era palpável. Nem vivalma se avistava. De repente, um pássaro de relativas dimensões bate as asas e o som ecoa como tiro de canhão. Você, surpreendido pelo susto, dá um salto e quase se estatelou na calçada de pedra portuguesa. Leva a mão ao peito, e, como bom português que se preza, solta uma valente imprecação. Claro que, naturalmente, ia-me desmanchando a rir. Você é que não gostou nada do meu riso hilariante e sarcástico. Em jeito de justificação, atira: “fogo!, já viu isto? Não se vê ninguém! Onde é que se meteram as pessoas?”
Antes de eu poder responder, contra-ataca novamente: “É a crise! As pessoas agora nem saem de casa para não gastarem dinheiro”. Como eu não respondi, mas abanei a cabeça em sinal de discordância, você, como mestre sapiente dono da verdade, ficou à defesa e replicou: “ai pensa que não, que não é da crise? Homem, o que se passa aqui em Coimbra é transversal a todo o país!”
Como pareceu adivinhar no meu rosto um engelhar de cara, embrulhado em sorriso amarelo, novamente tomado de forças redobradas de réplica, questiona: “quer apostar que o Café Santa Cruz (dos poucos abertos àquela hora na Baixa) têm menos de uma dúzia de pessoas, incluindo os empregados?”
Eu continuava céptico, mas, mesmo assim, aceitei o repto e lá fomos. De facto o belíssimo café, irmão siamês da Igreja com o mesmo nome, estava às moscas. Sentámo-nos, bebemos café, e você, exultante, como se fosse o ganhador mais procurado do Euro-milhões da região da cidade do Mondego, sem disfarçar a arrogância, ufano, de peito feito, replica: “vê? Eu não lhe disse? É a crise. De que vale os estabelecimentos estarem abertos se as pessoas não vêm passear? É difícil de ver? Você parece cego, homem de Deus”, recalcitra você, dirigindo-me um olhar reprovador, como se me chamasse besta.
Confesso que a sua insistência, como se a verdade fosse una e indivisível, já me estava a chatear. Você até sabia que eu tinha as minhas razões para não concordar consigo. Anteriormente estivemos a falar sobre este assunto e eu até lhe disse que o abandono das zonas históricas não pode ser só atribuído à crise financeira das famílias. Tem de haver mais qualquer coisa, sublinhei com ênfase. Mas, apesar disso, sem levar em conta a minha argumentação, você insistia em que tudo se resumia à falta de dinheiro.
Tenho a certeza de que você está enganado, contra-argumentei, e vou provar-lhe. Venha daí. Entrámos nos nossos carros e você foi atrás de mim. Não sem antes, de uma forma insistente, sem sucesso, me interrogar acerca do nosso destino.
Fomos ao Fórum Coimbra, na encosta de Santa Clara. Os estacionamentos, interiores e exteriores, estavam repletos e tivemos de aguardar. Entrámos e fomos directos ao terceiro piso, onde, depois de esperarmos um bom bocado, nos sentámos a beber um sumo. Você, como se tivesse entrado num mundo novo, parecia abismado. Centenas de pessoas, ou talvez milhares, percorriam a superfície comercial. Daquele piso cimeiro, com uma panorâmica plena, naquelas imitações de ruas públicas, víamos o ar de felicidade daquelas pessoas. Eram famílias inteiras, entre novos e velhos, a consumir hambúrgueres e outras especialidades. Reparei naquela senhora a passear despreocupada com a carteira aberta a tiracolo. Você, perante todo aquele movimento, parecia absorto e não falava. Parecia que, de repente, tinha perdido o “pio”. Como se, perante a evidência, perdesse toda a réplica.
Mas se pensava que ia ter complacência estava bem enganado. Agora quem falaria seria eu. E você, agora, sem sequer pestanejar, limitava-se a escutar-me. Comecei então a defender os meus argumentos.
Se a crise é a causadora da desertificação das cidades, como se poderá entender esta deslocalização para estas “ilhas”? Aqui, se há recessão, é só aparente. A maioria das salas de cinema “multiplex”, estão completas, nomeadamente o “Mamma Mia!”, com a Meryl Streeap, bem como outros filmes.
As pessoas vêm para aqui porque o conforto é uma constante. Podem passear à vontade com segurança e frequentar os estabelecimentos até à meia-noite. Se escolhessem a cidade o que recebiam? Pouco, para não dizer nada. As cidades, dentro do formato tradicional, estão ultrapassadas. Mesmo se, eventualmente, se recuperasse todo o edificado, mesmo assim, a urbe continuaria sem atracção e sem funcionar. As cidades, no seu conceito de vivência amorfo e estático, estão como um velho de cem anos. Pararam no tempo. Hoje os grandes centros urbanos estão para os centros comerciais como há cerca de vinte anos estavam as aldeias para as cidades. A deslocalização é igual. As pessoas “fogem” para estas “ilhas de felicidade aparente” porque aqui respira-se movimento e modernidade. Há aqui imensas possibilidades de escolha. Poderíamos perfeitamente apelidar estes centros de consumo de alter-ego das cidades, uma extensão futurista, na qual estas, se quiserem sobreviver, terão de copiar o modelo. E refiro-me concretamente à disciplina, quase ditatorial, de horários de estabelecimentos. Nas zonas históricas, para além de ninguém querer trabalhar à noite e ao fim de semana, a liberdade de cada um estabelecer o horário que mais lhe convém na sua loja, ajudou a matar o comércio de rua. Depois a falta de policiamento, sobretudo à noite, acaba com o resto. Já para não falar na falta de limpeza e, nalgumas artérias, luz pública. A cidade, concretamente a Baixa de Coimbra, é uma zona abandonada. Repare-se no piso das ruas, no empedrado partido e cheio de buracos na calçada portuguesa. Atente-se na quase uma dúzia de prédios abandonados, uns sem início de obras, outros entaipados há vários anos.
Acho curioso quando alguns responsáveis chamam à Baixa de “Centro Comercial a céu aberto”. Deveriam estar calados e pugnar por medidas eficazes, políticas de revitalização por parte da autarquia e sensibilização dos comerciantes de que ou mudam ou morrem todos.
Ah! Você, com este meu discurso, adormeceu. Que falta de respeito!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

XVIII Festuna



Mais informações aqui!!

"Luso (re)vive tradição"


"O tempo de guerra e de disputa com Espanha já lá vai. Porém, longe dos tempos antigos, há datas que continuam a fazer sentido recordar."





Ainda bem que há coisas que não mudam. Está um pouco "mais pequeno" mas mantém-se!

Infelizmente não pude estar presente mas já sei que o franguito estava bom!!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

“Tem havido muita gente a falar de mais sobre aquilo que não sabe”


"«A polémica tem sido feito à volta de gente que não conhece, não está dentro, provavelmente não leu a lei nem o despacho do senhor secretário de Estado». A afirmação é de Pedro Machado, que preside à Comissão Instaladora da nova Entidade de Turismo do Centro, sobre a polémica instalada em torno da localização da respectiva sede.Em entrevista ao DC FM, ontem, Pedro Machado atribuiu a controvérsia instalada à «falta de informação» e a algumas jogadas políticas. «Tem havido muita gente a falar de mais sobre aquilo que não sabe», acusou, explicitando ainda que a Comissão Instaladora é «um órgão de gestão» e «não faz política»."





