sábado, 18 de outubro de 2008

OS NOVOS BÁRBAROS





Quem passa pela Baixa da cidade de Coimbra, certamente, já se apercebeu destes dois “artistas”. Coloco a palavra entre comas porque, em boa verdade, não sei mesmo se o serão. Que assim se classificam, isso não tenho dúvidas, estive a falar com eles.
Entre o sim e o não, inclino-me para o sim. Serão realmente artistas. Claro que tenho de fundamentar a minha classificação, e fá-lo-ei. Se considerarmos “arte” todo o movimento de algo que desperta e apela aos nossos sentidos, não tenho dúvida nenhuma de que estes dois homens, pela sua originalidade peculiar, na sua apresentação e representação, serão arte no seu maior impressionismo humano. Pode-se argumentar que a sua degradação, enquanto pessoas humanas, atenta contra o valor arte. Mas, pensemos, a arte pode representar a degradação humana, e, de repente, lembrei-me da Guernica, de Pablo Picasso, em que, não tendo nada de belo, esta pintura universal, representa o esgoto e a atrocidade humana na Guerra Civil de Espanha, cometida por Francisco Franco, de 1936 até 1939.
Sem me armar em filósofo, a arte pode ser tudo aquilo que nos faça pensar. Que nos transporte, através de uma viagem contemplativa, momentânea e supersónica, de um estado actual para um momento do passado ou para um futuro que se adivinha vir a viver. Como se fosse um transe hipnótico, na observação, perdemos a noção de tempo e de espaço.
E estes dois homens podem ser tudo isso. O início de uma viagem intergaláctica, em que neles se antevê o princípio e o fim da linha.
Uma questão que se poderá colocar é a sua vivência nas cidades representam uma mais-valia ou o contrário? Sinceramente, não sei. Posso tentar avaliar por dois prismas diferentes. Por um lado, estas pessoas, pela sua singularidade, são uma quebra de rotina no quotidiano. Se não fosse a sua imagem diferente –e não faço juízos de valor nesta acentuada diferença-, as cidades, a meu ver, seriam uma amálgama de iguais, em que poucos, de facto, marcariam a diferença.
Por outro lado, economicamente, para as urbes, nada representam. Vivem do esmolar e da dependência, umas vezes de álcool, outras de drogas.
Serão pessoas desapegadas da sorte, normalmente por sua cabeça, que nunca teve princípios de construção de uma vida melhor. Provavelmente o seu lema é o carpe diem, como quem diz, gozar o dia sem a preocupação do dia de amanhã.
Podem também ser Epicuristas. Epicuro foi um filósofo grego do período helenístico, que consistia em procurar a alegria, numa vida sem sobressaltos, caracterizada pela aponia, a ausência de dor e medo, e vivendo cercado de amigos. A dor e o prazer eram a melhor maneira de medir o que era bom ou mau. A morte era o fim da linha. O fim do corpo e da alma. E, assim sendo, não se deveria temer os deuses. Epicuro foi considerado o precursor do pensamento anarquista.
Uma coisa é certa, estes homens, umas vezes pacíficos, outras vezes nem tanto, talvez apátridas de emoção, invasores das cidades, que, à luz dos parâmetros que entendemos por normalidade, podem ser considerados novos loucos, serão, quanto muito, uns novos bárbaros conquistadores de coisa nenhuma.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

PENSANDO NO VAZIO



Um homem dorme num banco,
estranhamente, verde-esperança,
com a boca-aberta de espanto,
sonha que o sofrimento é uma lança,
ai!, se pudesse chutar para canto,
fugir desta vida que é uma cagança,
e faz pecar qualquer santo;
Ao lado está outro, observando,
bem vestido, de porte altivo,
como “na bezerra” pensando,
embora sem aspecto aflitivo,
talvez até esteja cantando,
uma qualquer trova de amigo,
triste, de coração sangrando;
Ambos esperam a morte,
qualquer deles não escapa,
sentados num banco de porte,
mesmo que comprem uma capa,
nenhum deles vai ter a sorte,
de a enganar à “sucapa”,
ninguém a leva no corte;
Pode ser pobre ou remediado,
empresário ou indigente,
vagabundo ou soldado,
equilibrado ou demente,
mesmo que nunca fosse amado,
desde que viva e seja gente,
a diferença: é saber morrer consolado!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

UM COMENTÁRIO ILUSTRATIVO DE ALGUMA SOCIEDADE PORTUGUESA



Escrevi o texto abaixo descrito neste blogue, num outro site da internet, no caso o Netlog, “O que tenho a ver com aquilo que o meu vizinho faz”. Recebi um comentário que passo a transcrever e deixo à consideração de cada de um:

“Segundos dados científicos, a homossexualidade é um desvio da mente, ou seja; ser homossexual é ser doente, ou pelo menos ter um desvio da mente (não sou eu que o digo). Se tem simpatia por essa gente, então a melhor forma de os ajudar é tentar indicar-lhe locais onde possam ter acesso a terapias.
Duas pessoas do mesmo sexo a ter relações sexuais é algo contranatura.
Já agora, faço-lhe uma perguntinha: acha que essas manifestações de paneilarada, vestidos de forma pateta, com sapatos com umas plataformas enormes, com gestos e actos perfeitamentte descabidos, não me diga que acha isso normal! Essa gente é gente doente.
Sabe o que se passa? É que no mundo actual gerou-se uma corrente de protecção às minorias, e então fica bem dizer bem dos pretinhos, dos ciganos e da paneleirada.”

