sexta-feira, 20 de março de 2009

ELEIÇÕES A 7 DE JUNHO



Cavaco Silva, presidente da República, no desempenho das suas competências, anunciou ontem a marcação da data de 7 de Junho para as eleições para o Parlamento Europeu.
Claro que eu já sabia há muito. Nestas decisões importantes, há duas pessoas que ele tem sempre de ouvir: uma é a sua Maria e a outra…sou eu.
Há uns dias atrás, ligou-me, eram para aí umas cinco horas da manhã, a perguntar-me o que eu achava do dia para as eleições? Que data aconselhava? Bom, como estava meio estremunhado, não o reconheci pela voz palheta, e barafustei: ó pá!, são horas de me estares a telefonar? Fogo, quando o reconheci então, ia caindo da cama abaixo. Fiz tanta vénia que ainda tenho aqui umas pontadas nas costas. Depois de curvar a espinha até ao exagero, fui então dizendo-lhe, por que não o 10 de Junho? Como era o dia da nação, podia ser que os “portugas” caíssem em si e fossem votar. “Não, esse dia não pode ser, que não estou cá", disse-me então Cavaco. Então ponha lá o dia 7, disse eu. “Dia 7? Disse dia 7?", repetiu. Sim, reiterei. "Pronto! Está escolhido, se você acha, assim será."
Tenho de confessar que, quando acordei, de manhã, fiquei na dúvida, será que sonhei? Já vi que não. Afinal ele ligou-me mesmo. Aliás liga-me sempre nestas grandes indecisões…

OLÁ PRIMA VERA



Já chegou a prima Vera,
como ela está tão lustrosa,
parece que veio de longe,
ela está maravilhosa;
Eu adoro a minha prima,
é diferente das demais,
anda sempre florida
como a baiana Morais;
Traz consigo a alegria
e ninhos de andorinhas,
todo o mundo contagia,
é a alma de uma casinha;
Sou perdido pela Vera,
adoro a minha prima,
ai! ela é tão sincera,
levanta-me, esta garina;
Se eu estiver deprimido,
manda-me então respirar,
diz que tudo faz sentido,
neste mundo de encantar;
“Olha à volta”, diz a prima,
repara naquelas perdizes,
vê lá se outra a subestima,
apontando as varizes”;
“Deixa de olhar o chão,
arrastando os teus pés,
goza a vida meu irmão,
mostra apenas o que és”.

quinta-feira, 19 de março de 2009

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE CHATEIA-ME A FALTA DE ALTERNATIVA)



Milu disse...
Por vezes sinto um apelo para estar do lado de Manuela Ferreira Leite, é uma mulher e penso ser meu dever apoiar todas aquelas que ousam dar mais um passo em frente e investir com garra nas mais diversas áreas, principalmente na política, que sempre foi e continua a ser dominada por homens! Solidariedade feminina, precisa-se! Todavia e mau grado meu estou contra ela, por causa desta minha posição sinto-me como se me traísse a mim própria. Mas que fazer se ainda não logrei vislumbrar na Manuela F. Leite ideias capazes de me convencerem que é uma alternativa para o actual governo? Chego até a recear, que devido a qualquer capricho do destino venha a ganhar as eleições. Quem é que está esquecido da forma como desempenhou a missão de ministra das finanças? Não foi verdade que enveredou pela venda de património para conseguir baixar o défice? E que nem assim conseguiu? É assim desta maneira, a vender os anéis que muitos filhos dão cabo da herança deixada pelos pais, fruto muito trabalho, suor, sangue e lágrimas!

HOJE É DIA DO PAI




Pai nosso que estás presente,
mesmo que estejas ausente,
tentamos sempre lembrar-te
-umas vezes que nos embalou
para dormir, outras nos pegou-,
tanta memória a recordar-te,
fazendo o balanço do que falhou,
num abraço que quis dar-te,
mas, a vacilar, não passou;
Há filhos de pais malvados?
E pais de filhos de mãe?
Porque somos tão diferentes,
Aparentemente mal amados,
sós no mundo, sem ninguém,
parece não sermos gentes,
tantas vezes recusados,
por querermos ser alguém,
será pai, isso o que sentes?;
Lembras-te quando eu nasci?
Eu chorava, a mãe gemia,
entre o encanto e a dor,
tu sorrias só para mim,
como prenda, eu sentia
ser fruto de muito amor,
uma sagrada família, assim,
num jardim de alegria,
onde eu era uma flor;

