sábado, 14 de março de 2009

UM SORRISO EM SACRAMENTO



Há dias fui aos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, a uma consulta. No guichet, na fila, enquanto esperava a minha vez de ser atendido, os meus olhos iam seguindo cada movimento da funcionária que, dentro do pequeno cubículo, atendia os utentes. De quarenta e poucos anos, era uma bela mulher. De corpo bem cuidado, quase escultural, com um colo que prometia ressuscitar um morto, com cabelos médios à “Marilyne”, anos 60, deambulava entre os processos e o computador.
Nesta imaginária pintura viva de Henrique Medina, havia um senão: esta escultura com vida não ria, funcionava como um autómato. A todos os beneficiários do serviço de saúde, em lamúria sem fim, repetia exaustivamente: “o seu cartão de utente, se faz favor; a morada, o telefone?...”
Enquanto esperava, pensava para mim, bolas!, que desperdício! Se naquele belo rosto, esta mulher juntasse um pequeno sorriso, o que não seria. Quando chegou a minha vez, a mesma coisa: “o seu cartão de utente, se faz favor”. O trato era tão distante, tão impessoal, que me apeteceu abaná-la ou então, nessa impossibilidade, dizer-lhe na cara o quanto a sua atitude fechada me irritava. A custo, lá me contive.
Passado um bocado fui chamado no microfone. Entrei então no gabinete médico. À secretária uma médica de cinquenta e poucos anos –que só se aferiam depois de um olhar bem profundo, parecia muito mais nova. De cabelos médios, pintados de vermelho, com um rosto bem cuidado, onde a maquilhagem ajudava a preservar uma beleza serena. Neste corpo belo de “avant gard”, ao pescoço, pendurado, um fio de ouro com uma figa e outros objectos contra a má-sorte e o mau-olhado, acompanhado com um sorriso de orelha a orelha.
Bom dia, cumprimentei, sentando-me. “Bom dia, querido, como estás?, retribuiu-me em saudação, no meio de um sorriso. “Então o que te traz aqui? De que te queixas, amor?”. Perante a comparação com o tratamento a que tinha sido submetido pela funcionária anterior, fiquei quase em choque. Perante esta forma de tratamento tão amistoso, comecei a rir-me e disse à Zulmira –assim se chamava a médica- que bom o seu tratamento, lindo, acredite, palavra de honra. Ainda mais contrastando com a antipatia da sua colega da triagem. A Zulmira, cravando os seus profundos olhos claros em mim, pareceu ficar sem palavras. Certamente, tão habituada que estava a esta forma de ser, nem se apercebia o quanto era diferente para melhor. Quando lhe disse o que sentia pareceu ficar sem reacção e, por momentos, temi o pior. Mas foram apenas escassos segundos, logo a seguir, sai dali um sorriso escancarado que parecia coisa má. “Ai que bom ouvir o que diz”, repetia com calor.
Passei então à outra sala. Nesta estavam três enfermeiras. Duas mulheres brancas com cara de enterro e uma negra de nome Sacramento. Esta, muito simpática e sempre de sorriso no rosto.
Enquanto esperava a minha vez ia observando tudo. Diziam as duas mulheres brancas, uma para a outra: “não é justo, não é justo isto acontecer. Ela é competentíssima. Viste? Ainda por cima o Judas veio dar-lhe um abraço e um beijo, isto não se faz!”
Veio a mulher de penteado à Marilyne e, a chorar, abraçando-se a Sacramento, vociferava, entre a indignação e o inconformismo: “tens de reagir, não podes aceitar isto passivamente. Tu és tão competente. Como vamos passar sem ti?”
Sacramento, mulher negra de Angola, que provavelmente passou as passas da guerra do outro lado do mar, exclamou: “reagir para quê? Se eu fui transferida para outro serviço é porque faço lá falta. Eu trabalho em qualquer lado. Se Deus quer assim, assim será.”
“Mas tu não podes ser assim”, insistia a mulher do guichet, acompanhada pelas outras duas enfermeiras. Porque não?, repetia Sacramento, no meio de um sorriso desbragado. O Criador encarrega-se de nivelar as assimetrias, castigando os maus. Sempre foi assim ao longo dos tempos. Um dia, há muitos anos, quando vim trabalhar para aqui, para os HUC, aquando da mudança da hora, esqueci-me de acertar o relógio e, de manhã, em vez de entrar às 8, entrei às 9 horas. A colega que eu ia substituir fez um barulho danado e até ao chefe foi queixar-se. Eu não disse nada. No ano seguinte, quando mudou a hora, estava eu a fazer a noite até às 8 horas. A colega que me substituiu chegou apenas às 9 horas, porque se esqueceu de acertar o relógio. Sabem quem era esta mulher-colega? Isso mesmo! Era a que no ano anterior fora queixar-se ao chefe. Deus é ou não misericordioso?”

sexta-feira, 13 de março de 2009

HOJE É SEXTA-FEIRA 13



Eu não sou supersticioso,
nem sequer vou em cantigas,
chego a ser muito amoroso,
trabalho como as formigas,
às vezes sou meio manhoso;
Já li o livro de São Cipriano,
de trás para a frente e de lado,
preguei dez ferraduras num ano,
continuo liso e desajeitado,
a minha sorte é o desengano;
Dizem que quem não tem amor,
no jogo consegue ganhar,
mas se eu não sou jogador,
nem na mesa nem a amar,
como vou ser ganhador?;
Já comprei uma galinha,
de cor preta tão retinta,
só me falta uma santinha,
uma oração, uma finta,
para ter uma queridinha;
Já mandei ler o cobranto,
numa velha com ventura,
disse que não sou santo,
que isto era uma tortura,
o que me falta é encanto;
Já fui a uma bruxa marada,
para me tirar o encosto,
disse que não era nada,
eu precisava de um posto,
ou então de uma fada;
Encontrei uma cigana,
parecia uma guitarra,
pedi para me ler a sina,
era meia desajeitada,
como era linda a menina;
A sorte é como o destino,
dois pratos, uma balança,
a pender para o desatino,
à procura duma esperança,
num sorriso de menino.