Arte Urbana

sábado, 11 de outubro de 2008

CALMA, SENHOR ZÉ!




As lojas da Praça Velha,
na cidade de encantar,
outrora foram uma flor,
agora parecem murchar,
num largo que falta ardor;
Senhor Zé está junto à porta,
olhando a gente que passa,
parece que nem se importa,
como se perdesse a graça,
tem a vida toda torta;
Já não tem aquele brilhar,
nos olhos de perdição
senhor Zé está acabado,
quase sem explicação,
está todo desmotivado,
até para a Anunciação;
Pois!, já nem consegue dormir,
quanto mais dar-lhe carinhos,
só pensa que vai falir,
já só fala com anjinhos,
faz promessas com sentir,
apela a todos os santinhos;
Senhor Zé está um farrapo,
quem o viu e quem o vê,
encostado, parece um trapo,
já nem entende o que lê,
seu coração bate fraco,
a interrogar o “porquê”?;
Já nada o faz animar,
nem a boa da Vitália,
quando passa a provocar,
mostrando-lhe a nova sandália,
fingindo que vai escorregar,
como se fosse uma dália,
para o senhor Zé pegar;
Coitada da Anunciação,
já não sabe o que fazer,
para o Zé ganhar tesão,
ganhar gosto por viver,
até lhe dava um “prendão”,
o seu Zé não pode morrer.

O QUE TENHO A VER COM AQUILO QUE O MEU VIZINHO FAZ?



(IMAGEM RETIRADA DO BLOGUE "MOURAMORTA")
-CLIQUE EM CIMA DA IMAGEM PARA AMPLIAR-

Este recorte antigo de jornal fez-me lembrar e escrever sobre os casamentos homossexuais. Como se sabe, ontem, na Assembleia da República, foi chumbado o projecto do Bloco de Esquerda e de Os Verdes.
Um dos princípios que deve estar subjacente à política é a contínua construção de uma vida material melhor e, ao mesmo tempo, a criação de condições que, através de uma igualdade de representação, dignifique a pessoa perante a lei. Não se pede que, numa obsessão legislativa, o Estado, através da invasão da vida privada, tudo queira regular e, muito menos, os afectos.
Eu tenho 52 anos. Sou de um tempo em que a manifestação da sexualidade era proibida. Um simples beijo em público era repreendido com coima. Em criança, o simples pensamento de se poder ser confundido com o homossexual era aterrador. Ainda que possa parecer estúpido, muitos suicídios se consumaram por esta incompreensão da intolerante sociedade de 1960/70.
Deveria ser tempo de todos pensarmos que o que se passa no quintal do meu vizinho, desde que, directamente não me toque em prejuízo, nada tenho a ver com isso. Isto de acharmos que a sociedade deve ser uma virgem imaculada, cheia de virtudes, é o mesmo que querermos acreditar no Pai Natal. Para que serve este espírito de “bom chefe de família”, se, até os Romanos que o instituíram há mais de dois mil anos eram, nas virtudes, tão ou mais corruptos do que nós? E, para mais, poderemos questionar o que é um bom chefe de família? Públicas virtudes com vícios privados? É isso?
Talvez fosse altura de se entender que, tal como na natureza, tudo na vida humana é dinâmico, inclusive os costumes. A família não é mais o quadro com a moldura a que nos habituámos. E, quanto a mim, ainda bem. Se há algo que detesto é a hipocrisia.
Há três anos, juntamente com a minha mulher, estivemos em Espanha, mais propriamente em Sevilha. Numa esplanada repleta de pessoas, reparámos em dois casais de homossexuais que, com o maior dos à-vontades se beijavam em público. Das restantes pessoas, aparentemente, ninguém ligou nada à cena de amor praticada pelos dois “casais” de homens.
Não estou armado em bom samaritano, no sentido de dizer o contrário daquilo que penso, nada disso! Acho, tenho a certeza, de que cada um deve usar a sua liberdade de modo a que esta contribua para a sua felicidade e não o contrário.
Como trabalho em artes, ao longo das décadas, habituei-me a ter por clientes, entre outros, muitos homossexuais, homens e mulheres. Pois posso garantir que são pessoas com uma sensibilidade à flor da pele. São diferentes entre iguais? Certamente que o serão, para melhor. A história está repleta de grandes artistas homos, cujas criações foram importantíssimas para a humanidade.
Então a pergunta que surge, porquê continuar a discriminar estas pessoas em função de um egoísmo defensor de uma moral hipócrita e antiquada?
Às vezes chegamos a ser cruéis com o nosso próximo, como se a sua felicidade nos incomodasse. Chegamos a ser melhores para os animais que para as pessoas nossas semelhantes. Ontem, o JN noticiava que, na região de Coimbra, os bombeiros de Brasfemes tinham salvo uma gata, a Nana de seu nome, que tinha ficado presa num tubo de escoamento de águas pluviais. Bonito, sem dúvida. Mas este gesto de altruísmo deveria perpassar em dobro para as pessoas. Acontece que, a meu ver, não é assim.
O Governo, do partido Socialista, perdeu uma boa oportunidade de acabar com esta polémica. O arrastar no tempo não vai, como milagre da virgem, tornar as pessoas mais compreensivas, tolerantes, e aceitar a (diferente) sexualidade do próximo. Nem vai erradicar o voyeurismo, e a mania, de cada um se imiscuir na vida do outro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

