segunda-feira, 23 de março de 2009

A F(PH)ARMÁCIA (DE) NAZARETH

(UM PORMENOR DO TECTO)

("OLHE AQUI! ESTÁ VER ESTE BARÓMETRO?")

(A LINDA FACHADA; TALVEZ A RAINHA DE TANTAS OUTRAS)

Quem passar pela Rua Ferreira Borges, em Coimbra, mesmo que ande distraído, inevitavelmente os seus olhos vão poisar na mais linda fachada daquela artéria, quiçá rainha de todas as frontarias da cidade.
É o estabelecimento, em actividade, mais antigo da Lusa Atenas. “Foi fundada em 1815. Olhe que ainda conservamos os rótulos antigos feitos em Paris”, diz-me, acaloradamente e cheio de orgulho, o Dr. Victor David. Na sua voz, como um conservador de museu que ama o que preserva, nota-se a convicção, o empenho e a certeza de que tem uma responsabilidade social ao usufruir uma jóia de valor incalculável.
Fazendo analogia com o nome, pela sua beleza de exemplar único, se esta farmácia existisse no tempo de Jesus de Nazareth, este Homem, embora na Bíblia não conste de que alguma vez estivesse doente, teria sido cliente desta botica.
A título de curiosidade, começando pelo étimo, “Farmácia” é a ciência que tem por objecto o reconhecimento, a recolha e conservação das drogas simples e a elaboração dos medicamentos compostos. Esta ciência, e arte, de preparar medicamentos começou a ser protegida em Portugal em meados do século XV. A Faculdade de Botica foi instituída na Universidade de Coimbra no reinado de D. Sebastião (1568-1578)”, in Moderna Enciclopédia Universal.
Voltando à nossa jóia da Coroa, e continuando a ouvir Victor David, “esta farmácia é a vida e a alma da minha mulher”. E de facto, em boa verdade, não exagerou. Ao falar com a Drª Maria Ascensão, esposa e também proprietária, directora técnica da farmácia, sente-se o seu envolvimento na forma como fala da “menina dos seus olhos”.
A Farmácia Nazareth foi a primeira distribuidora para Portugal de artigos para revelação de fotografia e material radiológico. Estamos a falar dos primórdios do retrato, por volta de 1860, das placas de vidro de gelatino-brometo. Nos clientes da farmácia, de artigos radiológicos, contavam-se os falecidos médicos Moura Relvas e Adolfo Rocha (Miguel Torga).
Se os móveis originais desta botica “ancienne” falassem, mil histórias contariam. No entanto, a Drª Ascenção não deixa créditos por mãos alheias. Tudo o que respeita à sua “menina do peito” esta senhora não se cansa de contar. “Olhe que a minha farmácia foi o primeiro estabelecimento autorizado de distribuição para a zona centro de água das Pedras e água de Luso”. Complementa o marido, Victor David, “por volta do fim do século XIX, a água vinha pela “posta-restante” até à ponte de ferro, até à casa da Ponte, em Santa Clara, e depois era transportada em carroça até aqui à farmácia”.
Continuando a ouvir, com gosto, estes dois teimosos na conservação do património comercial, “olhe aqui! Está a ver este barómetro? Por volta de 1920/1930, os jornais diários da cidade (certamente entre eles o Conimbricense) vinham aqui saber das previsões de chuva para o dia seguinte”, diz-me Victor David, embalado na descrição de factos históricos relativos ao mais antigo estabelecimento de Coimbra e que está na sua família desde 1980.
A Farmácia Nazareth, contrariamente aos guias turísticos da cidade, que olvidam este quase bicentenário estabelecimento, é referida no Guia Michelin com a seguinte menção honrosa: “ao passar na Rua Ferreira Borges, vindo do Largo da Portagem, nos números 135/139, não esqueça de olhar para o seu lado direito. Encontrará a Farmácia Nazareth, um bom exemplo de conservação do património comercial” –citado de memória.

UM SORRISO MARCA A VIDA



Encontrei-te por acaso,
numa rua da cidade,
tropeçei no teu sorriso,
pareces não ter idade;
Tanto tempo já passou,
eu mal te reconhecia,
se não fosse o teu sorriso,
eu jamais me lembraria;
É estranho um sentimento,
p’ra viver é tão preciso,
parece que nada contou,
a não ser o teu sorriso;
Essa alegria espontânea,
que me prendeu tanto a ti,
foi esse sorriso louco,
que me escravizou assim;
Agora até entendo,
e consigo compreender,
por que é que só um sorriso
nos amarra até morrer.

sábado, 21 de março de 2009

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE A VOZ INCÓMODA)

(EDUARDA MAIO, JORNALISTA DA ANTENA 1)