Andam a fazer politiqueira com coisas importantes!!

Criam expectativas nas populações e depois vão usar as desilusões do povo como armas de arremesso contra adversários políticos!! O costume!!

TODOS DIFERENTES... TODOS DESIGUAIS



Nas últimas décadas, no país, resultado ou não das profundas desigualdades do Estado Novo, a verdade é que, numa lógica viciada, numa osmose, numa influência recíproca, como clones, passámos todos a sentirmo-nos iguais uns aos outros. Não apenas em direitos substantivos formais (os direitos Civis e Constitucionais alienáveis da dignidade da pessoa humana), como também nos adjectivos, no modo de procedimento (Códigos de Processo). É certo que o direito, numa inclusão exacerbada, sobretudo tentando corrigir os erros do passado, a partir de meados da década de 1980, passou a levar em conta as diferenças de cada um. Ou seja, se um indivíduo foi apanhado a furtar, e se o produto desse furto foi para satisfazer a sua necessidade básica de alimentação, ou de entes consanguíneos, este acto de reprovação social perde a sua aura de delito “grave”, passando a ser considerado “desvio”, e, subsequentemente entra numa punição de moldura penal leve.
Por outras palavras, porque corro o risco de não ser suficientemente claro, até esta altura, meados de 1980, o direito em Portugal, resquícios de um corporativismo integral e inflexível de cinco décadas, assentava num positivismo jurídico, isto é, qualquer furto era julgado como tal, uma espécie de chapa numerada previamente, tendo apenas em conta a denominação da classificação do acto desviante, sem levar em conta a motivação do autor. Era um direito sem rosto humano. O juiz decidente, sem capacidade autónoma subjectiva, era um mero exequente das leis. Tal como acontecera em França, após a Revolução francesa de 1789, no iluminismo, com o surgimento dos direitos individuais, o positivismo jurídico tentava mostrar que todo o homem é igual à luz da lei. Então, nessa época das luzes, tal como aqui em pleno século XX, num igualitarismo desenfreado, embora de motivações políticas diferenciadas, perante o erro todo o homem era igual. Em França, num experimentalismo cruel Robespierrano, assentes, sobretudo, em teorias de Voltaire e Rousseau, era de índole ideológica-revolucionária-social, cortando laços com um absolutismo sufocante do povo sem direitos (burgueses, camponeses e artesãos). Em Portugal era o contrário, este “positivismo”, através de um autoritarismo pronunciado, em que o poder judicial estava subjugado ao regime, servia exactamente para conter as hostes, prevenindo convulsões sociais, e evitar o alastrar da reivindicação de direitos.
Então aqui, você, leitor, e eu, fazendo um balanço do que foi escrito, interrogamo-nos: bom, se o positivismo jurídico era atentatório do valor pessoa, hoje, em que se leva em conta as diferenças de cada um estamos no bom caminho. No bom, para não dizer no óptimo, pensa você. Pois, mas eu não. E explico a seguir porque creio estarmos no mau caminho. Como passámos a hipervalorizar o “diferente”, em detrimento do “igual” ejectando-lhe doses maciças de psicologia social, quem é diferente, fazendo das suas fraquezas forças, com a ajuda do Estado, acha que a sua diferença, física, psíquica ou outra, não existe. Ou seja, caímos numa pretensão de um igualitarismo de ascendente perigoso. Porque, sejamos pragmáticos, o que é diferente jamais pode ser igual.
Por outro lado, o Estado, numa diarreia legislativa, através de legisladores obcecados por direitos, liberdades e garantias, tentando agradar a lobbies, grupos de pressão conotados com uma esquerda radical, invocando “discriminação” a “torto e a direito”, vai passando a ideia à sociedade de que somos realmente “todos diferentes… todos iguais”. Uma profunda mentira, que só a engole quem não pensa. Claro que, neste conluio, o Estado não é inocente. Tem objectivos económicos a atingir. Veja-se, por exemplo, o sucessivo encerramento de instituições psiquiátricas. A mensagem que é passada é de que os dementes ou diminuídos psíquicos não devem ser tratados como diferentes, mas, pelo contrário, devem ser tratados como iguais. Devem ser “ressocializados”, e inseridos na sociedade. Então o que assistimos? É vermos, nas grandes urbes e outras, estes indivíduos abandonados a vaguear e entregues à sua sorte. Claro que não se pode escamotear algum relativo sucesso, sobretudo nas famílias. Também um pouco por, a isso serem obrigadas e sem alternativa, ficarem mais sensíveis para os seus familiares diminuídos psiquicamente.
Claro que se o leitor chegou até aqui, certamente, interroga-se: mas, afinal, onde quer chegar este tipo? Disserta, disserta! Parece uma alma penada.
Se pensou isto, tem razão. Eu estou a abusar da sua tolerância. Mas, já agora, só mais um pouco de paciência, estou mesmo quase a terminar.
É assim: o que me levou a escrever este texto foi o facto de uma mãe, de seu nome Natércia Mirão, no dia 23 de Setembro, no espaço das “Cartas ao Leitor”, do Diário as Beiras, em tom indignado, vir chamar a atenção para o facto de ter tentado inscrever o seu filho, alegadamente com Trissomia 21 (vulgarmente conhecido como mongolismo), nas aulas de expressão musical, no Pavilhão de Portugal e ministradas pelo maestro Virgílio Caseiro. Segundo a verve desta senhora, o maestro é que não esteve pelos ajustes. Ao que parece, o mestre da batuta alegou que “o menino seria um problema para o grupo de 24, prejudicaria o desenvolvimento da aprendizagem, considerando que não acompanharia o grupo”.
A senhora, mãe do menino, desapontada, diz que “é duro demais para uma mãe que ao longo de nove anos tem integrado o seu filho na sociedade como um igual. (…) Estamos no século XXI e ainda funcionamos com o preconceito (…) o preconceito é uma arma forte, poderosa! (…) Lamento que os meus impostos contribuam para o desenvolvimento de projectos com princípios elitistas de desrespeito e intolerância!!!”
Antes de continuar, ressalvo que nem conheço o maestro nem a senhora, mãe do menino.
Então a pergunta que lhe faço, a si leitor, deveria o maestro Virgílio Caseiro ter aceitado aquela criança e fazer a vontade à senhora? Ou, pelo contrário, no seu legítimo direito natural de escolha, fazendo o que achou melhor, será condenável esta sua opção?
Que lhe parece?

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Afinal o futuro não é assim tão negro!!


Foi publicado no Amo-te Luso um post sobre um blog de algumas jovens Lusenses que é resultado de um projecto escolar a que chamaram Luso Vital!


Aconselho a visita!


Parabéns meninas!!