UMA REMOÇÃO DUVIDOSA



A recente retirada do cartaz de propaganda do PNR, Partido Nacional Renovador, na rotunda de Entrecampos, em Lisboa, através do pelouro do vereador da Câmara Municipal daquela cidade, José Sá Fernandes, dever-nos-ia indignar a todos.
Como ressalva de interesses não tenho qualquer simpatia por este ou outro qualquer partido político. E, nessa aparente independência penso estar à vontade para criticar o exagero do acto discricionário. Digo “aparente”, porque objectivamente ninguém o é, uma vez que todos sofremos influências exteriores que condicionam a nossa liberdade de escolha e autonomia.
Parafraseando Victor Ramalho, do blogue “Alma Pátria”, “José Sá Fernandes não é Juiz, nem exerce essas funções com legitimidade para ordenar a retirada de cartaz de um qualquer partido português. A vertente política desta decisão é confirmada pelo facto dessa mesma ordem não ter sido dada relativamente ao cartaz do PCP, colocado a dois metros de distância do cartaz do PNR, o que demonstra que se trata de pura censura e não de motivos de estética ou outras”, refere indignado Victor Ramalho.
Em face do acto administrativo arbitrário, pessoalmente, estou completamente de acordo com Victor Ramalho. Como refere o articulista do “Alma Pátria”, “a censura política terminou, oficialmente, em 25 de Novembro de 1975.
Dão que pensar duas fobias que grassam na sociedade portuguesa. Curiosamente, antagónicas na ideologia. Uma, já mais antiga, com muito mais de três décadas e fruto dos medos incutidos por Salazar, dentro das políticas restritivas do Estado Novo, refiro-me ao anticomunismo primário que envolve muitos cidadãos, sobretudo menos esclarecidos. Passados 34 anos da queda do regime, os comunistas continuam a “comer meninos ao pequeno-almoço”.
Uma outra fobia, e esta tem a ver com este apontamento, é o constante receio, o ressurgir do fantasma de Salazar. E aqui, neste acto prepotente do vereador Sá Fernandes, essa intenção imerge completamente.
Acho, tenho a certeza, que todos têm direito à opinião, mesmo as mais aberrantes e com teses descontextualizadas. Estas políticas seguidas, às vezes por insuspeitos defensores da liberdade, como no caso presente, levam-nos a pensar que espécie de agir sem coerção defendem estas pessoas. Talvez uma liberdade feita à sua medida, em que a sua, sem barreiras possa invadir a esfera do outro, mas a do semelhante tem de estar condicionada ao seu livre arbítrio.
Também não admira, em tempo de pensamento único, do chamado “politicamente correcto”, a esfera do poder, convencida do seu iluminismo endeusado e absolutista, quer é ser bajulada e tudo o que é diferente e faça pensar é para abater.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

CHUVA DE OUTONO




Chovia copiosamente,
do chão emergia um nevoeiro,
por entre guarda-chuvas com gente,
em passo apressado de caminheiro,
cada um seguia seu rumo, lentamente,
pensando na vida, na falta de dinheiro,
na prestação da casa, ou outra, certamente,
inventando cores, daquele verão soalheiro,
ai que saudade!, daquele tempo de antigamente,
era tudo mais lento, mas tudo mais certeiro;
Por entre as bandeiras desfraldadas,
o vento, fantasma, tocava tudo o que passava,
soprava a folha, a chuva, em águas embaladas,
alheio a carências, a todos vergastava,
a linda, a feia, eram todas encantadas,
marimbando-se para a preocupação que se inalava,
assobiava árias, pareciam baladas,
como barqueiro, contra a maré, remava, remava,
em espírito alegre de Valquírias resignadas,
na sua função de incitamento que tudo transformava;
Na praça, até os guarda-sóis se quedaram,
como fantoches em carnaval macilento,
vestidos de capas brancas, se disfarçaram,
como estudantes num tempo virulento,
fazendo greve, inertes, não trabalharam,
com este vento, desgarrado, não tinham alento,
não queriam chuva, o sol reivindicaram,
este presente não serve, é muito violento,
perante todos os humanos, lágrimas choraram,
como a dizer que são coisas mas têm sentimentos.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

