sábado, 1 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Um pequeno grande passo!!

«Uma padaria de Vila Verde está a oferecer um pão aos clientes que prescindirem da saca plástica, por entender que aquele material, não sendo biodegradável é prejudicial para o ambiente, disse hoje à Lusa o seu proprietário.
Manuel Arantes adiantou que a ideia é poupar o ambiente ao desgaste provocado pelo plástico deitado fora e abandonado a céu aberto: "a quem levar 13 pães, por um euro, eu ofereço um, se não quiser o saquinho de plástico", revelou.»
Fantástico!!!
PS: Peço desculpa pelo afastamento! Prometo ser mais assíduo!!
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (33): A NATÁLIA DO EMPALHAMENTO
(A CAPELA DA MINHA ALDEIA, BARRÔ)Se falarmos aos mais novos numa indústria que, apesar de só recentemente ter desaparecido, e que, mesmo assim, ainda convive connosco, embora em pequenos resquícios de amostragem, certamente vão pensar que era impossível que fosse assim, na forma, e na substância, como vou contar. Poucos saberão, e acreditarão, que, num tempo de memória que, aos poucos, se vai esfumando, era perfeitamente normal revestir uma garrafa ou garrafão, com “traje de cerimónia”, durante 15 a 20 minutos de trabalho manual. Falo, evidentemente, como já viram, de uma profissão em acelerado desaparecimento: o empalhamento em vime de garrafas e garrafões.
Antes da “invasão” do plástico, que se deu, em pleno, há cerca de duas décadas, toda a indústria do vidro para engarrafamento estava ligada a esta arte ancestral. E falar desta profissão é falar da minha amiga Natália Morais, que mora em Barrô, a nossa aldeia comum, ali, como enclave, entre a Mealhada e o Luso.
Falar desta septuagenária é contar uma história de resistência, de adaptação à vida, com todos os altos e baixos. Falar com esta mulher de cara arredondada, maçãs do rosto avermelhadas, olhos vivos, e sempre com um sorriso encantador, é um gosto. É como uma rosa rara descoberta num jardim proibido.
Começou nesta arte tinha então 27 anos. Ainda que professe uma religião protestante, lembra-se, 1963, foi o ano em que foi eleito um novo Papa, em conclave, o cardeal Giovanni Battista Montini, que viria a tomar o nome de Paulo VI.
Chegou a ter 24 pessoas a trabalhar na sua pequena indústria. Do seu “atelier” saíam garrafas e garrafões empalhados para as firmas Barbosa & Almeida do Porto, para o Santos & Barosa da Marinha Grande, Para as Caves Messias, na Mealhada, Para as Caves Primavera, na Anadia e para tantos outros que nem lembra. Recorda-se, por exemplo, por alturas do Natal, era uma procura louca por causa dos cestos empalhados para colocar os brindes.
Na sua pequena oficina, em Barrô, em que, para além de nas feiras de artesanato ser uma das estrelas principais, hoje faz apenas pequenas encomendas. Reparo na destreza das suas mãos, calejadas pelo tempo. Parecem contorcer-se vigorosamente, como dois corpos enrolados um no outro. Como se tivessem vida própria, numa mistura de volúpia, em que não falta o gemer, dividido entre a dor e a carícia, das vergas manuseadas por esta deusa de artes e ofícios.
“isto, esta actividade, foi sempre muito dura”, refere-me, quase em segredo. “Acabou porque é muito trabalhosa e hoje já não há quem se queira esforçar. Sabes lá tu o que isto custa? Interroga-me com ar desafiador. Perante a minha total ignorância, começa a contar-me o brutal trabalho que dá “trabalhar” a verga até esta estar pronta para servir de capa protectora a um qualquer garrafão ou garrafa.
“Primeiro, é preciso cortar a verga em Novembro e Dezembro. Depois é preciso fazer o“embacelamento” (enterrar o vime na terra). Depois da Páscoa a verga começa a rebentar. É então altura de a retirar da terra e começar a operação da “esfola”. Esta “esfola” é feita com uma navalha. A seguir é preciso seleccionar toda a verga. A mais grossa num lado, a média para outro e a fina para outro ainda. Esta verga mais fina é para as asas e a média é para o “corpo” das garrafas e garrafões.
Depois de esfoladas à navalha, as vergas, são colocadas ao sol para secarem bem. Depois de seca é atada em molhos e guardada ao “enxuto” (resguardado das chuvas) para ser utilizada quando necessário.
Antes de ser empregue, tem de estar 24 horas dentro de água. Depois, a seguir, a mais grossa, é “rachada” (cortada) em três partes. Seguidamente, é passada na máquina de “5 escalos”. A primeira que sai, por ser fraca, não se aproveita”.
“Vês?, com este hercúleo trabalho, achas que alguém quer continuar esta arte?”. Realmente, creio que não, remato com toda a convicção.
Mais uma vez, aprecio o “bordar” laborioso da minha conterrânea Natália. É sem dúvida uma artista. Enquanto conversávamos as suas mãos nunca pararam. Em cerca de vinte minutos, das suas mãos, saiu um obra-prima.
Quando lhe pergunto porque continua na arte, uma vez que, presumivelmente, não dará nem para tomar o pequeno-almoço, responde-me, com aquele brilhozinho nos olhos que tão bem conheço nas pessoas enamoradas: “que queres? É a minha vida, é o meu amor, a minha paixão!”
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra!!!
Hora: 15.00
Local: Auditório da Faculdade de Economia
Conferência de:
Ben Fine (SOAS, Londres)
Da financeirização ao neo-liberalismo: O envolvimento neo-liberal
Brice Mackosso (representante do Congo no grupo internacional Publish What You Pay)
A gestão dos recursos naturais na África: Impacto político, económico e social
Comentários de:
Adelino Fortunato (FEUC)
Stuart Holland (FEUC; Universidade de Roskilde, Dinamarca)
Hora: 21.15
Local: Teatro Académico de Gil Vicente
Filme/Documentário: Sombra do Livro Sagrado
de Arto Halonen
2007
Debate com:
Ben Fine
Brice Mackosso
Adelino Fortunato
Stuart Holland
Extremamente interessante... um filme/documentário fantástico que consegue "arrancar" à audiência risos tão rapidamente como no segundo a sefuir sentimentos de revolta pelo retrato que faz... (o melhor é mesmo ver)
Hoje foi:
Sessão/Debate
“Foreign Policy in the Next Administration"
Thomas F. Stephenson
(embaixador dos EUA em Portugal)
De frisar que o embaixador não pensa que, caso Obama ganhe as eleições americanas, algo mude na política exterior Americana... e que mundanças de relevo só internamente, nomeadamente na política fiscal, se assim for muitos europeus ficarão muito desiludidos... parece quase haver a ideia generalizada na Europa que se Obama ganhar as eleições virá salvar a Economia Global e os conflitos... Também disse que Obama tentará introduzir políticas proteccionistas na Economia Americana!!!
Esperemos para ver o que o futuro trará...
Ai gato, gato... que estás a ficar mal cheiroso!!!
Não é por nada... mas acho que a malta do Gato Fedorento deveria começar a rever as piadas senão brevemente serão ultrapassados por "Os Contemporâneos", isto se já não foram ultrapassados... aqui estão dois vídeos que vale a pena ver!!!!
domingo, 26 de outubro de 2008
A VIDA NUM SOPRO