PS: Já agora... agradeço a participação das autoras do dito projecto neste espaço de discussão! Seriam muito bem vindas!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ANDAR PELA CIDADE



Há dias passeava na Baixinha,
no coração do centro da cidade,
numa rua daquelas tão estreitinha,
que nem o sol parece saber a idade;
Foi então que encontrei uma velhinha,
uma querida, que apetecia abraçar,
tão terna, que imaginamos a nossa avozinha,
naquele colo protector onde íamos chorar;
Com a sua calma, vi-a como um porto de abrigo,
eu, um veleiro, cansado de calcorrear o mar,
com a bússola a girar à volta sem sentido,
e que o destino me empurrou para encalhar;
Tão serena, parecia a Virgem Maria,
mas era outra, chamava-se Conceição,
estava triste, solitária, esvoaçava ao vento,
como folha seca no Outono da solidão;
“Já viste meu amigo, companheiro, meu irmão,
tratam-nos como coisa sem utilidade, sem valor,
como se a idade, fosse um peso, uma aberração,
esquecem que temos vida, necessitamos de amor”.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

HISTÓRIAS DO MEU LARGO



O Largo da Freiria, é um encantador recanto entre a Praça 8 de Maio e a Praça do Comércio, em Coimbra. Supõe-se que o seu nome advenha de uma Freiria, casa de freiras, que existiu neste largo, presumivelmente, entre os séculos XVIII e XIX.
Em conversa com um antigo residente, que aqui passou a sua infância, o senhor Emídio, um simpático septuagenário que nasceu em 1929, vim a saber pormenores, do ponto de vista histórico, quanto a mim, interessantíssimos.
Segundo as palavras do meu amigo, cujo avô tinha uma oficina de funileiro, latoaria, no rés-do-chão do prédio que, de um lado dá para este largo e do outro faz esquina para a Rua Eduardo Coelho e que em tempos, e durante muitos anos, foi a Topal, um pronto-a-vestir, durante décadas, morou neste mesmo edifício no segundo andar.
Em 1940, com a Segunda Guerra já a decorrer, e mesmo com a neutralidade de Salazar, os habitantes da Baixa da cidade viviam muito mal, com absoluta carência de víveres. Os géneros alimentícios, nomeadamente o pão, escasseavam. Era, neste recanto sem saída, na “Padaria Popular”, propriedade do Dr. Bela, que toda a gente, passantes e moradores, se abasteciam do tão necessário pãozinho. As filas para o obterem, legalmente, só poderiam começar às 7,30 da manhã. O estabelecimento abria portas às nove horas. Porém, como a insuficiência de alimentos era extrema, e cada pessoa só poderia comprar um pão de meio quilo, às 4,30 já havia “bichas”. Então, numa desumanidade sem rosto, os guardas carregavam à bastonada sobre o pobre povo que ousasse desobedecer à norma. “Uma miséria”, remata o meu amigo Emídio, por entre um suspiro de indignação.
Nesse tempo, em que já havia electricidade nas casas da Baixa –o slogan publicitário nos jornais era “Electrodomestique a sua casa”- mas como não havia dinheiro para a manter, tudo era rentabilizado ao máximo. Por exemplo, para colmatar o frio incomodativo de inverno, a “Padaria Popular” vendia as brasas incandescentes aos residentes do centro histórico. Levavam as “escalfetas” –espécie de caixa em chapa de zinco, perfurada por cima, que servia para aquecer os pés- e as brasas eram transportadas dentro delas até às suas casas.
“Eram tempos desgraçados, as crianças, numa completa indigência, vadiavam pelas ruas”, continua o meu amigo. Um dos passatempos que lembra era que, neste largo, onde hoje existe uma casa de velharias, por volta da década de 1940, havia um armazém de batatas. Então, naturalmente, por força das circunstâncias da proximidade do tubérculo, havia muitas ratazanas. O dono do armazém, o Aires Rodrigues, tentando colmatar a praga, durante a noite, colocava umas armadilhas de arame, umas ratoeiras com uma abertura, que quando o mamífero roedor entrava, aquela fechava-se e este, ficando vivo, não conseguia sair. Então, no dia seguinte, o empregado do Aires Rodrigues, colocava as ratoeiras no Largo, como troféu de caça, e as crianças, numa crueldade maliciosa, divertiam-se a despejar água a ferver para cima dos pobres animais, que, numa “chiadeira” infernal, acabavam por sucumbir a tamanha perversidade infantil.
Lá ao canto, do lado direito da “Padaria Popular”, havia o “Nacional”, um grande salão recreativo popular. Durante a semana ensaiava o Rancho folclórico, salvo erro, as “Tricanas do Mondego”, e ao fim-de-semana havia sempre bailarico. Igualmente, com a mesma cadência e interligados, no fim da rapsódia popular, havia pancadaria de meia-noite até às tantas da madrugada. Só eram interrompidas pela chegada dos guardas, que só apareciam muito depois da refrega ter começado, vindos da primeira esquadra, a duzentos metros deste largo. Faziam-se anunciar com uns estridentes apitos, como a avisá-los e dar-lhes tempo para a fuga.
“Era um largo muito castiço”, continua o meu amigo Emídio. “Havia por aqui um louco, com um vozeirão infernal, mas que cantava muito mal, daqueles personagens típicos das cidades que ainda hoje se vêem, então, com uma atracção fatal por este recanto, este desequilibrado, quase todos os dias, às tantas da noite, vinha tentar impressionar os moradores com o seu talento vocal. Os residentes, em troca, mal-agradecidos, despejavam-lhe água para cima, mas nem assim o cantador desgrudava. Seguindo o mesmo exemplo, o meu amigo Emídio, já apetrechado para o efeito, tinha uma grande seringa que, através da janela do seu segundo andar, neste Largo da Freiria, molhava o pobre tolo solista, por entre uma ária de uma cantata avulsa. Nem mesmo assim o cantante descolava.
“Que saudades que tenho desse tempo! O que eu não daria para voltar atrás, ao meu querido Largo da Freiria”, remata o senhor Emídio, por entre um brilho intenso dos seus olhos e um suspiro de saudade.