UM PASSEIO PELAS ÁGUAS





Dois patinhos passeavam,
tão juntinhos, calmamente,
pelas águas do Mondego,
parecia que namoravam,
embalados na corrente,
enleados num sossego,
alheios aos que passavam,
por cima, na ponte de gente,
a mostrar no seu apego,
o amor que transportavam;
A natureza é imparcial,
qualquer dia é uma lição,
é uma folha a flutuar,
no meio de um tufão,
uma andorinha a voar,
o cego que estende a mão,
um rio a correr para o mar,
uma carícia que se faz a um cão,
abana o rabo, a mão vem beijar,
agradecido, num Outono de afeição;
A pata beijou o pato,
e um segredo lhe contou,
era uma pobre órfã de mãe,
perdida no meio do mato,
tinha sonhos mas adiou,
era pobre sem vintém,
tinha apenas aquele fato,
tinha amor mas nunca amou,
pouco lhe importava também,
o seu mundo era o pato.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

PONTES

PONTE VELHA E PONTE NOVA
25.Maio.1956
Ora cá está a foto que faltava!
As ponte de Trezoi, a velha (Eiffel) e a nova, construída pela empresa Alemã.
Um muito obrigado à Sr.ª Maria pela gentileza.

BAIXA DE COIMBRA: O SALÃO BRAZIL



Falar neste antigo salão de bilhares é reviver memórias do centro histórico. Na sua época áurea, até meados da década de oitenta, do século passado, o Salão Brazil e a Baixa, caminhavam lado-a-lado. Nesse tempo, este primeiro-andar, no Largo do Poço, era o catalizador, o modelo que mostrava as alterações, no interagir desta zona da cidade, embora, aparentemente, tudo se mantivesse igual, sem reacção. Era aqui que confluíam todas as classes sociais da cidade, desde o “Zé dos alicates”, o “Zé cigano”, o João, hoje médico, com as suas habilidades exímias no bilhar, o Romão, o João das Galerias Coimbra, e outros que não lembro. No pano verde do Snooker, a jogar à “pool”, à “série”, ou à “seguidinha”, não havia diferenças classicistas. Desde que se tivesse dinheiro e se cumprisse as regras, qualquer um podia ser comparte em qualquer um daqueles jogos. Sobretudo das 13 às 15 horas, horário do encerramento do comércio para almoço, e depois das 19 horas.
Após o fecho das lojas, o Salão Brazil tomava a efervescência das bolsas de Nova Yorque. A controlar o movimento, o velho Juvenal, regulador do índice Dow Jones. Se ele estava presente o índice subia, se hipoteticamente ele faltasse uma qualquer vez, o ambiente iniciava uma queda de vários pontos. Embora, saliente-se, ao longo da sua vida profissional à frente deste salão de bilhares, tenho a certeza que era possível contar pelos dedos das mãos as vezes que ele faltou ao trabalho.
Falar do velho Juvenal não é fácil. Não porque ele fosse um personagem interactivo com a heterogénea clientela. Nada disso. Era um homem bom, pacato, simples, e que falava pouco. Naquele salão todos os frequentadores sentiam que aquele homem simbolizava o respeito. Para além de facilitar o pagamento de uma bica e um bolo, porque no momento não havia dinheiro, era um bom ouvinte. Naquele espaço de tertúlia comunitária e de jogos, aquele homem, quase iletrado, era o ombro amigo, o psicólogo, o animador social. Ai de quem faltasse ao respeito ao senhor Juvenal. Se, por exemplo, aparecesse uma cara nova no salão e se começasse a “armar”, a clientela diária, como polícia de costumes, mantinham-no “debaixo de olho” e, ao mínimo deslize, os tacos de jogar bilhar virados ao contrário, depressa se tornavam cacetes de basebol.
O velho Juvenal morreu velhinho, há cerca de 15 anos. Certamente por coincidência, com o seu desaparecimento, o velho salão encerrou e a Baixa, como sentindo a sua falta, numa solidão continuada e carregada de uma inultrapassável dor, iniciou o seu declínio.
Há cerca de quatro anos, como que a iniciar a recuperação desta zona monumental, o Telmo (o actual dono), conjuntamente com o “Manel”, reabriram o Salão Brazil. De uma forma inteligente, uma vez que os computadores fizeram passar à história os jogos de salão, arrumaram os velhos Snookeres, deixando apenas um para memória futura, e fizeram um bonito restaurante “art Deco”. Para além disso, estabeleceram um protocolo com o Clube Jazz ao Centro, sob a direcção de Pedro Rocha Santos, e hoje o Salão Brazil, com o seu arrojo vanguardista, é um bom exemplo de uma revivificação que se deseja para a Baixa.
O Salão Brazil pode perfeitamente ser para esta ínclita zona comercial o início de uma recuperação que todos desejam, a frente de uma guarda avançada, a renovação de um marasmo que urge abanar.
Tenho a certeza que o espírito do velho Juvenal, esteja onde estiver, estará a torcer pelo sucesso do seu antigo companheiro de vida, o seu amado salão, e pela revitalização da Baixa de Coimbra.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