Não sei se você nos últimos dias tem prestado atenção ao aumento de tiques que lhe estão a aparecer no seu modus vivendi. Se eu não estiver errado, estão a multiplicar-se mais rápido que parquímetros na cidade. Ainda não lhe aconteceu dar por si a ir verificar se tinha fechado a porta, quando há momentos o fizera? E, quando olha pela janela, do alto do seu 3º andar, e lá no fundo, no passeio, está um “gabiru” a olhar para o seu prédio. Num primeiro momento, você até desvaloriza e volta aos seus afazeres. Passado pouco tempo, lembra-se, volta à janela, e, para seu azar, lá está o personagem, no mesmo sítio e a olhar para si. Pronto!, está lançada a semente da dúvida e o medo acabou de entrar na sua habitação. Aquele homem está ali para controlar os seus movimentos. É isso! Só pode ser isso! Ainda há dias lhe contaram do assalto ao 5º B. Ainda ontem à noite, na SIC, noticiaram assaltos e mais assaltos em residências e comércios.
“Ai meu Deus, e se ele vier agora que estou só?”, interroga-se você, quase a entrar em pânico. Quase em delírio, olhando para o orgulho da sua vida, onde começa e acaba a sua existência, onde faz as suas viagens ao mundo da memória sem sair da sua casa, as suas pequenas coisas, os seus tarecos, como costuma dizer com ênfase, os seus bibelôs, aquele quadro a óleo que tanto lhe custou a pagar a prestações. Ai!, só pensar que pode ser separada desta pintura, sente um aperto no peito. Aquela paisagem simples, com a tosca casa, a fazer-lhe lembrar a casa de aldeia dos seus pais, onde em criança, tanto brincou com o “Manel”, o seu melhor amigo, cujo rasto perdeu, porque os pais, em busca de uma vida melhor, emigraram para o Luxemburgo, e, por lá, todos refizeram os sonhos, e cumpriram-nos, que, naquela aldeia da beira, seriam impossíveis de realizar.
No meio desta viagem, dividida entre a meninice e o medo, começa a pensar que, certamente “aquele ladrão” não vai querer bibelôs, nem quadros a óleo. Ele vai é querer as pratas e o ouro. Então dá por si a retirar as salvas do aparador, que, pelo tempo passado naquele sítio, já têm uma auréola de pó, e a arrumá-las debaixo da cama. A seguir, começa a juntar os anéis, os alfinetes e os fios de ouro que, duma forma anárquica, sem nunca lhe ter atribuído o seu real valor, andaram sempre espalhados entre a cómoda e a sua mesinha de cabeceira, e dá por si a levá-los à boca, como se estivesse prestes a separar-se deles, e dá-lhes um grande abraço, ternurento de saudade, em forma de beijo.
A transpirar completamente por todos os poros, vai à janela novamente, e…o individuo tinha desaparecido. Ufa! Que Alívio, pensa você com os seus botões. “Vou mas é dar uma volta, que este clima de medo é insuportável”, pensa, ao mesmo tempo que pega nas chaves do carro. Toma o elevador, chega ao rés-do-chão, está a transpor a porta principal, quando um pensamento a trespassa em forma de lança: “ai meu Deus, não fechei a porta de casa”. E, com o coração aos saltos, num retorno não programado, volta a tomar o elevador no sentido ascendente, sai no 3º andar, vai à sua porta e…está muito bem fechada.
Já na rua, anda uns passos em direcção ao seu automóvel e dá por si a pensar que mal fez em não ter adquirido garagem no interior do prédio. Na altura eram três mil contos o seu custo, paciência!, “o que não tem remédio remediado está”. Arruma o assunto e continua a andar em direcção ao carro. De repente, um calafrio percorre-a de alto a baixo, acaba de ouvir uns passos cadenciados atrás de si, e já há minutos. “Ai meu Deus, como é que pude não tomar atenção?!”, interroga-se você em suplício suplicante. Olho para trás? Não olho? O melhor é mesmo não olhar. E se ele estiver para me roubar o carro? “O melhor é passar à frente e não entrar no carro”, pensa, tomando esta decisão. Vai andando, pela rua, para a frente, em passo cadenciado, tentando aparentar uma serenidade que não sente. O homem continua atrás de si como se fosse a sua sombra. Já meio confusa, sem saber o que fazer, pára em frente à montra daquela loja de modas. Parece que você está a ver aquele fato de saia-e-casaco, mas só você sabe que nada vê para além da sua imagem reflectida no vidro, ao mesmo tempo que tenta adivinhar as reais intenções do seu perseguidor. Como deixou de ouvir os seus passos, olha para trás e, atarantada, vislumbra o homem a mais de cinquenta metros, a dar um beijo àquela miúda bonita que você já cumprimentou mais do que uma vez. Iam simplesmente encontrar-se na mesma rua.
Cheia de suores frios, de volta ao automóvel, toma o caminho do Shopping. Vai mas é ao cinema, que bem precisa de relaxar.
Depois de dar umas voltas no estacionamento, tentando ficar o mais aproximada possível da porta, lá conseguiu um bom lugar. Antes de sair do carro, olhou para esquerda, para a direita, para trás e para a frente, e só saiu quando aquele homem, que, a seus olhos, tinha ar suspeito, saiu da sua frente com o carro.
Antes de entrar no Centro Comercial, apertou a blusa, apalpou os bolsos, correu o fecho da carteira, tirou o anel de curso e o fio de ouro que sempre a acompanha e, finalmente, entrou nos corredores, em forma de ruas, que, pela crise ou não, tinham pouca gente.
Começou a ver as montras, tentando relaxar com técnicas de respiração, entrou na livraria e dirigiu-se à figura, em papel, de José Rodrigues dos Santos, parecia convida-la a apreciar o seu sexto trabalho editorial e novo romance histórico “A vida num Sopro”. Acabou por comprar o livro e fazer parte do número de oitenta mil leitores que já compraram este título. Quando estava a pagar na caixa, reparou naquele homem de olhar pregado no seu corpo. Estava tão baralhada que nem sabia se seria um olhar de desejos lascivos, de desejo, se estaria interessado em roubar-lhe a carteira. Ao que tinha chegado, já nem discernia aqueles olhares de abraço, de natural assédio masculino, de um qualquer homem, e que qualquer mulher conhece tão bem.
Apressou o passo e foi ao cinema. Depois de consultar os filmes em cartaz, decidiu-se pelo “Indetectável”, uma trama de computadores. Quando saiu de lá, vinha pior do que entrou. Se já levava medo agora trazia psicose.
A história tratava-se de assassínios em série programados por um ”hacker”, um “expert” em sistemas computadorizados que entrava na vida rotineira de qualquer um.
sábado, 25 de outubro de 2008
PORQUE É QUE A RELIGIÃO NOS TOCA TANTO?