quarta-feira, 11 de março de 2009

UM MARCO CAÍDO



Em tempos que já lá vão,
era então eu um "senhor",
contavam-me em confissão,
em longas cartas de amor,
poemas escritos à mão;
Ai que saudade tão ferida,
quando me metiam a mão,
tanto a velha à escondida,
como a menina em oração,
rogando à sua querida,
Santinha do coração;
Escrevia para a revista,
em anúncio mui charmoso,
“quero um homem que resista,
honesto, lindo e amoroso,
alegre e sem ser fadista”;
E as cartas que eu recebia?
dirigidas ao ultramar,
tanta madrinha que queria
à guerra o amor levar,
sabem lá o que eu sentia?;
Hoje estou para aqui caído,
como alguém amortalhado,
às portas da morte ferido,
frustrado e muito cansado,
tristonho e muito sentido.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE A ÚLTIMA TIRAGEM DO MARCO DO CORREIO)



Milu disse...
“Hoje somos apenas o correio das más notícias. Entregamos as contas para pagar do telefone, da luz, da água e da TV Cabo."
E quando não, uma notificação do tribunal ou uma multa por infracção ao código da estrada!
Na verdade o mundo está em permanente mutação, felizmente, na grande maioria das alterações a que tenho assistido estou de acordo, porque sou muito receptiva à mudança. Ver desaparecer os marcos do correio da paisagem urbana é, também, ver desaparecer uma parte de nós e da nossa história. Quantas vezes repetimos o gesto de colocar um sobrescrito na ranhura de um qualquer marco de correio? Contudo, alegro-me infinitamente com os recursos que tenho actualmente. Sem sair de casa, sem ter de me sujeitar às intempéries do tempo ou do trânsito, estou à distância de um clik de todos os meus familiares, amigos, conhecidos e toda a parafernália de endereços, que o quotidiano nos impõe. Que bom quando as coisas mudam para melhor!

A ÚLTIMA TIRAGEM DO MARCO DO CORREIO





É um dia de quase primavera igual a outro qualquer. As árvores, sem controlo humano, teimam no rebentar da folhagem, como se durante os meses de inverno estivessem em gestação, e daqui a alguns uns meses, durante a canícula de verão, parirem os seus rebentos frutos. Os passarinhos, no seu chilrear infantil, indiferentes à crise dos homens, parecem felizes com a nova estação do ano que se aproxima a passos de gigante.
Mas se para as árvores é um novo nascimento que aí vem, para outras coisas é a morte anunciada que se aproxima, ditada por homens com o poder do seu império. São os costumes que mudam e, numa certa implacabilidade, sem dó nem piedade, concorrem para o abate de “marcos” de memória, que durante as nossas vidas, como entes familiares, fizeram a delícia da nossa existência física.
Há dias, na Avenida Fernão de Magalhães, vários operários, como agentes de uma funerária ou coveiros, desenterravam um marco do Correio. Certamente para fazer a sua traslação e para voltar a ser enterrado num outro local qualquer do país, ou, na pior das hipóteses, acabar, sem mérito e sem glória, numa sucata qualquer.
O marco, estatelado no chão, como se estivesse amortalhado e em agonia de morte, anunciando a sua última tiragem, como numa súplica, através do seu único olho, parecia pedir ajuda.
Mas quem o pode ajudar? As pessoas já não escrevem. Hoje utiliza-se o telemóvel, usando o SMS, ou a internet. Como poderia o marco de correio resistir a esta rapidez?! Mesmo o correio azul, criado para tentar salvar a carta, demora um dia e já não chegou a tempo.
“De 2002 a 2009 perdeu-se 50% da correspondência expedida, diz-me um carteiro conhecido. “Hoje somos apenas o correio das más notícias. Entregamos as contas para pagar do telefone, da luz, da água e da TV Cabo. Tivemos uma Revolução Industrial, agora temos uma revolução informática”, enfatiza o meu comentador de ocasião.
“Que se há-de fazer? O costume é o rei não eleito na democracia, no entanto, implacavelmente impõe as suas regras ditatoriais”, diz-me o meu amigo em desabafo e receoso quanto ao futuro. Actualmente somos 50 carteiros para a cidade de Coimbra. Os mesmos que existiam em 1987. Somos os mesmos porque, se por um lado, a correspondência diminuiu drasticamente, por outro, a cidade cresceu exponencialmente”.
Até 1990 o transporte em todo o país era feito através de “ambulância”, nome dado ao transporte ferroviário. A partir dessa década a deslocação de correio passou a fazer-se por rodovia, “talvez pela melhoria das vias terrestres”, relativiza o meu interlocutor.
Quando o interrogo acerca do que era em 1987 a função social do carteiro –vindo-nos à memória “O Carteiro de Pablo Neruda”- e hoje, responde-me: “não tem nada a ver, eram outros tempos que não voltam mais. No entanto há um elo comum, tem sempre muito peso a personalidade da pessoa que distribui o correio. A relação é fundamental. Mas tirando isso, esta proximidade relacional, tudo mudou. Tenho saudades desses tempos. Às vezes vou na rua e uma velhinha vem direita a mim e dá-me dois beijinhos, cumprimentando-me e tratando-me pelo nome. É um momento muito bonito. Preferia que fossem as mulheres novas a fazê-lo, mas, já que estas não me ligam, aproveito os das velhas”, confidencia-me no meio de um sorriso escancarado.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ESTENDER AS MÃOS ÀS POMBINHAS