CHATEIA-ME A FALTA DE ALTERNATIVA




O primeiro-ministro José Sócrates “anunciou na Assembleia da República que as famílias com desempregados vão beneficiar de uma redução de 50 por cento com a prestação da casa, tendo Sócrates explicado que o seu executivo, em conjunto com as instituições financeiras, vai criar uma “moratória nas prestações de crédito à habitação” que se poderá prolongar por dois anos e que pode ser requerida até ao fim deste ano”, in Sol online.
Antes de fazer uma apreciação sobre a medida governamental, vamos ver o que diz a líder do principal partido de oposição, Manuela Ferreira Leite (MFL): “É mais um anúncio do governo que não sabe se será concretizado, e que até poderá ser bastante negativo. Pode criar problemas às famílias muito mais graves do que aqueles com que se debatem hoje. A medida poderá ter um impacto bastante negativo se, por exemplo, as famílias tiverem que obrigatoriamente devolver esse dinheiro daqui a dois anos”, continuando a citar o Sol Online e as declarações de Manuela Ferreira Leite.
Vamos então, com objectividade, tentar analisar a medida do governo e as declarações da ex-ministra de Estado e das finanças de Durão Barroso.
Comecemos pela moratória do governo. O que nos diz a proposta? Diz-nos que se nós temos uma dívida, em forma de prestações mensais, e, por razões conjunturais –devido a desemprego- não a podemos pagar, o credor (o banco), durante dois anos, tendo em atenção a nossa situação financeira, receberá apenas metade (50/%) do que tínhamos convencionado contratualmente. Após os dois anos, certamente já teremos melhorado a nossa situação laboral, então, nessa altura, pagaremos o débito em falta ao credor. É uma boa medida? Para mim é. É uma forma de imensas famílias não perderem as casas em função da sua infelicidade.
O que diz então a “dama de Ferro” dos governos de Cavaco Silva? “A medida poderá ter um impacto bastante negativo se, por exemplo, as famílias tiverem que obrigatoriamente devolver esse dinheiro daqui a dois anos”. Como? Importa-se de repetir? Então o credor facilita o pagamento e, ainda por cima, deveria perdoar a dívida? É caso para perguntar se MFL procede assim em relação aos seus devedores.
Depois queixa-se a líder do PSD de ninguém lhe dar ouvidos. Eu falo por mim, que diariamente procuro alternativas, quer locais, quer nacionais, como podemos dar ouvidos a uma pessoa que nos seus discursos é completamente vazia de conteúdo? Para além de se limitar a um combate político desorganizado, disparando em todas as direcções, parece dar a entender que os eleitores são uma cambada de asnos, que não pensam.
Arre burra! Isto é que é uma sorte!

quarta-feira, 18 de março de 2009

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE O IGUALITARISMO CARREIRISTA)



Milu disse...
Na cidade onde vivo existem algumas famílias de ciganos tradicionais, ou seja, daquele tipo de ciganos que vive em acampamentos feitos às três pancadas arrumados a uma qualquer parede. Pela minha observação tirei algumas ilações que me permitiram formular uma opinião da qual estou inteiramente convicta. Este género de ciganos não está minimamente interessado em integrar-se plenamente na civilização. Aquela é a sua maneira de estar no mundo e são felizes assim! Alterar-lhes aquela forma de vida é a mesma coisa que arrancar-lhes a alma. No fundo, pensando bem, nem é de todo descabido. Pelo menos não sofrem ralações como eu, que por vezes tenho de andar a rapar aqui, outras, a rapar acolá, para fazer frente à vida e satisfazer os meus compromissos! Enquanto dou mais voltas na cama do que aquelas que seria normal dar, a pensar como irá ser o dia de amanhã, os ciganos por seu lado, estão descontraídos de papo para o ar a contar as estrelas que brilham no firmamento! Com os diversos subsídios que sacam à Segurança Social e tendo em conta que o único encargo que têm é a barriga deles e a da mula que puxa a carroça, na volta, ainda levam uma vida melhor que a minha, mais descansada e despreocupada, pelo menos! Essa é que é essa! Por mim podem viver à sua maneira que nunca os apoquentarei, apenas lhe condeno o facto de nos perseguirem na sua eterna pedinchice! Isso não aprovo! Que vivam, sim, à sua maneira, mas que não incomodem!
18 de Março de 2009 22:49

O IGUALITARISMO CARREIRISTA



Pode um anão já adulto, com um metro de altura, ser igual a uma outra pessoa qualquer, que na mesma idade medirá no mínimo um metro e meio?
Provavelmente a maioria, tendo em conta a obsessão pela igualdade que corre o país, responderá que sim. Acontece que não é nem jamais será, pelo menos fisicamente. Já sabemos que perante a lei, em questões de direitos Constitucionais substantivos, à luz da defesa da alienável dignidade da pessoa humana, este homem tem os mesmos direitos de personalidade.
Agora, esticando mais a corda, pode uma criança de cerca de dez anos, que mal sabe ler, habituada a costumes nómadas, a andar de terra em terra, em que o conhecimento e a literacia nada significa para os seus pais, ser “incorporada” numa turma de outras crianças com outro tipo de educação? Os novos intelectuais dizem que sim. Como já viu, falo de ciganos, e mais propriamente do caso da EB1 de Lagoa Negra, em Barcelos, em que uma turma entre os nove e os 18 anos foi concentrada.
Trata-se, como se sabe, de discriminação positiva. Convém explicar o que é isto de “discriminação positiva”? Se responder à La Palisse diria que é o contrário da negativa, mas muita gente ficaria na mesma. Vou dar dois pequenos exemplos de discriminação positiva para melhor compreensão: o apoio judiciário e uma série de medidas de apoio a deficientes, tais como estacionamento próprio e, inclusive, em sede de IRS.
Trata-se, portanto, de medidas positivas –isto é, tratamento de modo diferenciado para cima- perante uma insuficiência material-social –caso do apoio judiciário-, ou de, em caso de deficiência, haver uma “garantística”, que, através da lei, permita colmatar essas diferenças e elevem o “discriminado” à mesma categoria de “igual”. Uma vez que sem esse subsídio integrador nunca alcançaria essa igualdade pretendida na lei e na Constituição.
Claro que o leitor, que sabe mais disto do que eu –porque sinceramente percebo pouco, tenho apenas umas luzes-, pode acabar logo comigo se disser: mas o ideal não seria acabar com todo o género de discriminação, positiva e negativa? Seria sim. Mas não existem sociedades ideais. Todas pecam, umas por defeito –por exemplo a América Latina e África- e outras por exagero –caso da Europa, que abusa da discriminação positiva.
Voltando ao caso de Barcelos –que quase perdi o fim à meada-, o problema é o aproveitamento destes casos emblemáticos. Começa logo pelo governo, ao anunciar hoje, através do Ministério da Educação, que vai intervir com urgência na escola EB1 da Lagoa Negra. A seguir vem as associações a favor das minorias –caso da SOS Racismo-, que adoram uma notícia sobre discriminação, mesmo que seja positiva, como no caso. Para estas associações são sempre negativas e atentatórias da sua dignidade. Depois vêm os intelectuais, que adoram uma “sandes” de racismo segregacionista e levando atrás os patriarcas das etnias em causa.
Já teriam pensado estes homens de letras que “formatar”, à força, estas pessoas num caldo de cultura pré-concebido é, isto sim, uma violência contra a história e raízes identitárias de um povo? E além de mais: está mais que provado que os resultados têm sido catastróficos ou quase. Se nos lembrarmos de França. Dos bairros problemáticos de Lisboa e, aqui em Coimbra, a integração forçada de pessoas ciganas no Bairro do Ingote.
Há casos de sucesso, há sim senhor, mas serão muito poucos. Pelo que sei, uma maioria de ciganos saídos de acampamentos não se consegue ambientar em habitações ditas normalizadas.
Não resisto a contar esta história. Há cerca de dois anos, a Câmara de Coimbra, senhoria da maior parte do Bairro do Ingote, mandou pintar por dentro e por fora a maioria das habitações sociais. Para além disso, restaurou os locados por dentro. Pois houve casos em que para substituir as louças sanitárias só foi possível com o recurso à PSP, que se manteve no local. Mesmo assim, e perante os técnicos e a polícia, alguns inquilinos ciganos verberavam: “para que é isto? Quando vocês virarem costas eu escavaco isto tudo”. Este testemunho foi-me dito na altura por um técnico que andou lá.