AS URBANAS ILHAS DA FELICIDADE



Eram 21 horas de um destes sábados de Setembro. Eu e você, leitor, passeávamos pela Baixa da cidade. Enquanto percorríamos as ruas estreitas, reparávamos que estas estavam completamente desertas, era desconfortante andar ali. O sentimento de insegurança era palpável. Nem vivalma se avistava. De repente, um pássaro de relativas dimensões bate as asas e o som ecoa como tiro de canhão. Você, surpreendido pelo susto, dá um salto e quase se estatelou na calçada de pedra portuguesa. Leva a mão ao peito, e, como bom português que se preza, solta uma valente imprecação. Claro que, naturalmente, ia-me desmanchando a rir. Você é que não gostou nada do meu riso hilariante e sarcástico. Em jeito de justificação, atira: “fogo!, já viu isto? Não se vê ninguém! Onde é que se meteram as pessoas?”
Antes de eu poder responder, contra-ataca novamente: “É a crise! As pessoas agora nem saem de casa para não gastarem dinheiro”. Como eu não respondi, mas abanei a cabeça em sinal de discordância, você, como mestre sapiente dono da verdade, ficou à defesa e replicou: “ai pensa que não, que não é da crise? Homem, o que se passa aqui em Coimbra é transversal a todo o país!”
Como pareceu adivinhar no meu rosto um engelhar de cara, embrulhado em sorriso amarelo, novamente tomado de forças redobradas de réplica, questiona: “quer apostar que o Café Santa Cruz (dos poucos abertos àquela hora na Baixa) têm menos de uma dúzia de pessoas, incluindo os empregados?”
Eu continuava céptico, mas, mesmo assim, aceitei o repto e lá fomos. De facto o belíssimo café, irmão siamês da Igreja com o mesmo nome, estava às moscas. Sentámo-nos, bebemos café, e você, exultante, como se fosse o ganhador mais procurado do Euro-milhões da região da cidade do Mondego, sem disfarçar a arrogância, ufano, de peito feito, replica: “vê? Eu não lhe disse? É a crise. De que vale os estabelecimentos estarem abertos se as pessoas não vêm passear? É difícil de ver? Você parece cego, homem de Deus”, recalcitra você, dirigindo-me um olhar reprovador, como se me chamasse besta.
Confesso que a sua insistência, como se a verdade fosse una e indivisível, já me estava a chatear. Você até sabia que eu tinha as minhas razões para não concordar consigo. Anteriormente estivemos a falar sobre este assunto e eu até lhe disse que o abandono das zonas históricas não pode ser só atribuído à crise financeira das famílias. Tem de haver mais qualquer coisa, sublinhei com ênfase. Mas, apesar disso, sem levar em conta a minha argumentação, você insistia em que tudo se resumia à falta de dinheiro.
Tenho a certeza de que você está enganado, contra-argumentei, e vou provar-lhe. Venha daí. Entrámos nos nossos carros e você foi atrás de mim. Não sem antes, de uma forma insistente, sem sucesso, me interrogar acerca do nosso destino.
Fomos ao Fórum Coimbra, na encosta de Santa Clara. Os estacionamentos, interiores e exteriores, estavam repletos e tivemos de aguardar. Entrámos e fomos directos ao terceiro piso, onde, depois de esperarmos um bom bocado, nos sentámos a beber um sumo. Você, como se tivesse entrado num mundo novo, parecia abismado. Centenas de pessoas, ou talvez milhares, percorriam a superfície comercial. Daquele piso cimeiro, com uma panorâmica plena, naquelas imitações de ruas públicas, víamos o ar de felicidade daquelas pessoas. Eram famílias inteiras, entre novos e velhos, a consumir hambúrgueres e outras especialidades. Reparei naquela senhora a passear despreocupada com a carteira aberta a tiracolo. Você, perante todo aquele movimento, parecia absorto e não falava. Parecia que, de repente, tinha perdido o “pio”. Como se, perante a evidência, perdesse toda a réplica.
Mas se pensava que ia ter complacência estava bem enganado. Agora quem falaria seria eu. E você, agora, sem sequer pestanejar, limitava-se a escutar-me. Comecei então a defender os meus argumentos.
Se a crise é a causadora da desertificação das cidades, como se poderá entender esta deslocalização para estas “ilhas”? Aqui, se há recessão, é só aparente. A maioria das salas de cinema “multiplex”, estão completas, nomeadamente o “Mamma Mia!”, com a Meryl Streeap, bem como outros filmes.
As pessoas vêm para aqui porque o conforto é uma constante. Podem passear à vontade com segurança e frequentar os estabelecimentos até à meia-noite. Se escolhessem a cidade o que recebiam? Pouco, para não dizer nada. As cidades, dentro do formato tradicional, estão ultrapassadas. Mesmo se, eventualmente, se recuperasse todo o edificado, mesmo assim, a urbe continuaria sem atracção e sem funcionar. As cidades, no seu conceito de vivência amorfo e estático, estão como um velho de cem anos. Pararam no tempo. Hoje os grandes centros urbanos estão para os centros comerciais como há cerca de vinte anos estavam as aldeias para as cidades. A deslocalização é igual. As pessoas “fogem” para estas “ilhas de felicidade aparente” porque aqui respira-se movimento e modernidade. Há aqui imensas possibilidades de escolha. Poderíamos perfeitamente apelidar estes centros de consumo de alter-ego das cidades, uma extensão futurista, na qual estas, se quiserem sobreviver, terão de copiar o modelo. E refiro-me concretamente à disciplina, quase ditatorial, de horários de estabelecimentos. Nas zonas históricas, para além de ninguém querer trabalhar à noite e ao fim de semana, a liberdade de cada um estabelecer o horário que mais lhe convém na sua loja, ajudou a matar o comércio de rua. Depois a falta de policiamento, sobretudo à noite, acaba com o resto. Já para não falar na falta de limpeza e, nalgumas artérias, luz pública. A cidade, concretamente a Baixa de Coimbra, é uma zona abandonada. Repare-se no piso das ruas, no empedrado partido e cheio de buracos na calçada portuguesa. Atente-se na quase uma dúzia de prédios abandonados, uns sem início de obras, outros entaipados há vários anos.
Acho curioso quando alguns responsáveis chamam à Baixa de “Centro Comercial a céu aberto”. Deveriam estar calados e pugnar por medidas eficazes, políticas de revitalização por parte da autarquia e sensibilização dos comerciantes de que ou mudam ou morrem todos.
Ah! Você, com este meu discurso, adormeceu. Que falta de respeito!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