Está sentado o velhinho,
estendendo a mão ao pombal,
parece que está sozinho,
numa solidão infernal;
Um filho está no estrangeiro,
outro próximo de Espinho,
nenhum é o mensageiro,
do velho pai coitadinho;
Gosto muito de animais,
muito mais que certa gente,
são muito mais cordiais,
e nunca senti que mentem;
Mas que hei-de eu fazer?
o tempo está como a ceia,
parece bem não me querer,
nas rugas que me presenteia;
Estas pombas que alimento,
e quase que me vêm a mão,
provocam-me um sentimento,
alegram-me o coração;
Há quem não goste de me ver,
e facilmente recriminam demais,
não imaginam, Sabem lá o que é ter
amigos destes tão leais.

sábado, 7 de março de 2009

II 1/2 Maratona de BTT de Vale de Madeiros

Informações e Inscrições aqui!

A VIDA POUCO SIGNIFICANTE DE IRENE



Conheço esta mulher há mais de vinte anos. Trabalhou na Alta, em casa de uma família que eu conhecia bem, mais de 40 anos. Tudo estaria bem se tivesse o seu normal e legítimo ordenado correspondente ao seu esforço de serviçal. Mas não. Há muitos e muitos anos que me contou que o seu trabalho era remunerado apenas pela sua hospedagem. Para além de um tecto, nunca ganhou nada. Nessa altura eu deveria ter tido a coragem de investigar melhor a favor de Irene –assim se chama esta simpática mulher, agora com 85 anos. Como conhecia a família “hospedeira” de Irene, confesso, não me quis “meter”. Tal como outras recordações de erros que cometi, se pudesse voltar atrás, teria agido de outra maneira.
E tinha obrigação de o fazer, porque a Irene não sabe ler. Mas este não é o único óbice: esta mulher é muito ignorante. Todos somos, evidentemente, mas, apesar dessa natural e normal prescrição de conhecimento, a verdade é que Irene nunca se interessou por novidades e assuntos que pudessem aumentar a sua informação na utilidade da sua vida futura. Falar com ela é como se estivéssemos na presença de uma criança crescida…que não cresceu. É uma pessoa sem maldade. Quando fala, e fala muito mesmo, com a sua pronúncia beirã, arrastando as frases no “che” –como o Procurador da República, estão a ver?- e, ao mesmo tempo, faz uma expressão embevecida de bebé carente, como se o seu rosto reflectisse e fosse um modelo de paz e harmonia. Não sei se esta calma aparente terá alguma coisa a ver com o seu étimo. É que, por curiosidade, “irena” vem do grego “eiréne” que significa “paz”. Assim como “írene”, também do grego, significava o mancebo, com mais de vinte anos, que falava nas assembleias.
Quando me vê, é sempre a mesma coisa, e foi o caso de hoje, a mesma pergunta salta como uma mola: “paga-me um galão?”
Irene está muito surda. Há pouco tempo morreram os seus antigos “patrões” e ficou sozinha. “O que me valeu foi a família onde estou agora –também na Alta da cidade. São muito bons para mim. Foi Deus que os mandou. Não me mandam fazer nada. Nem querem que eu trabalhe. Estou muito bem, graças a Deus!”, confidencia-me em resposta à minha pergunta.
Digo-lhe que vou escrever sobre a sua vida. Sorri para mim e interroga-me: “vai dizer bem de mim não vai?”.
Despeço-me da Irene, não sem antes me atirar a pergunta, acompanhada de um trejeito embevecido e cheio de ternura: “na Páscoa não vai lá para “chima”, para os lados da minha terra, “Cheia” (Seia)? “Che” for, leva-me? Há tantos “janos” que não vou à minha terra…”



Pelo título, poderemos ser levados a pensar que este homem terá a sua barca serrana ancorada no cais da Estação-Nova e, por momentos, entrou nas ruas da Calçada. Claro que o leitor já viu que não é nada disso. Este homem, de nome Giusepe, mais conhecido por “Pino”, há 10 anos que vende a Revista Cais entre as Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz.
Pouquíssimos de nós, mesmo em dia de chuva como hoje, não “tropeçámos” no Giusepe. Certamente, tal como eu, nunca lhe demos atenção. É mais um que vagueia pelas ruas da cidade, como se, com o seu olhar de súplica, procurasse nos nossos olhos um porto de abrigo. Em sentido metafórico, esta pessoa é mesmo o homem do cais. Aquelas ruas são o seu porto. Nós, transeuntes que passamos por ele, quase sempre sem o olhar de frente, olhos-nos-olhos, seremos o seu oceano de esperança.
Mas este homem tem uma história para contar. Afinal, todos temos uma história, não é assim? E se, vagamente, poderemos pensar que este homem será azedo pela natureza da vida, que, em princípio, teria sido pouco generosa com ele, ao trocarmos impressões, ficamos surpresos. Este homem, aparentemente vagabundo de nós, espalha amor de frase em frase.
Giusepe é Italiano. Esteve numa instituição devido a problemas que afectam os humanos, segundo as suas palavras. Gostava que não fosse assim, mas foi. “Valerá a pena renegar a verdade?”, interroga-me. “Temos que nos aceitar como somos. De que vale andarmos em guerra uns com os outros? A vida é amor e o amor alimenta-se da própria vida”.
Veio para Coimbra há uma década. O tempo corre depressa. Nunca imaginei que, desde que vejo diariamente o “Pino”, fosse há tanto tempo.
Já largou a “casa” há muito tempo. Hoje habita um andar arrendado. Vive com a mulher e um filho de 18 anos. “Minha “mulherr” “estarr” “muita” doente. Física e psíquica. “Terr” esquizofrenia”, esclarece-me. “Filho andar na escola”.
Quando lhe pergunto se a venda da revista dá para viver, diz-me: “Non! Esta crise veio “piorarr” tudo. Apenas dá para pagar “quarto” (renda da casa)”.
Interrogo-o acerca das pessoas, o que pensa delas? São boas ou más para ele? “Muito boas! Eu também não faço mal a ninguém. A vida “serr” muito pequena. Porquê fazer mal? Vida é amor”, conclui.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE A APLICAÇÃO CEGA E SURDA DA LEI)