segunda-feira, 16 de março de 2009

BORA LÁ, SÁBADO, TODOS PARA O TAGV




Se você é uma das centenas de pessoas que ontem andava no Choupal a usufruir aquele paradisíaco património natural da cidade, mais responsabilidade tem e, por isso mesmo, não pode deixar de estar presente no próximo sábado no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV).
Olhe que a coisa promete. Por 6 euros (ou 4, se for estudante ou fizer de conta) você pode participar neste concerto/acção de protesto “Primavera no Choupal”, no próximo sábado, dia 21 de Março, às 21,30, e “curtir” “os Quarto Minguante”, o J. P. Simões (Belle Chase Hotel), os “Ena Pá 2000”, o “Diabo a Sete” e, além disso, pode ver um vídeo sobre a nossa querida Mata Nacional, organizado pela Plataforma do Choupal.
Mas se, por acaso, você não estiver a atinar com o espectáculo, olhe…para a Joana Dias. Essa. Essa mesmo! É aquela boazona da SIC Radical. Só por ela, vale a pena ir.
Pelo Sansão Coelho, que também vai apresentar o espectáculo, esse é bom rapaz, mas muito feio. Coitado do homem nem tem culpa. Ai!, mas a Joana…
Vá lá! Se você é como eu, e aquele fulano importante na cidade dos estudantes, que ontem encontrei no choupal –e quando o tratei pelo nome ficou mais inchado que um porco-espinho- e convidei para ir sábado ao TAGV, que “botamos faladura” acerca da cidade tão facilmente como se diz mal dos políticos. A cidade é assim, assado, que A é melhor que B e que o sicrano nunca gostou de beltrano. Que o que a cidade precisa, a gente sabe tudo –palavra de honra que eu sou mesmo assim. O problema é quando nos convidam para participar num evento. Isso não. “Não tenho tempo, estou ocupado. Como sabe, as minhas responsabilidades nacionais obrigam-me a não poder participar no protesto. Mas, olhe que eu estou solidário”. Foi assim que ontem o tal cromo me respondeu. Embora eu já conhecesse a manha…basta olhar para mim.
Felizmente que você não é como eu. E sábado vai mesmo estar no TAGV.

