quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

"OS FILHOS CHULOS" (MIGUEL ESTEVES CARDOSO)




«Ainda bem que a União Europeia foi estudar em que países, segundo os pais, os filhos são mais felizes. Regra geral, é nos países mais ricos que os pais acham que os filhos estão melhor. Nos pobres, é o oposto. Faz sentido.
Excepto em Portugal. Aqui, apesar da pobreza, achamos que os nossos filhos são felizes. Fazem o que querem e é raro ficarem tristes ou em casa: são rebentos que rebentam de tanto frutificar. Estão no Paraíso. Com uma excepção: a escola. Essa cabresta. Aí, acham os paizinhos, não estão nada bem. É que puxam muito por eles.
Insistem que estudem. Não compreendem que só se é novo uma vez. Como contou Catarina Gomes no PÚBLICO de sábado: "Inquiridos sobre o bem-estar dos filhos na escola [as respostas dos] pais portugueses estiveram muito abaixo da média europeia."
Ainda bem que os filhos portugueses foram denunciados. São a esponja da nação. Absorvem toda a riqueza nacional. Sugam-na até ao tutano.
Desde crianças que são mais bem vestidas do que os pais. Não largam o ninho antes dos 30. E, mesmo assim, só com aliciantes. Ser filho é a grande profissão nacional. Não trabalham; não estudam; não dão satisfações. Não pagam renda; não deixam gorjetas; não gastam senão o essencial. São bilionários do egoísmo e do bel-prazer.
É a condição dos pais que arrasta Portugal para a pobreza, pela miséria que resta do financiamento da filharada. Ao menos que saibam que valeu a pena e que não há na Europa filhotes mais felizes. Ao menos isso.» [Público assinantes]

Por Miguel Esteves Cardoso no Jornal Público de ontem.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

CENSURA PRÉVIA NOS BLOGUES É REGRA?



Alguns comentários que já recebi, acusando-me de censor, foi exactamente pelo facto de antes de os inserir, obrigatoriamente, os ler. Como se diz vulgarmente: passar pelo crivo. Acontece que as poucas pessoas que expressaram essa opinião, algumas vezes a raiar o insulto, o fizeram na qualidade de anónimos. Saliento que mesmo assim sempre os publiquei.
Vamos por partes: eu dou a cara. Logo, por incrível que pareça, quem me acusa de censurar, ou obstaculizar a liberdade, esconde-se atrás do anonimato. Então é caso para interrogar que conceitos de liberdade responsável farão estas pessoas? Sem demagogia –pelo menos para mim- a liberdade pressupõe frontalidade, isto é, seja para o que for, as pessoas deveriam ser obrigadas a identificar-se. Essa premissa, fundamental da liberdade, para começar, deveria estar consignada na lei. O Estado nunca deveria admitir denúncias anónimas. Afinal não era esta a norma do Estado Novo? Sempre que não se gostava de um vizinho denunciava-se à PIDE como perigoso agitador. E hoje, em democracia, o que faz este Estado de Direito? Exactamente a mesma coisa. Ou seja, presta-se a ser o instrumento vingador de pequenos ódios pessoais.
Voltando à Web, e ao caso dos blogues. Pelo menos para mim, o meu humilde blogue www.questoesnacionais.blogspot.com é, como chamo, a minha gaveta interactiva. O que quero dizer com isto? Que esta “gaveta” cibernética é o meu cantinho especial, onde “arrumo” os meus escritos. Pode até, para alguns, não prestar para nada, mas, para mim, apesar de o compartilhar, é muito pessoal e importante. Assim sendo, penso, já dá para ver que se eu “permito” que entrem e vasculhem à vontade tudo o que escrevo, sobre o que penso, acerca de mim e de outros, é mais que legítimo que exija que quem cá vem o faça dentro das regras que eu, dentro do meu direito natural, criei. Volto a lembrar que, ao escrever, dou a cara e responsabilizo-me pelas minhas opiniões justas ou injustas acerca de outros. Não o faço a coberto do “encapuzamento”, ou atrás da cortina.
Como já tenho mais de meio século, embora admita que é um argumento pouco sustentado, como já venho lá de longe, do “tempo da outra senhora”, em que a liberdade era o prius fundamental da luta contra o fascismo. Quem a invocava tinha um respeito e uma deferência como se estivesse perante uma divindade. Mas havia mais, sabia-se que a liberdade implicava directamente responsabilidade. Liberdade, quando implica outro, não pode ser libertinagem e fazer o que apetece. Liberdade é a filosofia da vida, individualmente (sozinho), ou em comunidade. Mas quando em sociedade, “usar” a liberdade é ter noção de que é um bem escasso –contrariamente ao que se pensa-, e que a devemos “utilizar” com peso e medida. E mais: ter sempre presente que a “minha” liberdade acaba onde começa a do outro. Esta era (e continua a ser) uma das premissas do Direito Natural, imanente ao homem e em contraposição ao caos, que, não tendo leis escritas, as suas obrigações e direitos assentavam nos costumes. Ainda hoje acontece em África, e não só, onde o respeito pelo outro assenta na sã convivência e os conflitos são dirimidos e julgados pelo ancião mais velho da comunidade. Claro que estas sociedades antigas são profundamente hierarquizadas, o que se por um lado as torna pouco dinâmicas, comparativamente com as sociedades desenvolvidas, por outro, o respeito, através dos pilares hierárquicos, é mais facilmente imposto de cima para baixo, como pirâmide, do vértice para a base. Nas sociedades desenvolvidas, ditas democráticas, contrariamente às anteriores, em nome da igualdade, desaparecem as hierarquias e a liberdade, de baixo para cima, invade toda a esfera societária. O problema é conseguir fazer a gestão dessa liberdade sobretudo quando se pensa que em seu nome tudo se pode fazer e invadir sem restrições qualquer espaço privado ou público.
Voltando ainda à Internet, a bem e em nome da sua respeitabilidade, é minha profunda convicção de que num futuro muito próximo ninguém conseguirá esconder-se atrás de um pseudónimo. Por muitos grandes passos gigantes que se tenham dado, ainda há muito para fazer no campo da responsabilização individual e colectiva nas ondas cibernéticas. Ainda não se sabe muito bem onde começa e acaba o “privado” e o “público”.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009


"O "melhor jogador de futebol do Mundo" segundo a FIFA, o português Cristiano Ronaldo, está convidado para marcar presença no Cine-Teatro Municipal Messias, dia 26 de Janeiro, para a 3.ª edição da Gala do Desporto do Município da Mealhada."



In O Jogo



Não seria mais vantajoso para o desporto se este prémio fosse aproveitado para chamar às luzes da ribalta um desportista menos mediático mas com o mesmo mérito? Sou capaz de me lembrar de alguns e talvez o objectivo fosse cumprido e o valor do prémio fosse acrescentado!



PS: Será que alguém vai andar tb a trocar sms com o Cristiano????

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

BAIXA: A CRISE TAMBÉM AFECTA OS PEDINTES


(O EDUARDO VENTURA NA ESQUINA DA RUA EDUARDO COELHO)

Em Agosto de 2003, a frequência, de manhã à noite, de pedintes na Rua Eduardo Coelho, em Coimbra, era tão grande que um comerciante da zona, apelando à advertência pública para este facto, se disfarçou de falso cego. De acordo com outros colegas, e como forma de chamar a atenção para a facilidade como o público, na maioria das vezes, é enganado, ao mesmo tempo que contribui, assim, para incentivar a mendicidade. Para além de um outro pedinte, tinha ao lado um manequim onde apelava à não contribuição. O falso cego, em quatro horas “ganhou” 30 euros. Salienta-se que esta verba foi entregue na Casa dos Pobres.
Mesmo em frente à Rua das Padeiras, numa esquina da Rua Eduardo Coelho, não havia mãos a medir para os pedintes. Chegava-se a assistir a discussões entre eles, do género: “agora é a minha hora, vai-te embora, antes que me chateie”. Diariamente, de segunda-feira a sábado, os frequentadores desta esquina estratégica, eram dois cegos (verdadeiros), um indigente que, torcendo o braço, se fazia passar por deficiente, eram várias romenas com bebés ao colo e ainda uma cigana que, sentando-se no chão, recolhendo as saias até quase à virilha, mostrava, para além das cuecas, uma grande cicatriz na rechonchuda coxa. Como récita sem ser encomendada, os comerciantes, durante todo o dia, “gramavam” a lengalenga saída da boca de cada um dos intervenientes do apelo à moedinha.
Hoje, passados quatro anos e meio, esta outrora disputadíssima esquina da antiga Rua dos Sapateiros permanece quase sempre vaga. Fazendo parte dos antigos frequentadores, o único que permanece fiel ao local, pelo menos duas vezes por semana e durante duas horas, é o Eduardo Ventura, invisual de nascença. Tem 54 anos de idade. Mora em Soure, de onde vem e vai de comboio.
Quando lhe pergunto como “vê” a Baixa nos dias de hoje, e comparativamente com o movimento e o bulício que havia até há meia dúzia de anos, responde-me: “Olhe, “trabalho” aqui há 15 anos e nunca “vi” tão pouca gente na Baixa. Está quase deserta. Sinto-a muito mal, como se estivesse doente. Está tudo parado. Passa pouca gente”.
Quando o interrogo, na comparação entre o que ganhava noutros tempos e hoje, responde: “Ó meu amigo não tem comparação. Noutros tempos ganhava três ou quatro vezes mais. Talvez resultados da crise, hoje as pessoas dão muito pouco. Fogem de dar porque a vida está muito difícil. Isto está péssimo”. Quando lhe pergunto para especificar melhor, responde, “pouca gente deixa uma moeda de euro, a maioria só dá cêntimos”. E notas?, interrogo. Recebo em resposta uma grande gargalhada, complementada com a frase: “Notas?, só quando o rei faz anos”.
Pergunto-lhe, uma vez que já anda por aqui há 15 anos, se considera ser bem tratado pelos comerciantes. Diz-me: “sim, sempre fui muito acarinhado, na maioria das vezes mais do que pelas pessoas em geral. É como se eles entendessem que eu sendo cego não tenho muitas possibilidades de ganhar dinheiro, até pela idade, conclui o Eduardo.
Então, interrogo, isso quer dizer que você não sente uma grande proximidade das pessoas? Sente que é discriminado, mesmo quando lhe dão uma moeda? “É assim, as pessoas dão, mas não se dão. Parecem ter receio de se chegar ao invisual; embora eu sinta que, hoje, as pessoas estejam mais solidárias, ajudam mais, mas parecem ter nojo do cego, entende o que quero dizer?”, responde o Eduardo com uma interrogação.
Ao longo da curta conversa, reparei no ar despreocupado do Eduardo e, quase em provocação, não resisti à pergunta: o Eduardo é feliz? “Sim, sou muito feliz! Apesar de sentir muitas dificuldades –recebo apenas uma pequena reforma. Mas tenho esperança, acho que as coisas vão melhorar. Não tenho dúvidas”.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