Gostava de me conseguir exprimir assim...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

SCRIBÈRE-DEPENDENTE



Ainda não tinha dito,
tenho de confessar,
mesmo que não pareça,
sou um pobre de um adicto,
que gosta de “escrevinhar”,
faça sol ou anoiteça,
agora sabem: tenho dito;
Vocês não sabem o que sinto,
nem a dor que é sofrer,
o que faço para conseguir,
passar um dia sem escrever,
faço tudo para fugir,
mas é um desejo cruel saber
que não “me safo”, nem a dormir;
Às vezes estou a sonhar,
que sou um grande escritor,
estou sentado num altar,
a meu lado está o censor,
dedo em riste, com lápis a cortar
o meu poema de amor,
grito em vão, não consigo acordar;
Se estou a ler, penso em escrever,
se olho o mar imagino um tema,
se “estou na lua”, nem quero saber,
sou um ovo, onde o que conta é a gema,
escrever, é a minha vida, o sol do meu viver,
quero lá saber se chove, as letras são o meu lema,
vou mas é terminar isto, que está chato, mas foi sem querer!

sábado, 20 de setembro de 2008

ESCREVER UM LIVRO



Eu gostava de escrever um livro,
com uma história de embalar,
onde o leitor se prendesse,
não a pudesse largar,
nem mesmo para dormir,
desse por onde desse,
sem tempo para sonhar,
tinha sempre que sentir,
interesse no que lesse,
como grude num colar;
Quero uma história de medo,
elemento essencial numa trama,
ambição e vaidade no enredo,
ciúme e morte no drama,
final justo com segredo,
bolas! Falta-me encontrar a dama;
Por mais que rebusque uma narração,
matuto mas não encontro o fio à meada,
se tenho o esqueleto, falta a inspiração,
se tenho o mar, não tenho enseada,
se tenho um porto, falta a embarcação,
tenho um labirinto que não conduz a nada,
parece uma praia, onde só há rebentação;
Vou mas é escrever uma história da carochinha,
ou quem sabe, e porque não aos quadradinhos?
Pode até ser um conto para ler na cozinha,
um entretém para quando estamos sozinhos,
um pequeno peixe de pescar à linha,
tem de ser algo que alimente como uns bolinhos,
nos deixe a alma cheia de contentamento, a sua e a minha.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O HOMEM QUE FABRICAVA SONHOS




(O CENTRUM CORVO, NA RUA DO CORVO, EM COIMBRA)

O “Centrum Corvo” é talvez o estabelecimento mais bonito da Baixa da cidade de Coimbra. Fica na Rua do Corvo, a dois passos da Igreja românica de Santa Cruz. É uma loja de artesanato. Pois! Mas não é uma loja qualquer, parecida ou igual a tantas outras. Este estabelecimento é um “must”. A sua decoração confere-lhe uma autenticidade e transforma-a no paradigma daquilo que se entende como a verdadeira loja do comércio tradicional.
Quem vê a fachada, com as montras de olaria e vários bordados de boa qualidade feitos à mão, não imagina a riqueza histórica e patrimonial que o seu interior encerra. Toda a decoração assenta nos idos anos de 1900. Os seus móveis, lindíssimos, são mesmo autênticos. Foram feitos de encomenda para uma mercearia fina na época. Durante várias décadas este estabelecimento de açúcar e arroz a retalho, retirado das fundas tulhas e pesados ao quilo, funcionou em pleno. Como outros estabelecimentos de renome na cidade, era famoso o seu café “arábica”, moído na hora e à frente do freguês.
Por meados do século XX foi trespassado para o ramo de tecidos a metro. A Rua do Corvo era identitária pelos seus imensos estabelecimentos de retalho de tecidos pendurados na frente das lojas. Hoje, dentro destas características, conservando a traça antiga, resta uma única nesta rua, que um destes dias falarei dela aqui.
Há cerca de uma dúzia de anos o então ainda proprietário da loja de tecidos a metro, que, para além de saber ganhar dinheiro, não tinha nenhuma sensibilidade, certamente embarcando na actual filosofia de que as lojas tradicionais antigas, carregadas de memória, estão obsoletas e devem substituir toda a ambiência de antanho por uns modernos balcões estandardizados e ornamentados a plástico ou alumínio, foi ter com o dono do prédio e, rispidamente, em jeito de ultimato, disse: “Eu vou modificar o interior da loja e quero tirar os imbecis móveis antigos. Quero substitui-los por uns mais bonitos. De modo que arranje sítio para eles se não vão para queimar!”.
A pessoa que ouviu isto, o dono do prédio, o meu amigo António Cerveira, era a pessoa mais sensível que conheci. Perante esta barbaridade, ficou chocado. Para além de ser um homem de cultura, profundamente vinculado a tudo o que tivesse a ver com a memória, emotivamente, como cordão umbilical, estava profundamente ligado àqueles móveis. O estabelecimento de décadas de mercearia fora de uns seus primos. No meio de rebuçados e azeite ao litro, ali cresceu, se fez homem, se fez médico e partiu para a capital, onde exerceu psiquiatria até se aposentar. Há cerca de uma dúzia de anos, regressou novamente a Coimbra.
Como entretanto nos conhecemos, depois de, a seus olhos, ouvir o sacrilégio do homem dos trapos a metro, preocupado, meio atordoado, veio ter comigo e contou-me o que lhe estava a acontecer. “já viu Luís, uma preciosidade daquelas e aquele camelo quer queimá-los? Você não terá uma garagem disponível em que mos possa resguardar até eu lhe dar um rumo? Estes móveis (cinco, com dois metros e oitenta de altura) significam muito para mim!”.
Durante cerca de dois anos fui fiel depositário deles.
Um dia chegou ao pé de mim, naquele seu ar de menino bem comportado, que escutava mais do que falava, talvez defeito necessário da sua profissão de psiquiatra, e interroga-me: “o que acha daquela minha loja vir a ser um estabelecimento de artesanato?”. Disse-lhe o que achava e fiquei com a pulga atrás da orelha. Passados meses, com os olhos a brilhar de contentamento, chegando ao pé de mim, disse: “fiquei com a minha loja. Consegui reavê-la e pôr de lá para fora aquele estupor”. Vim então a saber que por causa dos móveis antigos, do sentimento que os ligava, comprou de trespasse o negócio, em que, enquanto edifício, era sua propriedade e para o reaver pagou cerca de trinta mil contos (hoje cerca de 150.000Euros). Se para o cedente foi o negócio da sua vida, para o adquirente, o meu amigo Cerveira, foi a vida por um negócio.
Durante vários anos, com um fôlego invejável, com espírito de menino, um sonhador utópico, no seu estabelecimento de artesanato, decorado completamente à imagem da antiga mercearia dos primórdios do século XX, este homem foi profundamente feliz. Tenho a certeza. Ele ia a todos os pormenores. Até a imagem de um corvo, que existia na fachada da antiga mercearia, ele mandou fazer de propósito e colocou-a na parede exterior.
Faltou-lhe tempo para realizar os mil planos que tinha em carteira. Que saudades que tenho dele! Quando chegava, pé-ante-pé, ao pé de mim, já sabia que ali vinha coisa. Uma ideia nova, certamente pensada durante a noite. Nas suas constantes interrogações: “e se fizesse assim? E se pusesse no “Centro Corvo” um centro de produtos endógenos tradicionais? E se fizéssemos um protocolo com a Diocese para as igrejas estarem abertas à noite? E…se…se?”.
Infelizmente, em Julho do ano passado, o homem com oitenta anos, que, na sua destreza mental e agilidade física, parecia um rapazote, que tinha uma força anímica fora do comum, o sonhador, o fabricante de sonhos, como luz que fenece e, repentinamente se apaga, finou-se. Imaginariamente, teria sido um raio que, vindo do espaço, pôs fim àquela força motriz impressionante. Perdemos todos. Eu perdi um grande amigo e a Baixa perdeu um grande impulsionador e inconformista, um grande defensor do comércio de rua. Um lutador de causas.
Se puder visite o “Centrum Corvo”. Se gostar compre uma boa peça de artesanato, mas, sobretudo, aprecie aquela jóia decorativa de novecentos. Embora não o sinta, não o veja, pode ter a certeza que o espírito do meu amigo Cerveira está lá. Em paz, do alto onde se encontra, continua a zelar pelo amor do resto da sua vida.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

“Solução Bairrada” estará a ser ponderada em Lisboa


"A sede da nova Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal pode ficar bem mais próxima de Coimbra para tentar amenizar a polémica instalada desde que se soube que o Governo a pretende instalar em Aveiro. Ao que o DC apurou, está em cima da mesa a possibilidade de sedear o turismo do Centro na Bairrada, na ex-Junta de Turismo do Luso, concelho da Mealhada."