sábado, 14 de março de 2009

UM SORRISO EM SACRAMENTO



Há dias fui aos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, a uma consulta. No guichet, na fila, enquanto esperava a minha vez de ser atendido, os meus olhos iam seguindo cada movimento da funcionária que, dentro do pequeno cubículo, atendia os utentes. De quarenta e poucos anos, era uma bela mulher. De corpo bem cuidado, quase escultural, com um colo que prometia ressuscitar um morto, com cabelos médios à “Marilyne”, anos 60, deambulava entre os processos e o computador.
Nesta imaginária pintura viva de Henrique Medina, havia um senão: esta escultura com vida não ria, funcionava como um autómato. A todos os beneficiários do serviço de saúde, em lamúria sem fim, repetia exaustivamente: “o seu cartão de utente, se faz favor; a morada, o telefone?...”
Enquanto esperava, pensava para mim, bolas!, que desperdício! Se naquele belo rosto, esta mulher juntasse um pequeno sorriso, o que não seria. Quando chegou a minha vez, a mesma coisa: “o seu cartão de utente, se faz favor”. O trato era tão distante, tão impessoal, que me apeteceu abaná-la ou então, nessa impossibilidade, dizer-lhe na cara o quanto a sua atitude fechada me irritava. A custo, lá me contive.
Passado um bocado fui chamado no microfone. Entrei então no gabinete médico. À secretária uma médica de cinquenta e poucos anos –que só se aferiam depois de um olhar bem profundo, parecia muito mais nova. De cabelos médios, pintados de vermelho, com um rosto bem cuidado, onde a maquilhagem ajudava a preservar uma beleza serena. Neste corpo belo de “avant gard”, ao pescoço, pendurado, um fio de ouro com uma figa e outros objectos contra a má-sorte e o mau-olhado, acompanhado com um sorriso de orelha a orelha.
Bom dia, cumprimentei, sentando-me. “Bom dia, querido, como estás?, retribuiu-me em saudação, no meio de um sorriso. “Então o que te traz aqui? De que te queixas, amor?”. Perante a comparação com o tratamento a que tinha sido submetido pela funcionária anterior, fiquei quase em choque. Perante esta forma de tratamento tão amistoso, comecei a rir-me e disse à Zulmira –assim se chamava a médica- que bom o seu tratamento, lindo, acredite, palavra de honra. Ainda mais contrastando com a antipatia da sua colega da triagem. A Zulmira, cravando os seus profundos olhos claros em mim, pareceu ficar sem palavras. Certamente, tão habituada que estava a esta forma de ser, nem se apercebia o quanto era diferente para melhor. Quando lhe disse o que sentia pareceu ficar sem reacção e, por momentos, temi o pior. Mas foram apenas escassos segundos, logo a seguir, sai dali um sorriso escancarado que parecia coisa má. “Ai que bom ouvir o que diz”, repetia com calor.
Passei então à outra sala. Nesta estavam três enfermeiras. Duas mulheres brancas com cara de enterro e uma negra de nome Sacramento. Esta, muito simpática e sempre de sorriso no rosto.
Enquanto esperava a minha vez ia observando tudo. Diziam as duas mulheres brancas, uma para a outra: “não é justo, não é justo isto acontecer. Ela é competentíssima. Viste? Ainda por cima o Judas veio dar-lhe um abraço e um beijo, isto não se faz!”
Veio a mulher de penteado à Marilyne e, a chorar, abraçando-se a Sacramento, vociferava, entre a indignação e o inconformismo: “tens de reagir, não podes aceitar isto passivamente. Tu és tão competente. Como vamos passar sem ti?”
Sacramento, mulher negra de Angola, que provavelmente passou as passas da guerra do outro lado do mar, exclamou: “reagir para quê? Se eu fui transferida para outro serviço é porque faço lá falta. Eu trabalho em qualquer lado. Se Deus quer assim, assim será.”
“Mas tu não podes ser assim”, insistia a mulher do guichet, acompanhada pelas outras duas enfermeiras. Porque não?, repetia Sacramento, no meio de um sorriso desbragado. O Criador encarrega-se de nivelar as assimetrias, castigando os maus. Sempre foi assim ao longo dos tempos. Um dia, há muitos anos, quando vim trabalhar para aqui, para os HUC, aquando da mudança da hora, esqueci-me de acertar o relógio e, de manhã, em vez de entrar às 8, entrei às 9 horas. A colega que eu ia substituir fez um barulho danado e até ao chefe foi queixar-se. Eu não disse nada. No ano seguinte, quando mudou a hora, estava eu a fazer a noite até às 8 horas. A colega que me substituiu chegou apenas às 9 horas, porque se esqueceu de acertar o relógio. Sabem quem era esta mulher-colega? Isso mesmo! Era a que no ano anterior fora queixar-se ao chefe. Deus é ou não misericordioso?”

sexta-feira, 13 de março de 2009

HOJE É SEXTA-FEIRA 13



Eu não sou supersticioso,
nem sequer vou em cantigas,
chego a ser muito amoroso,
trabalho como as formigas,
às vezes sou meio manhoso;
Já li o livro de São Cipriano,
de trás para a frente e de lado,
preguei dez ferraduras num ano,
continuo liso e desajeitado,
a minha sorte é o desengano;
Dizem que quem não tem amor,
no jogo consegue ganhar,
mas se eu não sou jogador,
nem na mesa nem a amar,
como vou ser ganhador?;
Já comprei uma galinha,
de cor preta tão retinta,
só me falta uma santinha,
uma oração, uma finta,
para ter uma queridinha;
Já mandei ler o cobranto,
numa velha com ventura,
disse que não sou santo,
que isto era uma tortura,
o que me falta é encanto;
Já fui a uma bruxa marada,
para me tirar o encosto,
disse que não era nada,
eu precisava de um posto,
ou então de uma fada;
Encontrei uma cigana,
parecia uma guitarra,
pedi para me ler a sina,
era meia desajeitada,
como era linda a menina;
A sorte é como o destino,
dois pratos, uma balança,
a pender para o desatino,
à procura duma esperança,
num sorriso de menino.

quarta-feira, 11 de março de 2009

UM MARCO CAÍDO



Em tempos que já lá vão,
era então eu um "senhor",
contavam-me em confissão,
em longas cartas de amor,
poemas escritos à mão;
Ai que saudade tão ferida,
quando me metiam a mão,
tanto a velha à escondida,
como a menina em oração,
rogando à sua querida,
Santinha do coração;
Escrevia para a revista,
em anúncio mui charmoso,
“quero um homem que resista,
honesto, lindo e amoroso,
alegre e sem ser fadista”;
E as cartas que eu recebia?
dirigidas ao ultramar,
tanta madrinha que queria
à guerra o amor levar,
sabem lá o que eu sentia?;
Hoje estou para aqui caído,
como alguém amortalhado,
às portas da morte ferido,
frustrado e muito cansado,
tristonho e muito sentido.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE A ÚLTIMA TIRAGEM DO MARCO DO CORREIO)



Milu disse...
“Hoje somos apenas o correio das más notícias. Entregamos as contas para pagar do telefone, da luz, da água e da TV Cabo."
E quando não, uma notificação do tribunal ou uma multa por infracção ao código da estrada!
Na verdade o mundo está em permanente mutação, felizmente, na grande maioria das alterações a que tenho assistido estou de acordo, porque sou muito receptiva à mudança. Ver desaparecer os marcos do correio da paisagem urbana é, também, ver desaparecer uma parte de nós e da nossa história. Quantas vezes repetimos o gesto de colocar um sobrescrito na ranhura de um qualquer marco de correio? Contudo, alegro-me infinitamente com os recursos que tenho actualmente. Sem sair de casa, sem ter de me sujeitar às intempéries do tempo ou do trânsito, estou à distância de um clik de todos os meus familiares, amigos, conhecidos e toda a parafernália de endereços, que o quotidiano nos impõe. Que bom quando as coisas mudam para melhor!