Milu disse...
Li o seu texto e creio tê-lo compreendido, fez-me até lembrar uma situação que vivi há uns bons anos, espere aí, digo já quantos, ora eu tinha 25...Há 22 anos! Era estudante trabalhadora e frequentava o nono ano. Num arremedo de coragem decidi fazer um exame ad hoc, numa Universidade de Lisboa para estudar Direito. Neste momento você deve estar a sorrir, mas, quem nunca almejou um dia, dar um passo maior do que as próprias pernas? Foi o caso! Até que nem me correu mal, fiz uma prova que versava o tema das sociedades, como se formaram e o porquê. Para mim foram favas contadas, tinha estudado isso mesmo, na disciplina de introdução à economia, onde aprendi que as sociedades se formaram quando o homem deixou de ser nómada e por daí em diante, o difícil foi parar de escrever. Fiz um bom trabalho e tive um elogio mas os gajos chumbaram-me. Talvez tivessem pressentido que eu não estava verdadeiramente interessada em prosseguir! E não estava mesmo! Mas fui testemunha de uma cena que reflecte a questão implícita no seu texto, veja só, nunca me esqueci! Na prova oral de um sargento da GNR, este foi interpelado por dizer que a lei deve ser igualmente aplicável a todos os cidadãos. Deram-lhe o exemplo de dois homens que cometem o mesmo crime, com o mesmo quadro penal, supomos que 5 anos de prisão, um deles tem cadastro já concorrido, um meliante, o outro não, além de ser conhecida a sua conduta exemplar. Como é que é? Cinco anos para cada um? O sargento insistia que sim, lei é lei! Debalde os esforços em fazer-lhe ver que 5 anos podiam ser pouco para castigar o meliante, mas, dois anos para o outro provavelmente já eram demais! Não basta aplicar a lei é preciso saber aplicá-la, para não se correrem riscos de a tornarem injusta. Bem, afinal, vistas bem as coisas, apesar de ter chumbado não perdi tudo, porque até ali, nunca tinha pensado ou procurado fazer estes juízos, também gostei de assistir a todas as provas dos outros candidatos, a minha foi horrorosa, senti-me como um touro numa arena, acossada por todos os lados! Mais um pouco e saía de lá de maca!
6 de Março de 2009 20:30