Milu disse...
A publicidade melhor conseguida é, sem dúvida, toda aquela que se apoia nas cenas mais evidentes do quotidiano.Não é preciso rebuscar muito, basta olhar em volta, basta, também, ter a sensibilidade suficiente para conseguir captar o sentimento mais generalizado do tempo actual. Ora, o que tem estado na ordem do dia, na verdade, são as manifestações, greves e diversas contestações de carácter político, etc. Sendo assim, é normal que se aproveite o boneco, quer para construir publicidade quer para fazer humor, para certos programas que vivem da sátira. Não vejo razão para o empolamento deste caso! Qualquer coisinha hoje é notícia. Uma paneleirice qualquer enche páginas de jornais! Estamos mesmo em crise! Ultimamente tudo serve para atacar este governo. Com a economia do mundo inteiro de pantanas,querem-nos fazer crer que Sócrates é o principal responsável pela situação precária do nosso país. Mas atenção - tudo isto não passa de um golpe baixo, que se traduz numa grave falta de respeito pelos portugueses, porque não é verdade, antes fosse... Trocava-se de governo e ficávamos todos ricos, todos a viver um oásis de abundância! Infelizmente a realidade é bem amarga! Não vamos lá com pachos e panos quentes. É preciso trabalhar e sobretudo mudar esta mentalidade comesinha, pequenina e miserabilista.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A RTP PÔE-SE A JEITO...



Segundo o Sol online, há cerca de uma hora, a RTP colocou-se de cócoras, pronta a ser “entalada” pelo PSD e PCP.
Tristeza de direcção…sem direcção! É por atitudes destas que o país está onde está. Ou seja, na sanita da Europa. E, pelos vistos, com esta gente, tardará em sair de lá. Todos cagam na nossa dignidade, a começar pelos partidos políticos. Está explicado o raquitismo que enferma a democracia. Coitadinha da “menina”, jamais chegará a adulta, com tais pais protectores e detractores.
Muitos medos têm as instituições de celeumas partidárias, mesmo quando se trata do seu respeito e o que devem aos portugueses.
Porca miséria! Vou mas é para Angola…

A VOZ INCÓMODA




Depois dos ciganos de Barcelos, aí está outra controvérsia, agora em torno de um anúncio da Antena1, em que aparece uma grande fila de carros parados e alguns a tocarem a buzina. Dentro de uma viatura, um condutor ouve Eduarda Maio –autora do livro “Sócrates: o menino de ouro do PS”, a biografia autorizada do primeiro-ministro, lançada em 2008-, uma jornalista daquela estação de rádio pública, dizer que “daqui a pouco, vamos em directo para o Parlamento, vamos acompanhar o debate, desta tarde, na Assembleia da República. São agora 11,23. Uma informação de trânsito…”
A seguir, Eduarda Maio entabula uma conversa em directo com o condutor:
-Ó Rui, não vale a pena ir por aí, está cortada a rua…
-Não acredito! Outro acidente, Eduarda? –pergunta exasperado o chouffeur.
-Não. É uma manifestação, responde a jornalista.
-E desta vez é contra quê? –interroga o condutor.
-Bom, pelos vistos, é contra si, Rui! –conclui Eduarda Maio.
-Sim, sim… contra mim! -desabafa o condutor, parecendo não acreditar.
-Pois! Contra quem quer chegar a horas –remata a jornalista.
Seguidamente aparece o Spot publicitário, com uma voz masculina de outro jornalista: “Quem nos diz tudo sobre a actualidade, diz-nos muito. Antena 1, liga Portugal”.
Segundo o jornal Público online, o PSD, perante este texto publicitário, pediu hoje a demissão da direcção da Antena 1 “devido ao “Spot” publicitário de promoção à informação da rádio, que considera “atentar contra a liberdade de expressão e de manifestação”.
Salienta-se que o Spot publicitário mereceu igualmente críticas da restante oposição.
Continuando a citar o Público, “O “Spot” também vai motivar uma queixa da CGTP ao Conselho de opinião da RTP (…). O PCP admite, ainda, chamar ao Parlamento a administração da RTP se não for retirado o anúncio (…), que descreve como uma “ofensa” a “um direito fundamental” –o direito à manifestação.”
Não deixa de ser irónico que, passados quase 35 anos, os partidos políticos, auto-apelidando-se de progenitores da democracia –e sobretudo o PCP- tratem este sistema político -em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade- ao sabor das suas conveniências. Aparam a democracia consoante o jeito que lhes dá, e como se esta fosse imberbe, nunca crescesse. Os partidos, certamente, pensam que as pessoas serão tolas e não têm cabeça para pensar. A sua hipocrisia é tão grande que nem a chegada da primavera, com os seus odores a flores, consegue disfarçar o cheiro a mofo que empesta o ar.
Ficam duas perguntas a balouçar no éter: Quem atenta contra a liberdade de expressão?
E se, por acaso, a voz, em vez de ser de Eduarda Maio –que escreveu a biografia de Sócrates- fosse de uma qualquer outra jornalista, teria desencadeado a mesma reacção partidária?