EM BUSCA DA ESMERALDA PERDIDA



Como é sobejamente conhecido pela opinião pública, o caso, que poderá facilmente dar um bom enredo para um filme, começa assim: uma relação passional entre um português, Baltazar Nunes, e uma brasileira, imigrante, a trabalhar em Portugal, Aidida Porto, que, naturalmente, pelas leis naturais da atracção física, vem a resultar o nascimento de uma criança.
Não se sabe muito bem por quais os motivos, mas parece que já depois da senhora engravidar o casal separou-se. Consta-se que logo que pariu a criança, Aidida, a mãe do bebé, para além de, na maternidade o indicar como pai, contactou Baltazar, o seu antigo amor, e confrontou-o com a realidade: da sua relação tinha germinado um fruto, uma criança, e ele era o pai. Não se sabe com que bases, mas a verdade é que Baltazar não aceitou a paternidade da criança.
Aidida, como quase todos os imigrantes, a viver dificuldades financeiras e, certamente, tendo consciência de que nestas condições não poderia proporcionar um futuro mínimo à sua filha, tendo esta três meses de idade, entregou-a a um casal –Luis Gomes e Adelina Lagarto- para que estes cuidassem da sua educação e se tornassem pais de “afecto” já que ela, nas condições precárias em que se encontrava, não o poderia fazer.
Tinha então a criança um ano, o casal Lagarto requer a adopção da pequena criança que viria a ser baptizada com o nome de Esmeralda Porto.
Como perante a lei não pode haver filhos de pais incógnitos, e no prosseguimento do processamento de adopção, encetado pelo Ministério Público, na instrução do processo declarativo de paternidade, em que iriam ser realizados testes de ADN, Baltazar reconheceu ser o progenitor da criança e, depois de ter perfilhado a filha, requer o poder paternal, que lhe foi conferido em 2004.
O casal Lagarto, “pais de afecto”, nunca aceitaram vir a separar-se da criança e esta permaneceu sempre à sua guarda. Após a sentença declarativa, pelo tribunal, reconhecendo a Baltazar a tutela de Esmeralda, o casal Lagarto não aceita e Adelina Gomes, desobedecendo à demanda do Tribunal desaparece com a criança -actualmente, está a ser julgada pelo Tribunal de Torres Novas, acusada de sequestro e subtracção de menor. O seu marido, Adelino Gomes, sargento do Exército, foi também julgado há cerca de ano e meio pelos mesmos crimes, vindo a ser condenado em pena suspensa, que está a cumprir actualmente.
Na sexta-feira, dia 9, o Tribunal de Torres Novas decidiu entregar definitivamente a menor ao seu pai biológico Baltazar Nunes, pondo fim a uma contenda que se arrasta há quatro anos, levando a uma profunda cisão na opinião pública, embora a maioria seja unânime de que a criança deveria ser entregue aos “pais de afecto” e esteja contra “esta justiça” sem coração. Invocam que “pais” são os que criam e dão amor.
Salienta-se também a posição em bloco de pedopsiquiatras contra a sentença da juíza Mariana Caetano, mesmo apesar da sua recomendação, “de que a criança deve manter os laços afectivos que tem coma progenitora e com o casal Gomes. O que urge fazer é que todos os intervenientes se empenhem, efectuem um esforço de entendimento, demonstrando o amor que têm pela Esmeralda, devendo ter como principal objectivo a felicidade e um crescimento sustentável da criança”.
De tal maneira o caso apaixona a classe médica que a própria Ordem dos Médicos promete tomar, muito em breve, uma posição sobre o caso Esmeralda. O próprio presidente do Colégio de Psiquiatria da Infância e da Adolescência daquela Ordem, Emílio Salgueiro, declara que “a decisão justifica-se pela convicção de que naquele caso concreto, está em risco a saúde mental da criança”. O especialista afirmou ainda que “há necessidade de clarificar qual o papel que os psiquiatras entendem que devem assumir em situações judiciais semelhantes”. Salienta-se ainda as declarações de Augusto Carreira e Maria José Gonçalves, pedopsiquiatras e membros daquele colégio. Pelo primeiro foi dito de que “em última análise, esta criança pode morrer”. Disse também que Esmeralda “encontra-se em grande sofrimento e será uma adolescente e uma adulta insegura, com dificuldades gravíssimas de relacionamento e de ligação afectiva”.
Pela segunda pedopsiquiatra, Maria José Gonçalves, foi dito que “esta criança está a ser sujeita a maus-tratos por parte do tribunal e isto não é uma opinião, é uma evidência científica”. Sublinhou ainda que “pensa que a menina entrará rapidamente numa depressão profunda que, no limite, pode matar”. Citando o PÚBLICO, consideram estes dois especialistas que, neste caso, o tribunal não respeitou a lei que coloca acima de qualquer outro “o superior interesse da criança”. “E dizem-se especialmente indignados por a decisão ter sido tomada “de forma consciente e contra o parecer dos pedopsiquiatras” que acompanharam Esmeralda, nos hospitais de Coimbra e Santarém.”
Gostava de terminar este texto sem tomar uma posição, mas perante tanta arrogância por parte da classe médica, de que sabem tudo, e quase querendo substituir-se aos juízes, tenho mesmo de me demarcar desta corrente emocional que perpassou e continua a apaixonar a opinião pública e termino com uma citação já com uns anitos, de Ulpianus ( jurista romano que viveu entre 170 e 228 da Era Cristã), que dizia o seguinte: “A justiça é a vontade constante e perpétua de atribuir a cada um o seu direito”. Perante esta citação -penso que dá para perceber-, deixo a pergunta: no caso do tribunal ter decidido pelo contrário, onde ficava o direito do pai biológico, Baltazar Nunes? Talvez seja mais fácil se nos imaginarmos no lugar dele. Para quem, transcendendo a emoção, o consiga, claro!

sábado, 10 de janeiro de 2009

VER CINEMA POR UM CANUDO




“AUTORIDADE DA CONCORRÊNCIA SUSPENDE PROGRAMA DA ZON DE BILHETES DE CINEMA GRÁTIS”

Segundo o PÚBLICO de quarta-feira, 7 de Janeiro, “O programa Cinemas Lusomundo, que oferece um bilhete de cinema por semana a um milhão de assinantes da ZON TV Cabo detentores do cartão myZONcard, está suspenso por 90 dias. A Autoridade da Concorrência (AdC) identificou um “elevado risco de efeitos anticoncorrenciais negativos” no programa, que envolve duas empresas da ZON Multimédia, e instaurou à empresa um processo contra-ordenacional, ao abrigo da Lei da Concorrência”.
Continuando a citar o diário, (…) A ZON TV Cabo considera a decisão “injustificada e lesiva dos interesses dos consumidores” e vai recorrer da decisão do regulador junto do Tribunal de Comércio de Lisboa, estando mesmo em hipótese uma acção judicial, soube o PÚBLICO”.
“A decisão da AdC surge na sequência de uma queixa da Medeia Filmes (20 salas de cinema), com o apoio da UCI Cinemas (45 salas), que foi ouvida pelo regulador, e da Socorama/Castelo Lopes Cinemas (96 salas). Em causa estão 52 bilhetes grátis por ano, nas mais de 200 salas Lusomundo de oito distritos, para cada detentor do cartão myZONcard, lançado em Dezembro e entregue a clientes da ZON TV Cabo há mais de um ano”.
“A queixa à AdC foi apresentada em Dezembro para “alertar para uma situação que acabava com a exibição cinematográfica em Portugal”, disse Paulo Branco ao PÚBLICO, reclamando espaço para a “diversidade” e reiterando que o programa poderia levar ao encerramento das salas que não pertencem à Lusomundo. Com a medida seriam “introduzidos no mercado 40 milhões de bilhetes gratuitos potenciais num mercado que já é restrito”. Entre Janeiro e Novembro de 2008, 14 milhões de espectadores viram cinema em Portugal”.
Não sei se já vos aconteceu, perante uma situação, não conseguirem ter uma opinião sobre o assunto que é focado e conseguirem tomar posição a favor ou contra um qualquer dos contendores.
Nos últimos dias, que me lembre, contando com este, é o segundo caso que não consigo formalizar opinião acerca de quem tem razão. Apenas para que não fique omisso, direi que o outro caso é o conflito armado entre Israel e a Palestina. Como não me vou debruçar sobre esta guerra fico apenas com esta declaração de impotência.
Trazendo de novo à colação a oferta de bilhetes pela Lusomundo aos clientes da ZON TV Cabo, vou tentar clarificar o meu espírito e, pé-ante-pé, vou ver se consigo chegar a alguma conclusão.
Só para entender quem é a Lusomundo, e depois de consultar a Wikipédia, ficamos a saber que “é uma holding (Sociedade gestora de participações sociais, por outras palavras, é uma sociedade que detém interesses em várias empresas de ramos variados -em Conglomerado) de comunicação portuguesa pertencente à ZON Multimédia, que detém vários cinemas espalhados pelo território português e é o principal importador de filmes em Portugal.
Com toda a sinceridade do mundo, mesmo não sabendo por onde começar, sei que estamos perante um gigante (Lusomundo) –que faz mais de 60 por cento das receitas de distribuição dos filmes exibidos em Portugal- e um pigmeu (161 salas de cinema independente).
Se me deixar levar pela emoção (irracionalidade) depressa dou razão aos mais fracos, mas não é essa ponderação que procuro. Metaforicamente, se fosse juiz, evidentemente, por exclusão de partes, numa metodologia analítica, eliminando argumentos tóxicos (agora tão em voga), através da circunspecção, chegaria à verdade racional. Eu sei que você não percebeu nada. Nem eu. Estava apenas a divagar.
E, se os houvesse, quais seriam os argumentos tóxicos ou falaciosos? Olhe, por exemplo, invocar que a Lusomundo, enquanto empresa de grande poderio económico, consegue o exclusivo para a exibição das melhores fitas cinematográficas que são projectadas no país e, com esse poder financeiro, impede os pequenos agentes cinematógrafos de aceder aos filmes de estreia em cartaz, contribuindo assim para o seu desaparecimento. Passando a imodéstia, um bom argumento, e até é verdade. É? Não, não é totalmente.
Vamos lá ver se consigo “descalçar esta bota” através de uma refutação credível; mas é assim: a crise do cinema em Portugal e o aviltante e contínuo desaparecimento dos velhos cinemas tradicionais (animatógrafos) das cidades e vilas foram devidos ao “engordar” da Lusomundo? Não. Foram devidos ao aparecimento do vídeo em meados dos anos de 1980. Durante cerca de uma década, progressivamente a sociedade portuguesa deixou de frequentar os cinemas tradicionais e, com esse abandono, levou à quase total erradicação destes monumentos tão importantes na nossa cultura. Lembro-me, em meados da década de 90, de se escrever que o cinema estava em coma e jamais recuperaria perante o vídeo, um invasor cada vez mais ousado, que, tranquilamente se levava para casa e se via comodamente no sofá juntamente com toda a família.
Ora, em minha opinião, honra lhe seja prestada, foi a Lusomundo que, pegando nas pequenas salas “multiplex”, garantindo a sua viabilidade económica, coadjuvadas com a venda de pipocas e refrigerantes da Coca-Cola, ressuscitou um negócio que poucos acreditavam ser possível o seu renascimento e impediu a sua morte anunciada. Hoje é um sucesso e o principal suporte das grandes superfícies comerciais.
Por inerência, creio, foi graças a este rejuvenescimento do cinema, na recuperação do hábito de ir ver um filme fora de casa, que se impediu que mesmo as pequenas empresas independentes desaparecessem totalmente, como é o caso da Castelo Lopes, da UCI Cinemas e da Medeia Filmes de Paulo Branco.
Falo por mim, que gosto muito de cinema e vou regularmente. Felizmente que algumas autarquias têm vindo a adquirir os velhos animatógrafos –como é o caso da Mealhada, que revitalizou o Teatro Messias e adquiriu recentemente os cine-teatros da Pampilhosa e do Luso. Adoro ir ver um qualquer filme a estes velhos cinemas, agora recuperados, que, num ápice, nos transportam para a nossa adolescência. No entanto, o frequentar estas salas não será nunca incompatível com as modernas salas “multiplex”. Quanto muito serão complementares. Mas, a propósito, já assisti, numa destas salas a um bom filme e havia apenas sete espectadores. E, este esvaziamento, deveu-se ao facto de os “faltosos” terem ido para os “multiplex”? Não. Quanto a mim, deveu-se à “incultura” de muitas pessoas pensarem que o cinema é despiciendo. E porquê? Porque não foram habituados a frequentar estes espectáculos, inclusive de teatro.
E o que é que será preciso fazer para criar o hábito nas pessoas? Por exemplo, neste caso, as autarquias oferecerem bilhetes.
Aos poucos, já se vê que me inclino fortemente para a possibilidade da AdC ter deliberado um grande disparate. Que, para além de ser lesa-cultura para o país, no futuro pode vir a contribuir, ainda mais, para o desaparecimento das pequenas companhias independentes.
Além de mais, fica uma pergunta no ar: Pode alguém, juridicamente, mesmo uma Autoridade da Concorrência, impedir uma doação? Duvido. Só os lesados pela gratuitidade do acto, neste caso os accionistas da ZON Multimédia, e os destinatários da oferta que a podem recusar.
Vamos ver de que forma se irá pronunciar o Tribunal de Comércio de Lisboa. Aguardemos os próximos capítulos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