quarta-feira, 4 de março de 2009

EDITORIAL: A APLICAÇÃO CEGA E SURDA DA LEI



A minha tomada de conhecimento ontem de que o “Zé Manel dos Ossos” –uma das casas turísticas mais emblemáticas da Baixa de Coimbra- tem pendente uma acção de encerramento administrativo proposta pela autarquia, para além de me apanhar completamente de surpresa, deixou-me a pensar.
Lendo o Despacho/Deliberação da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), que transcrevo no artigo anterior -ver em www.questoesnacionais.blogspot.com-, facilmente somos levados a pensar que o fiscal instrutor do auto limitou-se a cumprir a lei. É verdade. E, para mais, o dono do estabelecimento até não deu cumprimento a dois ofícios anteriores que o obrigavam ao “projecto de arquitectura de obras de remodelação/legalização”.
Por momentos, saiamos deste caso e passemos à actuação do agente da Polícia Municipal –que também transcrevo aqui no blogue. Ao autuar os trabalhadores, no caso uma camioneta carregada de areia, cujo “concursante” da obra é a própria CMC, o agente, ao instaurar o auto, limitou-se a cumprir a lei.
Saiamos deste caso e passemos a outro. Um marginal toxicodependente, depois de três assaltos a lojas durante a noite, é apanhado pela PSP. É presente ao juiz que, em função da moldura penal ser até três anos (inferior a cinco para poder ser aplicada a prisão preventiva), limita-se a libertá-lo com a obrigação de apresentações periódicas. O delinquente sai dali e, nas noites seguintes, continua o trabalho para que está vocacionado. Ou seja, continua a assaltar. Os agentes da PSP, que tanto sofreram para chegar ao assaltante e prendê-lo, com a ordem de soltura judicial, ficam simplesmente frustrados. No fundo, penso, consideram que andaram a trabalhar para o boneco. E mais: se contabilizarmos os custos operacionais, pagos por todos nós, facilmente chegamos à conclusão de que esta situação não pode continuar.
Como disse atrás, a autarquia, o agente da polícia municipal e o juiz limitaram-se a cumprir a lei.
Mas então, nesse caso é preciso analisar e dissecar a lei. Afinal o que é isso de lei, que todos invocam? Avoca o delinquente para se queixar do polícia; avoca o polícia para justificar os seus próprios actos às vezes discricionários; avoca o juiz a lei, enquanto soberano mediador entre o bem e o mal, referindo que se limita a aplicar o consignado nos códigos; avoca também o fiscal da Câmara que se limita a aplicar a lei.
Começo por citar Papinianus, jurisconsulto romano (142-212), muito citado nas faculdades de direito. Classificava a lei do seguinte modo: “Lei é um preceito comum ditado por homens prudentes; a punição de delitos que se cometem voluntariamente ou por ignorância; a convenção comum da República”.
Abusando da paciência de quem me lê, vou citar Cícero: “Somos escravos das leis para podermos ser livres”.
Transcrevendo algumas noções do dicionário da língua Portuguesa da Porto Editora diz o seguinte acerca da lei: “prescrição do poder legislativo cujo cumprimento visa a organização da sociedade; preceito emanado de autoridade soberana”.
Certamente depois de ler estas três transcrições ficou na mesma, ou seja, sem saber onde quero chegar. Mas eu explico.
A classificação da lei reside naquela pequena frase de Papinianus: “Lei é um preceito comum ditado por homens prudentes”. Está aqui o fulcro do âmbito de tudo o que é lei. É evidente que Papinianus quando diz que é “um preceito comum ditado por homens prudentes” não se refere apenas e só ao legislador, que é o seu criador. Logicamente que abarca todos aqueles que, por inerência da sua função, a aplicam: Juízes, polícias, Câmaras Municipais e outros.
O grande mestre romano de leis diz-nos que ao aplicá-la o homem deve ser prudente. E aqui, inevitavelmente, tenho de explicar o que é isso de prudência. Prudente é aquele que usa a ponderação, a moderação e a cautela. É a qualidade daquele que, atento ao alcance das suas palavras e dos seus actos, procura evitar consequências desagradáveis.
Depois do que escrevi, penso, que já dá para perceber que nos dias que correm a prudência é folha vã a quem aplica a lei. Nos exemplos que citei, da Câmara, do agente municipal e do juiz, estas entidades, sem usar este obrigatório preceito, limitam-se a aplicar a lei escrita sem ter em conta as atenuantes ou consequências futuras para a sociedade ou para o meio em que se inserem (caso do encerramento compulsivo/administrativo do “Zé Manel dos Ossos”).
Curiosamente, a seguir à Revolução Francesa de 1789 assistiu-se durante mais de um século a um mesmo tipo de procedimento na aplicação da lei. Embora aqui, devido a séculos de obscurantismo, naturalmente, devido a abusos sobre a pessoa, surgiu o iluminismo assente no racionalismo. Esta procura obsessiva na defesa da liberdade e dos direitos do indivíduo redundou num igualitarismo feroz. O que contava era a lei –muitas vezes o legislador era um mero servidor do poder executivo. Pouco importava as atenuantes ou condições físicas da pessoa a quem era aplicada a lei. Era coxo, não sabia ler, estava a trabalhar? Isso não importava nada! “Dura lex sed lex”. A este movimento, que na Europa atravessou todo o século XIX e em Portugal chegou até meados de XX, chamou-se positivismo jurídico.
Se hoje não estamos a viver a mesma onda parece. O que interessa é simplesmente a aplicação da coima para reverter e aumentar as finanças públicas. Pouco importa as consequências criadas no meio e no ambiente social.
É preciso um novo Contrato Social, uma nova concertação? Parece-me que nunca foi tão urgente. A lei, por um lado, não pode servir como uma barreira intransponível na procura do que é o melhor para o bem comum; por outro, não pode continuar a servir de armadura desculpabilizante, para através da sua protecção, se cometerem as maiores injustiças dentro da legalidade.

segunda-feira, 2 de março de 2009

OS NOVOS VELHOS CANDIDATOS PARTIDÁRIOS






O recente anúncio, no XVI Congresso do Partido Socialista, de Vital Moreira como cabeça-de-lista às eleições europeias, enquanto professor da Faculdade de Direito de Coimbra, dever-nos-ia, a quem vive na cidade, deixar contentes sem grandes questiúnculas.
Porém, correndo o risco de cortar o entusiasmo, vou perorar sobre o assunto. E até para complementar o meu raciocínio vou trazer também à colação a notícia da semana passada do semanário Campeão das Províncias, em que era anunciada a possível candidatura de Manuel Machado à autarquia de Coimbra. Lembro que este ex-autarca foi edil da Câmara de Coimbra durante dois mandatos e até 2002.
Não me irei debruçar sobre a pessoa de Manuel Machado, que, diga-se a propósito, é bastante popular aqui na Baixa. Embora conhecendo-o, sem grande afinidade, sei que é uma pessoa querida por muitos comerciantes.
O que pretendo atingir com este escrito, como disse, não são as qualidades indiscutíveis dos indigitados e prováveis candidatos. O que discuto é a falta de renovação da classe política. Nestes dois casos é mais do mesmo.
Pode até dizer-se que Vital Moreira até está arredado da política activa há mais de uma dezena de anos. Mas, mesmo assim, é mais um candidato “requentado” que não traz nada de novo a uma classe que para seu bem precisa urgentemente, como pão para a boca, de uma renovação dos seus quadros.
Esta aposta em políticos “emparteleirados” é de certo modo preocupante. Mostra que a arte da transformação da vida da polis, a política, não se consegue rejuvenescer. Há muito que se fala no aparecimento de um “homem novo”, porém, na hora das candidaturas, quer a nível do partido de governo ou do principal partido da oposição, o PSD, estas grandes organizações partidárias, num facilitismo preocupante, preferindo não arriscar, trazem de novo à ribalta um velho produto com uma nova embalagem.
E esta carência de desabrochar, o tal novo demandante da ciência moral e normativa de governar a sociedade, deveria deixar-nos apreensivos. Com todo o respeito que nos merecem os candidatos citados, mas, uma coisa é certa, sendo ex-profissionais da política, levam atrás de si já muitos vícios adquiridos, para além de amizades e clientelas. Veja-se o caso de Manuel Machado. Quem lança o seu nome na praça pública como possível candidato é, nem mais, nem menos, do que um seu anterior braço-direito. Coincidência? Preocupação com a causa partidária? Procura incessante do melhor para o comum? Ou simplesmente o recuperar, através do candidato indigitado, um poder perdido?
E a interrogação surge: será que o partido Socialista, num universo tão vasto, em Coimbra, não terá um candidato novo? Em idade e sem “mácula”, isto é, sem passado partidário, que pode ser um ónus para a sua eleição.
Não posso deixar de lembrar dois casos que “paradigmatizam” o exemplo a que tento alcançar. Um aqui bem próximo: Penela. Outro um pouco mais longe: Óbidos. Estas apostas em novos modelos de políticos revelaram-se fundamentais na convivência e no desenvolvimento destas duas localidades.
Para Coimbra, para fazer renascer a esperança, a tal auto-estima que um também possível candidato tanto falou, para varrer o mofo e a apatia que envolve a cidade e criar uma necessária dinâmica, era importante a apresentação de novos candidatos, homens sem colagens, sem a “formatização” que os partidos lhes impõem, tanto nas pequenas organizações partidárias, caso do Bloco de Esquerda e do CDS/PP, como nas grandes, como é o caso do PSD E DO PS.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