In Diário de Coimbra



Ora aqui está uma solução bem mais interessante!!!

TURISMO - Entidade Regional ficará (mais) perto de Coimbra


"A localização da Curia pode ser a solução encontrada pelo Governo para acalmar os ânimos dos socialistas no distrito de Coimbra."



In As Beiras



Pois é...


É a descentralização!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA: O MEU AVÔ CRISPIM



Já o contei em anteriores apontamentos, quando entro numa qualquer carpintaria ou serração, através do odor a serradura, numa viagem alucinante, através dos anéis dos tempos, chego à memória do meu avô Crispim. Curiosamente, também já o escrevi, apesar de eu ter já cerca de doze anos quando ele faleceu, em finais de 1968, em boa verdade, não me consigo lembrar das suas feições. Recordo-me dele, fosse verão ou inverno, sempre vestido com samarra de gola de pele de raposa, boina na cabeça, e as pernas sempre “aparelhadas” com plainas de cabedal, como se ainda estivesse na primeira Grande Guerra. Fumava tabaco de enrolar da marca Kentucky. A sua figura imponente, alta e esguia, de dedos longos, de artista, e as suas constantes mentiras, efabulando qualquer história. “Pintava” a seu jeito uma qualquer narração com a mesma facilidade que um qualquer seu vizinho assobiava uma “moda” de qualquer canção. Veio a passar essa sua forma de ser ao seu filho varão, o meu tio “Manel”, também já desaparecido do nosso mundo dos vivos.
Segundo informações que recolhi, em Várzeas, o meu avô, em questões de labor, era “pau para toda a colher”, pegava em qualquer trabalho, até porque os tempos eram difíceis e havia, para além da minha avó Madalena, mais quatros bocas para alimentar.
O seu verdadeiro gosto ia inteirinho para a música. Num tempo em que, para além da carência de possibilidades de aceder ao ensino musical, tudo faltava, quem quisesse seguir a “veia” musical teria de se “desenrascar” e foi o que o meu avô fez. Conjuntamente com o “Manel Serrado” na “caixa”, o Valentim Gonçalves na concertina e ele no bombo, formaram os “Gaiteiros de Várzeas”. Durante muitos anos actuaram em toda a freguesia de Luso, mas onde eram mais solicitados era para as escamisadas (ou descamisadas, também assim conhecidas). Citando o meu amigo Alcides Rego, do Buçaco, estas escamisadas do milho (retirar manualmente a “camisa” à espiga) eram serões, para além de generalizados, muito apreciados e, nas aldeias, ocupavam entre as suas gentes um lugar privilegiado. “Às desfolhadas concorriam amigos, vizinhos e familiares, bem como rapazes e raparigas, que animavam o trabalho com canções, adivinhas, lendas, lengalengas e pequenos jogos. A própria escamisada era um jogo permanente em que se procurava encontrar o maior número de espigas vermelhas (milho rei), o que lhe permitiria beijar todos os elementos do sexo oposto. Se a espiga fosse riscada seria permitido apenas um abraço. No final das escamisadas era habitual fazer-se um bailarico”.
Para além desse seu talento inato o meu avô tinha alguma queda para comerciar. Como o seu filho mais velho “Manel” foi, durante muitos anos, cozinheiro no Restaurante “Pedro dos Leitões”, em Sernadelo, junto à Mealhada, então, talvez pela ligação ao filho, vendiam-lhe a fressura, elemento das vísceras do animal e utilizado na alimentação, certamente mais em conta. Durante muitos anos, com uma bicicleta “Albata”, com um recipiente em lata, atado no assento traseiro, o meu avô Crispim correu a freguesia a alienar fressura. Quando esta faltava vendia sardinha “salgada”. No princípio da semana levava ovos, comprados pela minha avó Madalena no Salgueiral, e, na volta, trazia do “Pedro dos Leitões” uma grande quantidade de fressura que seria conservada em sal até ser vendida.
Quando a minha avó Madalena morreu, por volta de 1961, o meu avô desistiu das vendas de carne e peixe e virou-se para a produção de carvão. Comprava a madeira de medronheiro e betoino, que são lenhosas compactas e muito duras, fazia um buraco na terra, depois, com barro e pedras, construía um grande forno com uma pequena abertura. Depois, lá dentro, colocava os troncos uns em cima dos outros, e, a seguir, incendiava-os. Durante vários dias, em combustão lenta, os troncos transformavam-se em carvão vegetal. A seguir, ia vende-lo ao Luso, às lojas dos senhores Adelino Carvalho, Aníbal e Carlos Castro.
O meu avô Crispim teve em vida dois grandes sustos. O primeiro, apercebeu-se dele. O segundo, já moribundo, não deu conta.
Ele tinha uma pistola de chumbos. Um dia, na sua casa, tendo-a carregada em cima de uma mesa, entrou o meu tio Albertino, seu filho também já falecido, começaram a conversar, às tantas o meu tio, em jeito de curiosidade, pega na pistola, aponta-lha, dá ao gatilho e…”ai meu filho da puta que me mataste”. O meu avô ficou bastante ferido. A sua sorte é que foi apanhado na fronte e na cabeça. Quem foi o seu anjo da guarda foi a minha tia Dorinda. Para além disso, para evitar complicações com a polícia, até se restabelecer, durante vários dias, esteve retido em casa e mal saiu à rua.
O outro susto, que já não se apercebeu, tem algo de tétrico. Como estava às portas da morte, com um pé lá dentro e outro fora, correu o boato de que tinha morrido. Normalmente a sua casa, durante todo o dia estava de porta aberta. Como quem cuidava dele era a minha tia Dorinda, quando foi vê-lo, entrou e deparou-lhe um homem com uma fita métrica na mão a tirar-lhe as medidas ao corpo. Era o Salvador “manco”, que era informador do “Quim Magro”, vendedor de urnas do Luso, que, ouvindo o boato e antes que alguém se antecipasse, começou logo por lhe tirar as medidas com ele ainda vivo… para o “sobretudo”.