A ÚLTIMA TIRAGEM DO MARCO DO CORREIO





É um dia de quase primavera igual a outro qualquer. As árvores, sem controlo humano, teimam no rebentar da folhagem, como se durante os meses de inverno estivessem em gestação, e daqui a alguns uns meses, durante a canícula de verão, parirem os seus rebentos frutos. Os passarinhos, no seu chilrear infantil, indiferentes à crise dos homens, parecem felizes com a nova estação do ano que se aproxima a passos de gigante.
Mas se para as árvores é um novo nascimento que aí vem, para outras coisas é a morte anunciada que se aproxima, ditada por homens com o poder do seu império. São os costumes que mudam e, numa certa implacabilidade, sem dó nem piedade, concorrem para o abate de “marcos” de memória, que durante as nossas vidas, como entes familiares, fizeram a delícia da nossa existência física.
Há dias, na Avenida Fernão de Magalhães, vários operários, como agentes de uma funerária ou coveiros, desenterravam um marco do Correio. Certamente para fazer a sua traslação e para voltar a ser enterrado num outro local qualquer do país, ou, na pior das hipóteses, acabar, sem mérito e sem glória, numa sucata qualquer.
O marco, estatelado no chão, como se estivesse amortalhado e em agonia de morte, anunciando a sua última tiragem, como numa súplica, através do seu único olho, parecia pedir ajuda.
Mas quem o pode ajudar? As pessoas já não escrevem. Hoje utiliza-se o telemóvel, usando o SMS, ou a internet. Como poderia o marco de correio resistir a esta rapidez?! Mesmo o correio azul, criado para tentar salvar a carta, demora um dia e já não chegou a tempo.
“De 2002 a 2009 perdeu-se 50% da correspondência expedida, diz-me um carteiro conhecido. “Hoje somos apenas o correio das más notícias. Entregamos as contas para pagar do telefone, da luz, da água e da TV Cabo. Tivemos uma Revolução Industrial, agora temos uma revolução informática”, enfatiza o meu comentador de ocasião.
“Que se há-de fazer? O costume é o rei não eleito na democracia, no entanto, implacavelmente impõe as suas regras ditatoriais”, diz-me o meu amigo em desabafo e receoso quanto ao futuro. Actualmente somos 50 carteiros para a cidade de Coimbra. Os mesmos que existiam em 1987. Somos os mesmos porque, se por um lado, a correspondência diminuiu drasticamente, por outro, a cidade cresceu exponencialmente”.
Até 1990 o transporte em todo o país era feito através de “ambulância”, nome dado ao transporte ferroviário. A partir dessa década a deslocação de correio passou a fazer-se por rodovia, “talvez pela melhoria das vias terrestres”, relativiza o meu interlocutor.
Quando o interrogo acerca do que era em 1987 a função social do carteiro –vindo-nos à memória “O Carteiro de Pablo Neruda”- e hoje, responde-me: “não tem nada a ver, eram outros tempos que não voltam mais. No entanto há um elo comum, tem sempre muito peso a personalidade da pessoa que distribui o correio. A relação é fundamental. Mas tirando isso, esta proximidade relacional, tudo mudou. Tenho saudades desses tempos. Às vezes vou na rua e uma velhinha vem direita a mim e dá-me dois beijinhos, cumprimentando-me e tratando-me pelo nome. É um momento muito bonito. Preferia que fossem as mulheres novas a fazê-lo, mas, já que estas não me ligam, aproveito os das velhas”, confidencia-me no meio de um sorriso escancarado.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ESTENDER AS MÃOS ÀS POMBINHAS



Está sentado o velhinho,
estendendo a mão ao pombal,
parece que está sozinho,
numa solidão infernal;
Um filho está no estrangeiro,
outro próximo de Espinho,
nenhum é o mensageiro,
do velho pai coitadinho;
Gosto muito de animais,
muito mais que certa gente,
são muito mais cordiais,
e nunca senti que mentem;
Mas que hei-de eu fazer?
o tempo está como a ceia,
parece bem não me querer,
nas rugas que me presenteia;
Estas pombas que alimento,
e quase que me vêm a mão,
provocam-me um sentimento,
alegram-me o coração;
Há quem não goste de me ver,
e facilmente recriminam demais,
não imaginam, Sabem lá o que é ter
amigos destes tão leais.

sábado, 7 de março de 2009

II 1/2 Maratona de BTT de Vale de Madeiros

Informações e Inscrições aqui!