A recente polémica dos “Gato Fedorento” no canal de televisão Sic, em torno do Sketch “Louvado sejas, ó Magalhães”, em que era caricaturada uma missa católica, e que deu um número recorde de queixas na ERC, Entidade Reguladora para a comunicação Social, é a razão deste apontamento. Numa análise simples, descomprometida, sem tomar posição, vou tentar fazer uma resenha, ainda que especulativa.
Como ressalva de interesses considero-me agnóstico, ou seja, é um sistema filosófico segundo o qual o espírito humano ainda se encontra impossibilitado de alcançar um conhecimento absoluto sobre certos fenómenos, como, por exemplo, a origem da vida. Não sei se este meu posicionamento sobre as religiões me confere ou não um afastamento que me permita uma conclusão lógica dentro de uma racionalidade necessária.
Antes de continuar, uma coisa o leitor pode ter a certeza, respeito integralmente os dogmas de fé de cada um. Diz o povo, em aforismo, que “a fé não se discute”. Eu discordo desta verdade popular. Tudo é discutível, desde que se respeitem os pontos de vista de cada um. Não discutir é aceitar uma dita verdade sem a contestar ou questionar. E só questionando, através de uma analítica, se enriquece o sentido da ordem das coisas, acredite-se ou não que seja divina (criacionista) ou pela evolução natural da natureza (Darwinismo), passando a redundância.
Como se sabe, este fenómeno de repulsa em aceitar a caricatura da fé, no país e depois do 25 de Abril, não é novo. Já aconteceu, salvo erro, no final da década de 1980, com um programa de Herman José, em que este caricaturava a Rainha Santa. No mundo, e ainda relativo aos católicos-romanos, houve há pouco tempo uma polémica com uma obra de arte, num museu italiano, em que aparecia um sapo verde pregado na cruz com uma caneca de cerveja numa mão e na outra um ovo, em que o Papa Bento XVI considerou esta representação artística uma blasfémia. Recentemente, em Israel, e ainda relativo ao Papa, este aparecia com uma cruz suástica nazi pintada sobre o peito.
Sobre o Islão, em 1989, é sobejamente conhecido o livro de Salman Rushdie, com o título “Versículos Satânicos”, em que causou controvérsia no mundo islâmico por ter sido considerado ofensivo ao profeta Maomé. Aquele autor foi condenado à morte pelo então Aiatola Khomeini, vindo, desde aí, a viver uma vida de reclusão com recurso a protecção policial.
Mais recentemente, um jornal dinamarquês publicou uma série de 12 cartoons representando Maomé. Um deles aparecia com uma bomba no turbante. Os funcionários do jornal e o seu “cartoonista” receberam ameaças de morte e tiveram também que receber protecção policial.
Então a pergunta que nos surge é o porquê desta susceptibilidade em relação à religião? Porque nos afecta mais esta crítica do que por exemplo sobre o nosso clube de futebol, sobre o partido político, sobre a nossa classe profissional?
Evidentemente que não tenho respostas. Nem este escrito tem a veleidade de as querer dar, quanto muito, questionar, polemizar, em suma, fazer-nos pensar sobre o assunto.
Poderei começar por analisar etimologicamente a palavra “religião” que deriva do latim “religio”, que significa prestar culto a uma divindade, ou ainda “religare”, “ligar”, fazer a ponte, entre o humano, nas crenças do sobrenatural, do divino, do sagrado, e o transcendental, com todos os códigos morais associados.
Desde os primórdios dos tempos que o homem sempre associou os fenómenos da natureza, como, por exemplo, as trevas, os relâmpagos e os trovões, a deuses e espíritos. Aqui, como noutras manifestações, o medo a imperar, com a relatividade ínfima do homem perante a grandiosidade absoluta dos actos e pela total incompreensão dos desígnios naturais.
Ao recuarmos no tempo, indo à história das civilizações, verificamos que eram politeístas, recorriam a vários deuses nas suas crenças, onde já nesse tempo se acreditava que, num balanço das suas vidas terrenas, após a morte, os maus, seriam punidos e não teriam “parança”. Contrariamente, os bons, aqueles que em vida foram minimamente aceitáveis, após o último suspiro, seriam recompensados através da atribuição do descanso eterno celestial.
Foram os hebreus, e após estes os judeus, que criaram a crença num Ser Supremo (Jeová), criador de todo o universo, e deram origem ao monoteísmo.
Posteriormente, há cerca de dois mil anos, surgiu o cristianismo. Esta religião nasceu na actual Palestina no século I. Esta região, então sob domínio do Império Romano, era o palco, fruto do seu tempo, de todas as atrocidades, em que a escravatura abundava. Foi então que, a pregar a paz, a harmonia, a crença num único Deus, e o amor entre os homens como linguagem simples, surgiu Jesus Cristo, um homem talvez comum mas com conceitos revolucionários para o seu tempo.
Não queria terminar sem falar nas religiões orientais, algumas mais antigas que o cristianismo, como, por exemplo, o Budismo, que, presumivelmente teria tido origem no Nepal cinco séculos antes do nascimento de Cristo.
Se você chegou até aqui deve estar a interrogar-se que, afinal, eu não apresento nenhuma conclusão. Pois não! Nem vou apresentar. Se precisa de alguma, será você a retirá-la deste texto.
De qualquer modo, sempre vou adiantando que é minha convicção que as religiões sempre existiram, existem, e sempre existirão, enquanto o homem for homem, ávido de conhecimento, que precisa de justificar tudo. É uma necessidade intrínseca e imanente à sua condição antropológica para “explicar”…aquilo que, implicitamente, não tem explicação.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
"REPÓRTER ESTRÁBICO": HOMENAGEM AO REI



Decorreu hoje na Igreja de Santa Cruz uma homenagem a D.Afonso Henriques fundador de Portugal. Como se comemora no próximo Domingo o Dia do Exército, e sendo o Rei o seu Patrono, foi depositada uma coroa de flores no seu túmulo pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, General José Luís Pinto Ramalho.
Não há certezas pelos historiadores mas parece que D. Afonso Henriques, que aqui teria nascido e morrido entre 1109 e 1185, juntamente com o seu filho D. Sancho I, repousam em túmulo, na Igreja Românica de Coimbra, desde, entre 1515 e 1520. Por ordem de D. Manuel I foram trasladados, por essa altura, para esta cidade, os seus restos mortais.
Ainda tentei entrevistar o Rei, mas tal não se tornou possível. Desde Julho de 2006, em que uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra tentou abrir o túmulo, que o Ministério da Cultura não deixa ninguém chegar perto da sua pessoa.
Mas está mal! E sabem porquê? Porque há muita coisa para esclarecer. Sobretudo, é preciso saber se, de facto, ele bateu na mãe, D. Teresa, ou não. Tudo indica que sim, pelo menos, na Batalha de São Mamede, sabe-se, andaram à “porra-e-à-massa”. Ora, assim sendo, se bateu na mãe, de certeza absoluta que também bateu na mulher. Continuando a especular, isso é violência doméstica. Se, por um lado, está explicada esta propensão que os portugueses têm para dar uns “sopapos” na cara-metade, por outro, seguindo o exemplo do juiz espanhol Baltazar Garzon, em que se propõe a abertura de uma investigação sobre as atrocidades de Francisco Franco, na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), aqui, no Condado Portucalense, o Ministério Público também deveria mandar investigar a violência doméstica do rei. A violência caseira é crime público, e, portanto, não me venham cá falar na prescrição e outras desculpas para a (má) acção do filho da mãe que se esqueceu que mamou o leite materno e depois, de engordar e crescer, chegou-lhe a “roupa ao pelo”. Ou há moralidade ou comem todos.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
A PIETÁ