O MOMENTO DA VERDADE

("O MOMENTO DA VERDADE-DIZER A VERDADE...COMPENSA")


“O momento da verdade”, a actual concurso da SIC, é um dos mais repelentes espectáculos televisivos apresentados nos últimos tempos. Num dos últimos concursos, entre várias perguntas ao concorrente, uma delas era se o “concursante” já tinha sido infiel. Ao que parece, como estão ligados a um polígrafo ou detector de mentiras não lhes resta outra alternativa que dizer a verdade. O polígrafo é um aparelho que mede e grava registos de várias variáveis fisiológicas enquanto uma série de questões são formuladas. Se o examinando “aldrabar”, o registo magnético indica linhas variáveis, interrompendo, assim, uma linha contínua.
Como o concorrente respondeu que, sim senhor, já tinha sido infiel, resultado: O casal em questão separou-se.
Esta semana, e ainda segundo a publicidade do canal independente, a pergunta é: “se ganhar o Euro-milhões troca a sua mulher por outra?”. Sinceramente, é uma pergunta muito parva para ser compreendida, mesmo à luz de concursos televisivos de entretenimento. Só pode ser entendida num cenário terceiro- mundista, em que vale tudo. Onde a ética ou moral são cactos desprezíveis num jardim pouco cuidado. Para conseguir dinheiro vale tudo? É evidente que aqui não há inocentes. Somos todos culpados. É o canal, por apresentar um “pacote” tão repelente. São os concorrentes porque, a troco de “cinco reis de mel colado”, se expõem e, num espectáculo indecoroso, destroem a sua vida familiar e somos todos nós, como voyeurs indecentes, a contribuir para o descalabro social. O que me provoca “frisson” é que, em princípio, qualquer programa deve ser proactivo, criando positividade e boa disposição, elevando o lado bom que existe dentro de cada um. Neste caso, e contrariamente ao que se espera, este absurdo concurso salienta o pior que existe dentro de um humano e provoca a destruição moral e material.
É interessante como passados mais de dois mil anos, ainda que numa nova embalagem, a filosofia animalesca e grotesca do Circo Romano volte a estar presente, agora dentro das nossas casas. Não há dúvida nenhuma que o tempo passado, que medeia o Coliseu de Roma e os nossos dias, nada se alterou, pouco trouxe de novo à sociedade. O homem, na sua essência, nada mudou. Continua igual a si mesmo. Ou seja, é um animal vestido de racionalidade mas continua a matar, a prejudicar, a roubar, a invejar, tal-qualmente como o mais primata irracional do universo. Se atentarmos, o que mudou foi o ambiente exógeno que o rodeia. Continuamos todos a ser uns carroceiros rústicos, bem aparentados, vestidos com boas maneiras, bem apessoados no trato. A única coisa que substituímos, para além da vestimenta, foi o cavalo pelo bólide.
Voltando ao programa “Momento da verdade”, e sem me querer armar em moralista, se posso pedir alguma coisa, é que não vejam esta porcaria atentatória aos princípios de alguma decência que deve existir dentro de nós.

Alguma coisa a acrescentar?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

UM DRAMA DE GERAÇÕES EM VÁRIOS ACTOS



“Chamo-me Miguel e tenho onze anos. O que me levou a escrever não é contar a minha curta narração de vida, mas a história em que estou envolvido e dela, como actor, faço parte. Como se duma peça teatral se tratasse, sou o mais novo, o benjamim da família. O meu irmão mais velho tem 22 anos e o do meio 16 anos.
Tudo começou há vinte e poucos anos, quando os actores principais, os meus pais, depois de dois anos de namoro, “deram o nó” na principal igreja da cidade. Como devem calcular não pude estar presente, mas contaram-me tudo. Vieram amigos de longe e foi uma alegria grande para os meus avós maternos e paternos.
A minha mãe, então com vinte e cinco anos, irmã de mais oito, embora vivessem na cidade, era muito pobre. A preocupação do meu avô, homem extraordinário, com um coração de ouro, que conheci muito bem, pai da minha mãe, foi sempre apenas e só o bem-estar dos seus nove filhos. Na sua casa nunca houve luxos, nem grandes farturas, mas nunca a fome por ali passou. Por lá, como no mais justo tribunal, tudo era milimetricamente dividido irmãmente. Quando morreu há oito anos, tinha eu três anos, não deixou terras nem ouro, antes deixou baús cheios de boas recordações em todos os meus tios e uma amizade fora de comum entre todos eles. Como é tão normal nestes casos, onde a ganância individual impera, em conflitos de partilhas, substituindo os laços de amor pela raiva, aqui, como nada de material havia para repartir, dividiram o espírito de amizade recíproca entre todos eles.
O meu pai, nascido na Beira Alta, mais novo que a minha mãe cinco anos, também filho de gente muito pobre, os meus avós, mal fizera 12 anos, e farto de uma vida de sacrifícios, sem nada ter a não ser uma ambição desmedida, um dia tomou a camioneta de carreira e, sem ninguém para o amparar, fugiu e veio trabalhar para a cidade. Naturalmente, se a vida foi sua madrasta, o obrigou a trabalhar duro em vez de brincar, lhe deu o pão, em côdeas, que o diabo amassou, é evidente, pelas agruras do destino, que o meu pai tornou-se um pouco egoísta e frio. Nunca senti muito amor da parte dele. Mas, podem crer, não o acuso de nada. Afinal, se não recebeu carinho como poderia ele dar-me algo que não conhecia?
Já a minha mãe, contrariamente, como contei, nasceu e cresceu em berço de amor. No entanto, no rancho dos nove irmãos, foi sempre diferente de todos os outros. Isto é, mais “malhadiça”, muito teimosa! Ao longo da sua vida, viveu sempre com um complexo de inferioridade: sempre achou que a sua mãe, a minha avó, gostava menos dela do que dos outros irmãos e nunca lhe dava o que ela tinha direito. Mesmo não sendo verdade, nunca nada a convenceu do contrário, fosse o melhor brinquedo ou um sentido gesto de amor mais profundo. Era assim e pronto!
Por acasos do destino, quando eu nasci, em 1997, a minha mãe apanhou uma depressão pós-parto –vocês sabem o que é não sabem? Eu mal sei contar por palavras mas, como senti e continuo a sentir esta “coisa”, penso que vos consigo explicar: é um período de risco psiquiátrico, aumentado pela fragilidade num ciclo de vida da mulher. Consiste numa manifestação depressiva de intensidade variável, em que o factor principal é a quebra do vínculo afectivo entre mãe e filho, podendo interferir nas suas futuras relações interpessoais. Se calhar tive azar, não sei! A verdade é que, hoje, talvez porque nunca fui amado, sinto que não fui desejado. E como devem calcular, sinto-me infeliz. Curiosamente, num ambiente totalmente contrário ao dos meus pais. Há coisas do arco-da-velha, eles, tendo carinho, foram infelizes por, em crianças, nada terem materialmente, eu sou infeliz por me terem dado tudo, muito mais do necessário, e, custando tão pouco, não me ofereceram o principal, que seria o seu amor. Ainda sou novo, mas já me apercebi que esta vida dá tantas voltas. Parece que o destino, ressabiado com as gerações passadas, teima, numa vingança obsessiva, em castigar alguém no presente. Para má sina minha, ao que parece, calhou-me, em sorte, a mim.
Vou então continuar, nem o facto de eu ter nascido serviu para aproximar os meus pais. Ao longo da minha curta existência passei a sentir ser, metaforicamente, o psiquiatra dos dois. De um ouvia cobras e lagartos do outro. Nenhum deles, nunca, se preocuparam em me perguntar, a mim, o que eu sentia.
O meu pai, não sei se para abafar as mágoas que o corroíam por não ser o progenitor e marido que devia, ou outra coisa qualquer, numa escalada sem precedentes, trabalhando noite e dia, alcançou um patamar de tal forma incomum, que lhes permitiu ter mais que uma casa, vários carros, motas e tudo, materialmente, o que o dinheiro pode comprar.
Há dois meses, depois de uma guerra sangrenta de anos, dividida entre balas de amor-ódio, em casa com pão mas sem razão, assinaram finalmente –pensava eu- o armistício, como quem diz o divórcio. Como nenhum deles verdadeiramente queria a separação de facto, perante o juiz, estranhamente ou talvez não, comprometeram-se a, como se nada se tivesse passado, embora separados de direito, a vivermos todos na mesma casa e em comum cuidar de mim. Estava de ver que não dava certo.
Há dias, na minha presença, a minha mãe partiu uma cadeira na cabeça do meu pai. Este retribuiu e ambos, seguidamente, foram para a polícia pedir protecção, por agressão, em cenário de violência doméstica.
Hoje, a minha mãe, fazendo de conta de que eu e os meus irmãos não existimos, furibunda e carregada de ódio, foi às finanças queixar-se do meu pai por…fuga aos impostos.
Como vai acabar a peça? Qual é o meu papel de criança desprotegida neste cenário de guerra, nesta ambição desmedida, nesta vida estúpida e fútil, qual vai ser o meu futuro? Não sei! Provavelmente muito mal. Aguardem pelo epílogo.”