XVIII Festuna



Mais informações aqui!!

"Luso (re)vive tradição"


"O tempo de guerra e de disputa com Espanha já lá vai. Porém, longe dos tempos antigos, há datas que continuam a fazer sentido recordar."





Ainda bem que há coisas que não mudam. Está um pouco "mais pequeno" mas mantém-se!

Infelizmente não pude estar presente mas já sei que o franguito estava bom!!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

“Tem havido muita gente a falar de mais sobre aquilo que não sabe”


"«A polémica tem sido feito à volta de gente que não conhece, não está dentro, provavelmente não leu a lei nem o despacho do senhor secretário de Estado». A afirmação é de Pedro Machado, que preside à Comissão Instaladora da nova Entidade de Turismo do Centro, sobre a polémica instalada em torno da localização da respectiva sede.Em entrevista ao DC FM, ontem, Pedro Machado atribuiu a controvérsia instalada à «falta de informação» e a algumas jogadas políticas. «Tem havido muita gente a falar de mais sobre aquilo que não sabe», acusou, explicitando ainda que a Comissão Instaladora é «um órgão de gestão» e «não faz política»."





Andam a fazer politiqueira com coisas importantes!!

Criam expectativas nas populações e depois vão usar as desilusões do povo como armas de arremesso contra adversários políticos!! O costume!!