ELEIÇÕES A 7 DE JUNHO



Cavaco Silva, presidente da República, no desempenho das suas competências, anunciou ontem a marcação da data de 7 de Junho para as eleições para o Parlamento Europeu.
Claro que eu já sabia há muito. Nestas decisões importantes, há duas pessoas que ele tem sempre de ouvir: uma é a sua Maria e a outra…sou eu.
Há uns dias atrás, ligou-me, eram para aí umas cinco horas da manhã, a perguntar-me o que eu achava do dia para as eleições? Que data aconselhava? Bom, como estava meio estremunhado, não o reconheci pela voz palheta, e barafustei: ó pá!, são horas de me estares a telefonar? Fogo, quando o reconheci então, ia caindo da cama abaixo. Fiz tanta vénia que ainda tenho aqui umas pontadas nas costas. Depois de curvar a espinha até ao exagero, fui então dizendo-lhe, por que não o 10 de Junho? Como era o dia da nação, podia ser que os “portugas” caíssem em si e fossem votar. “Não, esse dia não pode ser, que não estou cá", disse-me então Cavaco. Então ponha lá o dia 7, disse eu. “Dia 7? Disse dia 7?", repetiu. Sim, reiterei. "Pronto! Está escolhido, se você acha, assim será."
Tenho de confessar que, quando acordei, de manhã, fiquei na dúvida, será que sonhei? Já vi que não. Afinal ele ligou-me mesmo. Aliás liga-me sempre nestas grandes indecisões…

OLÁ PRIMA VERA



Já chegou a prima Vera,
como ela está tão lustrosa,
parece que veio de longe,
ela está maravilhosa;
Eu adoro a minha prima,
é diferente das demais,
anda sempre florida
como a baiana Morais;
Traz consigo a alegria
e ninhos de andorinhas,
todo o mundo contagia,
é a alma de uma casinha;
Sou perdido pela Vera,
adoro a minha prima,
ai! ela é tão sincera,
levanta-me, esta garina;
Se eu estiver deprimido,
manda-me então respirar,
diz que tudo faz sentido,
neste mundo de encantar;
“Olha à volta”, diz a prima,
repara naquelas perdizes,
vê lá se outra a subestima,
apontando as varizes”;
“Deixa de olhar o chão,
arrastando os teus pés,
goza a vida meu irmão,
mostra apenas o que és”.

quinta-feira, 19 de março de 2009

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE CHATEIA-ME A FALTA DE ALTERNATIVA)



Milu disse...
Por vezes sinto um apelo para estar do lado de Manuela Ferreira Leite, é uma mulher e penso ser meu dever apoiar todas aquelas que ousam dar mais um passo em frente e investir com garra nas mais diversas áreas, principalmente na política, que sempre foi e continua a ser dominada por homens! Solidariedade feminina, precisa-se! Todavia e mau grado meu estou contra ela, por causa desta minha posição sinto-me como se me traísse a mim própria. Mas que fazer se ainda não logrei vislumbrar na Manuela F. Leite ideias capazes de me convencerem que é uma alternativa para o actual governo? Chego até a recear, que devido a qualquer capricho do destino venha a ganhar as eleições. Quem é que está esquecido da forma como desempenhou a missão de ministra das finanças? Não foi verdade que enveredou pela venda de património para conseguir baixar o défice? E que nem assim conseguiu? É assim desta maneira, a vender os anéis que muitos filhos dão cabo da herança deixada pelos pais, fruto muito trabalho, suor, sangue e lágrimas!

HOJE É DIA DO PAI




Pai nosso que estás presente,
mesmo que estejas ausente,
tentamos sempre lembrar-te
-umas vezes que nos embalou
para dormir, outras nos pegou-,
tanta memória a recordar-te,
fazendo o balanço do que falhou,
num abraço que quis dar-te,
mas, a vacilar, não passou;
Há filhos de pais malvados?
E pais de filhos de mãe?
Porque somos tão diferentes,
Aparentemente mal amados,
sós no mundo, sem ninguém,
parece não sermos gentes,
tantas vezes recusados,
por querermos ser alguém,
será pai, isso o que sentes?;
Lembras-te quando eu nasci?
Eu chorava, a mãe gemia,
entre o encanto e a dor,
tu sorrias só para mim,
como prenda, eu sentia
ser fruto de muito amor,
uma sagrada família, assim,
num jardim de alegria,
onde eu era uma flor;