UM CORAÇÃO ABALADO



Margarida é uma flor,
olhos verdes a brilhar,
como sol da meia-noite,
no Pólo Norte a dançar;
Margarida era segura,
nada a fazia tremer,
era uma rocha dura,
onde o mar ia bater;
Um dia a coisa mudou,
a menina, brecha abriu,
um raio a penetrou,
Margarida mal sentiu;
Mas o raio era efémero,
e partiu sem avisar,
a menina ficou triste,
sem esperança dele voltar;
Margarida agora chora,
em ter dado uma abertura,
já se fechou numa concha,
agora é muito mais dura;
Olha o chão, apanha os cacos,
duma relação partida,
já deixou de acreditar
em homens, está ressentida;
Mas ela vai recobrar,
podem ter toda a certeza,
ter caído em tentação,
deu-lhe forças na fraqueza.

domingo, 14 de setembro de 2008

O COLECTIVISMO DE OUTRORA


EM CASA
Nas casa antigas, havia dois locais bastante importantes:

- A Lareira: local privilegiado para a família se reunir. À noite, enquanto a ceia se fazia, e depois ao serão, eram os momentos oportunos para a transmissão de histórias, experiências e saberes, que transitavam de geração em geração. Era à lareira que se combinavam as tarefas dos próximos dias.
“À volta da lareira, como se de altar se tratasse, era contada e conversada a vida, projectava-se o futuro. Contavam-se histórias, transmitiam-se ensinamentos. A lareira tinha um significado muito lato que abarcava intimidade, reunião, aconchego, sonho, fantasia, tudo se consubstanciando na liturgia do pão e do vinho e também da palavra acesa – oração comum, escola primeira, mesa e comunhão. Mesa e comunhão nas noites de inverno ou verão, onde todos, recolhidos no abraço do calor doméstico, comiam, picando com o garfo de pequenas ou grandes bacias de barro, as batatas, as hortaliças e o conduto que lhes cabia escasso – uma sardinha partida por dois ou mais, ou uns torresmos de carne de porco frita.”
- A Adega: local de convívio social onde se reuniam os amigos.
“A adega, por sua vez, pode dizer-se que era a sala de visitas do lavrador, que a outra era apenas utilizada duas ou três vezes por ano. Obrigatoriamente era pela Páscoa, abrindo-a à cruz... Voltando à adega, onde o lavrador respeitava os vizinhos e amigos, chamando-os para ‘provar as águas’ ou ‘registar a passagem’ e ao copo de vinho que era em casa do lavrador o grande acto litúrgico da amizade e da camaradagem, reconhece-se que aquele era o local onde apetecia estar...”

NA REALIZAÇÃO DE TAREFAS COLECTIVAS
“A quase inexistência de maquinaria apropriada e a escassa disponibilidade monetária para contratar jornaleiros, criaram uma funcional modalidade de permuta directa de serviços com benefícios recíprocos. Era a maneira mais rápida e eficaz de resolver pelo colectivo o que o individualismo não conseguia ou tinha muita dificuldade em fazer.”
Desta forma surgem muitas tarefas agrícolas que eram realizadas com ajuda da comunidade local:

NA MONDA E A SACHA
“A par do crescimento das searas, desenvolviam-se diversas ervas daninhas, que por Março e Abril importava retirar, pelo menos nos campos de seara de trigo.” Também as plantações de milho e feijão necessitavam de ser sachadas, para que as ervas daninhas fossem arrancadas e a terra pudesse absorver melhor a água das chuvas e das regas.
Viam-se grupos de mulheres que se deslocavam para os campos para mondar o trigo ou sachar o milho e o feijão. “Regra geral, os grupos eram numerosos e predominavam os elementos jovens, reinando a alegria expressa em cantares próprios, como estes que se registam:

Sachadores do meu milho
Sachai o meu milho bem
Não olheis para o caminho
Que a merenda já lá vem!

Minha mãe case-me cedo,
Enquanto sou rapariga,
Que o milho sachado tarde
Não dá palha nem espiga.”

NA ESCAMISADA
“Entre os serões mais apreciados e generalizados, as escamisadas do milho ocupam um lugar privilegiado.
Às desfolhadas concorriam amigos, vizinhos e familiares, bem como muitos rapazes e raparigas, que animavam o trabalho com canções, adivinhas, lendas, lengalengas e pequenos jogos.” A própria escamisada era um jogo permanente em que se procurava encontrar o maior número de espigas vermelhas (milho rei), o que lhe permitiria beijar todos os elementos do sexo oposto, ou as espigas riscadas, permitindo-lhe apenas um abraço.
No final das escamisadas era habitual fazer-se um bailarico. “Havia sempre algum rapaz que se ajeitava a tocar gaita de beiços ou concertina, instrumentos musicais que bastavam para animar o rancho.”