TODOS DIFERENTES... TODOS DESIGUAIS



Nas últimas décadas, no país, resultado ou não das profundas desigualdades do Estado Novo, a verdade é que, numa lógica viciada, numa osmose, numa influência recíproca, como clones, passámos todos a sentirmo-nos iguais uns aos outros. Não apenas em direitos substantivos formais (os direitos Civis e Constitucionais alienáveis da dignidade da pessoa humana), como também nos adjectivos, no modo de procedimento (Códigos de Processo). É certo que o direito, numa inclusão exacerbada, sobretudo tentando corrigir os erros do passado, a partir de meados da década de 1980, passou a levar em conta as diferenças de cada um. Ou seja, se um indivíduo foi apanhado a furtar, e se o produto desse furto foi para satisfazer a sua necessidade básica de alimentação, ou de entes consanguíneos, este acto de reprovação social perde a sua aura de delito “grave”, passando a ser considerado “desvio”, e, subsequentemente entra numa punição de moldura penal leve.
Por outras palavras, porque corro o risco de não ser suficientemente claro, até esta altura, meados de 1980, o direito em Portugal, resquícios de um corporativismo integral e inflexível de cinco décadas, assentava num positivismo jurídico, isto é, qualquer furto era julgado como tal, uma espécie de chapa numerada previamente, tendo apenas em conta a denominação da classificação do acto desviante, sem levar em conta a motivação do autor. Era um direito sem rosto humano. O juiz decidente, sem capacidade autónoma subjectiva, era um mero exequente das leis. Tal como acontecera em França, após a Revolução francesa de 1789, no iluminismo, com o surgimento dos direitos individuais, o positivismo jurídico tentava mostrar que todo o homem é igual à luz da lei. Então, nessa época das luzes, tal como aqui em pleno século XX, num igualitarismo desenfreado, embora de motivações políticas diferenciadas, perante o erro todo o homem era igual. Em França, num experimentalismo cruel Robespierrano, assentes, sobretudo, em teorias de Voltaire e Rousseau, era de índole ideológica-revolucionária-social, cortando laços com um absolutismo sufocante do povo sem direitos (burgueses, camponeses e artesãos). Em Portugal era o contrário, este “positivismo”, através de um autoritarismo pronunciado, em que o poder judicial estava subjugado ao regime, servia exactamente para conter as hostes, prevenindo convulsões sociais, e evitar o alastrar da reivindicação de direitos.
Então aqui, você, leitor, e eu, fazendo um balanço do que foi escrito, interrogamo-nos: bom, se o positivismo jurídico era atentatório do valor pessoa, hoje, em que se leva em conta as diferenças de cada um estamos no bom caminho. No bom, para não dizer no óptimo, pensa você. Pois, mas eu não. E explico a seguir porque creio estarmos no mau caminho. Como passámos a hipervalorizar o “diferente”, em detrimento do “igual” ejectando-lhe doses maciças de psicologia social, quem é diferente, fazendo das suas fraquezas forças, com a ajuda do Estado, acha que a sua diferença, física, psíquica ou outra, não existe. Ou seja, caímos numa pretensão de um igualitarismo de ascendente perigoso. Porque, sejamos pragmáticos, o que é diferente jamais pode ser igual.
Por outro lado, o Estado, numa diarreia legislativa, através de legisladores obcecados por direitos, liberdades e garantias, tentando agradar a lobbies, grupos de pressão conotados com uma esquerda radical, invocando “discriminação” a “torto e a direito”, vai passando a ideia à sociedade de que somos realmente “todos diferentes… todos iguais”. Uma profunda mentira, que só a engole quem não pensa. Claro que, neste conluio, o Estado não é inocente. Tem objectivos económicos a atingir. Veja-se, por exemplo, o sucessivo encerramento de instituições psiquiátricas. A mensagem que é passada é de que os dementes ou diminuídos psíquicos não devem ser tratados como diferentes, mas, pelo contrário, devem ser tratados como iguais. Devem ser “ressocializados”, e inseridos na sociedade. Então o que assistimos? É vermos, nas grandes urbes e outras, estes indivíduos abandonados a vaguear e entregues à sua sorte. Claro que não se pode escamotear algum relativo sucesso, sobretudo nas famílias. Também um pouco por, a isso serem obrigadas e sem alternativa, ficarem mais sensíveis para os seus familiares diminuídos psiquicamente.
Claro que se o leitor chegou até aqui, certamente, interroga-se: mas, afinal, onde quer chegar este tipo? Disserta, disserta! Parece uma alma penada.
Se pensou isto, tem razão. Eu estou a abusar da sua tolerância. Mas, já agora, só mais um pouco de paciência, estou mesmo quase a terminar.
É assim: o que me levou a escrever este texto foi o facto de uma mãe, de seu nome Natércia Mirão, no dia 23 de Setembro, no espaço das “Cartas ao Leitor”, do Diário as Beiras, em tom indignado, vir chamar a atenção para o facto de ter tentado inscrever o seu filho, alegadamente com Trissomia 21 (vulgarmente conhecido como mongolismo), nas aulas de expressão musical, no Pavilhão de Portugal e ministradas pelo maestro Virgílio Caseiro. Segundo a verve desta senhora, o maestro é que não esteve pelos ajustes. Ao que parece, o mestre da batuta alegou que “o menino seria um problema para o grupo de 24, prejudicaria o desenvolvimento da aprendizagem, considerando que não acompanharia o grupo”.
A senhora, mãe do menino, desapontada, diz que “é duro demais para uma mãe que ao longo de nove anos tem integrado o seu filho na sociedade como um igual. (…) Estamos no século XXI e ainda funcionamos com o preconceito (…) o preconceito é uma arma forte, poderosa! (…) Lamento que os meus impostos contribuam para o desenvolvimento de projectos com princípios elitistas de desrespeito e intolerância!!!”
Antes de continuar, ressalvo que nem conheço o maestro nem a senhora, mãe do menino.
Então a pergunta que lhe faço, a si leitor, deveria o maestro Virgílio Caseiro ter aceitado aquela criança e fazer a vontade à senhora? Ou, pelo contrário, no seu legítimo direito natural de escolha, fazendo o que achou melhor, será condenável esta sua opção?
Que lhe parece?

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Afinal o futuro não é assim tão negro!!


Foi publicado no Amo-te Luso um post sobre um blog de algumas jovens Lusenses que é resultado de um projecto escolar a que chamaram Luso Vital!


Aconselho a visita!


Parabéns meninas!!



PS: Já agora... agradeço a participação das autoras do dito projecto neste espaço de discussão! Seriam muito bem vindas!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ANDAR PELA CIDADE



Há dias passeava na Baixinha,
no coração do centro da cidade,
numa rua daquelas tão estreitinha,
que nem o sol parece saber a idade;
Foi então que encontrei uma velhinha,
uma querida, que apetecia abraçar,
tão terna, que imaginamos a nossa avozinha,
naquele colo protector onde íamos chorar;
Com a sua calma, vi-a como um porto de abrigo,
eu, um veleiro, cansado de calcorrear o mar,
com a bússola a girar à volta sem sentido,
e que o destino me empurrou para encalhar;
Tão serena, parecia a Virgem Maria,
mas era outra, chamava-se Conceição,
estava triste, solitária, esvoaçava ao vento,
como folha seca no Outono da solidão;
“Já viste meu amigo, companheiro, meu irmão,
tratam-nos como coisa sem utilidade, sem valor,
como se a idade, fosse um peso, uma aberração,
esquecem que temos vida, necessitamos de amor”.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