(CLIQUE EM CIMA DA FOTO E SINTA O SOFRIMENTO NOS ROSTOS DESTES DOIS SERES)A mulher está dormindo,
juntamente com o menino,
talvez sonhe que está indo,
levando o seu pequenino,
para a sua terra, partindo;
Na Loja do Cidadão,
onde começa o Eldorado,
para uns que cá estão,
pensam que está tudo acabado,
outros, sem nada, valorizam até tostão;
Não deixa de ser irónico,
o “hoje”, afirmativo, da cidadania,
a disfunção entre o “ser” e o biónico,
concentrando a vontade e a mais-valia
na máquina, desprezando o “ser crónico”;
Esta mulher é a “Piedade”,
retrato dum tempo corrente,
sofre e chora de saudade,
pela injustiça que sente,
nos humanos, a maldade;
O menino representa Jesus a morrer,
nos braços da Virgem Maria,
a mulher simboliza o sofrer,
a Loja do Cidadão a utopia,
a gente que passa, a insensibilidade do “ser”.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
O CEGUINHO
(CLIQUE EM CIMA DA FOTO E ATENTE NA CARA DESTE HOMEM. PARECE DIZER..."HUM...A MIM NINGUÉM ENGANA")“Uma moeda, por amor de Deus, senhor”,
Repete mil vezes o ceguinho em ladainha,
encostado, sem ver, na esquina da ruinha,
em prece carecente, exaustiva de amor,
aos poucos, sente, vai caindo a moedinha;
Passa a velhinha desafortunada,
sem sorte, cujo marido perdeu,
olha para o cego, que não vê nada,
retira uma moeda, o rosto emudeceu,
pensa em Deus, numa prece sagrada;
Calmamente, passa o comerciante falido e sonhador,
outrora, corredor de fundo, dono da rua,
“que Deus lhe pague em dobro, senhor”,
ouve o cego, dá meia-volta e recua,
deposita uma moeda, pensa Nele com fulgor;
Dona Maria, dona de casa, cheia de solidão,
ouve o cego: “ajude, por amor de Deus!”,
abre a carteira, tira uma nota com a mão,
pensa para si: "que o Senhor limpe os pecados meus,
me dê forças e paciência para aturar o meu João";
Passa um casal de namorados, ele é generoso,
no gesto, mostra à sua cara-metade a sua bondade,
ela, sem dizer, pensa, quanto ele é tolo e vaidoso,
não se impressiona com aquela facilidade,
assim, só lhe mostra o quanto é manhoso;
Pára um político, cumprimenta o cego, faz-se notado,
olha em volta, quer ser visto, pensa no que seria,
se desse uma nota de dez, de vinte, ao pobre coitado,
talvez passasse um jornalista e tirasse fotografia,
no dia seguinte, em “cacha”, “O amigo do necessitado”;
No meio de cegos, o menos invisual é o que não pode ver,
todos precisam da sua cegueira para os fantasmas expiar,
o gesto hipócrita de dar não passa de ambição de receber,
na fé, em promessa a um Deus generoso capaz de multiplicar,
o cego, que não vê, lendo a alma desta gente, parece tudo ver.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
"ASSOCIAÇÃO NACIONAL DAS PME CONTESTA GARANTIA À BANCA"


“A Associação Nacional das PME criticou o Governo alegando que a garantia de 20 mil milhões de euros dada à banca visa “aumentar unicamente” a liquidez do sector bancário e não se destina às famílias e empresas.”
“No cenário real do país não pode agora (o Governo) dizer que os 20 mil milhões de euros se destinam a servir a nossa economia e as famílias, num discurso de milagre teológico, do pão e do peixe, tanto mais que as famílias e as empresas, a maioria das quais em dificuldades, não têm acesso ao crédito, disse Fernando Augusto Morais. Segundo o dirigente daquela associação e também vice-presidente da Confederação Europeia das PME, “há em Portugal 264.527 pequenas e médias empresas, 80% das quais estão com enormes dificuldades financeiras e sem capacidade financeira para ter acesso ao crédito bancário”-in Diário de Coimbra de hoje, 20 de Outubro.
Quem trabalha por sua conta e risco sabe quanto está certo este senhor de nome Fernando Morais. Não se entende muito bem esta garantia de liquidez aos bancos, ou, se se tentar entender, parece que o governo, para além da solidez da banca, está preocupado unicamente que os grandes depositantes recorram em massa aos levantamentos.
Para além desta medida, há dias, aquando da discussão do Orçamento Geral do Estado, o Primeiro-ministro afirmou que estavam disponibilizados vários milhões de euros (Mil milhões) que garantiriam a solvabilidade das PME’s. Para logo a seguir afirmar que esses milhões seriam para quem quisesse investir.
Não é preciso ser governante nem economista para saber que em caso de grande cataclismo é preciso, primeiro, cuidar dos vivos, dos sobreviventes, e só depois dos mortos e da reconstrução. Aqui, a meu ver, faz-se ao contrário, primeiro cuida-se dos mártires que se auto-implodiram e, como parasitas insaciáveis, sugaram tudo em redor –neste caso, falo dos bancos, ou da banca, que, em Portugal, na última década foram os coveiros das pequenas e médias empresas, impondo taxas unilaterais abusivas, e às famílias, oferecendo cartões de crédito a qualquer gato-pingado sem possibilidades de ressarcir o crédito ao consumo-, a seguir aqueles que, mesmo na penúria, ainda têm possibilidades financeiras de recorrer ao crédito, e só depois, sem se saber quando, os resistentes que, com dívidas a funcionários, a fornecedores, ao fisco e à Segurança Social, para conseguirem dormir, recorrem a “xanax” e outras drogas entorpecentes.
Para aqueles que, num acto de loucura desesperada, pela impossibilidade de honrar os seus compromissos, já puseram termo à vida e da sua família, e são muitos, basta ler os jornais de há dois anos para cá, esses, cujo autismo e abandono do Estado é profundamente questionável, agradecem mas já não precisam.
O Estado, nesta democracia formal, não pode desvincular-se do dever de assistência aos seus pequenos empresários. Aqueles que, inconformados com o seu modus vivendi, recusando viver à sombra de subsídios de desemprego, arriscaram tudo, e, impossibilitados de prever, estão endividados. É urgente uma linha de crédito que lhes permita sobreviver…a bem da democracia material.
sábado, 18 de outubro de 2008
OS NOVOS BÁRBAROS



Quem passa pela Baixa da cidade de Coimbra, certamente, já se apercebeu destes dois “artistas”. Coloco a palavra entre comas porque, em boa verdade, não sei mesmo se o serão. Que assim se classificam, isso não tenho dúvidas, estive a falar com eles.
Entre o sim e o não, inclino-me para o sim. Serão realmente artistas. Claro que tenho de fundamentar a minha classificação, e fá-lo-ei. Se considerarmos “arte” todo o movimento de algo que desperta e apela aos nossos sentidos, não tenho dúvida nenhuma de que estes dois homens, pela sua originalidade peculiar, na sua apresentação e representação, serão arte no seu maior impressionismo humano. Pode-se argumentar que a sua degradação, enquanto pessoas humanas, atenta contra o valor arte. Mas, pensemos, a arte pode representar a degradação humana, e, de repente, lembrei-me da Guernica, de Pablo Picasso, em que, não tendo nada de belo, esta pintura universal, representa o esgoto e a atrocidade humana na Guerra Civil de Espanha, cometida por Francisco Franco, de 1936 até 1939.
Sem me armar em filósofo, a arte pode ser tudo aquilo que nos faça pensar. Que nos transporte, através de uma viagem contemplativa, momentânea e supersónica, de um estado actual para um momento do passado ou para um futuro que se adivinha vir a viver. Como se fosse um transe hipnótico, na observação, perdemos a noção de tempo e de espaço.
E estes dois homens podem ser tudo isso. O início de uma viagem intergaláctica, em que neles se antevê o princípio e o fim da linha.
Uma questão que se poderá colocar é a sua vivência nas cidades representam uma mais-valia ou o contrário? Sinceramente, não sei. Posso tentar avaliar por dois prismas diferentes. Por um lado, estas pessoas, pela sua singularidade, são uma quebra de rotina no quotidiano. Se não fosse a sua imagem diferente –e não faço juízos de valor nesta acentuada diferença-, as cidades, a meu ver, seriam uma amálgama de iguais, em que poucos, de facto, marcariam a diferença.
Por outro lado, economicamente, para as urbes, nada representam. Vivem do esmolar e da dependência, umas vezes de álcool, outras de drogas.
Serão pessoas desapegadas da sorte, normalmente por sua cabeça, que nunca teve princípios de construção de uma vida melhor. Provavelmente o seu lema é o carpe diem, como quem diz, gozar o dia sem a preocupação do dia de amanhã.
Podem também ser Epicuristas. Epicuro foi um filósofo grego do período helenístico, que consistia em procurar a alegria, numa vida sem sobressaltos, caracterizada pela aponia, a ausência de dor e medo, e vivendo cercado de amigos. A dor e o prazer eram a melhor maneira de medir o que era bom ou mau. A morte era o fim da linha. O fim do corpo e da alma. E, assim sendo, não se deveria temer os deuses. Epicuro foi considerado o precursor do pensamento anarquista.
Uma coisa é certa, estes homens, umas vezes pacíficos, outras vezes nem tanto, talvez apátridas de emoção, invasores das cidades, que, à luz dos parâmetros que entendemos por normalidade, podem ser considerados novos loucos, serão, quanto muito, uns novos bárbaros conquistadores de coisa nenhuma.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
PENSANDO NO VAZIO