ABERRAÇÕES E HIPOCRISIAS DO TIO SAM

(ESTE APODO VAI PARA OS HIPÓCRITAS USA E OS SEUS ACÓLITOS NO RECTÂNGULO)

Os jornais diários nacionais de ontem e hoje, em grande destaque, afloram o facto de, segundo um relatório elaborado pelo Departamento de Estado dos EUA, as forças policiais portuguesas violarem os Direitos Humanos.
Citando o jornal Correio da Manhã, “Além de eventuais abusos da polícia portuguesa, o documento critica ainda as más condições das prisões, a violência sobre mulheres e crianças e também o tráfico de mão-de-obra de mulheres”.
Em face deste estranho comunicado, vindo de quem vem, logo uma certa esquerda, que há mais de trinta anos anda de costas voltadas para as polícias e nunca conseguiu ultrapassar o “complexo da farda”, rejubilando pelo facto, tratou logo de destilar veneno contra as forças da ordem.
Falar de coerência para esta gente será o mesmo que tentar impor o casamento civil homossexual à Igreja Católica. Não creio que nacionalismos exacerbados sejam a solução para alguma coisa, no entanto, um pouco de defesa da nossa dignidade enquanto nação precisa-se e nunca fez mal a ninguém.
Como pode uma potência imperialista como os Estados Unidos da América, em que, fazendo tábua rasa dos direitos humanos, leva a julgamento crianças a partir dos dez anos de idade. Que mantém em vários Estados a pena de morte como pena capital, para além da prisão perpétua. Onde a violência policial, a segregação e a discriminação de pretos, brancos (mexicanos), outras cores, e nacionalidades, são tratados abaixo de cão. Que mantém, ainda em funcionamento, na prisão de Guantánamo, ilha de Cuba, encarcerados políticos sem culpa formada, cujas condições dos presos mantidos no campo foram motivo de indignação internacional por parte de organizações humanitárias internacionais, vir com mensagens doutrinárias para quem, nem ao de leve, toca as atrocidades praticadas por aquela potência mundial.
É por isso, ou não –pelo colocar-se de cócoras e pelo aval corroborado de alguns pseudo-ultra defensores nacionais de direitos humanos- que, hoje, as polícias, nomeadamente a PSP, perderam toda a sua identidade. De uma força de segurança nacional passou a uma caricatura de polícia. Também não admira, perante o “ámen” destes defensores dos pobres delinquentes ultrajados, que assim procedam. Se eu fosse polícia faria exactamente igual.
Só gostava de saber se estas pessoas tão lestas a colocarem-se ao lado dos hipócritas forem assaltadas, violentadas ou agredidas, depois disso, continuarão a achar que as polícias exorbitam as suas competências.
É por estas e por outras que o país, a nível de segurança interna, está como está.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O ERRO DE COUBERT



Gustave Courbet (1819-1877) foi um pintor anarquista. Seguidor da escola realista, onde a verdade transparece numa observação impressa em pinceladas precisas de um impressionismo invulgar.
A “Origem do Mundo”, pintada em 1866, é talvez a sua maior obra identificativa com o movimento realista. Esta obra provocadora, segundo reza a história, já nessa altura foi perseguida e ostracizada por uma burguesia hipócrita e defensora de uma moral inexistente.
Como se sabe, a PSP de Braga, no domingo, apreendeu numa feira de saldos de livros vários exemplares de “Pornocracia”, de Catherine Breillat, editado em Portugal pela Teorema. Apesar de entretanto devolvidos, o acto discricionário desta polícia está a indignar juristas e intelectuais do rectângulo. Consideram, para além da profunda ignorância deste corpo de polícia, nomeadamente entre outros, “um atentado à liberdade de expressão”.
Se juntarmos o auto de apreensão da juíza de Torres Vedras, em que também o que esteve na sua origem foi, depois de uma participação de um cidadão, uns nus femininos, começamos a entender a procissão que ainda agora vai no adro. Como se sabe, também aqui a meritíssima voltou atrás.
Voltando à indignação de juristas e intelectuais, consideram estes que o que está na origem de tais actos apreensivos é a “ignorância e uma falha monumental no campo da cultura”.
Para mim o que me surpreende não é tanto esta ignorância das polícias e do poder judicial –todos somos ignorantes- mas sim uma nova classe de zelotas que, num excesso de zelo, devagar, devagarinho, vão impondo, tal como em meados do século XIX, uma nova moral, fundada na hipocrisia, na mentira da falsa virtude pública.
E, quando chamo zelotas –poderiam chamar-lhes jacobinos- refiro-me a certos cidadãos comuns. Estas pessoas, cuja vida sexual deve ser um tremendo aborrecimento, mandam a sua frustração para cima de quem pensa de modo diferente. Coubert, com o seu feitio satírico, na tumba, deve estar a rir-se a “bandeiras despregadas”.
É uma tristeza, para a sociedade contemporânea, que se diz moderna, continuar a agir da mesma forma igual a um século atrás.
É um anacronismo continuarmos (alguns) a fugir das questões sexuais –imagens, ou mesmo a própria discussão do tema- como o diabo da cruz. O sexo, para além das questões filosóficas, é o acto mais encantador que pode ligar dois entes –homo ou hetero. Se assim é porque este esconder a questão, embrulhando-a em papel de veludo com cheirinho a moral podre?
Passados mais de três décadas da queda do “Ancien regime”, tudo indica que falar de sexo será cada vez mais tabu.
Volte a olhar esta preciosíssima obra que retrato em cima. Diga lá: como é que podem haver pessoas que não gostem duma imagem destas? Não apetece beijá-la?
Quem se queixa e considera ser atentado ao pudor é ignorante? Não. É simplesmente estúpido.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ENFIAR OU TIRAR A MÁSCARA?