UM COMENTÁRIO RECEBIDO




1 Comentário

Anónimo disse...
É com muita pena que, desde Dezembro, tenho vindo a acompanhar o assunto das “pistolas” oferecidas aos alunos do 1º ciclo do concelho de Porto de Mós. Apesar de ter inicialmente decidido que nunca tornaria pública a minha posição sobre o ocorrido, decidi que deveria mostrar aos portomosenses e até ao resto do pais, quanto hipócritas e sedentas de poder algumas personalidades desta vila, se têm vindo a mostrar, agarrando-se as coisas tão mesquinhas.
Em primeiro lugar, são as pessoas que neste momento mais escrevem sobre o assunto e acusam muito indignadas que, há alguns anos atrás, apoiavam o executivo camarário que colocou, nos quadros da Câmara Municipal de Porto de Mós, as actuais psicóloga, assistente social e socióloga que, agora são culpadas pela infeliz escolha do brinquedo oferecido. Como é possível que estas senhoras tenham perdido as suas capacidades de discernimento, em tão pouco tempo? Apenas mentes motivadas com um objectivo tão vil tenham capacidade para tanta invenção dramática.
Muitos estudos têm vindo a ser feitos sobre os motivos pelos quais as nossas crianças são tão agressivas e violentas, nos dias que correm. Parece-me, no entanto, que os portomosenses ainda não leram nenhum e eu aconselho-o vivamente. Esses estudos mostram que a influência dos meios de comunicação social associada à falta de acompanhamento emocional e presencial dada pelos pais, são os principais factores da falta de valores e das atitudes negativas da maioria das crianças e adolescentes que povoam as escolas. Uma criança não necessita de ter como brinquedo uma pistola para, numa brincadeira com os colegas, simular um assalto, uma guerra ou um roubo. Uma folha de papel, um pau ou até as conhecidas peças de lego servem para simular o dito objecto. É apenas necessário que a criança queira brincar “às guerras” . Nessas brincadeiras simulam tudo o que já viram em revistas, na televisão ou até ouviram na rádio mas que não foi esclarecido e conversado em família. Felizmente que isto muita gente já sabe!!!
O que o pais não sabe é que esses falsos moralistas que agora acusam vergonhosamente a Câmara deixam os seus filhos sair à noite, em idades que supostamente carecem de acompanhamento, para parte supostamente certa mas que acaba por ser uma saída para ver um filme pouco apropriado à idade mental e cronológica dos filhos; para em grupo fumarem uns cigarros, ou até mesmo outras substâncias; para deambularem pelas ruas exibindo roupas de marca e penteados apelativos a comportamentos relacionados com vandalismo e xenofobia; para beberem umas cervejas compradas em estabelecimentos que fecham os olhos à idade de quem compra; para riscarem a pintura de carros com chaves; para produzirem filmes, com atitudes pouco louváveis com os telemóveis topo de gama que mais tarde são colocados no YOUTUBE, entre muitas outras actividades.
São esses falsos moralistas que eu nunca vi tomarem uma atitude de verdadeiros pais quando são publicamente enfrentados pelos filhos que não sabem educar; são essas pessoas que acham educativos alguns jogos violentos que nunca jogaram, nem se preocuparam em conhecer o seu conteúdo, acabando por comprar só para satisfazer e calar a boca dos seus rebentos, em época natalícia.
Curiosamente, estes falsos moralistas nunca se mostraram indignados nos blogs, com a violência que cresce nas escolas, com os jovens desempregados, com os sem abrigo, com as crianças vítimas de violência doméstica, com a pobreza envergonhada, enfim com todos os problemas sociais que confortavelmente ignoram.
O que o pais não sabe também é que estes ilustres cidadãos agora procuram denegrir a figura do actual Presidente da Câmara e sua equipa, numa tentativa de recuperarem o que perderam nas últimas eleições, pois não conseguem arranjar outra forma de o derrubar, tornando este assunto um drama nacional. Se os que agora acusam estivessem a gerir este município, certamente também teriam comprado a mesma falência e oferecido os mesmos brinquedos. Tanta hipocrisia! A prenda de Natal para as crianças do concelho foi um espectáculo de circo, apenas isso.
Francamente, já basta de politica vergonhosa!
Pessoas de tanto gabarito e com tanta cultura politica e intelectual deveriam abster-se de descer a um nível tão baixo. É feio e politicamente incorrecto.
8 de Janeiro de 2009 23:47

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A OBSESSÂO COMUNITÁRIA PELA CERTIFICAÇÃO (2)



Falei em apontamento anterior sobre a nova Directiva Comunitária, transcrita para o ordenamento jurídico nacional, em que a partir de 01 de Janeiro passa a ser obrigatório a avaliação na eficiência energética de todos os edifícios, recentes ou antigos, e apelidada de Sistema de Certificação Energética.
Numa opinião subjectiva, classificava esta medida, como outras anteriores, inseridas num igualitarismo feroz, como se todos os 27 países que constituem a união fossem iguais, e não tivessem diferenças entre si, e que, naturalmente, cabe ao governo Português salvaguardar os interesses em causa. Como dizia anteriormente, afectando esta legislação um sector já de si tão fragilizado como é o arrendamento. E, além de mais, sabendo todos que a revitalização das cidades, vilas e aldeias, só será possível com um Código de Arrendamento Urbano moderno e atento aos problemas da comunidade –até defendo que nos nossos dias, em que impera a livre contratualização, nem faz sentido uma legislação substantiva para o arrendamento. Deveria imperar a liberdade contratual entre as partes. O Estado, ao interferir (mal), mais não faz do que complicar uma relação bilateral que deveria ser naturalmente prática e rápida. Faria sentido até ao final da década de 1970. Hoje a legislação de arrendamento ou locação só serve para empatar, e o resultado está vista, com o estado calamitoso de todo o edificado.
E, para provar o que digo vou socorrer-me de um artigo do Jornal Público do mesmo dia 5 de Janeiro, curiosamente, embora no mesmo caderno, mas independente do artigo que explicava o novo Sistema de Certificação Energética.
Contava então o PÚBLICO que uma “Tese de mestrado –de Fátima Moreira, técnica na área das estatísticas da construção do Instituto Nacional de Estatística (INE)- revela que não haveria mais duas pessoas debaixo do mesmo tecto, se o parque habitacional estivesse inteiramente habitado”.
“Em 2006 já havia habitações suficientes para albergar as famílias que vão surgir em 2050. (…) Em 2001 viviam no país 10,36 milhões de pessoas organizadas em 3,65 milhões de famílias e o parque residencial era de 5,05 milhões de habitações, das quais 72,7 por cento eram residências habituais e as restantes segundas casas ou estavam desocupadas. Nessa altura, mais de 75 por cento das famílias viviam em habitação própria, 21 por cento em casas alugadas (arrendadas) e 4 por cento em habitações cedidas”.
Continuando a citar o estudo, “Em 2006, estimava-se um total de 3.361.210 edifícios de habitação familiar clássica e 5.519.654 alojamentos familiares clássicos para um país com 10.559.09 de pessoas. A tese de mestrado revela ainda que o número de habitações praticamente duplicou nas últimas três décadas, colocando Portugal no segundo lugar com maior rácio de habitação por agregado familiar da União Europeia. O parque habitacional português tornou-se um parque de proprietários com encargos, tendo-se generalizado o acesso à habitação própria. (…) As preocupações devem orientar-se particularmente para a regeneração urbana e, dependendo da gravidade, para tentativas de estabilização dos mercados habitacionais. (…) Analisar as carências qualitativas da habitação e pensar a requalificação do parque habitacional são outros dos caminhos que aponta”.
“Fátima Moreira defende que é preciso repensar a construção de forma “adaptativa”, adaptada aos diferentes estádios da vida das pessoas”.
Ainda segundo o Público, e baseado neste estudo, há dois anos, o número de casas disponíveis no mercado português para venda ou arrendamento era de 185.509.
Penso que, a meu ver, dá para perceber que o mercado da habitação deve ser agilizado e não, como se está a fazer com esta medida burocrática do Sistema de Certificação Energética, que só vai piorar ainda mais um mercado já de si caótico e embrulhado em teias de uma lei que só os muitos inquilinos beneficiados aceitam. O problema é que tudo se paga com juros, mas já nem os juros de juros dá para requalificar o “terramoto” urbanístico que está à frente dos nossos olhos. E saberá Bruxelas alguma coisa do que se passa no centro histórico de Coimbra? Nem preciso de responder…