Um homem dorme num banco,
estranhamente, verde-esperança,
com a boca-aberta de espanto,
sonha que o sofrimento é uma lança,
ai!, se pudesse chutar para canto,
fugir desta vida que é uma cagança,
e faz pecar qualquer santo;
Ao lado está outro, observando,
bem vestido, de porte altivo,
como “na bezerra” pensando,
embora sem aspecto aflitivo,
talvez até esteja cantando,
uma qualquer trova de amigo,
triste, de coração sangrando;
Ambos esperam a morte,
qualquer deles não escapa,
sentados num banco de porte,
mesmo que comprem uma capa,
nenhum deles vai ter a sorte,
de a enganar à “sucapa”,
ninguém a leva no corte;
Pode ser pobre ou remediado,
empresário ou indigente,
vagabundo ou soldado,
equilibrado ou demente,
mesmo que nunca fosse amado,
desde que viva e seja gente,
a diferença: é saber morrer consolado!
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
UM COMENTÁRIO ILUSTRATIVO DE ALGUMA SOCIEDADE PORTUGUESA

Escrevi o texto abaixo descrito neste blogue, num outro site da internet, no caso o Netlog, “O que tenho a ver com aquilo que o meu vizinho faz”. Recebi um comentário que passo a transcrever e deixo à consideração de cada de um:
“Segundos dados científicos, a homossexualidade é um desvio da mente, ou seja; ser homossexual é ser doente, ou pelo menos ter um desvio da mente (não sou eu que o digo). Se tem simpatia por essa gente, então a melhor forma de os ajudar é tentar indicar-lhe locais onde possam ter acesso a terapias.
Duas pessoas do mesmo sexo a ter relações sexuais é algo contranatura.
Já agora, faço-lhe uma perguntinha: acha que essas manifestações de paneilarada, vestidos de forma pateta, com sapatos com umas plataformas enormes, com gestos e actos perfeitamentte descabidos, não me diga que acha isso normal! Essa gente é gente doente.
Sabe o que se passa? É que no mundo actual gerou-se uma corrente de protecção às minorias, e então fica bem dizer bem dos pretinhos, dos ciganos e da paneleirada.”
sábado, 11 de outubro de 2008
CALMA, SENHOR ZÉ!

As lojas da Praça Velha,
na cidade de encantar,
outrora foram uma flor,
agora parecem murchar,
num largo que falta ardor;
Senhor Zé está junto à porta,
olhando a gente que passa,
parece que nem se importa,
como se perdesse a graça,
tem a vida toda torta;
Já não tem aquele brilhar,
nos olhos de perdição
senhor Zé está acabado,
quase sem explicação,
está todo desmotivado,
até para a Anunciação;
Pois!, já nem consegue dormir,
quanto mais dar-lhe carinhos,
só pensa que vai falir,
já só fala com anjinhos,
faz promessas com sentir,
apela a todos os santinhos;
Senhor Zé está um farrapo,
quem o viu e quem o vê,
encostado, parece um trapo,
já nem entende o que lê,
seu coração bate fraco,
a interrogar o “porquê”?;
Já nada o faz animar,
nem a boa da Vitália,
quando passa a provocar,
mostrando-lhe a nova sandália,
fingindo que vai escorregar,
como se fosse uma dália,
para o senhor Zé pegar;
Coitada da Anunciação,
já não sabe o que fazer,
para o Zé ganhar tesão,
ganhar gosto por viver,
até lhe dava um “prendão”,
o seu Zé não pode morrer.
O QUE TENHO A VER COM AQUILO QUE O MEU VIZINHO FAZ?

(IMAGEM RETIRADA DO BLOGUE "MOURAMORTA")-CLIQUE EM CIMA DA IMAGEM PARA AMPLIAR-
Este recorte antigo de jornal fez-me lembrar e escrever sobre os casamentos homossexuais. Como se sabe, ontem, na Assembleia da República, foi chumbado o projecto do Bloco de Esquerda e de Os Verdes.
Um dos princípios que deve estar subjacente à política é a contínua construção de uma vida material melhor e, ao mesmo tempo, a criação de condições que, através de uma igualdade de representação, dignifique a pessoa perante a lei. Não se pede que, numa obsessão legislativa, o Estado, através da invasão da vida privada, tudo queira regular e, muito menos, os afectos.
Eu tenho 52 anos. Sou de um tempo em que a manifestação da sexualidade era proibida. Um simples beijo em público era repreendido com coima. Em criança, o simples pensamento de se poder ser confundido com o homossexual era aterrador. Ainda que possa parecer estúpido, muitos suicídios se consumaram por esta incompreensão da intolerante sociedade de 1960/70.
Deveria ser tempo de todos pensarmos que o que se passa no quintal do meu vizinho, desde que, directamente não me toque em prejuízo, nada tenho a ver com isso. Isto de acharmos que a sociedade deve ser uma virgem imaculada, cheia de virtudes, é o mesmo que querermos acreditar no Pai Natal. Para que serve este espírito de “bom chefe de família”, se, até os Romanos que o instituíram há mais de dois mil anos eram, nas virtudes, tão ou mais corruptos do que nós? E, para mais, poderemos questionar o que é um bom chefe de família? Públicas virtudes com vícios privados? É isso?
Talvez fosse altura de se entender que, tal como na natureza, tudo na vida humana é dinâmico, inclusive os costumes. A família não é mais o quadro com a moldura a que nos habituámos. E, quanto a mim, ainda bem. Se há algo que detesto é a hipocrisia.
Há três anos, juntamente com a minha mulher, estivemos em Espanha, mais propriamente em Sevilha. Numa esplanada repleta de pessoas, reparámos em dois casais de homossexuais que, com o maior dos à-vontades se beijavam em público. Das restantes pessoas, aparentemente, ninguém ligou nada à cena de amor praticada pelos dois “casais” de homens.
Não estou armado em bom samaritano, no sentido de dizer o contrário daquilo que penso, nada disso! Acho, tenho a certeza, de que cada um deve usar a sua liberdade de modo a que esta contribua para a sua felicidade e não o contrário.
Como trabalho em artes, ao longo das décadas, habituei-me a ter por clientes, entre outros, muitos homossexuais, homens e mulheres. Pois posso garantir que são pessoas com uma sensibilidade à flor da pele. São diferentes entre iguais? Certamente que o serão, para melhor. A história está repleta de grandes artistas homos, cujas criações foram importantíssimas para a humanidade.
Então a pergunta que surge, porquê continuar a discriminar estas pessoas em função de um egoísmo defensor de uma moral hipócrita e antiquada?
Às vezes chegamos a ser cruéis com o nosso próximo, como se a sua felicidade nos incomodasse. Chegamos a ser melhores para os animais que para as pessoas nossas semelhantes. Ontem, o JN noticiava que, na região de Coimbra, os bombeiros de Brasfemes tinham salvo uma gata, a Nana de seu nome, que tinha ficado presa num tubo de escoamento de águas pluviais. Bonito, sem dúvida. Mas este gesto de altruísmo deveria perpassar em dobro para as pessoas. Acontece que, a meu ver, não é assim.
O Governo, do partido Socialista, perdeu uma boa oportunidade de acabar com esta polémica. O arrastar no tempo não vai, como milagre da virgem, tornar as pessoas mais compreensivas, tolerantes, e aceitar a (diferente) sexualidade do próximo. Nem vai erradicar o voyeurismo, e a mania, de cada um se imiscuir na vida do outro.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
UMA REMOÇÃO DUVIDOSA