CHATEIA-ME A FALTA DE ALTERNATIVA




O primeiro-ministro José Sócrates “anunciou na Assembleia da República que as famílias com desempregados vão beneficiar de uma redução de 50 por cento com a prestação da casa, tendo Sócrates explicado que o seu executivo, em conjunto com as instituições financeiras, vai criar uma “moratória nas prestações de crédito à habitação” que se poderá prolongar por dois anos e que pode ser requerida até ao fim deste ano”, in Sol online.
Antes de fazer uma apreciação sobre a medida governamental, vamos ver o que diz a líder do principal partido de oposição, Manuela Ferreira Leite (MFL): “É mais um anúncio do governo que não sabe se será concretizado, e que até poderá ser bastante negativo. Pode criar problemas às famílias muito mais graves do que aqueles com que se debatem hoje. A medida poderá ter um impacto bastante negativo se, por exemplo, as famílias tiverem que obrigatoriamente devolver esse dinheiro daqui a dois anos”, continuando a citar o Sol Online e as declarações de Manuela Ferreira Leite.
Vamos então, com objectividade, tentar analisar a medida do governo e as declarações da ex-ministra de Estado e das finanças de Durão Barroso.
Comecemos pela moratória do governo. O que nos diz a proposta? Diz-nos que se nós temos uma dívida, em forma de prestações mensais, e, por razões conjunturais –devido a desemprego- não a podemos pagar, o credor (o banco), durante dois anos, tendo em atenção a nossa situação financeira, receberá apenas metade (50/%) do que tínhamos convencionado contratualmente. Após os dois anos, certamente já teremos melhorado a nossa situação laboral, então, nessa altura, pagaremos o débito em falta ao credor. É uma boa medida? Para mim é. É uma forma de imensas famílias não perderem as casas em função da sua infelicidade.
O que diz então a “dama de Ferro” dos governos de Cavaco Silva? “A medida poderá ter um impacto bastante negativo se, por exemplo, as famílias tiverem que obrigatoriamente devolver esse dinheiro daqui a dois anos”. Como? Importa-se de repetir? Então o credor facilita o pagamento e, ainda por cima, deveria perdoar a dívida? É caso para perguntar se MFL procede assim em relação aos seus devedores.
Depois queixa-se a líder do PSD de ninguém lhe dar ouvidos. Eu falo por mim, que diariamente procuro alternativas, quer locais, quer nacionais, como podemos dar ouvidos a uma pessoa que nos seus discursos é completamente vazia de conteúdo? Para além de se limitar a um combate político desorganizado, disparando em todas as direcções, parece dar a entender que os eleitores são uma cambada de asnos, que não pensam.
Arre burra! Isto é que é uma sorte!

quarta-feira, 18 de março de 2009

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE O IGUALITARISMO CARREIRISTA)



Milu disse...
Na cidade onde vivo existem algumas famílias de ciganos tradicionais, ou seja, daquele tipo de ciganos que vive em acampamentos feitos às três pancadas arrumados a uma qualquer parede. Pela minha observação tirei algumas ilações que me permitiram formular uma opinião da qual estou inteiramente convicta. Este género de ciganos não está minimamente interessado em integrar-se plenamente na civilização. Aquela é a sua maneira de estar no mundo e são felizes assim! Alterar-lhes aquela forma de vida é a mesma coisa que arrancar-lhes a alma. No fundo, pensando bem, nem é de todo descabido. Pelo menos não sofrem ralações como eu, que por vezes tenho de andar a rapar aqui, outras, a rapar acolá, para fazer frente à vida e satisfazer os meus compromissos! Enquanto dou mais voltas na cama do que aquelas que seria normal dar, a pensar como irá ser o dia de amanhã, os ciganos por seu lado, estão descontraídos de papo para o ar a contar as estrelas que brilham no firmamento! Com os diversos subsídios que sacam à Segurança Social e tendo em conta que o único encargo que têm é a barriga deles e a da mula que puxa a carroça, na volta, ainda levam uma vida melhor que a minha, mais descansada e despreocupada, pelo menos! Essa é que é essa! Por mim podem viver à sua maneira que nunca os apoquentarei, apenas lhe condeno o facto de nos perseguirem na sua eterna pedinchice! Isso não aprovo! Que vivam, sim, à sua maneira, mas que não incomodem!
18 de Março de 2009 22:49