A OBSESSÂO COMUNITÁRIA PELA CERTIFICAÇÃO (1)




Segundo o Jornal Público de 5 deste mês de Janeiro, “Documento que analisa a eficiência dos edifícios passou a ser obrigatório para a celebração de qualquer contrato de transacção, locação ou arrendamento”.
Continuando a citar o jornal, “A directiva europeia tem já mais de seis anos, mas só agora passa a ter plena aplicação em Portugal. Com a entrada deste ano passou a ser obrigatória a certificação energética e da qualidade do ar interior em todos os edifícios, documento que é agora obrigatório para a celebração de qualquer contrato de transacção, locação ou arrendamento de imóveis”.
“A lei aplica-se tanto às novas construções como às já existentes e, além dos objectivos de eficiência energética, pretende dar aos utentes ou compradores dos edifícios informação sobre os consumos”.
“(…) Com o Sistema de Certificação Energética (SCE), os edifícios são avaliados em nove diferentes categorias, que vão da classe A+ até à G e aparecem no documento certificador representadas por barras coloridas, tal como acontece já com alguns electrodomésticos. (…) O certificado inclui também obrigatoriamente um registo de propostas com vista à eventual melhoria do desempenho energético, incluindo o investimento estimado para o efeito. Estas medidas têm um carácter de mero aconselhamento, não sendo obrigatória a sua execução (…)”.
Continuando a citar o PÚBLICO, “ O certificado é válido por um período de dez anos e o sistema adoptado prevê que a responsabilidade pela sua obtenção ou renovação é da responsabilidade dos promotores (no caso dos novos edifícios) ou dos proprietários dos imóveis ou fracções. O pedido de registo para uma habitação custa 45 euros, mas já a remuneração dos peritos pode variar entre um e cinco euros por metro quadrado, preços que variam também consoante se trate de um prédio residencial ou destinado a serviços. Feitas as contas, significa isto que para uma normal habitação com mais de 100 metros quadrados os custos facilmente se aproximarão dos 500 euros”.
Ora, indo por partes, num país onde o arrendamento não funciona devido à iniquidade da lei, que, duma forma escandalosa, continua a beneficiar os inquilinos, sobretudo nos contratos anteriores a 1990, embora, mesmo nos posteriores a esta data, constata-se que a desvinculação judicial (acção de despejo) a um arrendatário faltoso às suas obrigações de pagamento pode levar anos, pergunta-se, como é possível mais esta enormidade comunitária? Mais uma vez –como no caso da directiva comunitária alimentar empregue pela ASAE- Bruxelas, também neste caso, classifica-nos num igualitarismo atroz, sem levar em conta as diferenças existentes entre o nosso país e a França, por exemplo.
Conhecendo nós os problemas de arrendamento nos centros históricos, onde há imensas casas vazias a precisar de restauro, onde os proprietários estão completamente depauperados e devido às rendas de miséria e pela legislação aberrante que já vem da implantação da República (1910), faz sentido esta directiva ser aplicada a Portugal? Creio que não. É mais um óbice que, a ser levado avante, com os custos e burocracia associada, vai impedir que os locados das zonas monumentais possam vir a ser ocupados a preços competitivos. Faria sentido, isso sim, esta medida ser implementada a toda a nova construção que, a partir de agora fosse edificada.
Como já vai longo este texto, e para não esgotar a sua paciência, vou passar para outro a seguir, onde lhe mostrarei dados, retirados do mesmo jornal Público, onde posso consubstanciar plenamente a minha argumentação.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ABSURDOS E INCOERÊNCIAS DOS DITOS TEMPOS MODERNOS






A notícia começa assim: “Câmara de Porto de Mós oferece pistolas de plástico às crianças do concelho como prenda de Natal”.
Continuando a citar o Jornal Público de ontem, “A oferta de pistolas de plástico para prática de tiro ao alvo a alguns alunos do 1º ciclo do concelho de Porto de Mós, Leiria, deixou indignados alguns encarregados de educação. A situação foi denunciada recentemente por elementos da oposição. (…) As pistolas em causa foram oferecidas após um espectáculo de circo financiado pela câmara, que decorreu no passado dia 4 de Dezembro, juntamente com outros brinquedos distribuídos pelas crianças. Artigos que tinham sido oferecidos por uma empresa falida à autarquia, que optou assim por poupar a verba que tinha investido em anos anteriores com a aquisição de brinquedos”.
Continuando a transcrever a notícia do Público, “O psicólogo clínico Manuel Coutinho desdramatiza a situação. “Não devemos extremar posições. Este tipo de brinquedos não é o ideal, mas não é daí que vem o mal ao mundo. Há coisas muito mais graves que as crianças vêem diariamente”, afirma, em alusão a jogos electrónicos que envolvem casos de violência”.
Vamos começar pelos encarregados de educação, pais dos alunos. Antes de mais era bom que alguém ensinasse estes educadores –até que ponto estarão preparados para o ser?, é uma questão que fica no ar- que a “cavalo dado não se olha o dente”, e, além de mais, é indelicado dizer-se mal das prendas recebidas. Depois passemos aos elementos da oposição que denunciaram estas ofertas: dá que pensar até que ponto vai o oportunismo partidário. Para esta gente, em vez de fazerem oposição responsável, mostram o ridículo da sua falta de senso. Pergunta-se: se estivessem no executivo não aceitavam os brinquedos e gastavam o dinheiro dos contribuintes? Grandes gestores da coisa pública se estão a perder na Câmara de Porto de Mós.
Voltando aos encarregados de educação, e pegando no depoimento do psicólogo clínico, será melhor que os seus filhos brinquem com jogos de computadores, no “Magalhães” ou outro qualquer computador? Tristeza de mentalidade! Até parece que as gerações de 60 e 70 –certamente os avós destes meninos de “redoma caseira”-, do século passado, por brincarem na rua, a jogar à bola, com brinquedos de lata e com pistolas de plástico e outras inventadas, saíram todos “gangsters” mafiosos da pior espécie. Serão estes meninos, filhos da era cibernética, mais felizes e menos violentos do que as anteriores gerações? Não creio e penso que ninguém acredita nisso. Os pais de hoje deveriam saber que terão muito a aprender com o tempo dos avós e não o contrário.

Autarquia compra Quinta do Alberto!!!


"A Câmara Municipal da Mealhada acaba de adquirir a Quinta do Alberto... A escritura de compra e venda já foi assinada, depois de vários executivos municipais terem tentado, sempre sem êxito, comprar a propriedade cujo destino não será, para já, divulgado. Sabe-se, porém, que esta é uma aquisição realizada no âmbito da requalificação urbanística da vila, que inclui já a aquisição do Cine-Teatro do Luso, a criação do Espaço Internet do Luso e a empreitada da reabilitação urbana do centro da vila, que se encontra em curso."

In Diário de Coimbra



Excelente!! Assim pode ficar alguma coisa de grande qualidade! Será que se seguem os terrenos da família Alexandre de Almeida??

sábado, 3 de janeiro de 2009

O QUE FAZER COM ESTE ESTADO LAXANTE?



O senhor Rui é o proprietário da papelaria e tabacaria Papyrus, na Avenida Fernão de Magalhães, mesmo ao lado dos Bombeiros Voluntários, em Coimbra. É a terceira vez que falo aqui dele, infelizmente. Durante o último mês do ano de 2008 foi assaltado três vezes. Apesar das suas fortes grades em ferro de protecção e alarme, na noite de 27 de Dezembro, depois de rebentarem os cadeados e as fechaduras de segurança da grade, levaram-lhe cerca de 2000 euros de artigos, entre eles, até a máquina registadora. Só em tabaco foram cerca de 1500 euros.
Na última noite da passagem do Ano Novo, mais uma vez foi assaltado: levaram-lhe mil e tal euros de tabaco. Ontem, quando estive com ele estava uma lástima. De olhos lacrimejantes, parecia que, animicamente, tinha sido trucidado por um comboio.
Conheço este homem há muitos anos. Para além de passar as “passas do Algarve” para chegar até aos dias de hoje, a vida, como para tantos outros, foi sempre madrasta. Já fez mil e umas coisas para sobreviver e andar de cabeça erguida.
Embora, como ele, já sentisse na pele o sabor amargo de ser visitado pelos amigos do alheio, ao falar com ele ontem, faltavam-me as palavras. Achei que o melhor era estar calado perante aquele quadro triste.
Eu sei, quase que adivinho, quem lê este blogue, certamente, quando “posto” mais um assalto na Baixa, pensa: fogo! Lá vem este tipo com mais notícias tristes. Mas, entendam: eu não posso calar a revolta que sinto, quer pessoalmente, quer a cólera que vejo nas pessoas que são vilipendiadas no fruto do seu trabalho. A sua maior raiva é que sentem-se num ponto sem retorno. Num tubo em que não podem voltar para trás. Por um lado, devido à sua idade, cerca de 50 anos, não arranjam emprego, por outro, se desistirem dos seus negócios não têm subsídio de desemprego. E, por outro ainda, para além de saberem que estão votados ao abandono, sentem, e isto é o mais grave, é que estão a trabalhar para o boneco. Estão completamente à mercê desta cambada de ratos, que, depois do anoitecer, saem das suas tocas e invadem a cidade adormecida e, à vontade, roubam o que lhes apetece.
Este Estado sistémico, em que vivemos, transformou-se numa instituição laxante, uma espécie de purgante que facilita a evacuação das fezes -entenda-se aqui “fezes”, a facilidade e a liberdade de actuação dos energúmenos. Uma Nação que não defende quem trabalha e cria riqueza não pode ser chamado de Estado. Quanto muito uma república –sem espírito republicano- das bananas, um estado africano, cuja política social, a continuar assim, é a “formação” de ratos, a viverem em guetos, onde a violência, inevitavelmente, vai disparar. Bem pode apelar o presidente da república ao aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Neste clima de insegurança, quem pode?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A MENSAGEM DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA




Segundo o Jornal Público de hoje, “O Presidente da República, Cavaco Silva, deixou ontem um claro aviso sobre a dívida externa: Portugal não pode continuar, durante muito mais tempo, a endividar-se no estrangeiro ao ritmo dos últimos anos”.
“No primeiro discurso de 2009, Cavaco Silva elegeu a economia como tema forte, enfatizando em particular a dívida externa”.
Continuando a citar o jornal, “Há uma verdade que deve ser dita: Portugal gasta em cada ano muito mais do que aquilo que produz”, afirmou (Cavaco Silva), acrescentando logo de seguida que “não pode continuar a fazê-lo durante muito mais tempo”. E, de uma forma pedagógica, explica as consequências: “Quando a possibilidade de endividamento de um país se esgota, só resta a venda dos bens das empresas nacionais aos estrangeiros”.
“(…) Cavaco Silva sublinha também que se deve dar atenção acrescida à relação custo-benefício dos serviços e investimentos públicos. O investimento público tem sido defendido pelo Governo como solução “absolutamente essencial” para enfrentar a crise económica”.
“O chefe de Estado chama ainda a atenção para a necessidade de utilizar com “rigor e eficiência” os dinheiros públicos, de reduzir a dependência exterior em matéria de energia, e de melhorar a qualidade e inovação na estrutura de produção nacional”.
“(…) Cavaco Silva dirigiu-se em especial a três grupos da população: os jovens que “vivem a angústia de não conseguirem o primeiro emprego”, os pequenos comerciantes que “travam luta diária pela sobrevivência”, e os agricultores “que se sentem penalizados (…) por não beneficiarem da totalidade dos apoios disponibilizados pela União Europeia”.
Antes de mais, numa opinião pessoal, penso que esta mensagem de Ano Novo foi incisiva, pragmática e clara. Depois da lengalenga do Estatuto dos Açores, é isto, o falar da “economia real” com verdade, expressando preocupação com os grupos mais débeis da sociedade, que a comunidade espera do seu representante máximo na hierarquia do Estado.
Agora, analisando o discurso por partes, vamos então dissertar, ponto-por-ponto, sobre o improvável “colocar de trancas depois de casa roubada”. Para sermos honestos, não devemos esquecer que Aníbal Cavaco Silva, então primeiro-ministro, esteve à frente dos destinos portugueses desde 1985 a 1995, e, mais exactamente, num período fundamental da economia portuguesa.
Comecemos pela dívida externa e sobre o problema de Portugal gastar em cada ano muito mais do que produz. Se nos últimos trinta anos, e muito particularmente depois de 1986, ano de adesão à então CEE, todos assistimos à redução –que veio redundar em destruição- de quotas nos sectores básicos do país, como por exemplo: na agricultura (através da PAC-Política Agrícola Comum), nas pescas, nos têxteis, na indústria, etc.- como é que agora, com estes sectores económicos em disfunção, poderemos, numa espécie de estalar de dedos, tornarmo-nos auto-suficientes? O que se tem feito é destruir toda a criação portuguesa, desde a pequena indústria artesanal e tradicional (caso da queijaria, doçaria e cozinha tradicional portuguesa). Como se sabe, foi graças à denúncia de uma especialista em produtos tradicionais portugueses, que trabalhou muitos anos em Bruxelas -acusando o governo actual de não defender convenientemente os produtos tradicionais- que então, já quase próximo do abismo, se inverteu a legislação e se evitou que tudo fosse para o “galheiro”.
Na agricultura, a mesma coisa, com a obsessão securitária em volta da saúde, proibiram-se a matança de porcos e outros animais para consumo das famílias, venda de vinho a granel do lavrador, quase se acabou com a venda de mel, proibiu-se a venda de bagaço do agricultor sem passar pelos grémios de lavoura, cujas consequências directas foram a destruição pura e simples dos milhares de alambiques que eram comuns pelo país agrícola –ainda há pouco tempo passei na zona de Cantanhede e, ao longo dos campos, se podia ver o engaço (parte que fica do cacho de uvas e da qual era feito o bagaço através de fermentação em altas temperaturas) espalhado na longa planície. É um doer de coração ver aquela perdição. De quem é a culpa? De certeza que não será dos agricultores.
Na indústria pesada, a mesma coisa, tudo acabou, a começar pela construção naval. Sendo nós um rectângulo rodeado de mar, admite-se tal coisa? Claro que sim! É o que está à vista, já para não falar no cada vez menor domínio sobre a orla marítima, com cada vez mais a diminuir as quotas de pescado…e a aumentar as espanholas.
No comércio, a mesma coisa. Com a destruição parcial de quase tudo o que era produzido cá, e com a adesão de Portugal à Organização Mundial de Comércio, a partir do inicio de 1990, faz todo o sentido a proliferação absurda de superfícies de dimensão relevante (as grandes superfícies), que numa estudada estratégia, visava, para além de acabar com o pequeno comércio de rua, criar centros de escoamento de produtos importados.
Hoje temos aí o resultado: uma comércio tradicional, que ainda transacciona o pouco que se faz em Portugal, a mal conseguir sobreviver e um comércio “moderno”, onde tudo se vende…mas estrangeiro. Naturalmente que todos os euros lá deixados, para além dos impostos e da margem de lucro, vão direitinhos para a sua proveniência.
Agora, em resumo, como é que se dá a volta a isto? Só seria possível –que não acredito- se os consumidores tivessem pátria e coração –mas não têm! Se fosse possível consciencializar todos a consumir apenas e só o que é nacional. Mas, para isso, era preciso que o governo incrementasse a produção nacional através de subsídios. Claro que os economistas, perante esta medida, estrebucham, e são contra este novo “proteccionismo”. Mas, se nunca acertam uma, porque se lhes há-de dar crédito?
Quanto aos grupos mais frágeis da população a que aludiu o Presidente da República, os jovens, os pequenos industriais e comerciantes e os agricultores, na dificuldade em manterem os seus precários empregos, o melhor que o Governo fazia era isentar de impostos estes grupos empresariais até ao montante de 150 Mil euros. Foi assim que Espanha fez para conseguir parar a hemorragia das pequenas empresas. Mas do país vizinho, para além “dos bons ventos e dos bons casamentos”, os bons exemplos também não são para levar em conta.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

FIM DE VIDA DO ANO DE 2008






Hoje, dia 31 de Dezembro, é mesmo o fim do ano de 2008. Metaforicamente, pensemos que o tempo que agora acaba está em morte clínica. Os seus sinais vitais já não respondem. Nós, como amigos presentes na hora da despedida, estamos debruçados sobre o “ente” que está prestes a partir.
Muitos dos presentes no leito de morte, aparentemente pessimistas, com receio do que virá a suceder-lhe, parecem fazer tudo para reanimar os seus sinais vitais. Outros, mais realistas, como se tivessem mediunidade e, nos fluidos emergentes vissem o espírito do quase finado a flutuar por cima, querem acabar com este sofrimento depressa. Em surdina, clamam pela legalização da eutanásia. Outros ainda, estes como acusadores públicos, apregoam aos presentes que, à luz das convenções nacionais, pela desgraça criada, antes de morrer deveria ser julgado. Este 2008 deixou muita infelicidade e morte. Quantas pessoas, devido ao seu comportamento autista e insensível ao sofrimento, se suicidaram no país? Quanta dor causou na classe média-baixa? Tanta frustração espalhada ao longo do ano, sobretudo quando, por morte do antecedente 2007, deu a sensação de que iria ser muito melhor. E o que se viu? Dor, miséria e morte. Como político em campanha eleitoral, fez exactamente o contrário do que parecia auspiciar. Por isso, os justicialistas, mesmo no leito de morte deste acabado 2008, não lhe perdoam. Acham que, nestas circunstâncias, para este criminoso, a morte é o melhor que lhe pode acontecer. “Deverias padecer, maldito sejas ó 8 depois de 2000! Já que não podemos impedir a tua morte, ao menos, apodrece no inferno, ano do demo”, exclamam furibundos os desesperados de justiça.
Outros do imenso grupo, presentes na despedida do dois, zero, zero, oito, mais optimistas, tentam acalmar os pessimistas e os justicialistas, e, em tom paternalista, tentam convence-los de que vale a pena aguardar o próximo. “Quem sabe como será? –exclamam, aos gritos para serem ouvidos. “Deixemos morrer este em paz, e que o seu espírito não venha “encostar-se” ao vindouro. Tenhamos esperança no “novo” ano que vem aí”.
-Mas tu não ouves as notícias, ó optimista?, isto está muito mau! –interrompe um dos pessimistas.
-Claro que ouço, como todos vocês, mas, com este discurso negro apregoado e multiplicado até ao infinito, ainda me dá mais força para acreditar que estamos apenas a atravessar um deserto, e, como sabem, tudo é finito, logo, naturalmente, iremos encontrar um oásis para nos refrescarmos desta secura – replica o optimista.
-Eu gostava de ser como tu…”felizes, aqueles que acreditam”…-teima o pessimista –mas só se vê miséria em todo o lado…isto está muito mau! -(é interrompido pelo toque do telemóvel)-…estou, sim sou eu! Sim, claro que está combinado, vou sair dentro de uma hora (…) encontramo-nos no hall do hotel às 20 horas. Até logo.
Seguidamente, despede-se dos presentes com “um bom ano de 2009 para todos”.

sábado, 27 de dezembro de 2008

UM CHUMBO NA ORTODOXIA LABORAL



Em Portugal, habituámo-nos a aceitar as decisões institucionais como dogmas inquestionáveis, axiomas, verdades sem contestação. E se estas instituições estiverem erradas? E se a sua composição estiver viciada ideologicamente, poderão as suas deliberações serem isentas na procura do bem comum?
Podemos interrogar, em tempo de crise de valores e princípios, porque há-de a doutrina ideológica, assente numa cúpula, defender, petrificada e acerrimamente, os paradigmas sociais que, paradoxalmente, nada têm a ver com os dias que vivemos, e comportar-se como um elefante numa loja de porcelanas?
Como certamente já viram estou a escrever sobre o recente chumbo do Tribunal Constitucional sobre o alargamento do período experimental para a generalidade dos trabalhadores de 90 para 180 dias.
Metaforicamente, e, sem ofensa, perdoem-me os visados, o estúpido exemplo a que vou recorrer: faz-me lembrar as Testemunhas de Jeová deixarem morrer um seu membro porque, por princípio, são contra as transfusões de sangue. A sociedade se, por um lado, não deve perder de vista os seus valores e princípios –eles serão os fios condutores da nossa fundamentação e orientação na nossa forma de agir- por outro, se não tivermos em conta a dinâmica da vida, considerando-os eternamente estáticos e petrificados além-tempo, tornando-nos escravos deles, passamos a ser marionetas dessa mesma doutrina ou de quem a apregoar. Os valores e princípios –não são a mesma coisa: por analogia, os “valores” serão os vasos sanguíneos, e os “princípios” serão as artérias principais no corpo humano- deverão ser como a cultura, vão mudando conforme o tempo vai passando, embora, diga-se, a propósito, que os princípios são mais arreigados à comunidade e, por isso mesmo, mais difíceis de mudar.
Voltando ao veto do Tribunal Constitucional, a larga ovação de toda a classe política, ainda que de forma hipócrita, sobretudo o partido da oposição (o PSD), de todos os sindicatos, e ainda da maioria das associações patronais, exceptuando a CIP, Confederação da Indústria Portuguesa, todos bateram palmas à medida daquele órgão de soberania.
O que será melhor para o país, será continuar a manter pessoas sem trabalho, sem nada ganharem, ou, pelo contrário, mesmo a título precário, durante seis meses, terem ocupação? Porque será que se tem tanto medo do trabalho flexibilizado? Será porque se a lei se tornar mais dinâmica e extensível à “praxis”, o que passa a contar é a dedicação e o esforço que cada um desenvolve em prol da empresa onde labora?
O que acho estranho é todas as correntes políticas centro-direita estarem de acordo de que a nossa legislação laboral, pese o esforço deste governo de a dinamizar, é estática e antiquada e condutora de mais desemprego pelo elevado proteccionismo, porquanto essa mesma protecção concorre para o desinteresse, o abstencionismo e a falta de produtividade do empregado, e, perante este chumbo do Tribunal Constitucional todos mostrarem um sorriso de hiena.
O grave é a falta de visão, de uns, que exercendo clausulas-barreiras, condicionam o futuro de uma sociedade, sem ter em conta que vivemos no século XXI, um tempo pragmático, que não se contenta com orientações do passado, e de outros, que, sabendo que só defendendo o indefensável, através da manipulação colectiva, continuarão a existir.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