A recente retirada do cartaz de propaganda do PNR, Partido Nacional Renovador, na rotunda de Entrecampos, em Lisboa, através do pelouro do vereador da Câmara Municipal daquela cidade, José Sá Fernandes, dever-nos-ia indignar a todos.
Como ressalva de interesses não tenho qualquer simpatia por este ou outro qualquer partido político. E, nessa aparente independência penso estar à vontade para criticar o exagero do acto discricionário. Digo “aparente”, porque objectivamente ninguém o é, uma vez que todos sofremos influências exteriores que condicionam a nossa liberdade de escolha e autonomia.
Parafraseando Victor Ramalho, do blogue “Alma Pátria”, “José Sá Fernandes não é Juiz, nem exerce essas funções com legitimidade para ordenar a retirada de cartaz de um qualquer partido português. A vertente política desta decisão é confirmada pelo facto dessa mesma ordem não ter sido dada relativamente ao cartaz do PCP, colocado a dois metros de distância do cartaz do PNR, o que demonstra que se trata de pura censura e não de motivos de estética ou outras”, refere indignado Victor Ramalho.
Em face do acto administrativo arbitrário, pessoalmente, estou completamente de acordo com Victor Ramalho. Como refere o articulista do “Alma Pátria”, “a censura política terminou, oficialmente, em 25 de Novembro de 1975.
Dão que pensar duas fobias que grassam na sociedade portuguesa. Curiosamente, antagónicas na ideologia. Uma, já mais antiga, com muito mais de três décadas e fruto dos medos incutidos por Salazar, dentro das políticas restritivas do Estado Novo, refiro-me ao anticomunismo primário que envolve muitos cidadãos, sobretudo menos esclarecidos. Passados 34 anos da queda do regime, os comunistas continuam a “comer meninos ao pequeno-almoço”.
Uma outra fobia, e esta tem a ver com este apontamento, é o constante receio, o ressurgir do fantasma de Salazar. E aqui, neste acto prepotente do vereador Sá Fernandes, essa intenção imerge completamente.
Acho, tenho a certeza, que todos têm direito à opinião, mesmo as mais aberrantes e com teses descontextualizadas. Estas políticas seguidas, às vezes por insuspeitos defensores da liberdade, como no caso presente, levam-nos a pensar que espécie de agir sem coerção defendem estas pessoas. Talvez uma liberdade feita à sua medida, em que a sua, sem barreiras possa invadir a esfera do outro, mas a do semelhante tem de estar condicionada ao seu livre arbítrio.
Também não admira, em tempo de pensamento único, do chamado “politicamente correcto”, a esfera do poder, convencida do seu iluminismo endeusado e absolutista, quer é ser bajulada e tudo o que é diferente e faça pensar é para abater.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
CHUVA DE OUTONO


Chovia copiosamente,
do chão emergia um nevoeiro,
por entre guarda-chuvas com gente,
em passo apressado de caminheiro,
cada um seguia seu rumo, lentamente,
pensando na vida, na falta de dinheiro,
na prestação da casa, ou outra, certamente,
inventando cores, daquele verão soalheiro,
ai que saudade!, daquele tempo de antigamente,
era tudo mais lento, mas tudo mais certeiro;
Por entre as bandeiras desfraldadas,
o vento, fantasma, tocava tudo o que passava,
soprava a folha, a chuva, em águas embaladas,
alheio a carências, a todos vergastava,
a linda, a feia, eram todas encantadas,
marimbando-se para a preocupação que se inalava,
assobiava árias, pareciam baladas,
como barqueiro, contra a maré, remava, remava,
em espírito alegre de Valquírias resignadas,
na sua função de incitamento que tudo transformava;
Na praça, até os guarda-sóis se quedaram,
como fantoches em carnaval macilento,
vestidos de capas brancas, se disfarçaram,
como estudantes num tempo virulento,
fazendo greve, inertes, não trabalharam,
com este vento, desgarrado, não tinham alento,
não queriam chuva, o sol reivindicaram,
este presente não serve, é muito violento,
perante todos os humanos, lágrimas choraram,
como a dizer que são coisas mas têm sentimentos.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
UM PASSEIO PELAS ÁGUAS


Dois patinhos passeavam,
tão juntinhos, calmamente,
pelas águas do Mondego,
parecia que namoravam,
embalados na corrente,
enleados num sossego,
alheios aos que passavam,
por cima, na ponte de gente,
a mostrar no seu apego,
o amor que transportavam;
A natureza é imparcial,
qualquer dia é uma lição,
é uma folha a flutuar,
no meio de um tufão,
uma andorinha a voar,
o cego que estende a mão,
um rio a correr para o mar,
uma carícia que se faz a um cão,
abana o rabo, a mão vem beijar,
agradecido, num Outono de afeição;
A pata beijou o pato,
e um segredo lhe contou,
era uma pobre órfã de mãe,
perdida no meio do mato,
tinha sonhos mas adiou,
era pobre sem vintém,
tinha apenas aquele fato,
tinha amor mas nunca amou,
pouco lhe importava também,
o seu mundo era o pato.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
PONTES
As ponte de Trezoi, a velha (Eiffel) e a nova, construída pela empresa Alemã.
Um muito obrigado à Sr.ª Maria pela gentileza.
BAIXA DE COIMBRA: O SALÃO BRAZIL