O IGUALITARISMO CARREIRISTA



Pode um anão já adulto, com um metro de altura, ser igual a uma outra pessoa qualquer, que na mesma idade medirá no mínimo um metro e meio?
Provavelmente a maioria, tendo em conta a obsessão pela igualdade que corre o país, responderá que sim. Acontece que não é nem jamais será, pelo menos fisicamente. Já sabemos que perante a lei, em questões de direitos Constitucionais substantivos, à luz da defesa da alienável dignidade da pessoa humana, este homem tem os mesmos direitos de personalidade.
Agora, esticando mais a corda, pode uma criança de cerca de dez anos, que mal sabe ler, habituada a costumes nómadas, a andar de terra em terra, em que o conhecimento e a literacia nada significa para os seus pais, ser “incorporada” numa turma de outras crianças com outro tipo de educação? Os novos intelectuais dizem que sim. Como já viu, falo de ciganos, e mais propriamente do caso da EB1 de Lagoa Negra, em Barcelos, em que uma turma entre os nove e os 18 anos foi concentrada.
Trata-se, como se sabe, de discriminação positiva. Convém explicar o que é isto de “discriminação positiva”? Se responder à La Palisse diria que é o contrário da negativa, mas muita gente ficaria na mesma. Vou dar dois pequenos exemplos de discriminação positiva para melhor compreensão: o apoio judiciário e uma série de medidas de apoio a deficientes, tais como estacionamento próprio e, inclusive, em sede de IRS.
Trata-se, portanto, de medidas positivas –isto é, tratamento de modo diferenciado para cima- perante uma insuficiência material-social –caso do apoio judiciário-, ou de, em caso de deficiência, haver uma “garantística”, que, através da lei, permita colmatar essas diferenças e elevem o “discriminado” à mesma categoria de “igual”. Uma vez que sem esse subsídio integrador nunca alcançaria essa igualdade pretendida na lei e na Constituição.
Claro que o leitor, que sabe mais disto do que eu –porque sinceramente percebo pouco, tenho apenas umas luzes-, pode acabar logo comigo se disser: mas o ideal não seria acabar com todo o género de discriminação, positiva e negativa? Seria sim. Mas não existem sociedades ideais. Todas pecam, umas por defeito –por exemplo a América Latina e África- e outras por exagero –caso da Europa, que abusa da discriminação positiva.
Voltando ao caso de Barcelos –que quase perdi o fim à meada-, o problema é o aproveitamento destes casos emblemáticos. Começa logo pelo governo, ao anunciar hoje, através do Ministério da Educação, que vai intervir com urgência na escola EB1 da Lagoa Negra. A seguir vem as associações a favor das minorias –caso da SOS Racismo-, que adoram uma notícia sobre discriminação, mesmo que seja positiva, como no caso. Para estas associações são sempre negativas e atentatórias da sua dignidade. Depois vêm os intelectuais, que adoram uma “sandes” de racismo segregacionista e levando atrás os patriarcas das etnias em causa.
Já teriam pensado estes homens de letras que “formatar”, à força, estas pessoas num caldo de cultura pré-concebido é, isto sim, uma violência contra a história e raízes identitárias de um povo? E além de mais: está mais que provado que os resultados têm sido catastróficos ou quase. Se nos lembrarmos de França. Dos bairros problemáticos de Lisboa e, aqui em Coimbra, a integração forçada de pessoas ciganas no Bairro do Ingote.
Há casos de sucesso, há sim senhor, mas serão muito poucos. Pelo que sei, uma maioria de ciganos saídos de acampamentos não se consegue ambientar em habitações ditas normalizadas.
Não resisto a contar esta história. Há cerca de dois anos, a Câmara de Coimbra, senhoria da maior parte do Bairro do Ingote, mandou pintar por dentro e por fora a maioria das habitações sociais. Para além disso, restaurou os locados por dentro. Pois houve casos em que para substituir as louças sanitárias só foi possível com o recurso à PSP, que se manteve no local. Mesmo assim, e perante os técnicos e a polícia, alguns inquilinos ciganos verberavam: “para que é isto? Quando vocês virarem costas eu escavaco isto tudo”. Este testemunho foi-me dito na altura por um técnico que andou lá.