HISTÓRIAS DO MEU LARGO



O Largo da Freiria, é um encantador recanto entre a Praça 8 de Maio e a Praça do Comércio, em Coimbra. Supõe-se que o seu nome advenha de uma Freiria, casa de freiras, que existiu neste largo, presumivelmente, entre os séculos XVIII e XIX.
Em conversa com um antigo residente, que aqui passou a sua infância, o senhor Emídio, um simpático septuagenário que nasceu em 1929, vim a saber pormenores, do ponto de vista histórico, quanto a mim, interessantíssimos.
Segundo as palavras do meu amigo, cujo avô tinha uma oficina de funileiro, latoaria, no rés-do-chão do prédio que, de um lado dá para este largo e do outro faz esquina para a Rua Eduardo Coelho e que em tempos, e durante muitos anos, foi a Topal, um pronto-a-vestir, durante décadas, morou neste mesmo edifício no segundo andar.
Em 1940, com a Segunda Guerra já a decorrer, e mesmo com a neutralidade de Salazar, os habitantes da Baixa da cidade viviam muito mal, com absoluta carência de víveres. Os géneros alimentícios, nomeadamente o pão, escasseavam. Era, neste recanto sem saída, na “Padaria Popular”, propriedade do Dr. Bela, que toda a gente, passantes e moradores, se abasteciam do tão necessário pãozinho. As filas para o obterem, legalmente, só poderiam começar às 7,30 da manhã. O estabelecimento abria portas às nove horas. Porém, como a insuficiência de alimentos era extrema, e cada pessoa só poderia comprar um pão de meio quilo, às 4,30 já havia “bichas”. Então, numa desumanidade sem rosto, os guardas carregavam à bastonada sobre o pobre povo que ousasse desobedecer à norma. “Uma miséria”, remata o meu amigo Emídio, por entre um suspiro de indignação.
Nesse tempo, em que já havia electricidade nas casas da Baixa –o slogan publicitário nos jornais era “Electrodomestique a sua casa”- mas como não havia dinheiro para a manter, tudo era rentabilizado ao máximo. Por exemplo, para colmatar o frio incomodativo de inverno, a “Padaria Popular” vendia as brasas incandescentes aos residentes do centro histórico. Levavam as “escalfetas” –espécie de caixa em chapa de zinco, perfurada por cima, que servia para aquecer os pés- e as brasas eram transportadas dentro delas até às suas casas.
“Eram tempos desgraçados, as crianças, numa completa indigência, vadiavam pelas ruas”, continua o meu amigo. Um dos passatempos que lembra era que, neste largo, onde hoje existe uma casa de velharias, por volta da década de 1940, havia um armazém de batatas. Então, naturalmente, por força das circunstâncias da proximidade do tubérculo, havia muitas ratazanas. O dono do armazém, o Aires Rodrigues, tentando colmatar a praga, durante a noite, colocava umas armadilhas de arame, umas ratoeiras com uma abertura, que quando o mamífero roedor entrava, aquela fechava-se e este, ficando vivo, não conseguia sair. Então, no dia seguinte, o empregado do Aires Rodrigues, colocava as ratoeiras no Largo, como troféu de caça, e as crianças, numa crueldade maliciosa, divertiam-se a despejar água a ferver para cima dos pobres animais, que, numa “chiadeira” infernal, acabavam por sucumbir a tamanha perversidade infantil.
Lá ao canto, do lado direito da “Padaria Popular”, havia o “Nacional”, um grande salão recreativo popular. Durante a semana ensaiava o Rancho folclórico, salvo erro, as “Tricanas do Mondego”, e ao fim-de-semana havia sempre bailarico. Igualmente, com a mesma cadência e interligados, no fim da rapsódia popular, havia pancadaria de meia-noite até às tantas da madrugada. Só eram interrompidas pela chegada dos guardas, que só apareciam muito depois da refrega ter começado, vindos da primeira esquadra, a duzentos metros deste largo. Faziam-se anunciar com uns estridentes apitos, como a avisá-los e dar-lhes tempo para a fuga.
“Era um largo muito castiço”, continua o meu amigo Emídio. “Havia por aqui um louco, com um vozeirão infernal, mas que cantava muito mal, daqueles personagens típicos das cidades que ainda hoje se vêem, então, com uma atracção fatal por este recanto, este desequilibrado, quase todos os dias, às tantas da noite, vinha tentar impressionar os moradores com o seu talento vocal. Os residentes, em troca, mal-agradecidos, despejavam-lhe água para cima, mas nem assim o cantador desgrudava. Seguindo o mesmo exemplo, o meu amigo Emídio, já apetrechado para o efeito, tinha uma grande seringa que, através da janela do seu segundo andar, neste Largo da Freiria, molhava o pobre tolo solista, por entre uma ária de uma cantata avulsa. Nem mesmo assim o cantante descolava.
“Que saudades que tenho desse tempo! O que eu não daria para voltar atrás, ao meu querido Largo da Freiria”, remata o senhor Emídio, por entre um brilho intenso dos seus olhos e um suspiro de saudade.

Gostava de me conseguir exprimir assim...