Falar neste antigo salão de bilhares é reviver memórias do centro histórico. Na sua época áurea, até meados da década de oitenta, do século passado, o Salão Brazil e a Baixa, caminhavam lado-a-lado. Nesse tempo, este primeiro-andar, no Largo do Poço, era o catalizador, o modelo que mostrava as alterações, no interagir desta zona da cidade, embora, aparentemente, tudo se mantivesse igual, sem reacção. Era aqui que confluíam todas as classes sociais da cidade, desde o “Zé dos alicates”, o “Zé cigano”, o João, hoje médico, com as suas habilidades exímias no bilhar, o Romão, o João das Galerias Coimbra, e outros que não lembro. No pano verde do Snooker, a jogar à “pool”, à “série”, ou à “seguidinha”, não havia diferenças classicistas. Desde que se tivesse dinheiro e se cumprisse as regras, qualquer um podia ser comparte em qualquer um daqueles jogos. Sobretudo das 13 às 15 horas, horário do encerramento do comércio para almoço, e depois das 19 horas.
Após o fecho das lojas, o Salão Brazil tomava a efervescência das bolsas de Nova Yorque. A controlar o movimento, o velho Juvenal, regulador do índice Dow Jones. Se ele estava presente o índice subia, se hipoteticamente ele faltasse uma qualquer vez, o ambiente iniciava uma queda de vários pontos. Embora, saliente-se, ao longo da sua vida profissional à frente deste salão de bilhares, tenho a certeza que era possível contar pelos dedos das mãos as vezes que ele faltou ao trabalho.
Falar do velho Juvenal não é fácil. Não porque ele fosse um personagem interactivo com a heterogénea clientela. Nada disso. Era um homem bom, pacato, simples, e que falava pouco. Naquele salão todos os frequentadores sentiam que aquele homem simbolizava o respeito. Para além de facilitar o pagamento de uma bica e um bolo, porque no momento não havia dinheiro, era um bom ouvinte. Naquele espaço de tertúlia comunitária e de jogos, aquele homem, quase iletrado, era o ombro amigo, o psicólogo, o animador social. Ai de quem faltasse ao respeito ao senhor Juvenal. Se, por exemplo, aparecesse uma cara nova no salão e se começasse a “armar”, a clientela diária, como polícia de costumes, mantinham-no “debaixo de olho” e, ao mínimo deslize, os tacos de jogar bilhar virados ao contrário, depressa se tornavam cacetes de basebol.
O velho Juvenal morreu velhinho, há cerca de 15 anos. Certamente por coincidência, com o seu desaparecimento, o velho salão encerrou e a Baixa, como sentindo a sua falta, numa solidão continuada e carregada de uma inultrapassável dor, iniciou o seu declínio.
Há cerca de quatro anos, como que a iniciar a recuperação desta zona monumental, o Telmo (o actual dono), conjuntamente com o “Manel”, reabriram o Salão Brazil. De uma forma inteligente, uma vez que os computadores fizeram passar à história os jogos de salão, arrumaram os velhos Snookeres, deixando apenas um para memória futura, e fizeram um bonito restaurante “art Deco”. Para além disso, estabeleceram um protocolo com o Clube Jazz ao Centro, sob a direcção de Pedro Rocha Santos, e hoje o Salão Brazil, com o seu arrojo vanguardista, é um bom exemplo de uma revivificação que se deseja para a Baixa.
O Salão Brazil pode perfeitamente ser para esta ínclita zona comercial o início de uma recuperação que todos desejam, a frente de uma guarda avançada, a renovação de um marasmo que urge abanar.
Tenho a certeza que o espírito do velho Juvenal, esteja onde estiver, estará a torcer pelo sucesso do seu antigo companheiro de vida, o seu amado salão, e pela revitalização da Baixa de Coimbra.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
AS URBANAS ILHAS DA FELICIDADE

Eram 21 horas de um destes sábados de Setembro. Eu e você, leitor, passeávamos pela Baixa da cidade. Enquanto percorríamos as ruas estreitas, reparávamos que estas estavam completamente desertas, era desconfortante andar ali. O sentimento de insegurança era palpável. Nem vivalma se avistava. De repente, um pássaro de relativas dimensões bate as asas e o som ecoa como tiro de canhão. Você, surpreendido pelo susto, dá um salto e quase se estatelou na calçada de pedra portuguesa. Leva a mão ao peito, e, como bom português que se preza, solta uma valente imprecação. Claro que, naturalmente, ia-me desmanchando a rir. Você é que não gostou nada do meu riso hilariante e sarcástico. Em jeito de justificação, atira: “fogo!, já viu isto? Não se vê ninguém! Onde é que se meteram as pessoas?”
Antes de eu poder responder, contra-ataca novamente: “É a crise! As pessoas agora nem saem de casa para não gastarem dinheiro”. Como eu não respondi, mas abanei a cabeça em sinal de discordância, você, como mestre sapiente dono da verdade, ficou à defesa e replicou: “ai pensa que não, que não é da crise? Homem, o que se passa aqui em Coimbra é transversal a todo o país!”
Como pareceu adivinhar no meu rosto um engelhar de cara, embrulhado em sorriso amarelo, novamente tomado de forças redobradas de réplica, questiona: “quer apostar que o Café Santa Cruz (dos poucos abertos àquela hora na Baixa) têm menos de uma dúzia de pessoas, incluindo os empregados?”
Eu continuava céptico, mas, mesmo assim, aceitei o repto e lá fomos. De facto o belíssimo café, irmão siamês da Igreja com o mesmo nome, estava às moscas. Sentámo-nos, bebemos café, e você, exultante, como se fosse o ganhador mais procurado do Euro-milhões da região da cidade do Mondego, sem disfarçar a arrogância, ufano, de peito feito, replica: “vê? Eu não lhe disse? É a crise. De que vale os estabelecimentos estarem abertos se as pessoas não vêm passear? É difícil de ver? Você parece cego, homem de Deus”, recalcitra você, dirigindo-me um olhar reprovador, como se me chamasse besta.
Confesso que a sua insistência, como se a verdade fosse una e indivisível, já me estava a chatear. Você até sabia que eu tinha as minhas razões para não concordar consigo. Anteriormente estivemos a falar sobre este assunto e eu até lhe disse que o abandono das zonas históricas não pode ser só atribuído à crise financeira das famílias. Tem de haver mais qualquer coisa, sublinhei com ênfase. Mas, apesar disso, sem levar em conta a minha argumentação, você insistia em que tudo se resumia à falta de dinheiro.
Tenho a certeza de que você está enganado, contra-argumentei, e vou provar-lhe. Venha daí. Entrámos nos nossos carros e você foi atrás de mim. Não sem antes, de uma forma insistente, sem sucesso, me interrogar acerca do nosso destino.
Fomos ao Fórum Coimbra, na encosta de Santa Clara. Os estacionamentos, interiores e exteriores, estavam repletos e tivemos de aguardar. Entrámos e fomos directos ao terceiro piso, onde, depois de esperarmos um bom bocado, nos sentámos a beber um sumo. Você, como se tivesse entrado num mundo novo, parecia abismado. Centenas de pessoas, ou talvez milhares, percorriam a superfície comercial. Daquele piso cimeiro, com uma panorâmica plena, naquelas imitações de ruas públicas, víamos o ar de felicidade daquelas pessoas. Eram famílias inteiras, entre novos e velhos, a consumir hambúrgueres e outras especialidades. Reparei naquela senhora a passear despreocupada com a carteira aberta a tiracolo. Você, perante todo aquele movimento, parecia absorto e não falava. Parecia que, de repente, tinha perdido o “pio”. Como se, perante a evidência, perdesse toda a réplica.
Mas se pensava que ia ter complacência estava bem enganado. Agora quem falaria seria eu. E você, agora, sem sequer pestanejar, limitava-se a escutar-me. Comecei então a defender os meus argumentos.
Se a crise é a causadora da desertificação das cidades, como se poderá entender esta deslocalização para estas “ilhas”? Aqui, se há recessão, é só aparente. A maioria das salas de cinema “multiplex”, estão completas, nomeadamente o “Mamma Mia!”, com a Meryl Streeap, bem como outros filmes.
As pessoas vêm para aqui porque o conforto é uma constante. Podem passear à vontade com segurança e frequentar os estabelecimentos até à meia-noite. Se escolhessem a cidade o que recebiam? Pouco, para não dizer nada. As cidades, dentro do formato tradicional, estão ultrapassadas. Mesmo se, eventualmente, se recuperasse todo o edificado, mesmo assim, a urbe continuaria sem atracção e sem funcionar. As cidades, no seu conceito de vivência amorfo e estático, estão como um velho de cem anos. Pararam no tempo. Hoje os grandes centros urbanos estão para os centros comerciais como há cerca de vinte anos estavam as aldeias para as cidades. A deslocalização é igual. As pessoas “fogem” para estas “ilhas de felicidade aparente” porque aqui respira-se movimento e modernidade. Há aqui imensas possibilidades de escolha. Poderíamos perfeitamente apelidar estes centros de consumo de alter-ego das cidades, uma extensão futurista, na qual estas, se quiserem sobreviver, terão de copiar o modelo. E refiro-me concretamente à disciplina, quase ditatorial, de horários de estabelecimentos. Nas zonas históricas, para além de ninguém querer trabalhar à noite e ao fim de semana, a liberdade de cada um estabelecer o horário que mais lhe convém na sua loja, ajudou a matar o comércio de rua. Depois a falta de policiamento, sobretudo à noite, acaba com o resto. Já para não falar na falta de limpeza e, nalgumas artérias, luz pública. A cidade, concretamente a Baixa de Coimbra, é uma zona abandonada. Repare-se no piso das ruas, no empedrado partido e cheio de buracos na calçada portuguesa. Atente-se na quase uma dúzia de prédios abandonados, uns sem início de obras, outros entaipados há vários anos.
Acho curioso quando alguns responsáveis chamam à Baixa de “Centro Comercial a céu aberto”. Deveriam estar calados e pugnar por medidas eficazes, políticas de revitalização por parte da autarquia e sensibilização dos comerciantes de que ou mudam ou morrem todos.
Ah! Você, com este meu discurso, adormeceu. Que falta de respeito!
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
"Luso (re)vive tradição"