segunda-feira, 16 de março de 2009

BORA LÁ, SÁBADO, TODOS PARA O TAGV




Se você é uma das centenas de pessoas que ontem andava no Choupal a usufruir aquele paradisíaco património natural da cidade, mais responsabilidade tem e, por isso mesmo, não pode deixar de estar presente no próximo sábado no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV).
Olhe que a coisa promete. Por 6 euros (ou 4, se for estudante ou fizer de conta) você pode participar neste concerto/acção de protesto “Primavera no Choupal”, no próximo sábado, dia 21 de Março, às 21,30, e “curtir” “os Quarto Minguante”, o J. P. Simões (Belle Chase Hotel), os “Ena Pá 2000”, o “Diabo a Sete” e, além disso, pode ver um vídeo sobre a nossa querida Mata Nacional, organizado pela Plataforma do Choupal.
Mas se, por acaso, você não estiver a atinar com o espectáculo, olhe…para a Joana Dias. Essa. Essa mesmo! É aquela boazona da SIC Radical. Só por ela, vale a pena ir.
Pelo Sansão Coelho, que também vai apresentar o espectáculo, esse é bom rapaz, mas muito feio. Coitado do homem nem tem culpa. Ai!, mas a Joana…
Vá lá! Se você é como eu, e aquele fulano importante na cidade dos estudantes, que ontem encontrei no choupal –e quando o tratei pelo nome ficou mais inchado que um porco-espinho- e convidei para ir sábado ao TAGV, que “botamos faladura” acerca da cidade tão facilmente como se diz mal dos políticos. A cidade é assim, assado, que A é melhor que B e que o sicrano nunca gostou de beltrano. Que o que a cidade precisa, a gente sabe tudo –palavra de honra que eu sou mesmo assim. O problema é quando nos convidam para participar num evento. Isso não. “Não tenho tempo, estou ocupado. Como sabe, as minhas responsabilidades nacionais obrigam-me a não poder participar no protesto. Mas, olhe que eu estou solidário”. Foi assim que ontem o tal cromo me respondeu. Embora eu já conhecesse a manha…basta olhar para mim.
Felizmente que você não é como eu. E sábado vai mesmo estar no TAGV.

sábado, 14 de março de 2009

UM SORRISO EM SACRAMENTO



Há dias fui aos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, a uma consulta. No guichet, na fila, enquanto esperava a minha vez de ser atendido, os meus olhos iam seguindo cada movimento da funcionária que, dentro do pequeno cubículo, atendia os utentes. De quarenta e poucos anos, era uma bela mulher. De corpo bem cuidado, quase escultural, com um colo que prometia ressuscitar um morto, com cabelos médios à “Marilyne”, anos 60, deambulava entre os processos e o computador.
Nesta imaginária pintura viva de Henrique Medina, havia um senão: esta escultura com vida não ria, funcionava como um autómato. A todos os beneficiários do serviço de saúde, em lamúria sem fim, repetia exaustivamente: “o seu cartão de utente, se faz favor; a morada, o telefone?...”
Enquanto esperava, pensava para mim, bolas!, que desperdício! Se naquele belo rosto, esta mulher juntasse um pequeno sorriso, o que não seria. Quando chegou a minha vez, a mesma coisa: “o seu cartão de utente, se faz favor”. O trato era tão distante, tão impessoal, que me apeteceu abaná-la ou então, nessa impossibilidade, dizer-lhe na cara o quanto a sua atitude fechada me irritava. A custo, lá me contive.
Passado um bocado fui chamado no microfone. Entrei então no gabinete médico. À secretária uma médica de cinquenta e poucos anos –que só se aferiam depois de um olhar bem profundo, parecia muito mais nova. De cabelos médios, pintados de vermelho, com um rosto bem cuidado, onde a maquilhagem ajudava a preservar uma beleza serena. Neste corpo belo de “avant gard”, ao pescoço, pendurado, um fio de ouro com uma figa e outros objectos contra a má-sorte e o mau-olhado, acompanhado com um sorriso de orelha a orelha.
Bom dia, cumprimentei, sentando-me. “Bom dia, querido, como estás?, retribuiu-me em saudação, no meio de um sorriso. “Então o que te traz aqui? De que te queixas, amor?”. Perante a comparação com o tratamento a que tinha sido submetido pela funcionária anterior, fiquei quase em choque. Perante esta forma de tratamento tão amistoso, comecei a rir-me e disse à Zulmira –assim se chamava a médica- que bom o seu tratamento, lindo, acredite, palavra de honra. Ainda mais contrastando com a antipatia da sua colega da triagem. A Zulmira, cravando os seus profundos olhos claros em mim, pareceu ficar sem palavras. Certamente, tão habituada que estava a esta forma de ser, nem se apercebia o quanto era diferente para melhor. Quando lhe disse o que sentia pareceu ficar sem reacção e, por momentos, temi o pior. Mas foram apenas escassos segundos, logo a seguir, sai dali um sorriso escancarado que parecia coisa má. “Ai que bom ouvir o que diz”, repetia com calor.
Passei então à outra sala. Nesta estavam três enfermeiras. Duas mulheres brancas com cara de enterro e uma negra de nome Sacramento. Esta, muito simpática e sempre de sorriso no rosto.
Enquanto esperava a minha vez ia observando tudo. Diziam as duas mulheres brancas, uma para a outra: “não é justo, não é justo isto acontecer. Ela é competentíssima. Viste? Ainda por cima o Judas veio dar-lhe um abraço e um beijo, isto não se faz!”
Veio a mulher de penteado à Marilyne e, a chorar, abraçando-se a Sacramento, vociferava, entre a indignação e o inconformismo: “tens de reagir, não podes aceitar isto passivamente. Tu és tão competente. Como vamos passar sem ti?”
Sacramento, mulher negra de Angola, que provavelmente passou as passas da guerra do outro lado do mar, exclamou: “reagir para quê? Se eu fui transferida para outro serviço é porque faço lá falta. Eu trabalho em qualquer lado. Se Deus quer assim, assim será.”
“Mas tu não podes ser assim”, insistia a mulher do guichet, acompanhada pelas outras duas enfermeiras. Porque não?, repetia Sacramento, no meio de um sorriso desbragado. O Criador encarrega-se de nivelar as assimetrias, castigando os maus. Sempre foi assim ao longo dos tempos. Um dia, há muitos anos, quando vim trabalhar para aqui, para os HUC, aquando da mudança da hora, esqueci-me de acertar o relógio e, de manhã, em vez de entrar às 8, entrei às 9 horas. A colega que eu ia substituir fez um barulho danado e até ao chefe foi queixar-se. Eu não disse nada. No ano seguinte, quando mudou a hora, estava eu a fazer a noite até às 8 horas. A colega que me substituiu chegou apenas às 9 horas, porque se esqueceu de acertar o relógio. Sabem quem era esta mulher-colega? Isso mesmo! Era a que no ano anterior fora queixar-se ao chefe. Deus é ou não misericordioso?”