A VIDA POUCO SIGNIFICANTE DE IRENE



Conheço esta mulher há mais de vinte anos. Trabalhou na Alta, em casa de uma família que eu conhecia bem, mais de 40 anos. Tudo estaria bem se tivesse o seu normal e legítimo ordenado correspondente ao seu esforço de serviçal. Mas não. Há muitos e muitos anos que me contou que o seu trabalho era remunerado apenas pela sua hospedagem. Para além de um tecto, nunca ganhou nada. Nessa altura eu deveria ter tido a coragem de investigar melhor a favor de Irene –assim se chama esta simpática mulher, agora com 85 anos. Como conhecia a família “hospedeira” de Irene, confesso, não me quis “meter”. Tal como outras recordações de erros que cometi, se pudesse voltar atrás, teria agido de outra maneira.
E tinha obrigação de o fazer, porque a Irene não sabe ler. Mas este não é o único óbice: esta mulher é muito ignorante. Todos somos, evidentemente, mas, apesar dessa natural e normal prescrição de conhecimento, a verdade é que Irene nunca se interessou por novidades e assuntos que pudessem aumentar a sua informação na utilidade da sua vida futura. Falar com ela é como se estivéssemos na presença de uma criança crescida…que não cresceu. É uma pessoa sem maldade. Quando fala, e fala muito mesmo, com a sua pronúncia beirã, arrastando as frases no “che” –como o Procurador da República, estão a ver?- e, ao mesmo tempo, faz uma expressão embevecida de bebé carente, como se o seu rosto reflectisse e fosse um modelo de paz e harmonia. Não sei se esta calma aparente terá alguma coisa a ver com o seu étimo. É que, por curiosidade, “irena” vem do grego “eiréne” que significa “paz”. Assim como “írene”, também do grego, significava o mancebo, com mais de vinte anos, que falava nas assembleias.
Quando me vê, é sempre a mesma coisa, e foi o caso de hoje, a mesma pergunta salta como uma mola: “paga-me um galão?”
Irene está muito surda. Há pouco tempo morreram os seus antigos “patrões” e ficou sozinha. “O que me valeu foi a família onde estou agora –também na Alta da cidade. São muito bons para mim. Foi Deus que os mandou. Não me mandam fazer nada. Nem querem que eu trabalhe. Estou muito bem, graças a Deus!”, confidencia-me em resposta à minha pergunta.
Digo-lhe que vou escrever sobre a sua vida. Sorri para mim e interroga-me: “vai dizer bem de mim não vai?”.
Despeço-me da Irene, não sem antes me atirar a pergunta, acompanhada de um trejeito embevecido e cheio de ternura: “na Páscoa não vai lá para “chima”, para os lados da minha terra, “Cheia” (Seia)? “Che” for, leva-me? Há tantos “janos” que não vou à minha terra…”



Pelo título, poderemos ser levados a pensar que este homem terá a sua barca serrana ancorada no cais da Estação-Nova e, por momentos, entrou nas ruas da Calçada. Claro que o leitor já viu que não é nada disso. Este homem, de nome Giusepe, mais conhecido por “Pino”, há 10 anos que vende a Revista Cais entre as Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz.
Pouquíssimos de nós, mesmo em dia de chuva como hoje, não “tropeçámos” no Giusepe. Certamente, tal como eu, nunca lhe demos atenção. É mais um que vagueia pelas ruas da cidade, como se, com o seu olhar de súplica, procurasse nos nossos olhos um porto de abrigo. Em sentido metafórico, esta pessoa é mesmo o homem do cais. Aquelas ruas são o seu porto. Nós, transeuntes que passamos por ele, quase sempre sem o olhar de frente, olhos-nos-olhos, seremos o seu oceano de esperança.
Mas este homem tem uma história para contar. Afinal, todos temos uma história, não é assim? E se, vagamente, poderemos pensar que este homem será azedo pela natureza da vida, que, em princípio, teria sido pouco generosa com ele, ao trocarmos impressões, ficamos surpresos. Este homem, aparentemente vagabundo de nós, espalha amor de frase em frase.
Giusepe é Italiano. Esteve numa instituição devido a problemas que afectam os humanos, segundo as suas palavras. Gostava que não fosse assim, mas foi. “Valerá a pena renegar a verdade?”, interroga-me. “Temos que nos aceitar como somos. De que vale andarmos em guerra uns com os outros? A vida é amor e o amor alimenta-se da própria vida”.
Veio para Coimbra há uma década. O tempo corre depressa. Nunca imaginei que, desde que vejo diariamente o “Pino”, fosse há tanto tempo.
Já largou a “casa” há muito tempo. Hoje habita um andar arrendado. Vive com a mulher e um filho de 18 anos. “Minha “mulherr” “estarr” “muita” doente. Física e psíquica. “Terr” esquizofrenia”, esclarece-me. “Filho andar na escola”.
Quando lhe pergunto se a venda da revista dá para viver, diz-me: “Non! Esta crise veio “piorarr” tudo. Apenas dá para pagar “quarto” (renda da casa)”.
Interrogo-o acerca das pessoas, o que pensa delas? São boas ou más para ele? “Muito boas! Eu também não faço mal a ninguém. A vida “serr” muito pequena. Porquê fazer mal? Vida é amor”, conclui.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE A APLICAÇÃO CEGA E SURDA DA LEI)