Amanhã é terça-feira, dia de Carnaval,
não sei se tire ou afivele outra máscara,
ando tão mascarado que já não sei quem sou,
dizem-me ser natural, já ninguém leva a mal,
que o tempo longo da mentira a isso nos habituou;
Mas, às vezes, até me esforço, palavra, de verdade,
tento ser sério, dizer o que penso, sem aldrabar,
afinal é uma premissa da nossa liberdade,
não acreditam em mim, dizem que estou a brincar,
lá volto eu à falsidade dentro da legitimidade;
Olho à volta, vejo todos mascarados,
uns de bons pais, chefes de família, sorridentes,
outros de bons professores sem serem examinados,
vejo polícias, juízes, ministros e até presidentes,
todos são felizes nos papéis desempenhados;
Tiro a máscara ou mantenho a usual?
Se remover esta, logicamente, vai-me doer,
está colada à pele, de certeza que me faz mal,
fico outro, no espelho, não me vou reconhecer,
vou parecer um marinheiro perdido no areal;
E se eu enfiasse uma máscara de capitalista?
Enchia o peito de ar, não ligava à burguesia,
andava de bom carro, perdia este ar miserabilista,
comprava um avião, um barco e ia à maresia,
deixava de contar cêntimos como um contabilista;
E se eu escolhesse uma máscara de poeta sonhador?
Escreveria coisas bonitas, rimas que ninguém escreveu,
cantaria aos sete ventos a minha poesia como trovador,
gentes iam recitar os meus versos, mesmo quem nunca leu,
em qualquer parte do mundo, seria a chave do amor;
E o que é que eu faço à máscara que me faz feliz?
É certo que às vezes me decepciona, e sofro de solidão,
como consciência, faz-me pagar por erros que nunca fiz,
em arrependimento, de dor, faz sangrar o meu coração,
vou mas é ficar com esta, foi esta que sempre quis.

Carnaval organizado... mas pouco....


"O Carnaval Luso-Brasileiro até começou bem, mas houve pessoas que não acharam muita graça à confusão. Em dia de sol, o samba dominou."





Estava um dia de Sol mas parece que não correu tudo como devia!

Infelizmente não surpreende ninguém!!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O ÚLTIMO PREGOEIRO DA SORTE

(O CAUTELEIRO CARLOS GOMES NUNES)


Poderemos dizer que a alma das cidades, o seu animus, o espírito que, para além de as tornar diferentes entre si, as mantém vivas no dia-a-dia de quem a habita e “consome”, e sobretudo na memória dos que partem, reside nos seus vários diversificados patrimónios locais. É o arquitectónico –no caso de Coimbra, as românicas Igrejas de Santa Cruz e Sé Velha, entre outros, por exemplo-, é o património natural –a Lapa dos Esteios, a Mata Nacional do Choupal-, o património industrial –que deveria manter em actividade uma pequena fábrica com máquinas da revolução industrial, uma tipografia, com as suas máquinas de impressão em offset-, o património artístico –por exemplo, tentar preservar uma das poucas fábricas de olaria que restam neste ramo tão identificativo da cidade-, o património comercial – que deveria preservar os velhos cafés de tertúlia, as suas tascas típicas e castiças; pelo menos uma mercearia antiga; uma loja de ferragens; uma loja de tecidos a metro, a meu ver, mantendo todas estas casas em funcionamento. Estou convencido que, se houvesse interesse por parte da autarquia seria possível, através de incentivos fiscais, mantê-las em actividade, pelo menos uma de cada ramo.
Para além destes patrimónios materiais existem outros que vão desaparecendo sem que ninguém se importe. Refiro-me a pessoas. Podemos chamar-lhes património pessoal das cidades. Lembro, por exemplo, o vendedor de “banha da cobra”, que ainda nos anos de 1980 haviam vários a trabalhar na Praça do Comércio. Relembremos por momentos o som da flauta do amolador de tesouras. Quem não se lembra, até há uma dezena de anos da vendedeira de camarão “da costa”, com a sua canastra, que, vindo da Figueira da Foz, vendia aqui nas ruas estreitas? Seria difícil às autarquias reconstituir este património pessoal? Penso que não, desde que houvesse vontade. Através dos vários grupos de teatro era perfeitamente possível teatralizar muitas destas profissões desaparecidas.
E lembrei-me de escrever sobre os vários patrimónios citadinos, enquanto enriquecimento da vida pública, porque hoje encontrei, penso que talvez, o último e único vendedor de lotarias, vulgarmente conhecido como cauteleiro. Ainda há poucos anos eram vários vendedores. Os seus pregões bem ritmados ecoavam pela cidade: “quem quer a taluda?! É a sorte grande! Anda amanhã à roda! É a última, é a última! Quem quer ser milionário?!”
Encontrei à hora do almoço o Carlos Gomes Nunes a sair da Casa da Sorte, onde, momentos antes, se fora abastecer. É um simpático homem que, como caminheiro de São Tiago, percorre a Baixa a tentar vender a sorte a quem acreditar nela. O Carlos não é pregoeiro no sentido lato, porque, provavelmente em criança, devido a uma doença do foro neurológico –poderia ter sido a poliomelite- arrasta o corpo e a voz, quase se tornando difícil entendê-lo. Mas, quando falamos com ele, é curioso, tem um ar de felicidade que transparece, como se bem lá do fundo da sua alma viesse um sorriso encantador de criança.
Se a maioria de nós, mesmo em grande esforço, de vez em quando lhe comprasse uma cautela, o Carlos continuaria a enriquecer as ruas da nossa cidade. Estas pessoas “típicas” desaparecem devido ao nosso autismo e desinteresse em ajudar. Não tenham dúvidas, todos temos responsabilidade no desaparecimento de todos os patrimónios colectivos que enunciei.
É através da nossa intervenção cívica –nem que seja pela presença- que poderemos evitar o genocídio cultural que atravessa a nossa sociedade hodierna.
Uma coisa todos poderemos contar, se não nos envolvermos activamente na defesa do que é nosso por direito, ninguém espere que o poder político o faça. Este poder político, tendo uma responsabilidade acrescida na “felicidade interna bruta”, parece, contrariamente ao seu objecto social, ser o nosso maior inimigo. Parece que, ao querer retirar-nos estes pequenos nadas, tornando-nos insensíveis, provocando a angústia e a infelicidade, pode assim reinar mais à vontade. Estranha forma de gerir a “res pública”, não acha?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