sexta-feira, 13 de março de 2009

HOJE É SEXTA-FEIRA 13



Eu não sou supersticioso,
nem sequer vou em cantigas,
chego a ser muito amoroso,
trabalho como as formigas,
às vezes sou meio manhoso;
Já li o livro de São Cipriano,
de trás para a frente e de lado,
preguei dez ferraduras num ano,
continuo liso e desajeitado,
a minha sorte é o desengano;
Dizem que quem não tem amor,
no jogo consegue ganhar,
mas se eu não sou jogador,
nem na mesa nem a amar,
como vou ser ganhador?;
Já comprei uma galinha,
de cor preta tão retinta,
só me falta uma santinha,
uma oração, uma finta,
para ter uma queridinha;
Já mandei ler o cobranto,
numa velha com ventura,
disse que não sou santo,
que isto era uma tortura,
o que me falta é encanto;
Já fui a uma bruxa marada,
para me tirar o encosto,
disse que não era nada,
eu precisava de um posto,
ou então de uma fada;
Encontrei uma cigana,
parecia uma guitarra,
pedi para me ler a sina,
era meia desajeitada,
como era linda a menina;
A sorte é como o destino,
dois pratos, uma balança,
a pender para o desatino,
à procura duma esperança,
num sorriso de menino.

quarta-feira, 11 de março de 2009

UM MARCO CAÍDO



Em tempos que já lá vão,
era então eu um "senhor",
contavam-me em confissão,
em longas cartas de amor,
poemas escritos à mão;
Ai que saudade tão ferida,
quando me metiam a mão,
tanto a velha à escondida,
como a menina em oração,
rogando à sua querida,
Santinha do coração;
Escrevia para a revista,
em anúncio mui charmoso,
“quero um homem que resista,
honesto, lindo e amoroso,
alegre e sem ser fadista”;
E as cartas que eu recebia?
dirigidas ao ultramar,
tanta madrinha que queria
à guerra o amor levar,
sabem lá o que eu sentia?;
Hoje estou para aqui caído,
como alguém amortalhado,
às portas da morte ferido,
frustrado e muito cansado,
tristonho e muito sentido.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE A ÚLTIMA TIRAGEM DO MARCO DO CORREIO)



Milu disse...
“Hoje somos apenas o correio das más notícias. Entregamos as contas para pagar do telefone, da luz, da água e da TV Cabo."
E quando não, uma notificação do tribunal ou uma multa por infracção ao código da estrada!
Na verdade o mundo está em permanente mutação, felizmente, na grande maioria das alterações a que tenho assistido estou de acordo, porque sou muito receptiva à mudança. Ver desaparecer os marcos do correio da paisagem urbana é, também, ver desaparecer uma parte de nós e da nossa história. Quantas vezes repetimos o gesto de colocar um sobrescrito na ranhura de um qualquer marco de correio? Contudo, alegro-me infinitamente com os recursos que tenho actualmente. Sem sair de casa, sem ter de me sujeitar às intempéries do tempo ou do trânsito, estou à distância de um clik de todos os meus familiares, amigos, conhecidos e toda a parafernália de endereços, que o quotidiano nos impõe. Que bom quando as coisas mudam para melhor!