Milu disse...
Li o seu texto e creio tê-lo compreendido, fez-me até lembrar uma situação que vivi há uns bons anos, espere aí, digo já quantos, ora eu tinha 25...Há 22 anos! Era estudante trabalhadora e frequentava o nono ano. Num arremedo de coragem decidi fazer um exame ad hoc, numa Universidade de Lisboa para estudar Direito. Neste momento você deve estar a sorrir, mas, quem nunca almejou um dia, dar um passo maior do que as próprias pernas? Foi o caso! Até que nem me correu mal, fiz uma prova que versava o tema das sociedades, como se formaram e o porquê. Para mim foram favas contadas, tinha estudado isso mesmo, na disciplina de introdução à economia, onde aprendi que as sociedades se formaram quando o homem deixou de ser nómada e por daí em diante, o difícil foi parar de escrever. Fiz um bom trabalho e tive um elogio mas os gajos chumbaram-me. Talvez tivessem pressentido que eu não estava verdadeiramente interessada em prosseguir! E não estava mesmo! Mas fui testemunha de uma cena que reflecte a questão implícita no seu texto, veja só, nunca me esqueci! Na prova oral de um sargento da GNR, este foi interpelado por dizer que a lei deve ser igualmente aplicável a todos os cidadãos. Deram-lhe o exemplo de dois homens que cometem o mesmo crime, com o mesmo quadro penal, supomos que 5 anos de prisão, um deles tem cadastro já concorrido, um meliante, o outro não, além de ser conhecida a sua conduta exemplar. Como é que é? Cinco anos para cada um? O sargento insistia que sim, lei é lei! Debalde os esforços em fazer-lhe ver que 5 anos podiam ser pouco para castigar o meliante, mas, dois anos para o outro provavelmente já eram demais! Não basta aplicar a lei é preciso saber aplicá-la, para não se correrem riscos de a tornarem injusta. Bem, afinal, vistas bem as coisas, apesar de ter chumbado não perdi tudo, porque até ali, nunca tinha pensado ou procurado fazer estes juízos, também gostei de assistir a todas as provas dos outros candidatos, a minha foi horrorosa, senti-me como um touro numa arena, acossada por todos os lados! Mais um pouco e saía de lá de maca!
6 de Março de 2009 20:30

quarta-feira, 4 de março de 2009

EDITORIAL: A APLICAÇÃO CEGA E SURDA DA LEI



A minha tomada de conhecimento ontem de que o “Zé Manel dos Ossos” –uma das casas turísticas mais emblemáticas da Baixa de Coimbra- tem pendente uma acção de encerramento administrativo proposta pela autarquia, para além de me apanhar completamente de surpresa, deixou-me a pensar.
Lendo o Despacho/Deliberação da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), que transcrevo no artigo anterior -ver em www.questoesnacionais.blogspot.com-, facilmente somos levados a pensar que o fiscal instrutor do auto limitou-se a cumprir a lei. É verdade. E, para mais, o dono do estabelecimento até não deu cumprimento a dois ofícios anteriores que o obrigavam ao “projecto de arquitectura de obras de remodelação/legalização”.
Por momentos, saiamos deste caso e passemos à actuação do agente da Polícia Municipal –que também transcrevo aqui no blogue. Ao autuar os trabalhadores, no caso uma camioneta carregada de areia, cujo “concursante” da obra é a própria CMC, o agente, ao instaurar o auto, limitou-se a cumprir a lei.
Saiamos deste caso e passemos a outro. Um marginal toxicodependente, depois de três assaltos a lojas durante a noite, é apanhado pela PSP. É presente ao juiz que, em função da moldura penal ser até três anos (inferior a cinco para poder ser aplicada a prisão preventiva), limita-se a libertá-lo com a obrigação de apresentações periódicas. O delinquente sai dali e, nas noites seguintes, continua o trabalho para que está vocacionado. Ou seja, continua a assaltar. Os agentes da PSP, que tanto sofreram para chegar ao assaltante e prendê-lo, com a ordem de soltura judicial, ficam simplesmente frustrados. No fundo, penso, consideram que andaram a trabalhar para o boneco. E mais: se contabilizarmos os custos operacionais, pagos por todos nós, facilmente chegamos à conclusão de que esta situação não pode continuar.
Como disse atrás, a autarquia, o agente da polícia municipal e o juiz limitaram-se a cumprir a lei.
Mas então, nesse caso é preciso analisar e dissecar a lei. Afinal o que é isso de lei, que todos invocam? Avoca o delinquente para se queixar do polícia; avoca o polícia para justificar os seus próprios actos às vezes discricionários; avoca o juiz a lei, enquanto soberano mediador entre o bem e o mal, referindo que se limita a aplicar o consignado nos códigos; avoca também o fiscal da Câmara que se limita a aplicar a lei.
Começo por citar Papinianus, jurisconsulto romano (142-212), muito citado nas faculdades de direito. Classificava a lei do seguinte modo: “Lei é um preceito comum ditado por homens prudentes; a punição de delitos que se cometem voluntariamente ou por ignorância; a convenção comum da República”.
Abusando da paciência de quem me lê, vou citar Cícero: “Somos escravos das leis para podermos ser livres”.
Transcrevendo algumas noções do dicionário da língua Portuguesa da Porto Editora diz o seguinte acerca da lei: “prescrição do poder legislativo cujo cumprimento visa a organização da sociedade; preceito emanado de autoridade soberana”.
Certamente depois de ler estas três transcrições ficou na mesma, ou seja, sem saber onde quero chegar. Mas eu explico.
A classificação da lei reside naquela pequena frase de Papinianus: “Lei é um preceito comum ditado por homens prudentes”. Está aqui o fulcro do âmbito de tudo o que é lei. É evidente que Papinianus quando diz que é “um preceito comum ditado por homens prudentes” não se refere apenas e só ao legislador, que é o seu criador. Logicamente que abarca todos aqueles que, por inerência da sua função, a aplicam: Juízes, polícias, Câmaras Municipais e outros.
O grande mestre romano de leis diz-nos que ao aplicá-la o homem deve ser prudente. E aqui, inevitavelmente, tenho de explicar o que é isso de prudência. Prudente é aquele que usa a ponderação, a moderação e a cautela. É a qualidade daquele que, atento ao alcance das suas palavras e dos seus actos, procura evitar consequências desagradáveis.
Depois do que escrevi, penso, que já dá para perceber que nos dias que correm a prudência é folha vã a quem aplica a lei. Nos exemplos que citei, da Câmara, do agente municipal e do juiz, estas entidades, sem usar este obrigatório preceito, limitam-se a aplicar a lei escrita sem ter em conta as atenuantes ou consequências futuras para a sociedade ou para o meio em que se inserem (caso do encerramento compulsivo/administrativo do “Zé Manel dos Ossos”).
Curiosamente, a seguir à Revolução Francesa de 1789 assistiu-se durante mais de um século a um mesmo tipo de procedimento na aplicação da lei. Embora aqui, devido a séculos de obscurantismo, naturalmente, devido a abusos sobre a pessoa, surgiu o iluminismo assente no racionalismo. Esta procura obsessiva na defesa da liberdade e dos direitos do indivíduo redundou num igualitarismo feroz. O que contava era a lei –muitas vezes o legislador era um mero servidor do poder executivo. Pouco importava as atenuantes ou condições físicas da pessoa a quem era aplicada a lei. Era coxo, não sabia ler, estava a trabalhar? Isso não importava nada! “Dura lex sed lex”. A este movimento, que na Europa atravessou todo o século XIX e em Portugal chegou até meados de XX, chamou-se positivismo jurídico.
Se hoje não estamos a viver a mesma onda parece. O que interessa é simplesmente a aplicação da coima para reverter e aumentar as finanças públicas. Pouco importa as consequências criadas no meio e no ambiente social.
É preciso um novo Contrato Social, uma nova concertação? Parece-me que nunca foi tão urgente. A lei, por um lado, não pode servir como uma barreira intransponível na procura do que é o melhor para o bem comum; por outro, não pode continuar a servir de armadura desculpabilizante, para através da sua protecção, se cometerem as maiores injustiças dentro da legalidade.