sexta-feira, 26 de setembro de 2008
“Tem havido muita gente a falar de mais sobre aquilo que não sabe”

TODOS DIFERENTES... TODOS DESIGUAIS

Nas últimas décadas, no país, resultado ou não das profundas desigualdades do Estado Novo, a verdade é que, numa lógica viciada, numa osmose, numa influência recíproca, como clones, passámos todos a sentirmo-nos iguais uns aos outros. Não apenas em direitos substantivos formais (os direitos Civis e Constitucionais alienáveis da dignidade da pessoa humana), como também nos adjectivos, no modo de procedimento (Códigos de Processo). É certo que o direito, numa inclusão exacerbada, sobretudo tentando corrigir os erros do passado, a partir de meados da década de 1980, passou a levar em conta as diferenças de cada um. Ou seja, se um indivíduo foi apanhado a furtar, e se o produto desse furto foi para satisfazer a sua necessidade básica de alimentação, ou de entes consanguíneos, este acto de reprovação social perde a sua aura de delito “grave”, passando a ser considerado “desvio”, e, subsequentemente entra numa punição de moldura penal leve.
Por outras palavras, porque corro o risco de não ser suficientemente claro, até esta altura, meados de 1980, o direito em Portugal, resquícios de um corporativismo integral e inflexível de cinco décadas, assentava num positivismo jurídico, isto é, qualquer furto era julgado como tal, uma espécie de chapa numerada previamente, tendo apenas em conta a denominação da classificação do acto desviante, sem levar em conta a motivação do autor. Era um direito sem rosto humano. O juiz decidente, sem capacidade autónoma subjectiva, era um mero exequente das leis. Tal como acontecera em França, após a Revolução francesa de 1789, no iluminismo, com o surgimento dos direitos individuais, o positivismo jurídico tentava mostrar que todo o homem é igual à luz da lei. Então, nessa época das luzes, tal como aqui em pleno século XX, num igualitarismo desenfreado, embora de motivações políticas diferenciadas, perante o erro todo o homem era igual. Em França, num experimentalismo cruel Robespierrano, assentes, sobretudo, em teorias de Voltaire e Rousseau, era de índole ideológica-revolucionária-social, cortando laços com um absolutismo sufocante do povo sem direitos (burgueses, camponeses e artesãos). Em Portugal era o contrário, este “positivismo”, através de um autoritarismo pronunciado, em que o poder judicial estava subjugado ao regime, servia exactamente para conter as hostes, prevenindo convulsões sociais, e evitar o alastrar da reivindicação de direitos.
Então aqui, você, leitor, e eu, fazendo um balanço do que foi escrito, interrogamo-nos: bom, se o positivismo jurídico era atentatório do valor pessoa, hoje, em que se leva em conta as diferenças de cada um estamos no bom caminho. No bom, para não dizer no óptimo, pensa você. Pois, mas eu não. E explico a seguir porque creio estarmos no mau caminho. Como passámos a hipervalorizar o “diferente”, em detrimento do “igual” ejectando-lhe doses maciças de psicologia social, quem é diferente, fazendo das suas fraquezas forças, com a ajuda do Estado, acha que a sua diferença, física, psíquica ou outra, não existe. Ou seja, caímos numa pretensão de um igualitarismo de ascendente perigoso. Porque, sejamos pragmáticos, o que é diferente jamais pode ser igual.
Por outro lado, o Estado, numa diarreia legislativa, através de legisladores obcecados por direitos, liberdades e garantias, tentando agradar a lobbies, grupos de pressão conotados com uma esquerda radical, invocando “discriminação” a “torto e a direito”, vai passando a ideia à sociedade de que somos realmente “todos diferentes… todos iguais”. Uma profunda mentira, que só a engole quem não pensa. Claro que, neste conluio, o Estado não é inocente. Tem objectivos económicos a atingir. Veja-se, por exemplo, o sucessivo encerramento de instituições psiquiátricas. A mensagem que é passada é de que os dementes ou diminuídos psíquicos não devem ser tratados como diferentes, mas, pelo contrário, devem ser tratados como iguais. Devem ser “ressocializados”, e inseridos na sociedade. Então o que assistimos? É vermos, nas grandes urbes e outras, estes indivíduos abandonados a vaguear e entregues à sua sorte. Claro que não se pode escamotear algum relativo sucesso, sobretudo nas famílias. Também um pouco por, a isso serem obrigadas e sem alternativa, ficarem mais sensíveis para os seus familiares diminuídos psiquicamente.
Claro que se o leitor chegou até aqui, certamente, interroga-se: mas, afinal, onde quer chegar este tipo? Disserta, disserta! Parece uma alma penada.
Se pensou isto, tem razão. Eu estou a abusar da sua tolerância. Mas, já agora, só mais um pouco de paciência, estou mesmo quase a terminar.
É assim: o que me levou a escrever este texto foi o facto de uma mãe, de seu nome Natércia Mirão, no dia 23 de Setembro, no espaço das “Cartas ao Leitor”, do Diário as Beiras, em tom indignado, vir chamar a atenção para o facto de ter tentado inscrever o seu filho, alegadamente com Trissomia 21 (vulgarmente conhecido como mongolismo), nas aulas de expressão musical, no Pavilhão de Portugal e ministradas pelo maestro Virgílio Caseiro. Segundo a verve desta senhora, o maestro é que não esteve pelos ajustes. Ao que parece, o mestre da batuta alegou que “o menino seria um problema para o grupo de 24, prejudicaria o desenvolvimento da aprendizagem, considerando que não acompanharia o grupo”.
A senhora, mãe do menino, desapontada, diz que “é duro demais para uma mãe que ao longo de nove anos tem integrado o seu filho na sociedade como um igual. (…) Estamos no século XXI e ainda funcionamos com o preconceito (…) o preconceito é uma arma forte, poderosa! (…) Lamento que os meus impostos contribuam para o desenvolvimento de projectos com princípios elitistas de desrespeito e intolerância!!!”
Antes de continuar, ressalvo que nem conheço o maestro nem a senhora, mãe do menino.
Então a pergunta que lhe faço, a si leitor, deveria o maestro Virgílio Caseiro ter aceitado aquela criança e fazer a vontade à senhora? Ou, pelo contrário, no seu legítimo direito natural de escolha, fazendo o que achou melhor, será condenável esta sua opção?
Que lhe parece?
Banksy