A ÚLTIMA TIRAGEM DO MARCO DO CORREIO





É um dia de quase primavera igual a outro qualquer. As árvores, sem controlo humano, teimam no rebentar da folhagem, como se durante os meses de inverno estivessem em gestação, e daqui a alguns uns meses, durante a canícula de verão, parirem os seus rebentos frutos. Os passarinhos, no seu chilrear infantil, indiferentes à crise dos homens, parecem felizes com a nova estação do ano que se aproxima a passos de gigante.
Mas se para as árvores é um novo nascimento que aí vem, para outras coisas é a morte anunciada que se aproxima, ditada por homens com o poder do seu império. São os costumes que mudam e, numa certa implacabilidade, sem dó nem piedade, concorrem para o abate de “marcos” de memória, que durante as nossas vidas, como entes familiares, fizeram a delícia da nossa existência física.
Há dias, na Avenida Fernão de Magalhães, vários operários, como agentes de uma funerária ou coveiros, desenterravam um marco do Correio. Certamente para fazer a sua traslação e para voltar a ser enterrado num outro local qualquer do país, ou, na pior das hipóteses, acabar, sem mérito e sem glória, numa sucata qualquer.
O marco, estatelado no chão, como se estivesse amortalhado e em agonia de morte, anunciando a sua última tiragem, como numa súplica, através do seu único olho, parecia pedir ajuda.
Mas quem o pode ajudar? As pessoas já não escrevem. Hoje utiliza-se o telemóvel, usando o SMS, ou a internet. Como poderia o marco de correio resistir a esta rapidez?! Mesmo o correio azul, criado para tentar salvar a carta, demora um dia e já não chegou a tempo.
“De 2002 a 2009 perdeu-se 50% da correspondência expedida, diz-me um carteiro conhecido. “Hoje somos apenas o correio das más notícias. Entregamos as contas para pagar do telefone, da luz, da água e da TV Cabo. Tivemos uma Revolução Industrial, agora temos uma revolução informática”, enfatiza o meu comentador de ocasião.
“Que se há-de fazer? O costume é o rei não eleito na democracia, no entanto, implacavelmente impõe as suas regras ditatoriais”, diz-me o meu amigo em desabafo e receoso quanto ao futuro. Actualmente somos 50 carteiros para a cidade de Coimbra. Os mesmos que existiam em 1987. Somos os mesmos porque, se por um lado, a correspondência diminuiu drasticamente, por outro, a cidade cresceu exponencialmente”.
Até 1990 o transporte em todo o país era feito através de “ambulância”, nome dado ao transporte ferroviário. A partir dessa década a deslocação de correio passou a fazer-se por rodovia, “talvez pela melhoria das vias terrestres”, relativiza o meu interlocutor.
Quando o interrogo acerca do que era em 1987 a função social do carteiro –vindo-nos à memória “O Carteiro de Pablo Neruda”- e hoje, responde-me: “não tem nada a ver, eram outros tempos que não voltam mais. No entanto há um elo comum, tem sempre muito peso a personalidade da pessoa que distribui o correio. A relação é fundamental. Mas tirando isso, esta proximidade relacional, tudo mudou. Tenho saudades desses tempos. Às vezes vou na rua e uma velhinha vem direita a mim e dá-me dois beijinhos, cumprimentando-me e tratando-me pelo nome. É um momento muito bonito. Preferia que fossem as mulheres novas a fazê-lo, mas, já que estas não me ligam, aproveito os das velhas”, confidencia-me no meio de um sorriso escancarado.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ESTENDER AS MÃOS ÀS POMBINHAS



Está sentado o velhinho,
estendendo a mão ao pombal,
parece que está sozinho,
numa solidão infernal;
Um filho está no estrangeiro,
outro próximo de Espinho,
nenhum é o mensageiro,
do velho pai coitadinho;
Gosto muito de animais,
muito mais que certa gente,
são muito mais cordiais,
e nunca senti que mentem;
Mas que hei-de eu fazer?
o tempo está como a ceia,
parece bem não me querer,
nas rugas que me presenteia;
Estas pombas que alimento,
e quase que me vêm a mão,
provocam-me um sentimento,
alegram-me o coração;
Há quem não goste de me ver,
e facilmente recriminam demais,
não imaginam, Sabem lá o que é ter
amigos destes tão leais.

sábado, 7 de março de 2009