FELIZ NATAL





Dito assim, parece mais uma mensagem circunstancial igual a tantas outras. Bolas!, mas não é isso que eu quero. Vocês, leitores deste blogue, que têm tido a paciência de ler o que eu escrevo, merecem mais do que uma simples mensagem do tipo: toma lá e vai-te embora. Não é esse tipo de “encomenda” que vos quero entregar.
Tenho que dizer duas coisas em relação ao Natal. Por um lado, não gosto deste período. É um tempo triste e depressivo. Psicologicamente tem uma explicação, sei o motivo porque não gosto, mas não vos vou contar, que isso, para aqui, é irrelevante.
Socialmente, este tempo “santo”, para mim, deixa algo a desejar. É o Dezembro do “feliz Natal”, quase por obrigação recíproca. A prendinha dada quase da mesma forma. É a preocupação a termo certo com os mais pobres e carenciados. É como se durante este mês caísse uma nuvem social de boa vontade e depois, quando ela desaparece, lá para Janeiro, tudo volta à normalidade. Não queria ser demasiado duro, mas é um tempo que tem acoplado muita hipocrisia.
Mas uma coisa é certa, mesmo retirando toda esta carga nublada, acho que o Natal, igualmente a outras datas que pretendem chamar a atenção, são importantes. Ainda que durante pouco tempo, como bandeira de armistício, salienta o que de melhor existe dentro de nós: a paz, a solidariedade, a bondade, o respeito pelo outro e a preocupação social.
Quando tenho dúvidas em relação a qualquer coisa, tenho por costume fazer a aferição entre o mal maior e o mal menor. É assim uma espécie de balançar entre custos e proveitos. Quando chego à conclusão de que o mal menor é a opção, como quem diz, que os proveitos para a sociedade são maiores que os prejuízos (custos) não tenho nenhuma dúvida em embarcar no mesmo cruzeiro social. E é o que penso em relação ao Natal, mesmo com todas as premissas que enunciei, e na impossibilidade de o prolongar, é bom existir um Natal por ano.
Boas festas a todos e muito obrigados pela pachorra que têm tido ao “visitar-me” diariamente. O meu sincero obrigado, e, neste tempo de tristeza económica, em que parece não haver luz no horizonte, façam os possíveis por serem felizes e não percam a esperança. Não esqueçam que o sol todos os dias nasce. Nos momentos mais tristes pensem nos passarinhos, que nada tendo materialmente, continuam no seu chilrear de alegria. Sorriam o mais que puderem, por enquanto não paga imposto.
Um grande e apertado abraço a todos.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Parabéns Paco



Único!
Parabéns Paco de Lucia pelo 61º aniversário!

sábado, 20 de dezembro de 2008

A LOJA TRADICIONAL E A CRISE QUE ANDA NO AR




Nos dias que correm só se ouve falar da crise económica e das suas consequências. No que se vê e ouve, esta recessão (ou depressão), metaforicamente, é assim uma espécie de basófias –assim era designado o rio Mondego no tempo das grandes cheias- nos seus velhos tempos de grandes enchentes em que a força das águas levava tudo à frente. Só quem estava mais preparado, pelo costume dos anos antecedentes, pondo a salvo os seus haveres, transferindo-os para zonas altas, conseguia fazer face à intempérie da natureza. Claro que muito se perdia e, depois da tempestade vinha a bonança, isto é, segundo as crenças populares, os campos do Mondego ficavam muito mais fertilizados e produtivos. Há quem diga que a degeneração destes celeiros agrícolas, conjuntamente com o abandono dos campos, ocorreram também devido ao “desvio da natureza”, sobretudo, depois da construção da barragem da Aguieira e do controlo do caudal do rio. Claro que, por volta dos anos de 1960, com as ruas completamente alagadas, havia sempre alguém a espreitar o furo, como quem diz, ganhar dinheiro à custa de uma nova necessidade criada em torno da locomoção. Era assim que surgiam sempre, por esta altura, os barqueiros a transportar as pessoas de uma rua para um qualquer largo na zona da Baixa.
Por analogia, se hoje nesta crise continuam a haver alguns “barqueiros”, no dia-a-dia, há muito mais colectivamente. Ou seja, o consumidor, sempre atento às notícias, que duma forma obsessiva matraqueia o mais duro de ouvido, aproveitando bem esta maré depressiva, está transformado num sádico empedernido, que, sem peias de sensibilidade, não se importa de “calcar” um qualquer vendedor.
Então no comércio tradicional é de mais. Como as notícias que se ouvem, de que o comércio está muito mal e em desaparecimento, o comportamento do consumidor, nos pequenos estabelecimentos, hipoteticamente, tem o mesmo efeito devastador de um conhecimento prévio no Japão, antes de serem largadas as bombas atómicas: vender antes que desapareça tudo. Alguns clientes do comércio de rua, entram numa loja, e sem disfarçar, olham para o comerciante como o coitadinho, o indigente futurista. Chegam a perguntar, num tom de voz misturado entre a “caridadezinha” e o sádico: “o senhor não vende nada, pois não? “. Para logo a seguir, interessando-se por um qualquer artigo, oferecer metade do que estiver marcado e rematar: “sabe que não há dinheiro, isto está muito mau?!”. Como se o profissional do comércio de rua não soubesse como está a economia. Há casos pouco agradáveis de descrever. E se o conto aqui é porque tenho conversado com comerciantes que me dizem exactamente a mesma coisa. “Às vezes tenho mesmo de ser desagradável. Tenho de dizer que para hoje ainda tenho para o jantar, volte amanhã, porque pode ser que, nessa altura, esteja mesmo cheio de fome e, nesse caso, já vendo a qualquer preço “, exemplifica um comerciante.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

DEPOIS DO FALHANÇO DE FRIEDMAN, KEYNES SERÁ RESSUSCITADO?



Antes de começar este texto, como declaração de interesses, ressalvo que não percebo nada de economia. Claro que você pode interrogar-se: “e quem percebe?”. Então e eu sei lá?! Quanto a responder por mim isso posso: tento compreender, investigando, mas não sei nada. Claro que pode voltar a interrogar: mas se não percebe porque escreve? Olhe, porque tenho de escrever alguma coisa e, afinal, se outros, que dizem perceber, não acertam “uma para a caixa”, quem sabe se eu não percebendo mesmo nada, numa espécie de lotaria, possa acertar em qualquer coisa? No mínimo vou voando sobre o ninho da economia.
Claro que você já está a perguntar-se: mas afinal o que quer este tipo? Calma!, eu vou já directo ao assunto que me trouxe até aqui.
Ontem o Jornal Público publicava um a longa carta, com data de 20 de Novembro, de Paul Krugman, prémio Nobel da Economia 2008. O que achei mais interessante foi a sua acérrima defesa das teorias de John Maynard Keynes. Como se sabe este brilhante economista inglês (1883-1946) esteve por detrás da recuperação económica dos Estados Unidos, aquando da “grande depressão” de 1929, através de uma série de programas económicos (New Deal –Novo Acordo) entre 1933 e 1937. Contrário às teorias de “laissez faire, laissez passez” (deixai fazer, deixai passar), de Adam Smith e David Ricardo, que defendiam a auto-regulação do mercado pelo próprio mercado e a favor do mercado livre nas trocas comerciais e contra o proteccionismo, ou seja, as bases do liberalismo económico, Keynes defendia a intervenção do Estado no relançamento da economia, através de grandes obras públicas, com implicações directas no emprego (Teoria Geral do Emprego, juro e moeda, de 1936).
Voltando ao Público de ontem e a Krugman, dizia então o laureado pelo Nobel de 2008 que “o que o mundo precisa neste momento é de uma operação de salvamento. (…) e para conseguir isto, os decisores políticos à volta do globo têm de fazer duas coisas: colocar de novo o crédito a circular e estimular o consumo. (…) o que está por trás das restrições ao crédito é uma combinação de pouca confiança e capital pulverizado nas instituições financeiras. As pessoas e as instituições, incluindo as financeiras, só querem lidar com quem tenha um capital substancial para garantir os seus compromissos, mas a crise esgotou o capital em toda a parte. A solução óbvia é injectar mais capital. (…) em 1933, a administração Roosevelt usou a companhia de Reconstrução Financeira para recapitalizar os bancos, comprando acções preferenciais (…). Em todos estes casos a cedência de capital ajudou a restaurar a capacidade dos bancos para efectuar empréstimos e desbloqueou os mercados de crédito.”
Continuando a citar Krugman, “(...) O próximo plano deve concentrar-se em manter e expandir os gastos governamentais –manter através de ajudas às administrações locais e estatais, expandir com gastos em estradas, pontes e outros tipos de infra-estruturas. (…) Se a despesa pública for estimulada a uma velocidade razoável, deverá chegar muito a tempo de ajudar –e tem duas grandes vantagens relativamente a benefícios fiscais. Por um lado, o dinheiro seria efectivamente gasto; por outro, algo de valor (por exemplo, pontes que não caiam) seria criado. (…) A fase definidora da economia é suposto ser “Não há almoços grátis “; quer dizer que os recursos são limitados, que para termos mais de uma coisa temos de aceitar menos de outra, que não há ganho sem sofrimento. No entanto, a economia de depressão é o estudo de situações em que existe um almoço grátis, se conseguirmos perceber como pôr as mãos em cima dele, porque existem recursos ainda não utilizados que podem ser postos em acção. A verdadeira pobreza no mundo de Keynes –e no nosso- era assim, não de recursos, ou mesmo de virtudes, mas sim de compreensão. (…) Há quem diga que os nossos problemas económicos são estruturais, sem possível cura rápida; mas eu acredito que os únicos obstáculos estruturais importantes para a prosperidade mundial são obsoletas doutrinas que confundem as mentes dos homens”.
Certamente já viu porque publiquei extractos da carta do grande economista. Como sabe esta é a teoria económica defendida pelo Primeiro-Ministro José Sócrates para o nosso país, isto é, relançar a economia através de grandes obras públicas, tais como o TGV, o aeroporto, construção de novas auto-estradas e também o relançamento do consumo pelas famílias –que, a propósito, não se sente- com o apoio aos bancos em grandes operações financeiras.
Depois de ouvirmos Medina Carreira, no programa da SIC Notícias, dizer que ressuscitar as teorias económicas de Keynes em Portugal era um verdadeiro disparate, tendo em conta que somos um país que se abastece no estrangeiro e que não é auto-sustentável. Disse ainda (com muita lógica) que se se relançar o consumo das famílias através da injecção de crédito, para além da inflação disparar, a receita gerada vai direitinha para os nossos fornecedores além-fronteiras.
Depois da “morte” recente e enterrada das teorias económicas neo-liberais de Milton Friedman, quem tem razão? Eu cá não sei. Limitei-me a transcrever as opiniões de quem diz saber, porque, se calhar, você está tão perdido nestes labirintos como eu. Apenas tentei acender um fósforo nesta noite escura.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