segunda-feira, 2 de março de 2009

OS NOVOS VELHOS CANDIDATOS PARTIDÁRIOS






O recente anúncio, no XVI Congresso do Partido Socialista, de Vital Moreira como cabeça-de-lista às eleições europeias, enquanto professor da Faculdade de Direito de Coimbra, dever-nos-ia, a quem vive na cidade, deixar contentes sem grandes questiúnculas.
Porém, correndo o risco de cortar o entusiasmo, vou perorar sobre o assunto. E até para complementar o meu raciocínio vou trazer também à colação a notícia da semana passada do semanário Campeão das Províncias, em que era anunciada a possível candidatura de Manuel Machado à autarquia de Coimbra. Lembro que este ex-autarca foi edil da Câmara de Coimbra durante dois mandatos e até 2002.
Não me irei debruçar sobre a pessoa de Manuel Machado, que, diga-se a propósito, é bastante popular aqui na Baixa. Embora conhecendo-o, sem grande afinidade, sei que é uma pessoa querida por muitos comerciantes.
O que pretendo atingir com este escrito, como disse, não são as qualidades indiscutíveis dos indigitados e prováveis candidatos. O que discuto é a falta de renovação da classe política. Nestes dois casos é mais do mesmo.
Pode até dizer-se que Vital Moreira até está arredado da política activa há mais de uma dezena de anos. Mas, mesmo assim, é mais um candidato “requentado” que não traz nada de novo a uma classe que para seu bem precisa urgentemente, como pão para a boca, de uma renovação dos seus quadros.
Esta aposta em políticos “emparteleirados” é de certo modo preocupante. Mostra que a arte da transformação da vida da polis, a política, não se consegue rejuvenescer. Há muito que se fala no aparecimento de um “homem novo”, porém, na hora das candidaturas, quer a nível do partido de governo ou do principal partido da oposição, o PSD, estas grandes organizações partidárias, num facilitismo preocupante, preferindo não arriscar, trazem de novo à ribalta um velho produto com uma nova embalagem.
E esta carência de desabrochar, o tal novo demandante da ciência moral e normativa de governar a sociedade, deveria deixar-nos apreensivos. Com todo o respeito que nos merecem os candidatos citados, mas, uma coisa é certa, sendo ex-profissionais da política, levam atrás de si já muitos vícios adquiridos, para além de amizades e clientelas. Veja-se o caso de Manuel Machado. Quem lança o seu nome na praça pública como possível candidato é, nem mais, nem menos, do que um seu anterior braço-direito. Coincidência? Preocupação com a causa partidária? Procura incessante do melhor para o comum? Ou simplesmente o recuperar, através do candidato indigitado, um poder perdido?
E a interrogação surge: será que o partido Socialista, num universo tão vasto, em Coimbra, não terá um candidato novo? Em idade e sem “mácula”, isto é, sem passado partidário, que pode ser um ónus para a sua eleição.
Não posso deixar de lembrar dois casos que “paradigmatizam” o exemplo a que tento alcançar. Um aqui bem próximo: Penela. Outro um pouco mais longe: Óbidos. Estas apostas em novos modelos de políticos revelaram-se fundamentais na convivência e no desenvolvimento destas duas localidades.
Para Coimbra, para fazer renascer a esperança, a tal auto-estima que um também possível candidato tanto falou, para varrer o mofo e a apatia que envolve a cidade e criar uma necessária dinâmica, era importante a apresentação de novos candidatos, homens sem colagens, sem a “formatização” que os partidos lhes impõem, tanto nas pequenas organizações partidárias, caso do Bloco de Esquerda e do CDS/PP, como nas grandes, como é o caso do PSD E DO PS.