MANUEL ALVES - O POETA CAVADOR

Que bonitas melancias
Tem aquela rica dama!
Por tanto bem que lhes quer
Deita-as consigo na cama.

É uma classe de semente
Que a mãe dela herdou da avó;
Guarda-as para ela só,
Não quer dar delas à gente.
São meias roxas na frente,
Na casca são luzidias;
Cobre-as todos os dias
Para o sol as não crestar;
Diz, quem para elas olhar:
«Que bonitas melancias!»

Quando passo à sua porta
Digo o que à mente me vem:
«Por alma da tua mãe,
Deixa-me ir à tua horta!»
«Eesta fruta não se corta,
- Ela em alta voz me clama:
A minha fruta tem fama,
Hei-de estimá-la por isso».
Melancias que eu cobiço
Tem aquela rica dama!

Não são das mais temporãs.
Mais serôdias também não...
Deus do Céu, como elas são
Tão bonitas e tão sãs!
São ambas duas irmãs,
Examine-as quem puder...
Esteja ela onde estiver,
De companhia ou sozinha,
Sobre o peito as acarinha
Por tanto bem que lhes quer.

Tem andado sempre unidas
Ao tronco em que nasceram,
Pelo muito que cresceram
Com o peso vão descidas.
São duas, mas divididas,
Cobrindo do tronco a rama.
É uma fruta que se chama
O manjar dos lambareiros.
Por causa dos ratoneiros,
Deita-as consigo na cama!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

DIA DE SÃO VALENTIM



Hoje é o 14 de Fevereiro.
E depois? Interrogas tu,
É o dia dos namorados,
Respondo, meio titubeante.
Ai é? E outros dias do ano?
Pareces exasperar ofendida,
quando é que olhaste na minha alma,
reparaste que estou mais decidida,
cortei o cabelo e até estou mais calma,
segura de mim, já não sou a mesma querida?
Há quanto tempo não me ofereces uma flor,
um jantar à luz de velas, viajando no tempo,
me dás uma carícia sem pedires amor,
voltas a fazer de mim uma rainha com alento,
me dás um beijo na boca sem ser de favor?
Depois lamentas eu já não ser a mesma,
aquela beleza que conheceste no altar,
resmungando, comparas-me com uma lesma,
Quando “não quero” e adormeço a chorar;
Há tanto tempo que não me dás um elogio,
pelo contrário, dizes que engordei,
a nossa relação perdeu toda a magia,
não mudaste, dizes, só eu é que mudei;
Acaso reparaste na minha alteração de humor?
Ora estou triste, ora alegre, com frio e a transpirar,
vou ao médico, não sabes porquê, nem questionas a dor,
é a menopausa, nem te apercebes o que me faz chorar;
Dizes então que hoje é o dia de São Valentim,
fico contente, por ti, por saber e pela lembrança,
leva-me contigo, num cavalo branco, agarradinho a mim,
vamos recuperar o tempo que perdemos, ainda temos esperança.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

SEXTA-FEIRA 13



Acordei demanhazinha,
corri logo para a retrete,
era a minha barriguinha,
às voltas com um esparguete,
que tinha comido à noitinha;
À pressa, ensaboei a fronha,
retratada no espelho,
cansado de tanta ronha,
parecia cair de velho,
naquela cara enfadonha;
Comecei a escanhoar
a navalha estava louca,
nos pêlos não queria entrar,
fiz um corte, coisa pouca,
no que o dia viria a dar;
Tirei o carro da garagem,
atropelei o meu cão,
mais à frente na paragem,
dei um brutal safanão
quando olhava aquela “imagem”;
À frente, desfiz-me em lamentos,
perante uma polícia de respeito,
não levava documentos,
procuravam um suspeito,
de pouco valeu, fui “dentro”;
Passei o fim-de-semana enjaulado,
como um macaco medroso,
lá eu pensei ser alinhado
em sexta, treze, dia supersticioso,
agora, se avistar gato preto, CUIDADO!!