UM PENSAMENTO EM FORMA DE ESPECULAÇÃO




“Preferimos a pobreza em liberdade à riqueza na escravidão” –Ahmed Sékou Touré, primeiro presidente da República da Guiné ( 1922-1984).
Especulando sobre esta frase, que diz muito sobre o homem enquanto ser antropológico, exactamente porque, contrariando o que se esperava de um poeta e pensador, Sékou Touré depois de levar a República da Guiné à independência, cortando os elos coloniais que a ligavam à França em 1958, tornou-se um ditador de partido único, numa economia socialista, e intolerante a direitos humanos, nomeadamente às liberdades de expressão e oposição política. Mandou prender milhares de opositores em prisões parecidas com os “Gulags” soviéticos, onde centenas de pessoas perderam a vida.
Mas vou-me deslocar um pouco da imprevisibilidade do “ser” antropológico e pegando na frase, com uma diferença de quatro décadas, vou desviar-me e à luz dos nossos dias, no materialismo consumista que conhecemos, vou tentar dissecar filosoficamente o objecto que lhe está subjacente, ou seja, a liberdade como “prius” acima de toda a riqueza.
Hoje, para os jovens aquela frase faz algum sentido? Preferir a liberdade em detrimento da riqueza e do bem-estar? Estou convencido que não. Só se dá valor a algo que durante um tempo a sua inexistência contribuiu para a nossa infelicidade. Ou, pelo contrário, algo que fazia parte da nossa felicidade e se perdeu. Essa lacuna, quanto maior foi a sua marca na nossa vida, intrinsecamente, mais valor lhe damos, empiricamente, ao longo da nossa existência.
E a ser assim, é evidente que se os nossos filhos já nasceram neste berço de liberdade, encarando-a como um valor fundamental, mas, ao mesmo tempo, desvalorizando-o e tomando-o como um direito adquirido. Continuando o mesmo raciocínio, não admira, é lógico, que, à luz da sua experiência de vida, troquem a riqueza material pelo abstracto valor liberdade. Reparemos, e voltando um pouco atrás, Sekou Touré, há 50 anos, fez exactamente a mesma coisa. Enquanto sentia na carne a discriminação e a segregação de ser negro lutava e pugnava pela liberdade, a partir do momento em que a conquistou arrumou-a na gaveta, subalternizando-a, inverteu a filosofia da frase que lhe deu notoriedade, e tornou-se um materialista ditador comunista.
Claro que, sociologicamente, poderemos especular que, no fundo, só procuramos o que não temos e que a partir do momento em que vemos saciado o nosso desejo passamos a concentrar a nossa atenção noutros objectivos. Poderemos também pensar que o homem será mais rico ideologicamente quanto menos tiver materialmente. Já dizia Adam Smith, no século XVIII, que toda a propriedade corrompe.
Talvez lendo Alexis de Tocqueville (1805-1859) se entenda melhor o “novo” homem democrático e a procura quase obsessiva pelo materialismo quando afirma: “os povos democráticos querem a igualdade (material) na liberdade e, se não a puderem obter, ainda a querem na escravidão”. Diz-nos, em suma que a ambição é um sentimento universal. Assim como nos mostra que o Estado se organiza para promover e estimular o progresso material, nivelando a riqueza através da distribuição, tentando erradicar a miséria, e “democratizar” o bem-estar ao maior número de cidadãos.
E para terminar, no limite, poderemos pensar que, perante este consumismo exacerbado, estaremos numa nova forma de ditadura materialista, criada e pensada pelos governantes hodiernos para nos tornarem assépticos à ideologia e à procura de um mundo melhor…desmaterializado.

PARA A POSTERIDADE


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

E A GRÉCIA AQUI TÃO PERTO



O que se está a passar na Grécia deveria fazer pensar todos os membros da União Europeia e muito em particular o nosso país. Segundo o Jornal Público de hoje, em que na capital, Atenas, para além de pilhagens, foram destruídos 49 edifícios de escritórios, 47 lojas, 14 sucursais de bancos e 20 carros. Nas últimas horas o presidente da Câmara de Atenas já veio anunciar que tinham sido destruídas entre 360 a 370 lojas. “Os tumultos foram desencadeados pela morte de Grigoropoulos (um jovem de 15 anos atingido no sábado mortalmente pela polícia, depois do adolescente, num grupo de mais de 30, ter atacado o carro das forças da ordem), mas têm a sua origem no desemprego, que é de 8 por cento e tende a aumentar, na inflação elevada, na corrupção ou na falta de perspectivas para os mais jovens”.
Continuando a citar o jornal, “a violência alastrou a várias cidades (gregas). (…) líderes políticos e sindicais (…) acusaram o Governo de ter promovido reformas que pioram as condições de vida para “um quinto dos gregos que vive na pobreza”.
“Os quatro dias de violentos motins nas maiores cidades da Grécia, (…) expõem a nu as fragilidades de um país plenamente integrado na União Europeia que vive assolado pela falta de perspectivas de futuro entre os jovens. (…) Sinalizam a profunda tensão social no país onde um em cada cinco trabalhadores vive abaixo da linha de pobreza, de acordo com as estatísticas governamentais. À sensação de cerco generalizado nos jovens –insegurança económica, desemprego, baixos salários- acresce uma profunda desilusão em relação à política de privatizações e à reforma do sistema de pensões seguida pelo governo (…) “
“Entre uns e outros, milhares de jovens têm destilado a sua raiva nas principais cidades gregas. (…) “porque não toleramos mais este governo (…) temos 25 anos, terminámos os estudos, não temos dinheiro e só nos resta partir para o estrangeiro”, afirmou uma recém-licenciada em Sociologia de 25 anos. Porque “há toda uma geração que vê os seus pais endividados até aos dentes e que sente que o futuro não lhes vai trazer nada de bom”, explicou ao “Guardian” Christos Mazanitis, um jornalista de Atenas. “Estes motins são sobre o medo e o desespero”, concluiu o jornalista.
Continuando a citar o Jornal Público, “Theo Livanios, um analista do Instituto de sondagens Opinion, considera que (…) há uma explosão de cólera da juventude contra a polícia que, tal como o Estado, não é vista como uma instituição que trabalha para o bem comum “.
(…) “a falta de investimento em sectores chave como a educação ou a saúde, a degradação dos subúrbios e o autismo de um poder que “não percebe os verdadeiros problemas das pessoas”, como se apressou a sublinhar George Papandreau, o líder do Pasok, o maior partido da oposição”.
“Thomas Siozos, à frente da sua loja vandalizada, disse à Reuters: “tenho 73 anos e nunca vi nada assim. A morte do rapaz foi uma desculpa. O Governo não pode cuidar apenas dos ricos”.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Música de Natal

Já não posso ouvir música de Natal!!!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

UMA FOLHA CAÍDA NO NATAL



É Dezembro…
uma folha cai…lentamente…
ziguezagueia por entre a amálgama de gente,
gente apressada, escrava do tempo,
insatisfeita, faces duras sem contento,
pisam a folha, alinhados em parada, com tacões,
ecoam na calçada…como centuriões;
As pedras vibram, com tanta precisão,
uma pedrinha solta-se na multidão,
alguém a pontapeia, ao acaso, em estopada,
ela rolando, por ali, vai sendo pontapeada;
O vento sopra, cortante, e a folha voa,
e de cima, olha para baixo, vê à toa,
este exército mal ordenado,
como se estivesse condenado,
a andar, andar, sem se render,
mesmo sabendo que vai morrer;
E de novo a folha cai…lentamente…
Um louco ri sozinho…desalmadamente,
pega na folha, com carinho, o anormal,
afaga-a com a mão, como se fosse um pardal,
faz caretas, gesticula, dança ao vento com nobreza,
embala a folha, dá-lhe beijos, filha da natureza,
nem o frio, a refrear o ímpeto, lhe faz mal;
Ele sabe que é festa, não sabe que é natal,
não sente a solidão, não conhece abraços,
não sabe a razão de tantos laços,
tantos sacos e sacas enfeitadas,
tantas almas embrulhadas,
tanto amor materializado,
tanto calor humano…desperdiçado;
Entre o dever e o ser,
não é gente sem…o ter;
E a folha…lentamente,
nos braços de um demente,
sorri…para a turba disforme,
e pensa a folha, se eu falasse…uma frase conforme,
mesmo com a voz do tonto rouco,
gritaria em altos berros: AFINAL QUEM É O LOUCO??!