NA VINDIMA
“Chegado o dia, seguiam para as vinhas, de poceiros à cabeça, mulheres e raparigas, ajoujando ainda no braço direito ou esquerdo o seu cesto de aro. Com cesto de aro seguiam também as crianças que davam nesta tarefa leve e alegre a sua ajuda. Depois chegavam os carros com os cestos, as dornas, os balseiros.
Quando em vinhas contíguas se encontravam ranchos de rapazes e raparigas, havia troca de gracejos, disputava-se uma cantiga, por várias vezes vindimava-se entre rapaz e rapariga um olhar de ternura, um beijo pelo ar cheio de mosto.
A vindima era assim um trabalho leve e alegre. Tão leve que as crianças ajudavam, não sem que volta e meia os mais velhos lhes dissessem, em jeito de trocadilho, que não queriam bagos no chão e lhes contassem que uma velhinha de V(b)agos fizera um pipo de vinho.
A pisa e repisa, à noite, então à luz da candeia ou do candeeiro a petróleo, era sempre motivo de partidas e cantigas e contavam-se histórias e anedotas, se cheios os lagares. Quando a pisa era feita depois da ceia e havia vizinhos a ajudar nessa tarefa, eram-lhe servidos filhós, bom vinho, jeropiga ou simplesmente água-pé.
Também havia o costume de se formarem grupos de rapazes que, de casa em casa, faziam por noite várias repisas. Por serem amigos dos donos ou dos filhos da casa, mas, muitas vezes, levados pelo mosto de uns lindos olhos de rapariga de quem queriam obter a simpatia ou a rendição amorosa.

NO DESENTERRAR E ENTERRAR DA PEDRA DA SESTA
No dia 19 de Março (dia de S. José – dia do Pai) era usual proceder-se ao desenterrar de um enorme pedregulho, que só voltaria a ser enterrado no dia 8 de Setembro. “Trata-se de um ritual que associa a sesta, o S. José e vestígios de um provável culto da pedra.” Neste dia, os trabalhadores do campo juntavam-se no cruzamento da Venda Nova - Luso, para desenterrarem, alegremente, a “pedra da sesta”, era uma maneira de verem reduzido o seu horário de trabalho (de sol a sol) e poderem fazer um intervalo para dar descanso ao corpo. Começava assim o início da sesta.
“Quando o ritual havia já provavelmente desaparecido, começou a festejar-se o dia de S. José, o que ainda hoje acontece embora no segundo domingo de Julho, dado terem-se deslocado os festejos para o verão, no intuito de beneficiarem de melhores condições atmosféricas e da presença de emigrantes.”


NA MATANÇA DO PORCO
“A matança do porco era, efectivamente, um acto de grande importância social, feito por alturas de Janeiro ou já em Dezembro, todos os anos e em quase todas as casas. A matança tinha o seu cerimonial próprio, as suas particularidades etnográficas... Pode dizer-se que era um dia de festa. Toda a família dedicava esse dia a esse acto, que tinha os seus gestos próprios e os seus preparativos. Se não havia homens em casa em quantidade suficiente, pelo menos três, eram convidados familiares ou pessoas vizinhas, de boas relações e melhor amizade, e o matador a quem chamavam magarefe... De resto nesses dias, o dono da casa fazia questão de chamar o familiar, o vizinho ou o amigo passante, para levá-lo à adega, dar-lhe um copo (era dia de festa desde manhã cedo) e mostrar-lhe o porco. Também era costume os vizinhos e amigos juntarem-se para ir, diziam, “por a água benta no porco” de fulano ou sicrano. E, se na vizinhança havia mais matanças, iam de casa em casa. O lavrador escancarava-lhes as portas da rua e da adega.


NA MALHA, NA PODA, NA EMPA, NA FIAÇÃO, NA APANHA DA AZEITONA, ETC.
Em todos estes trabalhos era possível constatar a inter-ajuda, entre amigos e vizinhos, para a realização de longas tarefas, onde só o grande número de pessoas conseguia resolver.

Nalgumas comunidades do interior, podemos ainda constatar a existência do “Boi do Povo”, do “Forno do Povo”, da “Eira do Povo”, entre outras formas de manifestação comunitária.


NO JOGO E NO TRABALHO
“As antigas ocupações laborais do mundo rural, situadas em torno da pastorícia e do ciclo de trabalhos de preparação, sementeira, colheita e armazenamento dos produtos agrícolas eram, muitas vezes, interrompidas por jogos diversos ou coexistiam mesmo com folguedos e diversões.”

NA PARTICIPAÇÃO COLECTIVA EM ACTOS RELIGIOSOS E PROFANOS
Num misto de religiosidade e superstição o povo agia colectivamente. Ainda que dispersos, ao toque das avé-marias, de manhã, ao meio-dia e ao cair da noite, “quando soavam as três badaladas nas torres das igrejas, os trabalhadores onde quer que estivessem, tiravam o seu chapéu, encostavam-se ao cabo da enxada, se andavam nas sementeiras ou nas cavas; mandavam parar as juntas de bois, se andavam nas lavras e, assim descobertos, de chapéu na mão, semeadas de calos, rezavam por momentos.”

Em actos religiosos como, ir à missa, ao terço, à via-sacra, às novenas, aos sermões, verificava-se grande afluência de pessoas, representando a comunidade.

Também para a realização de obras nas Capelas e Igrejas, as pessoas se organizavam, fazendo Cortejos de Oferendas, com o sentido de angariar fundos.

Criaram-se Irmandades, para acompanhar os defuntos no dia da sua morte e mandar rezar missas por alma destes.
Procedia-se ao Cantar das Almas, para arranjar dinheiro para dizer missas por alma desses entes queridos.

As pessoas agrupavam-se para Cantar os Reis ou As Janeiras, para Deitar Pulhas, para A Serração da Velha, entre outros usos e costumes.

Uma ocasião muito especial para se agruparem em grande número, eram as Festas e Romarias. Era ver os ranchos de pessoas que partiam em grupo a caminho da Romaria: Almas Santas da Areosa, S. Amaro, S. Brás, S.to António do Cântaro e a nossa Romaria por Excelência – Romaria da Ascensão ao Buçaco.

Bibliografia:
J. Freg. de Luso - J. Turismo de Luso - Buçaco - LUSO NO TEMPO E NA HISTÓTRIA - 1987
Rodrigues, José - O COUTO DE AGUIM - Junta de Freguesia de Aguim - 2.ª edição - 1977
Carvalho, António Breda – MEALHADA A ESCRITA DO TEMPO - 1977
Mota, Armor Pires - OLIVEIRA DO BAIRRO - CHÃO DE MEMÓRIAS - USOS E COSTUMES - 1996
Faria, António - MEMÓRIAS DA MOITA - 2003
Pimenta, Osvaldo de Melo – IDEAL DE UMA VIDA – MANUEL DE MELO PIMENTA - 1987
Marcelo, Lopes – MOINHOS DA BASÁGUEDA – 2000
Gouveia, Henrique Coutinho – SISTEMAS DE MOAGEM DO CONCELHO DE PENACOVA – 1999
Serra, Mário Cameira – O JOGO E O TRABALHO - 2001
Revista AQUA NATIVA – N.º 9 Dezembro 1995 – Associação Cultural de Anadia
Fontes, António Lourenço – ETNOGRAFIA TRANSMONTANA, vol. I e vol. II - 1974
Arquivo de recolhas do Grupo Folclórico “As Tricanas” da Vila de Luso