CARTA AO MENINO JESUS



Não preciso de te dizer quem sou. Tu conheces-me bem. Deves saber que nos últimos dias, deste começo de Dezembro, tenho travado contigo grandes monólogos. Sim, monólogos, porque nunca me respondes. Talvez porque entenda que deves ter muitos meninos como eu a pedir-te coisas, e deva ser-te difícil identificar todos, vou ajudar-te: sou aquele miúdo de onze anos, que mora nos arredores da cidade –já estás a ver, não estás?
Diz-me, Menino, porque nunca me respondes, e me obrigas a contactar-te por carta? É por eu, nos últimos tempos, me ter tornado agressivo na escola? Se é por isso, até tens razão, os stôres nem merecem, até são bué de fixes. Mesmo com os problemas deles, com essa coisa da avaliação, a verdade é que estão sempre preocupados comigo. Ou tem a ver com o facto de eu me tornar cada vez mais fechado e triste? Que queres, não tenho alegria?! Ou será por este ano, lá em casa, ninguém fazer o presépio e tu continuares arrumado no baú da entrada? Também sabes que eu não posso fazer nada. Aquela minha casa, outrora um jardim florido, hoje está transformada num campo de batalha entre os meus pais.
Apesar de tudo isto, sabes muito bem que sempre que posso abro a arca, pego-te ao colo e falo contigo. Sabes que és o meu melhor amigo mais porreiro? Então porque nunca me respondes? Por muito menos cortei com o Outro. Sim, esse! Estamos a falar de Deus. Andei tantos anos na catequese, procurei ser sempre cumpridor das minhas obrigações para com Ele. Conforme as recomendações do senhor padre eu ia sempre à missa e até ajudava no ofertório. Fazia tudo direitinho para ser um bom menino. Quando a minha vizinha, a Dona Ermelinda, aquela velhota da porta ao lado, do 31, queria atravessar a rua eu sempre fui a correr para ajudá-la. Pois! Mas quando eu precisei Dele não me ligou nenhuma. Tanto lhe pedi que ajudasse os meus pais e os mantivesse unidos. Lá se importou Ele com os meus pedidos e que eles se tivessem divorciado há menos de meio ano! Não mexeu uma palha!
Agora, lá em casa, é a bagunça que tu sabes. Mas vais ajudar-me, não vais Menino? Vais fazer regressar a paz à minha casa, não vais? És a única esperança que me resta. Se fizeres como o Outro não sei o que farei. Eu já não aguento mais. Reparaste há dias o que aconteceu quando o meu pai, para provocar, levou lá a casa a sua nova namorada? Viste o que fez a minha mãe? Embrulharam-se as duas à pancada, veio a polícia, foi um escândalo lá na rua. Mas, vê lá, se isto dos meus pais, depois de divorciados, ficarem a morar na mesma casa faz algum sentido?! Ainda por cima com o argumento de que ambos ficavam a cuidar da minha educação, enquanto mais novo, porque os meus dois outros irmãos já se desenrascam bem.
Uma treta, amigão! Eles nunca quiseram divorciar-se e então, quando viram que o processo da papelada já era irreversível, jogaram então com a minha educação para os manter juntos de coração.
Ajuda-me a compreender estes adultos. Estiveram casados 22 anos. Sempre se amaram e deram bem, de repente, como aquele terramoto que varreu a Ásia, tudo se alterou. Tudo ficou de patas para o ar. Faço tantas vezes a pergunta: o que aconteceu para duas pessoas que mal respiravam uma sem a outra se tornarem inimigas? Se calhar fui eu o culpado. Tantas vezes penso nisso, Menino! E para mais, agora que estão desavindos, chegam a parecer que não gostam de mim. A minha mãe nunca mais me deu beijinhos quando vou para a cama e o meu pai também não, porque nunca está em casa a essa hora.
Não encontro explicação. Há dias vi um programa na televisão –sei o que vais dizer: que eu passo muitas horas na televisão e no computador, mas que queres, são a minha companhia?! –que dizia que os adultos depois dos quarenta anos, julgando-se velhos precoces, querem fazer tudo aquilo que não puderam fazer. Será isso?
Faço tanta pergunta e não tenho nenhuma resposta. Nunca houve lá em casa aquela coisa de que tanto se fala: a violência doméstica. Pelo menos até há poucos meses eu não sabia o que era isso. Agora conheço-a bem demais: veio atrasada, mas com juros. Começam por se agredir em palavras e depois vem a pancada. Mas, para o caso, tanto é um como outro, são iguais.
Mas uma coisa sei, Menino: eles amam-se e precisam tanto um do outro! Só um milagre pode evitar que se destruam mutuamente, e, como bola de pingue-pongue, me arrastem com eles.
Será que podes ajudá-los? Se o fizeres, palavra de honra, prometo-te que farei as pazes com o teu Pai.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"SE CÁ NEVASSE FAZIA-SE CÁ SKI"



A contrariar “os Salada de Frutas”, em 1981, com a inauguração, há minutos, na Praça do Comércio, prova-se que sem nevar é possível fazer ski numa pista artificial. Uma boa iniciativa da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, que visa trazer mais pessoas, quer da cidade para a Baixa, quer de zonas limítrofes a Coimbra.
Venham e tragam as crianças. A pista estará aberta todos os dias entre as 9h30 e as 23 horas, excepto aos domingos em que o horário será das 11h00 às 23h00. Isto durante todo o mês de Dezembro. Venha daí…

Aí Manuela... Manuela....

"HOMEM LOBO DO HOMEM"




O título foi furtado ao empirista Thomas Hobes (1578-1679). Lembrei-me desta designação, e da filosofia que lhe está subjacente do grande materialista inglês, ao constatar hoje, aqui na Baixa, um peditório para uma associação de apoio a ex-tóxicodependentes. Vou então contar a história:
O homem, de trinta e poucos anos, bem vestido, mas com uma aura que o tornava diferente, entrou-me pela loja adentro. Era uma daquelas pessoas que olhamos e a primeira impressão diz-nos muito sem dizer nada. O indivíduo trazia ao peito uma lata redonda, com uma pequena ranhura para introduzir moedas e notas. Trazia também ao peito um cartão identificativo da Associação “A Arca da Vida”. Embora tivesse fotografia o cartão era um pouco tosco. Na mão, um pequeno cesto de vime, com alguns laços de fita vermelha –identificativos com a sida. Junto a estes laços, imensas moedas e notas de 5 euros.
A primeira impressão que tive foi a de que estava a ser burlado: das duas uma ou o homem não representava nenhuma associação com aquela sigla ou então, pelo contrário, representava mesmo, mas havia ali marosca. E, neste caso, o fulano estava a burlar a associação que o abrigou e lhe deu apoio. E como?! É simples: os óbolos que entravam na lata redonda, que estrategicamente estava colocada atrás, iam para a “A Arca da Vida”, as pequenas dádivas colocadas no cesto de vime iam para “a vida da arca” do sujeito. Claro que ele fazia tudo para que as pessoas utilizassem o cesto.
Depois de descobrir o número de telefone da sede da “Arca da Vida”, na Maia, fiquei a saber que este peditório estava regulamentado e pertencia a uma dependência de Mira. Lá falei, telefonicamente, com o responsável que ficou de boca-aberta: “o quê? Esse sujeito anda a fazer isso? E as pessoas, não vêem que ao colocar no cesto as moedas estão a contribuir para uma fraude?! Muito obrigado, muito obrigado, vou já tratar disso, porque estou aqui em Coimbra”.

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Já depois de escrever este texto acima, fui informado de que o “lacinho vermelho” é exclusivo da Liga Portuguesa Contra a Sida (LPCS). Vai daí, hoje, liguei para a sede em Lisboa e fiquei a saber várias coisas:
A primeira é que a LPCS normalmente não faz peditórios a nível nacional. Quanto muito fá-los localizados e quase sempre em Lisboa;
A segunda informação que obtive, e esta já calculava, é que todos os que, como eu, contribuíram foram burlados. Nem esta Associação “Arca da Vida”, nem outra qualquer instituição está autorizada a “utilizar” o nome da LPCS;
A terceira informação, em forma de constatação, é que esta instituição da Maia e com ramificações em Mira, para além de poder ser acusada de fraude (perante os transeuntes anónimos) pode também ser acusada de abuso de confiança e apropriação ilícita de simbolo, visando o enriquecimento;
A quarta informação, e aqui não deixa de ser curioso, reparem na burla em cadeia: “A Arca da Vida” começa por vigarizar a LPCS utilizando os anónimos cidadãos; a seguir os membros daquela associação, para além de materialmente burlarem as pessoas de boa vontade, enganam também a empresa a que pertencem;
E por último, a título de prémio particular, talvez pelo esforço desenvolvido, o gerente da instituição de Mira, numa forma teatral e magistral, através do telefone, engana-me a mim.
Sem “pinta” de modéstia o título de “homem lobo do homem” foi mesmo feliz. É por estas e outras que cada vez mais as pessoas ficam descrentes e “frias” perante, muitas vezes, a desgraça alheia.

BOLA DE CRISTAL




A PEDIDO DE AMIGOS (E FUTUROS CLIENTES), DEPOIS DE CONSULTAR A BOLA DE CRISTAL, VOU RESPONDER A DUAS PERGUNTAS FORMULADAS:

1ª-CAVACO SILVA VAI SER REELEITO EM 2011?

2ª-EM CASO NEGATIVO, QUEM VAI SER O PRÓXIMO
PRESIDENTE?

EIS AS RESPOSTAS:

1ª-ANÍBAL CAVACO SILVA, ELEITO EM MARÇO DE 2006, COMO O 18º PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUESA, CONTRARIAMENTE AOS SEUS ANTECESSORES –QUE TODOS FORAM REELEITOS PARA O SEGUNDO MANDATO- NÃO VOLTARÁ A PRESIDENCIAR O PAÍS;

2ª-O PRÓXIMO PRESIDENTE DA REPÚBLICA SERÁ MANUEL ALEGRE. CONSEGUINDO REALIZAR UM VELHO SONHO, ESTA PROEZA SÓ FOI POSSÍVEL GRAÇAS “AO VENTO QUE PASSA”, QUE, ATÉ AQUI, EM CONLUIO, “CALOU A DESGRAÇA” EM “NOTÍCIAS DO MEU PAÍS”.
ENTÃO, “O VENTO QUE PASSA”, FARTO DE SOPRAR VENTOS CONTRÁRIOS, VENDO “MINHA PÁTRIA PREGADA NOS BRAÇOS EM CRUZ DO POVO”, REUNIFICOU A ESQUERDA EM TORNO DA SUA CANDIDATURA, E EIS ENTÃO O 19º PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUESA.

UMA CONVERSA "PÉ-DE-ORELHA"

(FOTO MIGUEL A. LOPES/LUSA)

Mário Nogueira para Manuel Carvalho da Silva, durante o XVIII Congresso Nacional do PCP: “Ó Pá!, não achas estranho este unanimismo? ...98%?! Temos de fazer qualquer coisa! Este “gajo” (Jerónimo de Sousa), a discursar, parece o Sócrates. Temos de abrir fissuras, camarada, senão, por este andar, morremos de velhice sem chegarmos a líder e nunca mais lhe tiramos o poder. Sabes muito bem, camarada, que o poder corrompe, e este “gajo”, no apego ao poder, está conspurcado pela força capitalista. Olha como ele discursa, olha a pose. Temos de fazer qualquer coisa! Tu tratas da cintura de Lisboa que eu me encarrego do centro”.